Mário Simões Teles: “É preciso que o País se desenvolva”

Passados 45 anos sobre o 25 de Abril, as comemorações não são saudosismo, nem o lembrar de mais uma data, são a forma de não esquecermos que precisamos de estar atentos para que o futuro não nos roube o que aquele dia de Abril nos permitiu conquistar.

A propósito destes 45 anos, o Jornal “O Correio da Linha” falou com um dos intervenientes no 25 de Abril. Natural de Coimbra, onde nasceu, apesar de a família ser de Ílhavo, o capitão-de-mar-e-guerra Mário Júlio Baptista Simões Teles teve uma juventude movimentada, tendo frequentado vários liceus do País, uma vez que, sendo seu pai oficial de Marinha, andava em constantes deslocações, levando a que tenha feito a admissão aos liceus no Liceu Camões em Lisboa, fez três anos no Alexandre Herculano no Porto, fez cerca de dois anos no Liceu de Oeiras e concluiu o quinto, sexto e sétimo anos em Viana do Castelo.

Mário Simões Teles fez o Curso de Marinha na Escola Naval, é engenheiro hidrógrafo, formação que concluiu em Paris, no Instituto Hidrográfico, é membro da Ordem dos Engenheiros. Como oficial da Marinha foi oficial de guarnição e oficial imediato, tendo cumprindo comissões de serviço em Moçambique e em Angola. Entre outras actividades, foi professor na Escola Náutica Infante D. Henrique e fundou a empresa Orthodrome Lda, da qual é sócio gerente e director técnico.

Correio da Linha (CL) – A sua participaçãono 25 de Abril aconteceu na sequência de actividades de contestação ao regime ou foi apenas na altura a ligação ao Movimento dos Capitães?

Mário Simões Teles (MST) – A minha família era íntima do doutor Mário Sacramento, que foi um conhecido médico antifascista, que era quem organizava os congressos da oposição, um dos quais em 1973, tendo falecido antes da sua realização e cuja imagem desse congresso foi a sua fotografia.

O meu avô materno, que chegou a ser preso pela PIDE, era um republicano do “reviralho” e a sua loja de artigos eléctricos era o local de reuniões dos conspiradores. Curiosamente, um dia resolveu colocar na montra da loja uma foto do Salazar e do Cerejeira quando andavam no seminário e dias depois estava numa cela da PIDE. Nunca lhe encontraram nenhum material comprometedor porque ele guardava os documentos debaixo da forja, local onde ninguém se lembraria de procurar papéis.

Já como oficial da Armada, eu e alguns camaradas da Marinha, fomos ao congresso da oposição democrática, em Abril de 1973 e ficámos alojados na casa desse meu avô.

CL – Qual era, face à repressão que havia, o sentimento ao participar nesses actos, já que não era agradável ser apanhado nas malhas da polícia política? Medo, gosto pela aventura?

MST – Nós, militares, tínhamos alguma protecção, estávamos em guerra e por isso não se podia hostilizar muito o pessoal militar, mas por outro lado tínhamos um Ministro da Marinha que já tinha sido Ministro do Salazar, que punha travão à entrada da PIDE nas unidades e nas casas dos militares (honra lhe seja feita por esse procedimento), portanto não podemos dizer que nas Forças Armadas houvesse um clima de medo, ele existia sim no sector civil, evidentemente que tínhamos precauções ao participar em actos que podiam trazer problemas.

CL – Qual foi a sua participação no 25 de Abril?

MST – Participei na afinação da redacção do Programa do MFA, mas a reunião de 22 de Abril, em que ficámos a saber que o Movimento avançava no dia 25 e não a 24, como estava previsto, foi realizada em minha casa, em Carcavelos. Foi nessa reunião que conheci o então coronel Vasco Gonçalves, nela estiveram presentes também Vítor Alves, Vítor Crespo, Carlos Contreiras, Pedro Louret e Franco Charais, que deu a informação da alteração do dia 24 para 25, tendo sido escolhidos nessa reunião os nomes para Primeiro Ministro a indicar ao general Spínola, não tendo ele aceite nenhum. Os nomes eram o Raul Rêgo, Milar Guerra e Francisco Pereira de Moura, tendo o general Spínola escolhido Palma Carlos.

CL – No dia 25 de Abril teve participação activa?

MST – Nesse dia estava no Instituto Hidrográfico. Havia uma organização, desde 1968, que era o Movimento Democrático da Marinha, no Clube Militar Naval. As ligações que se estabeleceram com o Exército tinham como base essa organização. Quem melhor pode falar desta organização são Martins Guerreiro e Almada Contreiras, que vai brevemente lançar um livro que é a transcrição da célebre assembleia do MFA de 11 de Março. Isto para dizer que a Marinha não tinha nenhuma unidade na ordem de operações, mas havia a posição de “neutralidade activa”, não fariam nada, mas também não iriam impedir que alguma unidade tomasse partido. Apesar de tudo foi a Marinha que primeiro chegou à sede da PIDE e foi das primeiras a chegar à prisão de Caxias.

CL – Hoje, fica muitas vezes a ideia de que há, sobretudo nas pessoas mais novas, o desconhecimento do que foi um dos grande factos da nossa História, apesar de haver ainda viva e com saúde uma boa parte da geração que viveu estes dias. Que pensa disso?

MST – Pelos contactos que tem recebido a delegação da Associação 25 de Abril, que funciona aqui em Oeiras, e que tem sido solicitada para ir às escolas, penso que a juventude actual volta a ter interesse em saber o que se passou, tendo as nossas intervenções ouvintes muito atentos, ou seja, a geração anterior alheou-se um pouco desse facto, mas volta a haver interesse em saber o que se passou.

Mas o que interessa é que se tenha já assumido a Democracia. Os militares, que estavam sujeitos à hierarquia militar e a participar numa guerra que não podia ser contestada, porque era crime, era traição, trabalharam na clandestinidade mas actuaram sempre com métodos democráticos e isso é um legado importante que ninguém pode negar, é um ADN que foi assumido.

CL – Naturalmente, mas sente-se por vezes que os jovens acham que o que têm hoje, a Liberdade e a Democracia, foi sempre assim, que não há razões para pensar que isso possa ser retirado, quando estamos a ser confrontados com o avanço do populismo…

MST – Como eu disse, o ADN democrático legado pelo 25 de Abril é muito importante, mas há outra coisa também importante que hoje é preciso fazer vingar, que é a “hierarquia das lealdades” do 25 de Abril, em que primeiro está o povo, depois os camaradas e em terceiro o chefe. O Populismo inverte isto, primeiro coloca a lealdade ao chefe, depois os colegas e só depois o povo que os elegeu, portanto é preciso preservar a “hierarquia das lealdades”.

CL – Numa das suas intervenções em comemorações do 25 de Abril disse a dado momento que a crise que o País atravessava estava a fazer ao País o mesmo que a chamada “Guerra do Ultramar”. Pode explicar isso?

MST – Eu terei dito que a troika funcionou como a guerra em termos de atraso do País e o problema aqui era perceber qual o antídoto para essa situação. No 25 de Abril não foi preciso que quem participou nele estivesse de acordo com tudo, só foi preciso estar de acordo com o essencial, acabar com o regime e instalar a Democracia e é preciso não ter pressa nas transformações. Nesse discurso eu queria dizer isso, que era preciso unirmo-nos à volta do essencial para depois resolver os problemas procurando consensos. Julgo que a “gerigonça” é bem o exemplo do que se devia fazer. Claro que é preciso cumprir os compromissos, que foi o que o MFA fez com a realização de eleições. E não houve nenhuma morte provocada pelo MFA.

CL – Que análise faz da atual situação do País?

MST – Hoje, nós dependemos muito das decisões que são tomadas em Bruxelas, é incrível que o nosso Orçamento tenha que ir a Bruxelas, antes de ser aprovado pela Assembleia da República, e embora haja hoje uma interdependência entre os países e a nossa soberania já não possa ser entendida como no passado, há linhas vermelhas que não devem ser ultrapassadas, como para se pagar ao FMI este processo ter que ser aprovado pelo Parlamento Alemão quando o nosso Parlamento não teve que discutir esse assunto.

Neste âmbito é necessário que haja algum confronto com a Europa, no sentido de criar mais autonomia, porque podemos arriscar-nos a ser afectados pelo populismo que vem da Europa e que tem a tendência de acabar com a autonomia das populações, aproveitando as dificuldades para criar dependências. A nossa dívida é um motivo de dependência e esse problema tem que ser resolvido, como também é preciso que o País se desenvolva de forma a ter mais produção industrial.

CL – Há quem diga que o 25 de Abril continua adiado. Concorda com isso?

MST – Já passaram 45 anos, o Mundo hoje é outro, temos uma Constituição, temos um Estado Social, a Democracia… É a partir daqui que temos que pensar, não podemos pensar em termos do passado.

CL – Se pudesse voltar a 1974 alterava alguma coisa do que se passou?

MST – Não, não alterava nada, tudo correu como estava previsto, embora com uma série de imprevistos.

Autor: Alexandre Gonçalves

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