O boxe foi o ponto de partida, mas há muito que a Boxing Spirit by António Ramalho deixou de ser apenas uma escola dedicada à modalidade. Na Outurela, em Oeiras, o projeto transformou o desporto numa ferramenta de inclusão, educação e desenvolvimento pessoal, criando um centro de apoio ao estudo com atividades artísticas, iniciativas de empregabilidade e respostas de apoio social.
O projeto nasceu da experiência pessoal de António Ramalho e da convicção de que, para ajudar verdadeiramente uma criança, não basta ensiná-la a praticar desporto: é preciso acompanhá-la, conhecer as suas dificuldades, criar oportunidades e mostrar-lhe que pode ambicionar mais. Atualmente, cerca de 30 crianças frequentam o centro de apoio ao estudo, que funciona com acompanhamento personalizado e uma equipa profissional. Um novo espaço, recentemente cedido pela Câmara Municipal de Oeiras, permitirá agora ampliar esta intervenção.
O Correio da Linha (CL) – O boxe foi uma presença muito marcante na sua vida. Como é que tudo começou?
António Ramalho (AR) – O boxe é a minha raiz. Foi através do boxe que cresci, que aprendi valores e que me tornei na pessoa que sou hoje. Sempre estive ligado à modalidade e comecei a praticá-la aos 14 anos. Pratiquei durante cerca de 12 anos, fui atleta do Belenenses, fui internacional, participei num Campeonato do Mundo e estive entre os medalhados num torneio de apuramento para os Jogos Olímpicos. Naquela altura, Portugal ainda não tinha condições estruturais e financeiras para proporcionar determinadas oportunidades aos atletas, mas o boxe já tinha mudado a minha vida. Mais tarde, percebi que também podia utilizar aquilo que tinha aprendido através da modalidade para ajudar outras pessoas.
CL – E que influência teve o boxe na forma como se tornou na pessoa que é hoje?
AR – Eu venho de uma família pobre e digo-o com orgulho. Os meus pais eram pobres e morreram pobres, mas deram-me aquilo que para mim foi mais importante: valores. Nunca quiseram que eu seguisse caminhos errados e ensinaram-me a distinguir aquilo que estava certo daquilo que estava errado.
Na minha vida apareceram coisas boas e coisas más, como acontece com toda a gente, mas o boxe nunca me deixou cair num buraco. A modalidade agarrou-me, fez-me crescer e deu-me uma estrutura. O boxe obrigou-me a ser muito exigente comigo próprio. Ajudou-me a olhar para as coisas de uma forma diferente.
Eu não faço competição com ninguém enquanto pessoa. A minha competição é comigo. Quero tentar ser melhor naquilo que faço e, sobretudo, quero sentir-me bem com isso.
Aos 19 anos, o meu treinador percebeu isso e colocou-me a treinar outros atletas. Continuei a ser atleta, mas passei também a ser treinador. Foi aí que percebi que podia transmitir aos outros aquilo que o boxe me tinha dado a mim.

DA MODALIDADE À COMUNIDADE
CL – Como é que acabou por trazer esse trabalho para a Outurela?
AR – Eu estava no Belenenses quando houve uma mudança de direção e decidiram retirar o boxe daquele espaço. Alguns dos miúdos que treinavam comigo eram da Outurela e, perante essa situação, fui para a Sociedade da Outurela e montei lá uma escola de boxe. Tivemos resultados muito bons, conquistámos títulos nacionais e internacionais e organizámos torneios importantes.
Certo dia, o vereador da Câmara Municipal de Oeiras, Arnaldo Pereira, disse-me uma coisa que nunca esqueci: que não gostava de boxe, mas reconhecia o trabalho que eu fazia com a comunidade e que iria criar condições para que eu tivesse um espaço próprio. É uma pessoa por quem tenho grande estima. Foi assim que nasceu a possibilidade de termos uma sala de boxe neste pavilhão, o Pavilhão Carlos Queiroz.
Eu vinha de uma realidade muito difícil. Estivemos na Sociedade da Outurela cerca de 10 anos: treinávamos numa sala sem condições, sem balneários e com enormes dificuldades. Mas aquele espaço deu-me uma oportunidade e eu nunca me esqueci disso.
CL – Também treinou no bairro de São Marçal…
AR – Sim, enquanto o pavilhão estava a ser construído…e foi aí que comecei a perceber de uma forma muito concreta as dificuldades que algumas daquelas crianças enfrentavam.
Havia miúdos que, por vezes, nem queriam treinar porque tinham fome. Havia falta de alimentos, falta de roupa, falta de apoio e muitas outras dificuldades. Percebi que o desporto era apenas uma parte da realidade daquelas crianças e que, para fazer verdadeiramente a diferença, era preciso olhar também para tudo aquilo que as rodeava e condicionava.
Quando finalmente viemos para este espaço, trouxe comigo aquela realidade. Pensei que não podia simplesmente fechar a porta depois do treino e dizer que a minha responsabilidade terminava ali. Foi dessa inquietação que nasceu a ideia de fazer mais.

EDUCAR PARA A VIDA
CL – Foi dessa experiência que nasceu o centro de apoio ao estudo?
AR – Exatamente. Começámos praticamente do nada. Este espaço, no Pavilhão Carlos Queiroz, é constituído essencialmente por arrecadações e, para além da sala do boxe, não havia propriamente uma sala com condições para desenvolver este tipo de trabalho. Fui então falar com a Câmara Municipal de Oeiras e foi-nos cedida uma dessas arrecadações.
Tive a sorte de encontrar a Cláudia, que é professora e hoje é a nossa coordenadora. Juntos, começámos a organizar o espaço e a dar forma ao centro de apoio ao estudo. Começámos com quatro mesas, alguns professores que vinham ajudar e poucos recursos. Coloquei também uma manta e uns puffs para que os miúdos pudessem ler, descansar ou simplesmente brincar. Algumas pessoas deram-nos computadores que já não usavam e fomos construindo tudo aos poucos, com aquilo que tínhamos.
Entretanto, percebemos que havia outra necessidade. Os miúdos queriam ficar aqui, mas alguns tinham fome. E aí percebemos que não bastava criar um espaço onde pudessem estudar. Era preciso criar condições para que se sentissem bem, pudessem permanecer aqui e aproveitassem verdadeiramente o tempo. Foi assim que criámos também o refeitório e começámos a juntar o apoio ao estudo, o lanche e o desporto. O projeto foi crescendo de forma muito gradual. Começámos com 16 crianças e, hoje, acompanhamos 30.
CL – O que o distingue o vosso centro de estudos?
AR – Nós não queremos ser uma escola e também não queremos ser um ATL. Somos um centro de apoio ao estudo personalizado. Aqui, os professores trabalham com pequenos grupos de crianças, quatro ou cinco, permitindo um acompanhamento mais próximo e individualizado. Temos quatro professores profissionais remunerados, uma coordenadora e contamos ainda com o apoio regular de uma professora doutorada em Educação, que dá formação à nossa equipa de forma voluntária.
Temos tablets para cada criança, fichas de trabalho e atividades adaptadas às suas necessidades. Se uma criança diz que não tem trabalhos de casa, isso não significa que não tenha nada para fazer. Cada criança tem um tabuleiro com fichas e atividades pensadas especificamente para aquilo que precisa de trabalhar.
Temos também um passaporte de leitura. As crianças escolhem um livro, têm de o ler e, posteriormente, fazem um relatório sobre aquilo que leram. Queremos que aprendam, mas também queremos criar hábitos de estudo, de leitura e de autonomia. O nosso objetivo é que cada criança saia daqui melhor do que entrou.

CL – E existe uma condição para frequentar o centro: praticar boxe. Porquê?
AR – Porque essa é a essência do projeto. Para mim, o desporto é uma ferramenta educativa. Não é obrigatório que uma criança faça competição ou que queira ser campeã. Mas tem de praticar boxe.
Queremos que percebam que existe uma ligação entre aquilo que fazem na escola e aquilo que fazem no treino. O boxe ensina disciplina, esforço, respeito, capacidade de lidar com a frustração e superação. São valores que depois queremos transportar para os estudos e para a vida.
A própria associação foi criada com essa lógica: utilizar o desporto, e particularmente o boxe, para promover o aproveitamento escolar, o sucesso pessoal e profissional e uma cultura de trabalho, dedicação e superação.
CL – Que crianças procuram este espaço e quem pode frequentá-lo?
AR – Temos crianças desde entre os 7 e os 15 anos, idade com que terminam o 9.º ano. A prioridade é naturalmente para as crianças da comunidade, mas recebemos também crianças de outras zonas do concelho que frequentam as escolas da região e que tenham necessidades que justifiquem este acompanhamento.
Não fazemos distinções. Temos crianças com dificuldades socioeconómicas, mas não só. O que fazemos aqui é olhar para cada criança e perceber aquilo de que ela precisa.
CL – CL – Porque é que o acompanhamento não se estende ao ensino secundário?
AR – Regra geral funcionamos até ao 9.º ano. Mas tivemos uma criança que começou connosco, acompanhámo-la durante anos e conseguiu chegar ao 12.º ano, porque eu sou teimoso e fui arranjar professores para a virem ajudar pontualmente.
Agora temos três crianças que passaram para o 10.º ano e eu não quero que elas desapareçam do projeto. Não quero que, porque chegaram ao secundário, deixem de ter apoio.
Ainda estamos a tentar encontrar a melhor solução. Talvez tenhamos de recorrer a professores voluntários, algumas horas por semana, de acordo com as necessidades de cada criança e com a disponibilidade de cada professor.
CL – O apoio não termina quando acabam os trabalhos de casa. Há também uma preocupação com a alimentação e com o acolhimento.
AR – Claro. Uma criança que tem fome não consegue estudar da mesma forma. E uma criança que chega aqui com um problema em casa também não consegue simplesmente sentar-se e começar a fazer uma ficha. Por isso, para nós, acolhimento é uma palavra muito importante. Às vezes basta uma mão no ombro, uma conversa ou alguém que diga “eu estou aqui”. Parece pouco, mas para uma criança pode fazer uma diferença enorme.
A nossa metodologia é muito simples: estudo, amparo, dedicação e acolhimento.

MAIS DO QUE ESTUDAR
CL – E é feita uma articulação com as escolas e com as famílias?
AR – Com as famílias temos vindo a construir uma relação cada vez mais próxima. Hoje, com autorização dos pais, temos acesso às notas e à informação escolar das crianças, o que nos permite perceber melhor as dificuldades e acompanhar a evolução.
Com as escolas, gostávamos de fazer muito mais. Acho que devia existir uma colaboração muito maior. Não percebo por que razão uma escola há de ter receio de colaborar com uma entidade como a nossa. Se uma criança tem dificuldades de aprendizagem, de comportamento, de expressão ou problemas familiares, a escola e nós devíamos poder conversar e encontrar uma resposta em conjunto. Não queremos substituir a escola. Queremos ajudá-la.
Temos tido algumas experiências muito positivas. Há situações em que detetamos dificuldades que não estavam identificadas e conseguimos começar a trabalhar com a criança de uma forma diferente.
CL – Há também uma forte aposta nas artes. Como surgiu essa vertente?
AR – As artes são um complemento aos estudos, e todas as crianças frequentam essas aulas. Temos uma professora de Artes que se apaixonou pelo projeto. É uma pessoa extremamente dedicada e tem uma relação muito especial com as crianças.
Contamos com uma sala de artes onde os miúdos trabalham pintura, desenho, colagens, entre outras coisas. Já fizemos exposições para as famílias e foi muito emocionante ver a reação dos pais. Alguns choraram ao ver o trabalho dos filhos.
E há nisto algo que entusiasma muito: descobrir crianças que têm talento. Se perceber que tenho aqui um miúdo com uma capacidade especial para a pintura, quero ajudá-lo a desenvolver esse talento. Se for preciso encontrar uma escola especializada ou até apoiar financeiramente o percurso dessa criança, estou disposto a fazê-lo. Porque também é isto que significa inclusão: dar oportunidade para que cada criança descubra aquilo que pode ser.
CL – Recentemente foi inaugurado um novo espaço. O que é que essa mudança representa para o projeto?
AR –O espaço onde estamos agora é a nossa raiz. Foi aqui que tudo cresceu. Tenho muito carinho por ele e até tenho pena de um dia o deixar. Mas temos muitas limitações. Não temos uma janela, não temos condições adequadas para lavar um copo, no verão temos de colocar ventoinhas e, no inverno, aquecedores.
O novo espaço, onde esperamos estar em outubro, permite-nos trabalhar com outras condições. É uma casa de madeira, com dois pisos, jardim, casa de banho individual, possibilidade de banho, um pequeno refeitório e uma sala multiusos. Essa sala vai permitir-nos organizar formações para os nossos professores e abrir algumas delas a professores das escolas do concelho. Acredito muito na formação e na importância de estarmos permanentemente a aprender e a atualizar conhecimentos. Um professor também precisa de se preparar para os novos desafios, e estamos a viver mudanças muito rápidas, nomeadamente com a inteligência artificial. É fundamental que os professores estejam preparados para acompanhar essas transformações e responder às novas necessidades dos alunos.
CL – Esse novo espaço vai permitir-vos crescer e acompanhar mais crianças?
AR – Sim. Vai permitir-nos crescer, nomeadamente receber mais crianças, mas queremos fazê-lo de forma sustentada e consciente.
Já temos hoje um compromisso muito grande com as crianças que acompanhamos e, com um espaço novo, esse compromisso será ainda maior. Sabemos que a Câmara Municipal de Oeiras acreditou no nosso trabalho e nos deu condições para podermos fazer mais e melhor. Não foi um espaço oferecido por simpatia. Foi o resultado de muitos anos de trabalho, dedicação e empenho.
O Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, teve a visão de olhar para um espaço que se encontrava completamente degradado e perceber o potencial que ali existia, transformando-o numa mais-valia para as crianças, para a comunidade e para o concelho. Também os vereadores Pedro Patacho e Maria Paula têm tido um papel muito importante ao longo deste caminho. Por isso, estou profundamente agradecido à autarquia por ter acreditado em mim, no meu trabalho e, sobretudo, neste projeto.

UM PROJETO QUE CRESCE
CL – Outra das áreas que têm vindo a desenvolver é a multimédia….
AR – Começámos quase por brincadeira. Havia alguns miúdos que me ajudavam a filmar e eu pensei: “Porque é que não havemos de ter um canal de televisão?” Conseguimos câmaras e começámos a transmitir os nossos torneios. Chegámos a ter quatro ou cinco câmaras a filmar vários rings em simultâneo e pessoas de vários países a acompanhar as transmissões.
Agora queremos dar um passo maior. No novo espaço vamos criar uma zona própria para podcasts e entrevistas. Já recebemos duas menções de reconhecimento do Instituto Português do Desporto e da Juventude pelo trabalho desenvolvido em temas como o bullying e o extremismo e queremos continuar a trabalhar essas questões.
Queremos entrevistar pais, professores, jornalistas, psicólogos ou outras pessoas que tenham conhecimento para partilhar. A ideia é que os próprios jovens participem e aprendam a comunicar, entrevistar, filmar, editar e produzir conteúdos.
CL – Existe também uma preocupação em preparar os jovens para o futuro profissional?
AR – Sim. Queremos que tenham ferramentas para a vida. Por isso temos também uma área de empregabilidade. Já desenvolvemos uma academia ligada às telecomunicações com uma empresa de Carnaxide, a Colt, e queremos voltar a fazê-lo.
A ideia é criar academias onde os jovens possam conhecer diferentes áreas profissionais, perceber o que as empresas procuram e começar a preparar-se para o primeiro emprego.
Temos empresas parceiras que nos fazem chegar oportunidades e informação para jovens que procuram trabalho e também procuramos ajudar famílias que estejam numa situação de desemprego.
Não queremos esperar que o jovem chegue aos 18 anos para começar a falar de emprego. É preciso começar antes, mostrando-lhe que existem caminhos diferentes.
CL – Há também uma dimensão internacional no vosso trabalho. Que importância têm essas experiências?
AR –Temos uma parceria com a Impact Trip, através da qual recebemos pessoas de vários países que vêm para Portugal e integram projetos de voluntariado social. Já recebemos americanos, franceses, irlandeses, brasileiros, entre muitas outras nacionalidades. Alguns ficam connosco durante uma semana e ajudam diretamente no acompanhamento dos estudos das crianças. Outros dinamizam atividades mais lúdicas, trazendo jogos e brincadeiras dos seus próprios países e proporcionando aos miúdos uma experiência diferente. Temos também pessoas que chegam através de universidades, com competências e conhecimentos específicos, e que desenvolvem um trabalho mais estruturado connosco. É uma experiência muito enriquecedora, porque existe uma verdadeira troca de conhecimentos.
Também temos desenvolvido projetos Erasmus. Por exemplo, agora vão passar por cá equipas da Roménia, Itália, Lituânia para conhecer o nosso trabalho. Ficam cá cerca de uma semana a perceber a nossa metodologia.
Há uns anos recebemos também professores universitários dos Estados Unidos que queriam perceber como era possível articular escola, desporto e inclusão social através do boxe.
Isso mostra-nos que aquilo que começou de uma forma muito pequena em Outurela pode ter interesse e impacto muito para além da nossa comunidade.
CL – Que papel tem a sua equipa na concretização deste projeto?
AR – Quando comecei o centro de apoio ao estudo, muitas pessoas podiam ter pensado que eu estava a tentar fazer uma coisa para a qual não tinha formação. E é verdade: eu sou um homem do boxe. Não sou pedagogo. Mas eu sabia aquilo que queria. E tive a sorte de encontrar pessoas que sabiam como pôr essas ideias em prática.
Costumo dizer que sou um homem das ideias, mas tenho uma grande equipa que as concretiza. Eu posso dizer “quero fazer isto”, mas depois preciso de professores, coordenadores, técnicos, voluntários e parceiros que acreditem na mesma coisa.
CL – Que importância têm os apoios e as parcerias para a continuidade e o crescimento deste projeto?
AR – Um projeto destes não se faz sozinho. Nós começámos sem apoios. Durante os primeiros dois anos não tivemos apoio de ninguém. Eu compreendo isso porque era preciso provar que aquilo que estávamos a fazer era viável.
Hoje temos parceiros, temos a Câmara Municipal de Oeiras, temos empresas, professores, voluntários e pessoas da comunidade que acreditam em nós.
Também temos o apoio e a colaboração do presidente da União de Freguesias de Carnaxide e Queijas, Inigo Pereira, que tem uma relação próxima connosco. É uma pessoa que nos acompanha, que vem aqui, que liga para saber se precisamos de alguma coisa e que muitas vezes funciona como um verdadeiro “empurrão” para continuarmos. Para mim, isso também é comunidade: haver pessoas que conhecem o nosso trabalho, que aparecem, que perguntam o que é preciso e que ajudam a abrir portas.
CL – Depois de tudo o que foi construído, como define hoje a Boxing Spirit by António Ramalho?
AR – Diria que é um projeto que nasceu do boxe, mas que cresceu para se tornar uma ferramenta de inclusão.
Eu comecei por querer ensinar boxe a crianças. Depois percebi que algumas precisavam de estudar, outras precisavam de comer, outras precisavam de alguém que acreditasse nelas. Depois percebemos que havia crianças com talento para as artes, outras interessadas em multimédia, outras que precisavam de conhecer o mundo do trabalho. E fomos acrescentando respostas.
Não fazemos isto para sermos melhores do que ninguém. Fazemos porque acreditamos que é possível fazer diferente. Eu não quero ser nenhum príncipe e também não quero ser vulgar. Quero apenas que as coisas sejam bem feitas. Enquanto eu estiver aqui, é isso que vou continuar a tentar fazer: dar às crianças aquilo que o boxe me deu a mim — disciplina, confiança, valores, oportunidades e a certeza de que podemos sempre tentar ser melhores.
NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico






















