TIO comemora três décadas de Teatro em Oeiras

O Teatro Independente de Oeiras (TIO) foi criado por Carlos d’Almeida Ribeiro em 5 de Abril de 1990. Até hoje, a companhia tem mantido uma actividade regular de espectáculos, que nos últimos anos se tem intensificado em número de peças representadas. A forma como surgiu e como tem evoluído o TIO foram os temas da conversa que “O Correio da Linha” teve com o responsável pelo grupo, natural de Lisboa, mas a viver em Oeiras desde tenra idade.

Correio da Linha – Como é que o Teatro apareceu na sua vida?

Carlos d’Almeida Ribeiro (CAR) – Eu fiz o meu percurso escolar no antigo Liceu de Oeiras, hoje Escola Sebastião e Silva, onde na época existia um Grupo de Teatro. Como eu era um pouco “palhaço” na forma de me comportar, fui convidado a experimentar o Teatro. Esta experiência beneficiou com o ensino do professor Vítor Gonçalves, com quem aprendi muito e quando este professor se foi embora fiquei eu a dirigir o Grupo de Teatro.

Foto de Paulo Rodrigues

CL – E o TIO como aparece?

CAR – Uma das iniciativas que tive enquanto estive à frente do Grupo de Teatro foi convidar os responsáveis da Câmara de Oeiras a assistir à representação das peças e no dia em que tive que anunciar a minha saída, pois terminava o 12.º ano, estava a assistir ao espectáculo o presidente da Câmara, Isaltino Morais, que ao dar-me um abraço me disse que queria falar comigo. Nessa conversa, realizada no seu gabinete, desafiou-me a apresentar um projecto para a constituição de uma companhia de teatro em Oeiras e assim nasceu o TIO.

CL – Foi fácil arrancar com o projecto?

CAR – Há sempre dificuldades a ultrapassar, mas não correu mal. Nós começámos a trabalhar nos “Carecas”, onde hoje é um supermercado, e depois passámos para o antigo Cineteatro de Oeiras, onde estivemos 10 anos, tendo saído quando começaram as obras de recuperação. Quando voltámos só nos foram disponibilizados dois meses por ano para espectáculos, voltando a fazer os ensaios nos “Carecas”. Conseguimos que nos fossem atribuídos quatro meses, mas isso continuava a ser pouco. Foi então que o presidente Isaltino Morais propôs a cedência do actual espaço no Edifício Parque Oceano, na rua Dr. José Joaquim de Almeida, em Santo Amaro de Oeiras, que teve projecto do arquitecto Gonçalo Pestana e abriu ao público em 2007. O ponto alto, em termos de produções, começou em 2016, passando de três peças por ano a sete ou oito, chegando a ter três peças em simultâneo no final do ano.

Foto de Paulo Rodrigues

CL – Como é gerir uma Companhia de Teatro?

CAR – Temos que ver a gestão da companhia como um negócio. Eu nunca fui muito apologista dos subsídios, eles são bons por um lado, mas por outro podem levar à acomodação, ao facilitismo, é claro que são uma boa ajuda, mas não dão para tudo e como ganhamos à bilheteira não podemos estar sentamos num sofá à espera que chegue o subsídio, é preciso conseguir meios para muitas outras despesas, como o pagamento aos profissionais que fazem o espectáculo e algumas vezes tem sido necessário recorrer a empréstimos.

CL – Isso significa recorrer aos bancos?

CAR – Não. Além desta actividade, eu tenho uma empresa de “catering” (Fora de Casa), à qual temos recorrido quando é necessário. Temos um elenco residente de sete actores, mas por vezes precisamos de mais. Nesses casos fazemos “castings” e contratamos mais actores, alguns já trabalham connosco habitualmente. Além dos actores, há as pessoas que, não aparecendo perante o público, são parte importante do espectáculo, assegurando a iluminação, o som ou os cenários. É preciso garantir o pagamento a todas as pessoas.

Foto de Paulo Rodrigues

CL – Neste momento têm três peças em cena. Como é que definem por quanto tempo estão em cena?

CAR – É uma questão de planeamento. Já aconteceu chegarmos ao fim da temporada e uma peça sair de cena com as sessões esgotadas. Nesses casos podemos fazer uma nova temporada, como é o caso do ‘H2M1’, que vai ser reposto em Janeiro de 2020.

CL – Quando está a fazer uma peça, a personagem que tem que encarnar influencia a sua vida real?

CAR – Há colegas meus que dizem que passam a viver com a personagem, eu não entendo isso, porque quando saio do palco a personagem fica lá. Faço diversos papéis em simultâneo, em três histórias diferentes. O que faço é emprestar o meu corpo a cada uma das personagens, em função das suas características. É claro que nem sempre no Teatro a interpretação é igual, no cinema é que se repetem as cenas até tudo ficar como se pretende. Tive um mestre, Adolfo Gutkin, que me disse que não podemos separar o nosso eu da personagem e por isso o nosso estado de espírito vai influenciar a interpretação.

Foto de Paulo Rodrigues

CL – Há alguma personagem que mais o tenha marcado?

CAR – Há diversas situações marcantes. Por exemplo, ao ter que fazer cinco personagens na mesma peça, foi um grande desafio, o ‘H2M1’ teve muito de mim por colar muito com a realidade e pelo tempo em que esteve em cena. Recordo uma personagem que também teve muita importância, que foi o “Zé do Caroço Rei de Tremoço”, que era um vendedor de tremoços. Bem, são já 67 produções, algumas delas tinham que deixar marcas…

CL – Que projectos tem para o futuro?

CAR – Neste momento temos uma programação que está no limite, face às condições da sala, que não permite ter cenários pesados, mas vamos para o ano abrir, como já referi, mais uma temporada do ‘H2M1’, vamos ter depois uma comédia musical para adultos, “Os Impagáveis”, e vamos acolher um espectáculo de Pedro Cardoso, um actor brasileiro que é um verdadeiro íman para o público brasileiro. Nós, como casa de comédia, abrimos as portas ao que de bom se pode oferecer ao público. Depois teremos mais três espectáculos no final do ano. Estou ainda a ponderar comemorar os 30 anos do TIO com “o Gatos”, de Henrique Santana, que marcou muito esta companhia.

CL – Se pudesse voltar atrás, mudava a sua vida?

CAR – Acho que ia fazer tudo igual porque não sabia fazer de outra maneira, e esta parece que até correu bem. Tudo tem que ver com a entrega, dedicação e empenho, é uma questão de amor. Lembro que nós éramos amadores, porque não vivíamos disto, mas o sucesso do TIO é devido a que enquanto amadores trabalhávamos como profissionais. Hoje vivemos disto, mas o empenho é o mesmo, por isso eu faria o mesmo, talvez com a diferença de tentar ganhar dinheiro mais cedo porque o sacrifício é muito.

Foto de Paulo Rodrigues

PEÇAS EM CENA

“N`Ó É?”, de Sandra José, é uma peça para todas as idades, cuja acção decorre no mundo do “N ́ ó é?” num dia de festa. Juntam-se as trombas dos elefantes com as asas dos passarinhos, as ondas do Danúbio com as marés vivas do Mar Vermelho. As cigarras cantam, os grilos agitam-se. Os pirilampos e os peixes palhaço montam a tenda e rodam as estações do ano num dia só. O dilúvio está a caminho, n’ó é? é! Esta peça conta com interpretações dos actores Mara Guerreiro e Henrique Bispo, sendo que a encenação é também de Sandra José. Em cena todos os domingos às 11h00, até 15 de Dezembro.

“Os Putos Contra-atacam”, de Pedro Almeida Ribeiro, para maiores de seis anos, situa-se num mundo (talvez o nosso), onde dois vilões controlam todas as crianças e todos os jovens do planeta. A partir do Super Computador Controlador Mundial de Miúdos e Miúdas e através de todo o tipo de écrans enviam mensagens subliminares que obrigam a consumir açúcar sob todas as formas provocando obesidade extrema. Três irmãos resistem para salvar o mundo. Encenada por Carlos Almeida Ribeiro, esta peça tem interpretações de Pedro A.
Rodrigues, Inês Lira, Teresa Almeida Ribeiro, João Carvalho, Beatriz Roquette, e conta com o apoio de Solange Brás, Guilherme Nogueira, Margarida Marques e Sara Ferraz. Em cena até 15 de Dezembro, aos sábados e domingos, às 15h30. Para escolas, durante a semana, por marcação.

“O Melhor do Millôr” é uma peça para maiores de 14 anos, que decorre durante um sarau humorístico, em que são apresentados textos curtos e pensamentos de Millôr Fernandes, que priorizam o humor ágil e perspicaz, a sátira e a ironia, num texto ácido e inteligente. Com encenação de Eduardo Wotzik, conta no elenco com Henri Pagnoncelli, Carolina Puntel e Ricardo Schöpke. Em cena às sextas-feiras e sábados, às 21h30, até 30 de Novembro.

Autor: Alexandre Gonçalves

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