Paulo Carvalho: “Gostava de dar a volta ao País num carro movido a energia solar”

No próximo dia 31 de Maio realiza-se no Estádio Municipal de Rio Maior, Santarém, a décima edição da Grande Corrida de Carros Movidos a Energia Solar, um evento único em Portugal que visa despertar e promover o interesse dos jovens por este tipo de tecnologia, que promete vir a ser uma solução com futuro no domínio dos transportes e da mobilidade.

Participam neste evento, organizado pela VS-Solar Challenge, equipas de jovens estudantes provenientes de escolas secundárias, profissionais, institutos politécnicos e universidades de vários pontos do País, que têm respondido ao desafio de construir e desenvolver carros ecológicos movidos com recurso à energia produzida pelos seus painéis solares.

A Grande Corrida de Carros Movidos a Energia Solar contribui ainda para divulgar o interesse de instituições ligadas às questões ambientais num momento de relevante importância para o futuro do planeta perante a necessidade de encontrar respostas capazes de manter a qualidade de vida da Humanidade, ameaçada pelas alterações climáticas.

O jornal ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa com Paulo Carvalho, fundador e director da VS-Solar Challenge, com o objectivo de partilhar com os leitores mais informações sobre esta prova única em Portugal, destinada a promover a aplicação da energia solar em veículos não poluentes e mais amigos do Ambiente, em substituição dos combustíveis fósseis.

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – O que é a VS-Solar Challenge?

Paulo Carvalho (PC) – A VS-Solar Challenge é uma corrida de carros movidos a energia solar, única em Portugal, que se realiza todos os anos e que foi criada por mim.

CL – O que levou à sua criação?

PC – A sua criação resultou da necessidade de divulgar esta tecnologia junto dos alunos de escolas secundárias, profissionais, institutos politécnicos e universidades, de forma a podermos contribuir, todos juntos, para a evolução desta tecnologia, à qual eu me dedico há mais de 25 anos.

CL – Quantas equipas vão participar na corrida deste ano?

PC – Ainda é cedo para dar um número exacto das equipas que vão participar. As inscrições abriram a 1 de Fevereiro. De qualquer forma, tendo em conta os anos anteriores, deverão estar em pista entre 20 e 25 carros, provenientes de vários pontos do País.

CL – Em representação de que instituições?

PC – Todos os anos, há sempre equipas novas a participar pela primeira vez. No entanto, existem aquelas que estão sempre presentes, como, por exemplo: a Escola Profissional de Penafirme-Torres Vedras, a Escola Profissional de Felgueiras, a Escola Profissional de Trancoso, a Escola Profissional de Rio Maior, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, a Escola Secundária Luís Freitas Branco-Oeiras, a Escola Profissional de Vagos EPADRV, a Escola Profissional da Aldeia de Santa Isabel da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o Clube de Energias Renováveis de Oliveira do Bairro e os Alunos de Sintra Solar Team, entre outras.

“ESTAMOS A PREPARAR ALGUMAS SURPRESAS”

CL – Dez anos da Grande Corrida de Carros Movidos a Energia Solar. O que está previsto para assinalar este número redondo?

PC – Estamos a preparar algumas surpresas para assinalar estes 10 anos de corridas. Pretendemos fazer da prova deste ano uma edição muito especial, que seja memorável. De qualquer modo, a participação neste evento é sempre uma experiência inesquecível. O ambiente que é vivido na corrida é muito salutar, de agradável convívio, de entreajuda entre equipas e de partilha de conhecimentos entre todos.

CL – Os vencedores do evento recebem algum prémio?

PC – Todos recebem um certificado com a sua classificação, mas também temos prémios que são iguais para todos. Normalmente, são ferramentas ou instrumentos electrónicos de medição e diagnóstico, destinados às escolas, para serem usados pelos alunos.  

CL – A Corrida conta com algum tipo de apoio, parceiros? Nomeadamente de algum organismo público?

PC – A falta de apoios tem sido sempre umas das grandes dificuldades. Debatemo-nos, todos os anos, com o problema de tentar conseguir fundos para, pelo menos, cobrir as despesas. Temos conseguido continuar a realizar as corridas graças a algumas ajudas das autarquias, das escolas e de certas empresas.

Devo salientar, também, que o ‘staff’ da organização é constituído por voluntários que colaboram connosco porque se revêem neste evento, que é ambientalmente relevante e único. Fazem-no com muito empenho e dedicação.

CL – Esta corrida tem conseguido despertar consciências para as potencialidades da energia solar na locomoção de veículos? De que forma?

PC – De facto, este é mais um dos objectivos que temos conseguido concretizar. Trata-se de um evento com entrada livre e quem vem assistir à corrida tem oportunidade de ver carros que são locomovidos apenas com a energia que é produzida pelo seu módulo solar. Estes carros têm potências entre os 200W e os 400W. Para se ter uma ideia, 1Hp (1 cavalo de potência) equivale a 745,7watts. Ou seja, estes carros andam com cerca de meio cavalo de potência e conseguem transportar o piloto mais o peso do carro, além de atingirem velocidades perto dos 50 quilómetros/hora. Isto só é possível porque a eficiência é levada até ao limite. Os alunos têm de trabalhar na aerodinâmica do carro, diminuir o atrito, usar materiais leves e de boa qualidade, além de que a gestão da electrónica do carro também é muito importante.

Algumas equipas usam vários instrumentos de telemetria, sendo que os dados dos vários sensores instalados no carro são enviados em tempo real para a respectiva equipa, que está nas boxes, onde são analisados para poderem fazer melhorias e afinações, de modo a melhorar o rendimento e a eficiência.  

“A ADESÃO DAS ESCOLAS TEM SIDO MUITO POSITIVA”

CL – Qual tem sido a adesão das escolas a esta iniciativa?

PC – A adesão das escolas tem sido muito positiva, todos são unânimes em reconhecer que a participação na VS-Solar Challenge é uma experiência para a vida, que não só testará o carro, mas também desafiará as habilidades, a criatividade e a resiliência na resolução de problemas que cada equipa tem de enfrentar, ensinando os alunos a trabalhar em equipa, a enriquecer os seus conhecimentos e a crescer como indivíduos.

Há mais de nove anos que a VS-Solar Challenge se orgulha de ter recebido os alunos mais brilhantes neste repto sem limites à imaginação, desafiando-os a aplicarem os seus conhecimentos e a usarem a inovação tecnológica no sentido de construir um veículo movido apenas pela energia do Sol.

Devido à experiência adquirida ao participarem neste evento único, alguns ex-alunos que participaram na VS-Solar Challenge progrediram nos seus estudos e conseguiram encontrar emprego em algumas das principais empresas nacionais dedicadas à engenharia automóvel e ao transporte sustentável.

Também para as escolas e/ou instituições presentes, a Corrida tem funcionado como uma grande montra, uma oportunidade única para poderem mostrar alguns dos seus trabalhos na área tecnológica. Temos sempre um espaço para esse fim.

CL – Em média, quanto custa construir um carro movido a energia solar?

PC – O valor dos materiais pode variar muito, mas é possível com cerca de 700 euros adquirir tudo o que é necessário para a construção de um carro solar. Contudo, há equipas que gastam muito mais. O interessante é que o carro tem sempre a possibilidade de poder ser melhorado tendo em conta a experiência adquirida em cada corrida. Existe sempre a possibilidade de desenvolver o carro no sentido de o tornar mais rápido e eficiente.

CL – Portugal tem potencialidades para desenvolver um projecto mais ambicioso ligado a este tipo de tecnologia? Um projecto industrial, por exemplo?

PC – Sim, o nosso País é ideal, temos muitas horas de Sol, o que permite a utilização desta tecnologia. Eu próprio transformei uma pequena carrinha para funcionar a energia solar, que está homologada para poder circular na via pública. Desde 2006, é o veículo que uso nas minhas deslocações diárias. Já tem mais de 100 mil quilómetros sem produzir qualquer poluição. Esta carrinha permite-me fazer deslocações dentro do concelho de Sintra, onde moro, e nos concelhos em redor. Os seus módulos solares produzem cerca de 850W de electricidade por hora, o que permite andar durante todo o ano a custo zero e sem poluição. Apenas convém estacionar o veículo ao Sol para que as suas baterias estejam sempre carregadas. E também pode circular à noite com a energia que estiver armazenada nas baterias, tal como nos dias de chuva, já que estes módulos solares conseguem continuar a produzir electricidade, embora em muito menor quantidade.

Posso adiantar que tenho, também, um projecto para construir um carro movido a energia solar para dar a volta ao nosso País a promover a VS-Solar Challenge e a mostrar que é possível circular apenas com a energia do Sol. Quando tiver os apoios necessários, desejo avançar com este projecto.

Num País como o nosso, com muito Sol, esta tecnologia poderia ser usada em pequenos veículos eléctricos muito leves, só de dois lugares e com limitação de velocidade a 50 quilómetros/hora, suficiente para as deslocações dentro das cidades e localidades. 

CL – De que forma, os jovens estudantes podem utilizar as matérias leccionadas nas escolas ao participarem nesta Corrida?

PC – Esse é mais um dos objectivos. É possível usar, por exemplo, as fórmulas da lei de Ohm nos cálculos, quer do consumo do carro quer dos amperes que circulam nos cabos eléctricos. Também podem usar as fórmulas coeficiente de penetração, ou seja, a resistência ao ar tendo em conta a velocidade do carro, para melhorar a aerodinâmica, etc. Cabe aos professores adaptarem as matérias dadas em sala de aulas e aplicá-las de forma prática ao projecto da construção do carro.

“TODOS PODEM PARTICIPAR NA CORRIDA”

CL – Quem pode participar na VS-Solar Challenge? Só instituições, ou também grupos de jovens que se formem especialmente para participar de forma individual?

PC – Todos podem participar na Corrida, não só os estabelecimentos de ensino, mas também grupos de jovens que gostem desta temática. Todos eles podem organizar-se como equipa, construir o seu carro solar de acordo com os regulamentos (consultar http://vssolarchallenge.blogspot.com), inscrever-se e participar.

CL- As inovações utilizadas pelas equipas participantes na Corrida têm sido aproveitadas para desenvolver algum projecto empresarial, ou algum tipo de investigação? Têm ocorrido colaborações entre elementos destas equipas e empresas interessadas em promover a investigação e desenvolvimento desta tecnologia?

PC – Tem existido algum interesse, mas nada em concreto. Acho que no nosso País, quer as empresas quer os centros de investigação são muito fechados, teríamos todos a ganhar se colaborássemos mais uns com os outros. Outro problema do País é a burocracia.

CL – Como decorre a Corrida?

PC – É um dia inteiro de actividades. Entre as 10h00 e as 11h00, é feita uma inspecção aos carros pelos comissários, para ver se estão em conformidade com os regulamentos. É também nessa altura que é colocado o transponder ou identificador, que serve para o carro ser identificado pelo sistema computadorizado sempre que passa na linha de meta e, assim, ser determinado o número de voltas, o tempo por volta, classificação, etc.

As provas para definir qual será a posição do carro na grelha de partida começam às 11h00. Cada carro terá de dar três voltas à pista. É tido em conta o tempo da volta mais rápida, sendo que os carros mais rápidos ocupam os primeiros lugares da grelha. Estas provas terminam por volta das 12h45.

Segue-se um intervalo para o almoço e para o convívio das equipas. Cerca das 13h30, tem lugar a apresentação de projectos tecnológicos desenvolvidos pelas escolas.

Se não houver atrasos, a corrida principal começa às 14h00. Os carros são colocados na grelha de partida tendo em conta os tempos realizados durante a manhã. Durante uma hora e meia, os carros não param. Ganha quem conseguir dar o maior número de voltas à pista durante os 90 minutos de duração da prova.

CL – Qual o carro mais desenvolvido/inovador apresentado pelas equipas participantes ao longo das nove edições do VS-Solar Challenge já realizadas?

PC – É muito difícil responder a essa pergunta. Todos os anos, somos surpreendidos pelas inovações/soluções originais e pela imaginação e criatividade de grande parte das equipas. Muitas delas trabalham no carro durante todo o ano, até mesmo fora das horas lectivas. O entusiasmo e o empenho dos alunos são totais.  

CL – Quais os recordes já estabelecidos? Carros que efectuaram maior número de voltas?

PC – Quase todos os anos são batidos recordes. O ano passado não foi excepção. Na edição de 2024, que também se realizou na pista do estádio de Rio Maior, o carro que ganhou a corrida conseguiu dar 108 voltas à pista em 90 minutos. O recorde anterior estava nas 105 voltas. O carro vencedor da corrida do ano passado pertencia a uma equipa da Escola Profissional de Rio Maior.

VÁRIOS DESAFIOS E UM PROBLEMA ESTÉTICO

CL – A energia solar é o futuro da mobilidade? Quais as vantagens e desvantagens associadas a esta tecnologia?

PC – A aplicação da energia solar na locomoção de veículos, principalmente em veículos pequenos e leves, mais vocacionados para as pequenas deslocações diárias dentro das cidades e localidades a baixa velocidade, e em países com muito sol, tem várias vantagens, não só o aumento da autonomia, mas também o aumento da longevidade da vida útil das baterias.

Na prática, e de uma forma simplista, ao aplicar um módulo fotovoltaico no VE é como ter um pequeno gerador de energia que, apesar de pouca, está sempre a produzir durante o dia, quer quando o carro está em andamento quer quando está estacionado. Neste caso vai armazenando a energia na bateria.

A energia produzida está directamente relacionada com a área de exposição solar. Ou seja, quanto maior for o módulo solar mais energia ele gera. Com a tecnologia que temos hoje disponível conseguimos cerca de 200W por m2 por hora. O desafio desta tecnologia reside na pequena área que o veículo dispõe para a instalação de um módulo solar. Existe também o problema estético, que muitos fabricantes não querem alterar.

De qualquer forma, vai existir sempre um obstáculo, que é: nem todos os países têm tantas horas de Sol como nós e os fabricantes de automóveis têm isso em linha de conta quando os fabricam. O veículo pode ser usado num país em que na grande maioria dos dias o céu está encoberto, o que iria fazer com que a utilidade do módulo solar fosse quase nula.

CL – O volume das baterias continua a ser um problema?

PC – Quanto às baterias, tem-se verificado uma evolução constante. Cada vez temos carros eléctricos com maior autonomia, embora ainda esteja longe do ideal. Estou convencido de que no futuro teremos baterias mais leves, com maior densidade energética e com preços mais baixos.  

CL – As entidades públicas e privadas portuguesas têm apoiado e apostado na investigação e desenvolvimento desta tecnologia? 

PC – Não sei responder a essa pergunta. Que eu tenha conhecimento, não existe qualquer apoio ao desenvolvimento desta tecnologia.

CL – A energia solar é bem aproveitada em Portugal? Que outros projectos poderiam ser desenvolvidos? O que falta fazer?

PC – Sim, sem dúvida que nos últimos anos temos assistido a um crescimento de parques fotovoltaicos, o que nos tem tornado quase autossuficientes em energia eléctrica. Apesar de tudo, na minha opinião, deveria ser dada prioridade à montagem de parques fotovoltaicos nos espelhos de água das barragens em plataformas flutuantes, que têm a vantagem de evitar a evaporação da água. Ao mesmo tempo, isso permitiria também manter os módulos solares com temperaturas mais baixas, o que aumenta o seu rendimento.

CL – Para quando a internacionalização da VS-Solar Challenge? Existe a possibilidade de a Corrida poder vir a contar com a participação de equipas estrangeiras?

PC – Sim, já estamos a pensar fazer uma edição ibérica, mas ainda não sei quando iremos concretizar essa ideia. Para já, não existe qualquer impedimento para que uma equipa estrangeira possa participar na Corrida  

CL – Projectos futuros?

PC – Projectos e ideias existem muitas, mas para pessoas como eu, que gosto de criar coisas novas, ao longo da minha vida, tenho-me debatido sempre com entraves, com o excesso de burocracia e com a falta de apoios. Confesso que isso tem sido muito desmotivador. Para já, vou tentar continuar a realizar a Corrida, divulgar esta tecnologia e procurar ajudar a evoluir na aplicação da energia solar na locomoção de veículos. Estou sempre aberto a abraçar novos projectos e a colocar neles todo o meu empenho e experiência.

Autor: Luís Curado

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