Lívio de Morais: “Os governos não valorizam os artistas”

A sala cheira a tintas, a materiais usados para limpar pincéis, e também a vernizes destinados a realçar pormenores das esculturas, algumas realizadas em madeira. Das telas, saltam grupos de mulheres africanas, com rostos duros, sofridos, sem sorrisos, que sussurram entre si vivências difíceis da sua labuta diária, figuras pintadas com cores quentes, “tropicais”, sublinha o artista. 

Há quadros, muitos, emoldurados “com vidros de exposição”, encostados ao longo das paredes. Guardam olhares que saltam das telas, que gritam, desinquietam, despertam consciências para vidas tantas vezes invisíveis. A um canto, vislumbramos imagens de máscaras sagradas, que nos trazem à memória ritos de passagem, realizados entre o nascimento e a morte.

Entrar no mundo criativo de Lívio de Morais é mergulhar nas memórias coleccionadas numa África profunda que está sempre presente nas suas obras. Pintou-as ao longo de toda a vida, grande parte dela passada em Portugal, onde tem assumido a importância e responsabilidade de ser um digno embaixador da cultura moçambicana.

Natural de Maganja da Costa, província da Zambézia, na região central de Moçambique, onde nasceu em 1945, Lívio de Morais chegou a Lisboa em 1971 disposto a iniciar uma jornada que o levou a estudar na Faculdade de Belas-Artes, no Chiado, perto da sede da PIDE, a temida Polícia Internacional e de Defesa do Estado. Viveu de perto o entusiasmo libertado em 25 de Abril de 1974.

Foi na Casa da Cultura de Mira-Sintra, a que o artista deu o seu nome a convite da Câmara Municipal de Sintra, numa homenagem realizada em 2015, que o jornal ‘O Correio da Linha’ cruzou uma animada conversa em torno de um percurso de vida que já soma oito décadas, sete das quais dominadas por uma veia criativa que não tem parado de transbordar emoções.

Foto: Paulo Rodrigues

“ÁFRICA TEM MUITO PARA DAR AO MUNDO”

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – Aos 80 anos, o que ainda falta fazer em prol da promoção e divulgação da Arte Africana em Portugal e no Mundo?

Lívio de Morais (LM) – Falta começar em colectivo. Eu acho que os meus 80 anos deviam ser 20. Assim, teria mais tempo. Considero que estou enriquecido para saber o que falta fazer. É por isso mesmo que estou a terminar um livro sobre os museus de África, para completar o livro ‘Arte Africana dos Museus de Etnologia’, que editei há dois anos com o apoio do Alto Comissariado para as Migrações. Este livro mostra que África não tem só riqueza de recursos naturais, tem também Cultura, homens de Cultura, e tem História. África tem muito para dar ao Mundo e o Mundo tem muito a recorrer a África. Como tal, nós, africanos, temos obrigação de ser investigadores e continuar a escrever e reescrever a História de África, na Arte, Cultura, Literatura, Música, Arquitectura, Dança, Filosofia. E também num sentido humanitário.

CL – Existe uma arte tipicamente moçambicana, com identidade própria?

LM – Existe, sim. Quando as pessoas estão circunscritas a um país não conhecem outra arte. Uma pessoa que está em Moçambique pode nunca ter ouvido falar de Picasso, Modigliani, Van Gogh e outros… A Arte é como uma escrita, uma representação do mundo em que vivemos, do que está à nossa volta. Em África, esse mundo, com falta de quase tudo, é muito rico em representação da Arte, a forma como as pessoas se exprimem, os recursos que têm à sua volta, até indo aos caixotes de lixo. 

CL – Sente-se um embaixador da Cultura do seu país de origem? 

LM – Sim, com alguma vaidade e responsabilidade, na medida em que já estou em Portugal há 54 anos. Já viajei por vários países da Europa, nomeadamente Espanha, França, Itália, Noruega, Suécia, Estónia, visitei museus… sinto que, de facto, sou representante da cultura moçambicana. Costumo ir a esses países fazer exposições. 

CL – Quando e como decidiu enveredar por um percurso enquanto artista?

LM – Houve uma pessoa que provocou em mim a vontade de enveredar por este caminho. Foi uma irmã religiosa, chamada Irmã Inês, que, vendo que eu tinha alguma facilidade em desenhar, pedia-me para ilustrar a lição no quadro durante o intervalo do recreio da Escola Primária. Não existiam outros meios para ajudar a explicar as matérias aos alunos. Por isso, fui uma espécie de ilustrador no Ensino Primário. 

CL – Onde é que estudava na altura?

LM – Em Maganja da Costa, no centro de Moçambique. Foi aí que eu me fui sentindo artista. Tinha 15 minutos para ilustrar a lição que ia ser dada. Isso aconteceu logo na minha infância. Depois, aos 12 anos, fui para o Seminário Diocesano Marista para ser sacerdote. Acabei por não ser, mandaram-me embora porque éramos muitos seminaristas. Fizeram-nos uma prova de Latim, eu tive a nota de 12, que não chegou para continuar. Os que tiveram nota de 12 para baixo foram todos mandados embora. 

CL – Quando veio para Portugal estudar, em 1971, manteve-se ligado aos Irmãos Maristas?

LM – Sim. Quando vim estudar para Portugal, cheguei a ser professor no Colégio Marista de Carcavelos. Sai na altura do 25 de Abril de 1974. Nessa fase, ingressei mais na vida política, a Faculdade de Belas-Artes, no Chiado, era vizinha da PIDE. Eu tinha quase 29 anos e achei que não tinha sentido estar na vida religiosa. 

CL – Acabou por não regressar a Moçambique e permanecer em Portugal…

LM – É verdade, acabei por não voltar para Moçambique. Casei cá, em Portugal, e continuei a dar aulas e a fazer aqui a minha vida.

Foto: Paulo Rodrigues

“O 25 DE ABRIL NÃO METIA MEDO A NINGUÉM”

CL – Como é que viveu a revolução do 25 de Abril de 1974?

LM – Ouvi dizer que tinha acontecido algo importante em Lisboa. Eu estava em Carcavelos e apanhei logo o comboio para o Cais do Sodré. Quando cheguei a Lisboa, deparei-me com aquele aparato todo. Fui para a Faculdade de Belas-Artes. Havia muita gente nas ruas e ouvi tiros ali perto. Contudo, o 25 de Abril não metia medo a ninguém. As pessoas sentiam-se encorajadas para uma mudança. Eu vivi isso, não tínhamos medo.   

As universidades fecharam. Eu fiquei por cá, não tinha meios, não tinha nada, não tinha casa, estava na vida religiosa. Acabei por entrar na vida política integrado na Associação de Estudantes Universitários. Nessa altura, fiquei com a ideia de que a vida podia mudar, que Moçambique podia ser independente. Nós, os colegas, da Guiné, Cabo Verde, Angola e outros, comunicávamos muito e aquilo começou a animar. 

CL – Quais foram os temas das suas primeiras obras? 

LM – Normalmente, eu pinto grupos, famílias, a mulher africana. O regime africano é matriarcal, e em Moçambique ainda mais, porque a mãe é que educa, alimenta, trabalha, vai à fonte, tem muita influência. Uma criança mama dessa mãe e da irmã dela, da tia. A criança desenvolve-se no seio da família, no meio matriarcal.

CL – Portanto, essas mulheres foram bastante influentes, estão muito presentes nas suas obras. Pinta rostos de mulheres fortes, mas sofridos, com olhares duros…

LM – Ainda hoje, isso acontece. Quando estou a pintar, ou a realizar as minhas esculturas, lembro-me dessas mulheres, sim. Sem dúvida. Tento exprimir os seus sentimentos, vivências, a dureza das suas vidas, através dos seus rostos. Não há nenhum rosto a sorrir. Essa dureza expressa nos olhares está sempre presente. São mulheres que pensam no duro passado que tiveram.

CL – Para além disso, o que mais define as suas obras?

LM – O artista não pode ser aquele que imita e que copia, tem de ser aquele que vive uma realidade, daí a importância da ‘Guernica’, de Picasso. Ele estava a transpor para a tela uma realidade, a guerra civil espanhola. Na minha arte, eu procuro, cada vez mais, deixar uma mensagem de mudança e desenvolvimento. 

Uma vez, pintei um quadro durante uma palestra em que estava presente a embaixadora moçambicana. Eu peguei nas tintas e lancei-as para a tela todo furioso e a embaixadora percebeu que eu estava a pintar revoltado com as coisas que estavam a acontecer em Moçambique. É extremamente importante que o artista consiga pôr na tela, ou no livro, uma realidade factual, indiscutível. E não fazer coisas bonitas por serem bonitas, ou com cores bonitas. 

CL – O que é uma obra de Arte? O que a define enquanto tal? Tem de ter determinadas características, transmitir uma mensagem, influenciar sensibilidades, ou estar para além de tudo isso, numa manifestação de total liberdade, desafiar regras e impor-se pela irreverência?

LM – Perfeitamente. O que é a Arte no sentido verdadeiro? A Arte não é preciso ser academicamente adquirida, imposta ou copiada, tem de ser expressão de uma vivência, angustiante até. Pode ser também uma manifestação de alegria, ou de uma preocupação que serve de grito, como ‘O Grito’, de Edvard Munch. A Arte tem de ser autêntica, tem de ser verdadeira, honesta. Pode não ser transparente, porque nem sempre o artista sabe o que está a fazer. O artista pode estar a pintar uma coisa que só mais tarde vai perceber porque é que pintou. E os outros vão perceber porque é que foi pintado. Por vezes, o próprio artista pode ficar gago ao tentar explicar o que criou.

Foto: Paulo Rodrigues

“O QUADRO ‘GUERNICA’ ESTÁ CADA VEZ MAIS ACTUAL”

CL – A Arte é um recurso, uma escapatória ou uma opção que nos conquista os sentidos?

LM – É uma opção que nos conquista os sentidos. E que tenta contagiar o público e o tempo, o futuro, essa circunstância, essa situação… tentar preocupar. A Arte não pode envelhecer, não pode deixar de ter o seu significado, dizer-se que “está desadequada, que já não serve para nada”. 

Por exemplo, a própria ‘Guernica’ está cada vez mais actual. Neste início de 2026, a ‘Guernica’ está a ser perfeitamente acabada de pintar, actual, se nós pensarmos no que está a acontecer no Mundo. Agora, é o momento de nós, artistas, nos pronunciarmos através da Arte.

CL – Assumir a coragem que muitos políticos ainda não conseguem ter…

LM – Exactamente, não andar a pintar flores. É preciso assumir um certo grau de loucura e coragem de contrariar, de inquietar. Se uma pessoa nasceu com um ‘chip’, ou está a desenvolver um ‘chip’ que é negativo, é muito difícil neutralizar esse ‘chip’. 

CL – Quem mais o influenciou na sua vida artística? Que artista mais admira, que seja uma referência para si?

LM – É de notar que tenha sido Picasso. Acho-o interessante. Ele influenciou-me, como também se deixou influenciar pela Arte Africana. O próprio Picasso foi muito sincero ao dizer: “Eu percebi a Arte quando percebi a Arte Africana”. Foi quando ele deixou o Naturalismo para seguir o Cubismo, em que não era preciso pintar a perfeição. A Fotografia tem essa função. O traço podia ser mais expressionista. É o que se passa comigo, utilizo as cores, cores tropicais, as cores têm de falar, ajudar a falar. Para mim, a Arte tem de provocar calor. Eu utilizo a linha grossa, que é para elevar um pouco a voz. E não preciso de representar pormenores, ou o todo. 

Foto: Paulo Rodrigues

CL – O que lhe dá maior prazer: a Pintura, a Escultura, a Fotografia ou os Livros?

LM – Essa é uma pergunta difícil, porque fico fascinado cada vez que estou com uma dessas áreas, às vezes quase perdido. 

CL – Chegou a realizar trabalhos fotográficos de cariótipo para investigação médica, na área da Genética. É um tipo muito particular de Fotografia. Como é que isso aconteceu?

LM – Eu estava na Faculdade de Belas-Artes e tinha falta de dinheiro. Na altura, uma colega convidou-me para ir para o hospital de Santa Maria trabalhar com uma médica em Genética para fazer fotografia de cariótipos. Aceitei, ia lá buscar as placas de sangue para fotografar. Vinham doentes com crianças e havia necessidade de apurar se elas estavam com problemas genéticos. Dediquei-me a essa área durante quase dois anos.

CL – A Inteligência Artificial (IA) pode ser mais uma ferramenta posta à disposição dos artistas para desenvolverem a sua criatividade, ou é mais uma ameaça?

LM – Eu tenho quadros em que utilizei a Inteligência Artificial, também em esculturas, que abrem os olhos e fazem gestos. Não vejo a IA como uma ameaça, considero que é uma boa ferramenta para ver outra maneira de representar o que está fixo. É uma variante. 

CL – As figuras retratadas nos seus quadros parecem estar a comunicar connosco… 

LM – Uma vez, uma colega que me comprou um quadro disse: “Lívio, ao olhar para o teu quadro, eu oiço as vozes das mulheres a conversar”. Eu agradeci o comentário, porque significa que eu pintei realmente aquilo que senti, e que já tem som, já se ouve. Como acontece com algumas esculturas que fiz, quando olho para elas dá impressão de estar a ouvir a pessoa. O artista tem de procurar incrementar a vida na obra. Isso é difícil. Parece tão simples pintar, fazer uma obra de arte, escrever um texto, mas o autor tem de prender a pessoa de modo a sentir o que foi escrito, o que foi pintado, o que foi esculpido. 

Foto: Paulo Rodrigues

HOMENAGEM EM VIDA

CL – Como surgiu a ideia de, em 2015, dar o seu nome à Casa da Cultura de Mira-Sintra? 

LM – Foi uma surpresa, eu não estava à espera. Fui informado pelo sr. vereador Eduardo Quinta Nova, que me perguntou o que eu ia fazer no dia do meu 70.º aniversário. Respondi que pretendia almoçar com a minha mulher, mas fui convencido a não fazer planos para esse dia. Acabei por receber um convite a dizer que a Casa da Cultura de Mira-Sintra ia ter o meu nome.

CL – O que sentiu quando recebeu esse convite?

LM – Fiquei muito preocupado. Pensei: “Se estão a dar o meu nome a uma Casa da Cultura é porque alguma coisa vai acontecer, queres ver que eu vou partir”. Uma homenagem feita ainda em vida… Mas a verdade é que já passaram dez anos e eu ainda estou vivo. Também senti uma grande responsabilidade. Senti que era um embaixador da cultura moçambicana, que Portugal pode sentir orgulho de ter essa coragem de dar o nome de um africano a esta Casa da Cultura.  

CL – Fernando Pessoa é uma figura recorrente na sua obra artística. Porquê?

LM – Identifico-me muito com ele. Eu sou coralista no Mosteiro dos Jerónimos, onde está o túmulo de Fernando Pessoa. Já fiz uma exposição de pintura junto ao túmulo do poeta, nos claustros. E fiz também uma exposição de homenagem no Fórum Picoas, na Galeria do Coleccionador (CTT), por ocasião da Expo’98, por sugestão de Moçambique. Tive de fazer muita pesquisa para poder recolher informação e reunir documentos sobre Fernando Pessoa, que viveu em pequenino, durante a juventude, em Durban, na África do Sul. Por isso, eu considero-o também africano. Comprei livros e livros sobre Fernando Pessoa e escrevi também um livro sobre ele, ‘Homenagem a Fernando Pessoa – Arte e Literatura’ (1998).

Foto: Paulo Rodrigues

CL – Considera-se um investigador da Arte Africana?

LM – Eu considero-me investigador e sou historiador. Quando terminei a minha carreira de professor no Ensino (aposentei-me em 2002), matriculei-me na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em História de África, e fiz um mestrado. Sou investigador de Arte Africana e investigador de África. Eu tenho uma responsabilidade. Se não formos nós, africanos, a falar, a explicar e a investigar África, quem será? 

CL – O que procurava transmitir aos seus alunos, enquanto professor de História de Arte?

LM – Procurava que eles fossem como eu, que tivessem a paixão de pintar e desenhar, de fazer. Eu chegava a dizer-lhes: “Sabem como é que eu aprendi a pintar na faculdade? O professor Lagoa Henriques, que foi meu professor de Desenho, pedia para entregarmos 40 desenhos em cada aula sua. Era trabalho de casa. E tínhamos muitas coisas para fazer nas outras disciplinas: História de Arte, Geometria Descritiva e outras. Mas em todas as aulas dele – todos os dias tínhamos Desenho, desenho do modelo nu, um homem ou uma mulher, desenhávamos durante três horas -, tínhamos de apresentar uma pasta cheia com 40 desenhos em formato A3. Todos os dias. Assim é que se aprende, tem de se treinar muito. Eu sempre tentei estimular os meus alunos, mas não dizia para fazerem Arte Africana, nunca, respeitava as suas tendências. Dizia-lhes sempre que não podiam passar um dia sem experimentarem alguma coisa. Quem vai para Escultura ou Pintura, tem de ser assim.

CL – Em Junho de 1997, participou num congresso mundial na UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Paris, para a reformulação dos Estatutos da Condição do Artista. Para si, quais são as principais vertentes da condição de artista?

LM – A ideia que se tem do artista é que é uma pessoa que não tem nada que fazer. É como se fosse um inútil. Os próprios governos pensam assim. Nesse Congresso é que eu percebi melhor o que era um artista, seja bailarino, músico, cineasta, escritor, pintor, escultor… Artista é aquele que faz uma obra que não se come, e que parece que não tem valor. E quando a quer vender, as pessoas acham muito caro. Então, esse ser que é artista está numa condição sem segurança social, sem direito à saúde, sem direito a vencimento, alguém que tem de fazer alguma coisa para poder sobreviver. 

Nós estivemos no congresso na UNESCO durante 15 dias. Éramos 1500 participantes, entre ministros da Cultura, presidentes da República, escritores, jornalistas e outros. Tínhamos de dizer qual era o problema de um artista. Ora o problema de um artista é estar abandonado. Chegámos à conclusão de que o Orçamento Geral do Estado devia disponibilizar 1% para apoiar os artistas. 

Durante o congresso, todos os países queixaram-se do mesmo, americanos, gregos, franceses, ingleses, todos… Na cabeça dos governantes, a ideia da cultura é que não serve para nada. Por exemplo, quando convidam um artista para tocar, cantar, ou fazer uma palestra, não pensam que têm de pagar. Têm de pagar sim, porque ele está a actuar com o seu saber. É o seu ganha-pão. Já me aconteceu ser convidado para falar e nem sequer ter direito a uma garrafa de água.

Foto: Paulo Rodrigues

“CAMINHO LONGO PARA PERCORRER”

CL – Os artistas não são devidamente reconhecidos?

LM – Não são reconhecidos. Há um caminho muito longo para percorrer. O governo em Portugal ainda não reconhece o valor do artista, mas é assim em todo o Mundo, não reconhecem o valor da Cultura. 

CL – Apesar do sucesso alcançado, confessa que o seu maior sonho é ser reconhecido no seu próprio país. Como é que está esse processo?

LM – Esse processo ainda se mantém. Recentemente, estive com o Presidente da República de Moçambique no Porto, num congresso. Ao falar como representante do Centro Cultural Luso Moçambicano, referi que nós, que estamos na diáspora, vivemos de quem nos acolhe. O meu país descarta os seus cidadãos. Não nos reconhecem a nível político, nem nos reconhecem a nível artístico. Sabem que Portugal, através do município de Sintra, deu o meu nome a uma casa da cultura, não foi a uma rua, nem a uma sala, foi a uma casa da cultura. E eles não são capazes de fazer o mesmo na região onde eu nasci, ou na capital, ou qualquer outra iniciativa, adquirirem peças minhas para apoiarem, para expor em edifícios públicos em Moçambique. Portanto, não somos reconhecidos. 

Em Portugal, os aviões da TAP têm nomes em homenagem a várias personalidades. Moçambique, se não tem aviões, punha os nomes nos autocarros, numa esquina ou numa rua. Podiam chamar-nos para fazer uma exposição lá. Isso é que é reconhecer. 

Quer dizer, nós não somos vistos, mas quando chega o momento de votar, nós votamos aqui para eles ficarem no poder lá. E nós vivemos do quê? Vivemos da Segurança Social portuguesa, hospital português, descontamos aqui, beneficiamos, mas o país descartou, não reconhece, está mal.

CL – Tem alguma obra, pintura ou escultura, com a qual já tenha sonhado, mas ainda não concretizou? 

LM – Sim, eu queria fazer uma escultura minha, uma autoescultura, para ser exposta na zona onde nasci, em Maganja da Costa. É que se eu não fizer, ninguém faz. 

CL – Tem visitado à sua terra-natal?

LM – Sim, de dois em dois anos. Eu sou o 13.º e último filho dos meus pais. Os outros já morreram todos. Tenho lá sobrinhos. Também costumo visitar as campas dos meus familiares. Passeio pelas ruas, recordo o passado. Sempre a pensar que pode ser a última visita, que nós nunca sabemos… O ser humano vive muito das lembranças. 

CL – A Arte é uma máscara usada pelo artista, ou as máscaras podem ser elas mesmas obras de Arte?

LM – Elas mesmas podem ser obras de arte. Às vezes, eu escondo-me por detrás da máscara. A máscara pode ser um refúgio do artista. As máscaras são uma indumentária ritual e a expressão mais espiritual. No norte de Moçambique, existem as mulheres macuas que pintam todos os dias o rosto de branco com uma papa feita a partir da raiz de uma planta chamada mussiro. As macuas escondem a cara como as mulheres árabes que usam hijab. Escondem a sua beleza durante o dia, para não ser vista, apreciada, mas à noite lavam a cara para os seus maridos. Enquanto no Ocidente as mulheres pintam os lábios e pintam o rosto para realçarem a sua beleza e serem desejadas e admiradas, nessa região de Moçambique é o contrário, neste caso recorrendo à tinta para não encadear a sensibilidade masculina. Trata-se de uma máscara viva. No fundo, todos nós andamos mascarados, porque ninguém gosta de mostrar o que está a acontecer dentro de si. Costumo utilizar muito as máscaras nos meus quadros. 

Foto: Paulo Rodrigues

CL – Recentemente, defendeu a devolução das obras de arte africanas pilhadas durante a colonização, que se encontram expostas pelo Mundo, apenas quando os museus africanos tiverem condições para as manter. Quando é que acha que isso poderá ser possível?  

LM – Quando os governos compreenderem. Como os governos são formados por partidos políticos e os políticos não têm uma formação e compreensão do que é a Cultura e a Arte, há certos países que não estão preparados. É por isso que estou a escrever um livro sobre os museus de África toda. 

Foi-me relatada uma situação difícil de compreender que aconteceu durante a visita de um presidente a um país africano. Não é uma invenção. Numa cerimónia realizada num museu de Etnologia, o ministro da cultura local pegou numa peça do museu para oferecer ao presidente visitante, que recusou a oferta por se tratar de uma obra de arte que pertencia ao povo daquele país. 

Isto significa que o governante não estava a perceber o que estava a fazer. Estava a oferecer um património que era da comunidade por causa de uma visita. Isso acontece, tal como há certos países que têm museus sem condições para receberem peças em exposição, em termos de temperatura, segurança, proximidade, etc.. 

Mas também ocorrem situações criticáveis na Europa, já foram encontradas máscaras rituais guardadas em prateleiras, sendo que algumas delas nem deviam ser vistas, ou tocadas, por mulheres, tendo em conta a tradição. Um desrespeito pelo artefacto em si. São utensílios sagrados, não é para serem vulgarizados, nem para colocar na prateleira, nem para estampar em camisolas. Neste caso, falta o respeito pela obra, pois não é compreendido o seu significado, há toda uma simbologia que deve ser respeitada. 

CL – Existem obras de Arte trazidas para Portugal que gostasse de ver devolvidas a Moçambique? 

LM – Eu estive no museu de Etnologia, no Porto. Tudo o que está lá devia ir embora. Há caixas com obras de Arte que ainda não estão abertas, estão guardadas no acervo do museu. Ainda não houve coragem para abrir essas caixas. Numa outra situação, foi-me dito que chegaram a ser encontradas no lixo obras de Arte africanas. São actos cometidos por pessoas que não compreendem o valor dessas obras.  

CL – A Arte Africana está bem representada no Mundo? 

LM – Sim, está bem representada nos museus, mesmo com algumas ignorâncias, como aquela que referi. 

CL – Como vê o futuro do seu país?

LM – É preciso levar uma grande volta. É preciso mudar a ideia de que, no sistema presidencialista, o presidente é um Deus, é o chefe-supremo das Forças Armadas, o presidente do partido e tudo o mais. Enquanto isso for assim, é muito difícil mudar. O presidente de Moçambique aparece como se fosse o presidente norte-americano, todo importante. Não será fácil mudar estes hábitos, encarar a realidade. Aqui, em Portugal, embora seja criticado, o Presidente da República anda na rua como uma pessoa normal, junto das pessoas. 

No seguimento do drama ocorrido após as eleições presidenciais moçambicanas, eu, sendo do partido do poder, FRELIMO, anulei a pertença ao partido por revolta contra as matanças e crimes que se cometeram. Está difícil a paz chegar a Moçambique. Eu choquei muito, admiraram-se, porque eu sou representante da comunidade moçambicana em Portugal e rejeitei o partido a que pertencia. Fiquei livre, sem partido, sem medo nenhum, sem problema nenhum. Eu sou contra a guerra, contra a agressão.

Nos 50 anos de Independência Nacional em Moçambique, deveríamos celebrar a alegria, mas estivemos a assistir a mortes por uma questão de poder. Cheguei a dar entrevistas como membro do Conselho de Opinião da RTP, em que critiquei o que aconteceu. Ao mesmo tempo, expliquei o porquê: o sistema presidencial moçambicano é um sistema errado, na medida em que a Constituição diz que o Presidente da República é o presidente do partido no poder. Ao ser assim, acaba por não ser Presidente de todos os moçambicanos e mantém-se a tendência de o partido se agarrar ao poder através do seu presidente.

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Autor: Luís Curado

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