Miguel Ângelo: “Natal é Sempre em Família”

“Dizem que vai chover… / Mas eu sei que irá nevar / Tudo o que tenho a perder / É o tempo que eu levar / A ser um dia… / O teu Natal”. Este é o início da letra da canção ‘O Teu Natal’. Quem assina este tema, lançado em 2013, é Miguel Ângelo, antigo vocalista dos Delfins, uma das bandas mais emblemáticas da cena pop-rock nacional, que se manteve em actividade durante 25 anos, entre 1984 e 2009. Actualmente, o cantor prossegue uma carreira a solo e integra também o projecto Resistência, que lançou recentemente o quarto álbum de estúdio, ‘Ventos e Marés’. 

Nascido e criado na vila de Cascais, este artista multifacetado tem na Escrita e na Arquitetura outras das suas paixões maiores, com passagens pelo Teatro e pela Televisão, onde participou em vários programas. Outra das suas facetas artísticas passa por ter ‘emprestado’ a voz a diversas personagens da Disney, como por exemplo nos filmes ‘Pocahontas’, ‘Hércules’, ‘O Corcunda de Notre Dame’ e ‘Pocahontas II – Viagem a Um Mundo Novo’. E ainda na série de produções ‘Toy Story’ lançada pelos estúdios Pixar.

Pai de três filhos (Máxima, de 27 anos, Martim, de 24, e Glória, com apenas três), o músico/escritor, que completou 52 anos em Abril, recorda com prazer os Natais passados e prepara-se para celebrar 35 anos de carreira artística com a promessa de voltar a surpreender. Pelo caminho tem construído um percurso sólido marcado por inúmeros êxitos e pelo gosto de experimentar novas sonoridades, como acontece com o seu mais recente EP, ‘Grotesco’, lançado recentemente.

Em relação à época festiva que atravessamos, Miguel Ângelo, por motivos familiares, costuma passar a Noite da Consoada em Cascais e o almoço do Dia de Natal no Porto. “Sempre em reunião de família”, diz, assinalando que os Natais que recorda com maior prazer são “aqueles com crianças pequenas, que felizmente continuam”. Sobre a magia da data, o cantor mantém bem presente nas memórias da sua infância “o ‘aparecimento’ de um castelo medieval com ponte levadiça, à meia-noite, num quarto dos fundos com a janela aberta e os cortinados ao vento…” 

“Por acaso gosto muito mais de dar do que receber”, confessa o antigo vocalista dos Delfins quando questionado sobre prendas. Nesta matéria, recorda um passado recheado de boas memórias, nomeadamente quando “ia de pijama ter com os presentes da noite anterior” na manhã do dia 25 de Dezembro. Em termos de ementa, a Consoada preferida do cantor inclui o imprescindível bacalhau. “Na minha infância, para os mais novos era assado e com batatas fritas”. Além disso, “uns sonhos são também indispensáveis”, garante.

Depois do tema “O Teu Natal”, lançado em 2013, Miguel Ângelo poderá, eventualmente, vir a escrever outras letras e/ou gravar outras músicas sobre o Natal. “Felizmente já começa a existir essa tradição na música portuguesa”, comenta numa altura em que tem já na forja o álbum ‘Terceiro’ de uma trilogia a solo, da qual fazem parte os já editados ‘Primeiro’ (2012) e ‘Segundo’ (2015). “’Terceiro’ é um trabalho muito ambicioso que a seu tempo será revelado. É muito provável que ainda saia alguma coisa nova antes disso, mas para já é surpresa…” 

PASSAGEM DO ANO EM VISEU 

Com uma carreira musical bem preenchida e recheada de êxitos, o ex-Delfins gosta de experimentar coisas novas. Quando questionado sobre o que gostaria de fazer na Música que ainda não fez, responde: “Ao longo de 35 anos já fiz realmente muita coisa. Talvez venha a fazer algo muito directamente ligado às novas tecnologias, que não tenha sido ainda feito.” Quanto a um eventual regresso dos Delfins, não se compromete com um ‘sim’ nem com um ‘não’. Diz, simplesmente: “Quem sabe?”

Num futuro mais imediato e com a Música sempre presente, Miguel Ângelo prepara-se para ter uma Passagem de Ano no palco em concerto na cidade de Viseu com o projecto Resistência, do qual foi um dos músicos fundadores em 1990 ao lado de outros nomes sonantes da música portuguesa provenientes de bandas com diferentes sonoridades. Para o cantor, este projecto tem um significado muito especial na sua carreira. “É uma reunião, um pouco como o Natal, o melhor de vários mundos musicais”, sublinha.

Sobre os músicos com quem gostaria de actuar e com quem ainda não colaborou, o cantor responde sem hesitações: “Felizmente os Delfins e o projecto Resistência fizeram-me trabalhar com muitos músicos que admiro. E isso enche-me as medidas.” Medidas que ficam também cheias com a Música na altura de escolher a sua paixão maior, deixando a Literatura (tem vários livros editados) e a Arquitectura (curso de formação académica) para uns honrosos segundos planos.

Numa altura em que a Música recorre a novas formas de divulgação e edição, sobretudo com o lançamento de novos trabalhos nas plataformas digitais disponíveis na internet, Miguel Ângelo não descura também as renascidas edições em vinil, que parecem estar a recuperar espaço junto de uma franja cada vez mais significativa de audiófilos. “O vinil está de volta a uma pequena escala, mas para um público especial e importante. O digital é de facto o meio de difusão por excelência, mas por acaso há bandas novas a lançar músicas novamente em cassete!”, realça.

TALVEZ A MAIS NOVA SIGA AS PISADAS DO PAI

Com uma vida essencialmente dedicada à Música, o cantor revela que não tem para já seguidores no seio familiar entusiasmados com a ideia de protagonizarem uma carreira artística nessa área. “Até agora, nenhum dos meus três filhos mostrou tendência para seguir as pisadas do pai. Enfim, talvez a mais nova…”, avalia o ex-Delfins e elemento fundador dos Resistência, que reside em Cascais, vila que o cativa profundamente. “Viver nesta região é viver perto de tudo: mar, serra, capital, Norte e Sul. Ideal”.

Entre os mais e os menos de viver em Cascais, onde nasceu a 3 de Abril de 1966, Miguel Ângelo revela que, além de estar perto de tudo, gosta da própria vila. “Gosto dos seus recantos e das suas características, que se mantêm apesar de todos os avanços do progresso. É também uma questão geográfica e urbanística.” No sentido inverso, o artista formado em Arquitectura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde terminou o curso em 1989, admite: “Gosto menos do edifício Villa, à entrada de Cascais, por exemplo”.

Quase a comemorar 35 anos de carreira artística, o que acontecerá no próximo ano, o cantor promete festejar a data com concertos e algumas surpresas, “que não poderei ainda revelar”, explica. À pergunta ‘O que gostaria de fazer e que ainda não fez na sua carreira’, responde, sem querer levantar uma ponta do véu para o que aí vem: “O que vou fazer em 2019”. Entretanto, para o ano que está quase a chegar, o ex-Delfins alimenta um desejo bem especial: “Que os anos passem cada vez mais devagar, para que se viva com tempo e prazer”. Assinamos por baixo.

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