António Muchaxo: “O legado certamente continuará” 

Um dos precursores do Turismo de Cascais, ilustre representante de uma geração de ouro que está a desaparecer, António Carlos Pedroso Muchaxo (1930-2026), que será sempre recordado como ‘o Tony do Guincho’, proprietário da icónica Estalagem Muchaxo Hotel, junto à praia do Guincho, deixou-nos recentemente, abrindo um vazio entre os muitos amigos que fez ao longo da vida.

O conhecido empresário do sector da restauração e hotelaria, que marcou profundamente o desenvolvimento do Turismo da Costa do Estoril ao longo de várias décadas, contava 96 anos, quando, no passado dia 18 de Julho, deixou de luto os apreciadores da praia mais internacional de Cascais, cujas imagens captadas por muitos ilustres visitantes do seu estabelecimento têm corrido o Mundo.

De reis e príncipes a estrelas do Cinema e da Música, passando por chefes de Estado, embaixadores, artistas plásticos de nomeada, escritores famosos e tantas outras personalidades de relevo, Tony Muchaxo coleccionou encontros marcantes com todos eles, memórias que guardava religiosamente testemunhadas em fotografias expostas nas montras do Restaurante Muchaxo.

Ainda a viver o luto de ter perdido o pai, o amigo e o conselheiro de toda uma vida, cabe agora a António Manuel Muchaxo assumir a responsabilidade de comandar os destinos dos empreendimentos lançados pelo progenitor, também ele herdeiro de uma tradição familiar iniciada pelo seu pai, António Miguel Muchaxo, quando abriu na praia do Guincho ‘A Barraca do Muchaxo’, em 1945.

O jornal ‘O Correio da Linha’ entrevistou o novo timoneiro de um dos empreendimentos mais icónicos de Cascais. Conversámos sobre o passado, o presente e o futuro, revisitámos memórias, episódios especiais, falámos de planos futuros e, claro está, trocámos ideias sobre um tema incontornável que está no sangue de várias gerações desta família de empreendedores: o Turismo.

Foto: Jorge Rodrigues

“RECORDO-ME DE IR COM O MEU PAI AO VIVEIRO APANHAR LAGOSTAS”

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – Qual é a memória mais marcante que tem do seu pai?

António Muchaxo (AM) – Os momentos que vivemos juntos à caça no Alentejo, fora da azáfama do dia-a-dia.

CL – Como gostava que o seu pai fosse recordado?

AM – Como a pessoa que era, extremamente comunicativa e generosa, sempre aberto a conviver e a comunicar.

CL – Que conselhos lhe deu a propósito do Muchaxo?

AM – Não foi a propósito do Muchaxo, mas em geral. Disse-me muito seriamente: cada um de nós tem de tratar o melhor possível de si próprio. Mais ninguém restará para tomar conta de nós. Tem de ser cada um a fazê-lo por si próprio.

CL – Guarda, certamente, muitas memórias vividas no restaurante. Pode partilhar connosco duas ou três mais marcantes?

AM – Recordo-me de ir várias vezes com o meu pai ao viveiro apanhar lagostas para servir aos clientes. E, também, das visitas à lota e ao mercado de Cascais.

Lembro-me de várias pessoas que costumam frequentar o restaurante em família, por onde têm passado ao longo de vários anos. Muitos mesmo ao longo de gerações.

Ocorreram muitas situações especiais com individualidades que o meu pai acompanhou de perto. Esta actividade era muito querida para ele.

Foto: Jorge Rodrigues

CL – O seu pai partilhou consigo alguma história mais curiosa sobre os primeiros tempos do Muchaxo, ainda da época do seu avô?

AM – Sim, partilhou, de como, mesmo nas condições mais adversas, no decorrer da Segunda Guerra Mundial, o meu avô e o meu pai continuaram sempre a deslocar-se para o Guincho e a abrir o restaurante utilizando um pequeno reboque a gasogénio. O restaurante abriu todos os dias e serviu muita gente que ali se deslocava, utilizando, na altura, uma estrada de terra batida. O meu pai contava que havia várias pessoas importantes que visitavam o restaurante, até mesmo alguns espiões, na altura da guerra.

CL – De todos os clientes que passaram pelo Restaurante Muchaxo, quais foram as personalidades que mais marcaram o seu pai?

AM – O General Ramalho Eanes e a sua esposa foram sempre uma referência, e amigos dos meus pais. Mencionava, também, várias vezes, o anterior rei de Espanha, Juan Carlos I, com quem convivia na praia do Tamariz, no Estoril.

CL – O seu pai tinha algum sonho/projecto por realizar que não lhe tenha sido possível concretizar em vida, e que tenha passado para si?

AM – Tinha alguns. Não os quero revelar neste momento. Oportunamente, fará sentido partilhar, logo que se tornem realidade.

Foto: Jorge Rodrigues

“VEJO O FUTURO DO MUCHAXO COM BONS OLHOS”

CL – Como vê o futuro do Muchaxo?

AM – Com bons olhos. Apesar dos momentos conturbados que vivemos neste momento a nível mundial, o Muchaxo será sempre o local onde, com naturalidade, a mente poderá ter algum descanso e conseguir focar-se novamente, e com clareza, no futuro. Penso que é um pouco isso que é diferente. Desde inúmeros estudantes, que passam por aqui, às pessoas que descansam a ouvir o mar, ao acordar ou a fazer uma caminhada na praia, a almoçar junto ao mar e a arrumar as ideias.

CL – Qual é a sua primeira memória da praia do Guincho?

AM – É ir de carro ao fim-de-semana, de manhã, com o meu avô, que me apanhava em casa e levava molhos de flores da loja do Estoril para decorar o restaurante e a estalagem. Recordo-me claramente cada vez que vislumbrava a praia e a estalagem.

CL – Tem saudades da praia do Guincho da sua infância? A praia está diferente?

AM – As pessoas eram diferentes, mas a praia, mais coisa menos coisa, é a mesma. Ano após ano, a Natureza trata de colocar a praia mais ou menos igual. Nos últimos anos, registou-se uma situação que, sinceramente, não me recordo de ter ocorrido no passado. O rio que desaguava junto às pedras, no meio da praia, passou a desviar-se das dunas para sul, em vez de para norte, como sempre me lembro de ter acontecido.

Os desportos que se praticam também são diferentes. Já não há a quantidade de praticantes de funboard que havia há uns 30 anos atrás. O próprio body-board também parece ter menos praticantes, em detrimento do kitesurf e das variantes de surf que vão surgindo.

CL – O seu pai é considerado um precursor do Turismo em Cascais. É uma herança pesada?

AM – Sim e não. Tenho muito, muito orgulho no que o meu pai representa para o Turismo em Cascais, mas tenho perfeita consciência que eu não sou o meu pai. Pais e filhos nunca são iguais. Têm formas e maneiras diferentes de fazer as coisas, apesar dos genes que funcionam do mesmo modo e das ideias fundamentais que são passadas naquilo que não se diz, mas que se vê e sente.

CL – Como pensa prosseguir o legado do seu pai?

AM – Continuando a trabalhar no sentido de melhorar a experiência de quem por cá passa. Não é uma missão fácil, porque a diplomacia e o ‘savoir-faire’ do meu pai são insubstituíveis. De qualquer forma, a vida continua. Como ele dizia: “no dia em que fechar os olhos haverá clientes para servir e há que seguir em frente”.

CL – O Muchaxo vai continuar a ser o que sempre foi, ou tem novos planos para implementar no estabelecimento? Se sim, quais?

AM – Tenho algumas ideias para melhorar aspectos práticos das operações. Gostaria de combinar o Turismo de Negócios com o Turismo de Férias, fazendo com que, mesmo em trabalho, as pessoas possam desfrutar do melhor que a vida pode oferecer. A inspiração pode vir ao de cima nestas circunstâncias. Haverá também novos tipos de serviços associados. Espero que algumas novidades positivas possam surgir em breve.

CL- O Turismo em Cascais está bem e recomenda-se? Ou nem por isso?

AM – O Turismo em Cascais está a sofrer um pouco por se ter perdido um pouco da identidade da vila. A típica vila piscatória deixou de o ser. Geograficamente e nas fotografias é igual, mas no fundo é muito diferente de há uns 30 anos atrás. Todos sabem que isso é um facto. O Turismo acaba por se perder se se perder a identidade. Há que conservar o que resta, ou criar uma nova identidade. Penso que fazer as duas coisas simultaneamente é difícil, mas não é impossível.

Foto: Jorge Rodrigues

“HÁ QUE MANTER UM EQUILÍBRIO SAUDÁVEL”

CL- Entre os surfistas, os banhistas e os clientes do Muchaxo, é fácil manter o equilíbrio?

AM – Há que manter um equilíbrio saudável. Isto é uma espécie de ecossistema. Todos cá vivemos e todos temos focos diferentes, mas o importante, no fim do dia, é que todos tenhamos uma saudável convivência. Talvez haja alguns ‘Ovos de Colombo’ que ajudem a melhorar alguns aspectos e há que estar atento a isso.

CL – Na sua opinião, há alguma coisa que gostasse de ver diferente na praia do Guincho? O que falta fazer?

AM – Na minha opinião, na praia não é preciso fazer nada. As infraestruturas existentes são suficientes para poder desfrutar dela mantendo a sua vertente natural.

Há talvez uma coisa que poderia ser melhorada, mas teria de ser muito bem pensada, que é: haver pontos com bicas de água e casas-de-banho públicas na estrada do Guincho. Isto pode parecer simples, mas não será seguramente fácil manter esses espaços em boas condições ao longo do tempo, devido à erosão e utilização pública.

CL – O Muchaxo tem sido um projecto que se tem mantido na família, que tem passado de geração em geração. Esta tendência é para manter? Gostaria de passar este legado aos seus filhos?

AM – A resposta é sim. O meu pai deixou-me sempre seguir o que entendi ser o melhor caminho na vida e tomar as minhas opções. Ao contrário de opiniões de outras pessoas, segui o que sentia ser o melhor para mim. Estudei Engenharia Electrotécnica e Electrónica e tive sempre o apoio dos meus pais. No entanto, ao mesmo tempo, limitei-me ao sentir sempre a vontade de me manter perto dele, e queria estar “à mão” no caso dele precisar de ajuda. Quero manter todas as opções abertas aos meus filhos. Cada um tem apenas uma vida e deve fazer o que mais gosta. O legado certamente continuará. Como? Logo se verá.

CL – Quais são os pratos mais procurados pelos clientes do Muchaxo?

AM – Tipicamente o Arroz de Marisco e o Tamboril à Muchaxo.

CL – O seu pai costumava dizer que o único partido a que pertencia era o do Turismo. Também é o seu partido?

AM – De certa forma, sim. É um partido do equilíbrio e do abrir as portas a todas as opiniões. Todos somos humanos e todos gostamos de desfrutar do que é genuíno e agradável.

Foto: Jorge Rodrigues

Autor: Luís Curado

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