Defensores da causa animal continuam a enfrentar grandes dificuldades

Assinalou-se a 4 de Outubro mais um Dia Mundial do Animal. “O grau de civilização de determinada sociedade pode ser medido pela forma como trata os seus animais”, defendeu Mahatma Gandhi (1869-1948), activista da não-violência e líder do movimento de independência da Índia. Este princípio, tantas vezes descurado, continua a suscitar preocupações, sobretudo junto dos defensores da causa animal. O número de animais maltratados e abandonados à sua sorte assume ainda uma dimensão incompreensível, apesar da existência de meios tecnológicos capazes de rastrear a sua proveniência. As sociedades ditas modernas continuam a falhar na forma como tratam os seus animais. 

A celebração do Dia Mundial do Animal não deve ser apenas um lavar de consciências esquecidas ao longo dos restantes dias do ano. Há que alterar mentalidades, punir de forma exemplar acções criminosas e salvaguardar devidamente os direitos dos animais, frequentemente esquecidos e violados. Um animal não deve ser visto como uma ‘coisa descartável’. Uma integração adequada por parte de quem os recebe e/ou adquire, uma alimentação equilibrada e saudável, um acompanhamento médico preventivo e uma intervenção pró-activa por parte das autoridades podem fazer grandes diferenças no bem-estar nos nossos companheiros de jornada.

Na área geográfica coberta pelo jornal Correio da Linha (Amadora, Cascais, Oeiras e Sintra) foram realizadas várias iniciativas para assinalar o Dia Mundial do Animal. No Município de Oeiras decorreu a Festa Animal, com a finalidade de dar a conhecer os direitos dos animais e promover a adopção. A edilidade está também a apostar numa política de esterilização e de sensibilização para o não abandono de animais de companhia. Em Sintra, a autarquia, em parceria com outras entidades, lançou um programa para apoiar pessoas e famílias carenciadas com animais de estimação ao seu cuidado, por forma a evitar o abandono. 

Estes são apenas alguns exemplos do muito que pode ser feito e que é urgente fazer, se pretendemos construir uma sociedade mais equilibrada e mais justa, que sabe respeitar os seus animais, defender os seus direitos e promover o seu bem-estar. O nosso jornal contactou associações que têm vindo a desenvolver um importante papel no combate a essa triste realidade que é o abandono de animais. De todas elas recebemos a mesma mensagem: é preciso e urgente fazer mais, muito mais, para que esta nossa sociedade mereça ser reconhecida com o estatuto de desenvolvida.

“É PRECISO VONTADE E RESPONSABILIDADE PARA ADOPTAR”

Sedeada em São Pedro de Sintra, a Associação de Protecção aos Cães Abandonados (APCA) foi criada em 1958 tendo recebido o estatuto de Utilidade Pública em 1994. Actualmente conta com uns 300 sócios e acolhe cerca de 80 cães nas suas instalações, onde trabalham voluntários de várias faixas etárias e nacionalidades. “O apoio que mais necessitamos é financeiro, pois com tesouraria disponível é mais simples e eficaz o êxito da nossa missão, mas é claro que todos os apoios são importantes, seja no voluntariado ou na divulgação do nosso trabalho”, assinala a direcção, composta por Sofia Gonçalves, Susana Correia e Nuno Agostinho.

Com 120 cães acolhidos em 2017, a APCA conseguiu nesse mesmo ano assegurar 112 adopções, o que representa uma taxa assinalável de sucesso. O que é preciso para adoptar um animal recolhido por esta associação? “Primeiro que tudo é preciso vontade e responsabilidade, adoptar um animal é uma decisão que tem de ser tomada de forma responsável. É importante, antes, realizar uma acção de introspecção… Que tipo de condições tenho para receber um animal? Tenho capacidade financeira? Tenho disponibilidade para o passear? Quantas horas vai estar sozinho?”, explica a direcção. 

“Somos contra adopções por impulso. Isto acontece bastante na época do Natal, em que se encara um ser vivo como uma ‘prenda’. Ora para nós, e um dos nossos slogans é ‘adopte um cão e ganhe um amigo’, um amigo não se compra, conquista-se e estima-se. E as amizades não se estimam com animais acorrentados ou presos numa varanda”, precisam, assinalando que convém sempre conhecer o animal antes de tomar a decisão. “Passear com o seu futuro melhor amigo é uma das formas mais práticas de criar um laço e compreender o comportamento do seu amigo”, defendem.

Os animais acolhidos e reabilitados pela APCA com vista à adopção são todos vacinados, esterilizados, desparasitados (interna e externamente) e microchipados. “Além disso, fazemos um esforço para acompanhar a vida do canídeo. Na maior parte das vezes são os próprios tutores que tomam a iniciativa de enviar informações sobre o estado do seu melhor amigo. Fazemos igualmente vários passeios durante o ano em que temos todo o gosto de receber a visita dos cães que foram adoptados”, revela a direcção da instituição sedeada em São Pedro de Sintra.

Como a maioria das associações ligadas a esta causa, também a APCA enfrenta dificuldades. “A nossa maior dificuldade actualmente deriva das condições físicas do canil, que está localizado num terreno bastante inclinado e a precisar de obras de requalificação. Neste momento, o nosso maior desejo e projecto é adquirir um terreno. Já dispomos de uma verba para esse efeito e para realizar as obras necessárias para fazer a mudança gradual da população. No entanto, não é fácil adquirir um terreno com os requisitos necessários. Além da dimensão (nunca inferior a 5.000 m2), o terreno deve ser plano, afastado de casas e onde seja viável construir. Igualmente desejável seria ter meios próprios de água (furo ou poço), boas vias de acesso e dispor de electricidade e esgotos”.

Quem o desejar pode ajudar a APCA de várias formas. “Tornando-se sócio, apadrinhando um cão, oferecendo o seu tempo, seja participando das diversas campanhas de recolha de bens e, no bazar ou no próprio canil, ajudando nas limpezas, manutenção, distribuindo mimos aos nossos amigos patudos ou passeando com eles.”

Apesar de todo o esforço colocado pelos voluntários da causa animal, a situação dos animais abandonados tem vindo a agravar-se. “De acordo com os dados actuais, e contrariamente ao expectável, o número de animais abandonados aumentou no último ano. Além de crime, esta situação demonstra a falta de investimento em campanhas de sensibilização, formação e educação. Os municípios devem ser mais pró-activos nesta questão. A situação de animais abandonados quando não atendida em tempo útil torna-se um verdadeiro problema de segurança e saúde pública, pois os animais tendem a adoptar o seu comportamento instintivo, reunindo-se em matilhas e, naturalmente, procriando entre eles.” 

Na opinião da direcção da APCA, “os gabinetes médico veterinários municipais devem ser mais interventivos na sociedade, não só a recolher animais errantes, mas também a promover campanhas de esterilização a preços mais acessíveis ou mesmo a custo zero, sensibilizar a população para o problema, dar a conhecer a sua missão e importância. Relembramos que entrou em vigor a lei nº 27/2016 que proíbe o abate de animais como medida de controlo de população, portanto será expectável a sua aplicação também nos Centros de Recolha Oficiais (CRO) que ainda praticavam o abate. Caso não tenham sido tomadas medidas para fazer face a este acréscimo de população, teremos outro problema entre mãos, que é a incapacidade de recolha devido à sobrelotação dos CROs”, avisam.

“UM ANIMAL NÃO É UM OBJECTO QUE SE USA HOJE E AMANHÃ SE DISPENSA”

No concelho de Cascais, a Associação São Francisco de Assis (SFA) é outra das instituições ligadas à causa animal que tem procurado contrariar os resultados negativos das estatísticas. O projecto que levou à criação da SFA-Cascais nasceu em 1997, quando a Câmara Municipal de Cascais, a então Junta de Turismo da Costa do Estoril e as Juntas de Freguesia do concelho uniram esforços para criar uma entidade de direito privado com o objetivo de proteger os animais de companhia abandonados ou perdidos no concelho de Cascais. A associação conta com 177 sócios. 

João Salgado, vice-presidente da Direcção, refere que as instalações da SFA-Cascais, construídas em 2001 na localidade do Zambujeiro (freguesia de Alcabideche), têm capacidade para albergar 120 canídeos e 60 felídeos. “Nestes anos de actividade, já resgatámos mais de 6.850 animais (números de 31 de Agosto de 2018), que colocámos em adopção e cuja taxa de sucesso é superior a 90 por cento, o que revela bem da capacidade de promoção da adopção responsável”, revela assinalando: “Todos os animais que são entregues ao nosso cuidado ou por nós resgatados são observados pelo nosso Corpo Clínico, sujeitos a um período de quarentena, tratados e, depois de estarem fisicamente aptos, esterilizados, vacinados, chipados e colocados no sistema de adopção, através de uma ampla divulgação”.

Actualmente, a SFA-Cascais tem cerca de 530 animais ao cuidado do Centro de Protecção Animal de Cascais, sendo que dispõe de uma Clínica Veterinária que conta com uma equipa clínica composta por um diretor clínico, três médicas veterinárias, uma enfermeira veterinária e um assistente de consultório. Para avançar com um processo de adopção junto desta associação, os candidatos devem ter, “antes de mais, vontade e consciência de que estão reunidas todas as condições para receber um animal em casa. Um animal não é um objecto que se usa hoje e amanhã se dispensa. Um animal é, nos termos daquilo que a ciência já provou, um ser senciente que tem necessidades de carinho, afectos, atenção, dedicação e, que pela sua natureza específica, exige cuidados específicos. É por estas razões que afirmamos, sem disfarçar o orgulho, que a taxa de sucesso das nossas adopções tem um percentual na ordem dos 85 por cento”.

A adopção de um animal nesta associação “pressupõe que o mesmo é entregue desparasitado, vacinado, chipado e esterilizado. Ou, quando a idade ainda não o permite, que poderá regressar para essa intervenção. Tudo isto gratuito. De igual modo, e nos primeiros seis meses, toda a assistência médico-veterinária é gratuita. Após este período, e se o adoptante assim o entender, pode continuar a beneficiar da assistência médico-veterinária efectuada pela nossa equipa clínica e nas nossas instalações, com preços altamente competitivos face à prática do sector, razão pela qual a SFA-Cascais apenas presta este serviço a animais aqui adoptados e aqui residentes ou de famílias carenciadas, devidamente identificadas e sinalizadas pela Rede de Acção Social do Município e que, comprovadamente, não disponham de capacidade financeira para garantir a saúde dos seus animais de companhia.”

As dificuldades com que a SFA-Cascais se debate “acabam por ser logísticas. Mesmo considerando os enormes esforços de investimento que a Câmara Municipal de Cascais tem vindo a fazer para nos dotar com todos os meios necessários ao desenvolvimento da nossa actividade, a verdade é que a nossa missão é uma missão que nunca estará terminada na medida em que, enquanto houver um animal na rua, abandonado, errante ou vítima de maus tratos, será necessário responder assertivamente no sentido de o acolher e cuidar. Ou seja, e tal como já referido, não obstante os apoios recebidos e o aumento da capacidade instalada para receber e cuidar dos animais, esta nunca será suficiente, enquanto não houver uma verdadeira revolução de mentalidades que leve a sociedade a olhar para os animais de companhia com o respeito que eles merecem.”

Também João Salgado considera que “ainda há um longo caminho a percorrer no sentido da sensibilização das pessoas para que os animais sejam olhados com o respeito que merecem enquanto seres vivos dotados da capacidade de sentir e, consequentemente, sofrer com os comportamentos incorrectos de que são vítimas”. “A aprovação avulsa de medidas legislativas, sem preparação a montante de infraestruturas que permitam à administração local cumprir e fazer cumprir a lei, não está a ajudar. Com efeito, o facto de ser a Administração Central que vem (e bem) dizer, legislando, que está vedado o abate indiscriminado de animais tem vindo a contribuir para um sentimento demasiado generalizado de que é o Estado (neste caso as autarquias) que tem que resolver os problemas todos. E quando não resolve – porque não pode, ou porque não deve – ainda há quem opte por abandonar com o sentimento de que alguém vai resolver o problema, porque tem obrigação”, assinala o vice-presidente da Direcção da SFA-Cascais.

“O ABANDONO É CADA VEZ MAIS GRITANTE”

A Associação dos Amigos dos Animais da Amadora (AMIAMA) tem as suas instalações localizadas no Alto das Cabaças, no concelho da Amadora. Esta associação criada em 1998 tem cerca de 80 sócios e capacidade para acolher 60 animais. “Para poder ser sócio da nossa associação tem que amar a causa animal”, começa por dizer Mariana Pais. A directora da instituição refere que “a AMIAMA dispõe das ajudas de voluntários, poucos, infelizmente cada vez menos. A Câmara Municipal da Amadora disponibilizou o espaço, pagando a electricidade e a água que se consome. As nossas maiores necessidades são: medicamentos, detergentes, latas de patés para gatinhos e cães e rações de bago pequeno, uma vez que temos muitos animais idosos.”

A equipa que trabalha nesta associação “é pequena mas muito coesa, em termos gerais temos dez pessoas”, precisa a responsável, revelando que a instituição tem actualmente à sua guarda 72 animais. Tal como as restantes, também a AMIAMA promove a adopção para minimizar o problema do abandono. “Para adoptar um animal a pessoa tem que responder a um inquérito e tem que vir várias vezes visitar-nos para se verificar se existe empatia do animal com a pessoa. O animal tem que sair obrigatoriamente chipado e vacinado. A pessoa interessada em adoptar compromete-se também a autorizar a nossa visita à sua residência para se verificar se o animal se encontra em perfeitas condições”, explica Mariana Pais.

“O acompanhamento dos animais adoptados é bem assegurado, quer em termos de saúde ou outros que venham a ser necessários. Os animais quando são adoptados se forem adultos já vão castrados e esterilizados, se forem adoptados em bebés têm obrigatoriamente que regressar à associação para que esta trate da esterilização, que é gratuita”, precisa a directora da AMIAMA.

As maiores dificuldades que a associação enfrenta estão em “conseguir voluntários e funcionários à altura, além do constante abandono com que temos que nos debater e por vezes dizer ‘Não’ à entrada dos animais, mas o espaço não é elástico. Também financeiramente é complicado, pois vivemos de muito esforço de voluntariado, que trabalha gratuitamente e por vezes com muito sacrifício. Também temos o problema de quando necessitamos de internamento termos que pagar como qualquer cidadão que tenha somente um animal”.
A AMIAMA tem registado a incidência do mesmo fenómeno que é identificado pelas restantes associações e que tanto tem preocupado os defensores da causa animal. 

“Infelizmente, o abandono é cada vez mais gritante. Todos os dias deparamos com pessoas com desculpas, por vezes estranhas, a quererem entregar o seu animal. Em outras situações abrem a porta do carro e atiram-nos como se fossem lixo. Infelizmente, a causa animal ainda precisa muito de ser limada e que a população seja sensível a escutar quem a quer ajudar”, lamenta a directora da associação. Um lamento extensível a todos os defensores da causa animal.

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