“Visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima superou as expectativas”

A Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima visitou a Paróquia de S. José do Algueirão – Mem Martins – Mercês entre os dias 12 de Outubro e 1 de Novembro, tendo fixado residência temporária na Igreja Paroquial do Algueirão. Para assinalar esta visita da imagem da Virgem Maria foram organizados vários eventos religiosos e encontros com os fiéis, nomeadamente procissões, celebrações eucarísticas, missas ao ar livre e visitas a lares e escolas nos três núcleos da paróquia. 

Manuel Oliveira Marques da Silva, pároco de Algueirão-Mem Martins, foi quem acompanhou mais de perto esta passagem da Imagem Peregrina pela paróquia. Um motivo de orgulho que ficou expresso nas suas palavras: “Queremos dar as boas-vindas a Nossa Senhora e a todos vós que vieram honrar, com a vossa presença, a chegada da Virgem Maria, que vem visitar-nos”, referiu durante a cerimónia de recepção organizada na única paróquia do Patriarcado de Lisboa onde estão presentes os sacerdotes da Congregação Pobres Servos da Divina Providência, fundada por São João Calábria.

O jornal ‘O Correio da Linha’ procurou saber qual o balanço que o sacerdote anfitrião faz desta visita marcante da Mãe de Jesus à comunidade católica da paróquia que dirige, e que terminou com uma missa presidida pelo Cardeal Patricarca D. Manuel Clemente celebrada no pavilhão desportivo da Escola Ferreira de Castro, em Oressa, Mem Martins. Aproveitámos ainda a oportunidade para abordar alguns temas da actualidade e ficar a conhecer melhor alguns aspectos sociais e religiosos ligados a esta paróquia da Vigararia de Sintra.   

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL)– O que significou para si e para a paróquia esta visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima?

Padre Manuel Marques da Silva (MMS)– A vinda da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima à Paróquia foi uma grande graça que recebemos. Senti, pessoalmente, como mais um sinal carinhoso da Mãe do Céu para comigo, visto que sempre a tive muito presente ao longo da minha vida sacerdotal. Digo isto, porque a sua vinda à paróquia não aconteceu directamente a meu pedido. Ela mesmo se ofereceu a vir, através de uma pessoa que me propôs esta possibilidade, lendo eu como um sinal d´Ela em desejar visitar-nos. Esta foi também uma oportunidade para avivar a devoção da Paróquia à Mãe de Jesus e nossa Mãe. Mas não só, porque Maria onde quer que vá leva sempre o seu Filho Jesus, interpretando eu como um chamamento ao colocar-nos em escuta de Jesus e da sua Palavra, como fez nas Bodas de Canaã: “Fazei tudo aquilo que Ele vos disser” (Jo.2,5).

CL – Quais as iniciativas que foram organizadas para assinalar este evento?

MMS – As iniciativas foram muitas desde o dia da Sua chegada. A paróquia é formada por três núcleos: Algueirão, Mem Martins e Mercês, tendo a Imagem ficado uma semana em cada um dos núcleos. Organizámos um programa diário, para que as pessoas pudessem estar em oração, manhã, tarde e noite. Os horários foram sempre ocupados com celebrações eucarísticas, récita do terço, adorações eucarísticas e celebrações penitenciais, tendo estado os sacerdotes sempre disponíveis para a confissão. À noite, aconteceram horas de oração para os diversos grupos institucionais da paróquia. Tivemos também um programa de visitas com a Imagem aos lares, aos bombeiros, à PSP e à Junta de Freguesia. Fizemos algumas procissões e durante o dia saíamos com a imagem pelas ruas, para que visitasse toda a paróquia.

CL – Foi a primeira vez que a imagem visitou a Igreja Paroquial do Algueirão?

MMS– Não foi a primeira vez, mas sim a segunda. Ela visitou a Paróquia precisamente há 15 anos, porém, nessa altura esteve apenas uma semana, tendo estado, desta vez, 20 dias.

“O POVO PORTUGUÊS TEM GRANDE DEVOÇÃO MARIANA”

CL – Qual foi a adesão dos paroquianos à presença da imagem na igreja? Registou um maior afluxo ao templo?

MMS – O povo português é um povo com grande devoção mariana. Isto não só por causa de Fátima, mas, como reza a História, desde a fundação da nacionalidade, Maria foi sempre invocada para interceder nos momentos mais difíceis da nossa História e Ela deu muitos sinais da sua ajuda a favor do povo português. Acho que não foi por acaso que Ela escolheu Portugal para enviar ao Mundo a grande mensagem de Fátima, que nestes 100 anos marcou a História da Humanidade.

Constatei, nestes dias, como esta devoção mariana está impregnada no povo da paróquia, na maneira como acolheu com grande fervor e entusiasmo a visita de Nossa Senhora, tendo ido muito além das expectativas. Vimos isto no dia da sua chegada, depois, na participação nas Missas, nas procissões, nas visitas dos fiéis à Igreja onde Ela estava. Muitos se aproximaram do sacramento da reconciliação. Nas horas em que a Igreja estava aberta, tivemos sempre gente presente que passava para rezar e visitar Nossa Senhora. Tive a impressão de ter o Santuário de Fátima na Paróquia.

CL – Quais as próximas iniciativas/eventos que estão a ser organizados na paróquia? O que está a ser preparado para celebrar a Quadra Natalícia que se aproxima?

MMS – A experiência destes dias com Nossa Senhora foi trabalhosa e intensa, mas valeu a pena! Mexeu com a Paróquia, deixando-a mais rica e mais viva. Agora, voltamos ao programa pastoral e litúrgico do período que se segue. Vamos preparar-nos para celebrar o Advento, procurando viver o sentido litúrgico do tempo através da vigilância, da espera e da conversão. Assim, prepararemos mais conscientes o nascimento de Jesus, o Natal. Para celebrar o Advento iremos fazer uma proposta às famílias para viver este tempo com a oração em família, ao redor da coroa do Advento, que é o símbolo característico deste tempo e convidar as famílias para a construção do Presépio.

CL – Quais as maiores dificuldades que a paróquia enfrenta? Quais as principais necessidades dos paroquianos? Com que apoios conta a paróquia para responder a essas necessidades?

MMS– Mais que dificuldades, direi que são desafios. Somos uma paróquia muito numerosa em população, integrada na maior freguesia da Europa. O grande desafio que sinto é: Como poder chegar a todos e como evangelizar este vasto mundo de população, tão diverso e de tantas e diferentes culturas? Como levar a mensagem do Evangelho a todos?  Como aproximá-los mais da Igreja? Apesar de uma população numerosa, a participação na vida da Igreja é muito baixa. Sinto ser esta uma terra de Missão. Precisamos sair, como diz o Papa Francisco, para ir ao encontro das periferias. É um povo religioso, mas pouco praticante. 

Outro desafio é a diversidade da população devido às suas origens culturais. Temos muitos imigrantes, especialmente africanos, latino-americanos, e um percentual asiático. As diferenças culturais não ajudam a integração e sentimos dificuldade em fazer comunidade, embora muitos deles procurem a igreja, mas só participam nas celebrações. Temos dificuldade em fazer com que se envolvam noutras actividades da paróquia. 

Outro desafio está na dificuldade em dar respostas a tantas situações de vulnerabilidade social em que vivem muitas famílias. Destas, a maioria é de imigrantes. Não menos preocupante são os muitos idosos que vivem na solidão e as situações de emergência que pedem resposta imediata. A paróquia tem um Centro Social que é a expressão da sua caridade, fazendo um bom serviço social para dar resposta às muitas necessidades. É o lugar onde tantos buscam refúgio! Como apoio, temos um bom movimento de leigos voluntários, empenhados e comprometidos que colaboram nos vários sectores pastorais e sociais. São a mais-valia da paróquia.

“É PRECISO DAR MAIS RESPOSTAS SOCIAIS A QUEM NOS BATE À PORTA”

CL – Se pudesse, se lhe fosse atribuída essa possibilidade, o que gostaria de fazer na sua paróquia?

MMS– Do ponto de vista Pastoral, sinto que temos de fazer uma grande missão evangelizadora, aproximando o povo de Deus da Igreja, tornando-o mais praticante. Do ponto de vista social, é preciso dar mais respostas sociais a quem nos bate à porta. Uma das urgências sociais é a realidade em que vivem muitos idosos, a qual sinto como uma emergência social.

CL – Diz-se que os jovens vivem actualmente mais afastados da Igreja. Concorda com esta opinião? Se sim, quais as razões para isso acontecer e o que pode/deve ser feito para inverter a situação?

MMS– Um dos grandes desafios pastorais de hoje para a Igreja é como dialogar e entrar no mundo da Juventude, fazendo com que se interessem pelos valores religiosos e cristãos, mantendo uma relação com Jesus Cristo. É verdade que uma grande percentagem dos jovens vive à margem da Igreja, mas, felizmente, existem ainda muitos jovens dentro da Igreja. Constato isso aqui na minha paróquia, onde temos três bons grupos de jovens, dinâmicos e activos. Temos, também, um bom e dinâmico agrupamento de escuteiros e outros jovens que participam na catequese. É verdade que temos muito trabalho a fazer neste mundo da Juventude, temos de encontrar caminhos e ser ousados em propostas que os atraiam, despertem interesse e os envolvam, sentindo-se protagonistas. A Igreja está muito atenta aos jovens e o sínodo sobre os jovens do ano passado foi um exemplo de como a Igreja está aberta e procura dialogar com o mundo da Juventude. Temos grandes expectativas para as “Jornadas Mundiais da Juventude”, que acontecerão em Lisboa em 2022, esperando que seja uma ocasião para “abanar” com a juventude de Portugal.

CL – Qual a sua opinião sobre o pontificado do Papa Francisco? Do seu ponto de vista, quais os aspectos que considera mais relevantes?

MMS– O Papa Francisco é o Papa que Deus enviou à Igreja, para este tempo. Ele, com a sua maneira de ser e o seu carisma, está a mostrar ao Mundo um rosto de Igreja a que não estávamos habituados. Ele mostra, com simplicidade e coerência, a forma de vida evangélica em que Jesus viveu e propôs ao Mundo. O Papa Francisco, em certo sentido, encarna o jeito de Cristo e do seu Evangelho no Mundo de hoje. Por isso, ele fala mais ao Mundo pelos gestos e atitudes do que pelas palavras, é isto que faz com que ele seja admirado por muitos daqueles que estão fora da Igreja e até os de outras religiões. Ele é uma autoridade moral no Mundo de hoje. Aquilo que considero mais relevante do seu magistério é a sua coragem e ousadia no jeito de anunciar Jesus Cristo ao Mundo.

PERFIL NA PRIMEIRA PESSOA 

Tenho 66 anos, sou português, nascido no concelho de Albergaria-a-Velha, numa pequena aldeia, chamada Valmaior, numa família de seis irmãos. Aos 15 anos, deixei Portugal e emigrei para o Brasil, onde fui viver e trabalhar com uns tios que já lá estavam há vários anos. Depois de alguns anos de trabalho, aos 21 anos senti o chamamento de Deus para a vida religiosa e sacerdotal. Ali conheci a Congregação à qual pertenço, dos Pobres Servos da Divina Providência, de origem Italiana, fundada por São João Calábria, em Verona, Itália. 

Fui cativado pelo carisma de total confiança na Divina Providência e pelo serviço gratuito que faziam junto dos mais pobres. Ingressei nesta Congregação, fazendo os votos no ano de 1978. Fiz os estudos de Filosofia e em 1980 fui para Itália fazer o curso de Teologia. A minha ordenação sacerdotal aconteceu na minha terra natal, no ano de 1984.  Continuei a minha missão em Itália durante 12 anos, em várias missões e em 1997 fui abrir uma missão da Congregação na Roménia, onde estive em missão 13 anos. 

Em 2010 voltei ao Brasil, numa missão no Nordeste, onde fiquei sete anos. Em 2017 recebi a proposta de vir abrir uma nova missão da Congregação, em Portugal. O Patriarcado de Lisboa acolheu a nossa comunidade, que é formada por dois Sacerdotes e um Irmão Religioso, enviando-nos para a Paróquia de Algueirão, Mem Martins e Mercês. Depois de um ano e meio de presença ao serviço da paróquia, o Sr. Patriarca confiou a paróquia aos cuidados pastorais da nossa Congregação, tendo eu, em Setembro de 2018, tomado posse como pároco desta grande paróquia.

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