Hugo Correia: “Não é todos os dias que temos um campeão do Mundo”

Portugal tem fenómenos que é justo realçar. Um pequeno clube, quase centenário, resiliente por natureza, com uma direcção aguerrida, teima avançar com um projecto e, praticamente sem apoios, descobre, forma e desenvolve talentos jovens capazes de conquistarem títulos mundiais. Sem que os meios de comunicação tradicionais divulguem essas conquistas, que não estão abrangidas pela cobertura mediática concedida ao maior fenómeno desportivo de todos os tempos: o Futebol.

Chutos e pontapés à parte, o tema principal desta entrevista é a Patinagem Artística. Em 2012, foi a modalidade escolhida pela direcção da Sociedade Recreativa da Várzea de Sintra (SRVS) para implementar um projecto ganhador, que nos últimos anos produziu duas bicampeãs mundiais. Feitos que mereceram as já habituais notas de rodapé dadas aos feitos alcançados pelos atletas que praticam outro tipo de actividades que não envolvam correr atrás de uma bola. Mas que implicam, ainda assim, muito esforço, suor e lágrimas… de alegria.

Rita Azinheira, de 17 anos (campeã europeia e campeã mundial de Patinagem Artística Livre em juniores), e Matilde Antunes, de 16 anos (bicampeã da Taça do Mundo de Patinagem Artística Livre na categoria de Cadetes), merecem o reconhecimento devido pelos feitos alcançados fora de portas, nos ringues internacionais que consagram as estrelas da modalidade que praticam desde tenra idade, até chegarem ao nível de excelência que hoje apresentam. Sempre com a presença e apoio incondicional das respectivas famílias e com o acompanhamento dos treinadores e do clube que lhes serve de segunda casa.

O jornal ‘O Correio da Linha’ falou com Hugo Ricardo Correia, presidente do clube sintrense, quase centenário (foi criado em 1933), para tentar descobrir a razão dos êxitos alcançados pelas suas orgulhosas patinadoras. Além dos feitos registados, atestados na vitrina dos troféus cuidadosamente coleccionados, ficámos também a par das principais dificuldades que a SRVS enfrenta, os desejos que alimentam os seus dirigentes e o que ambicionam para o futuro do clube, que festejou recentemente o seu 93.º aniversário e conta com uma nova presidência desde Fevereiro deste ano.

Foto: Jorge Rodrigues

UM PROJECTO PARA FORMAR CAMPEÕES

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – Quantos atletas é que a SRVS tem?

Hugo Correia (HC) – Temos 96 atletas na Patinagem. Não há muito tempo, já tivemos 127. Nas restantes actividades, temos mais 50 atletas.

CL – A Patinagem é a espinha dorsal da vossa actividade. Como é que surgiu essa tendência?

HC – A Patinagem começou aqui em 2012, quando eu entrei para o clube. Não existia antes. Teve origem num grupo de pais que tinham os filhos num outro clube em Sintra que não dispunha de um ringue de patinagem. Como tal, foram à procura de um espaço que vieram encontrar aqui, e que estava completamente abandonado. Esses pais avançaram com a criação de uma direcção e um clube de patinagem. Apesar de se praticarem aqui outras actividades, estamos mais vocacionados para a Patinagem, é esse o nosso foco central.

CL – Quais foram as principais vitórias alcançadas pelas atletas do clube na Patinagem Artística, em Portugal e no estrangeiro?

RH – A nível colectivo, somos tricampeões distritais de Lisboa e vice-campeões nacionais. Nos dois últimos anos, ficámos também em segundo lugar na Taça de Portugal.

A nível individual e internacional, o melhor prémio foi conseguido por Rita Azinheira, que venceu o Campeonato Mundial de Patinagem Artística na categoria de Juniores em 2025. Não é todos os dias que temos um campeão do Mundo. Esta atleta já tinha sido, também, campeã da Europa no mesmo ano.

Agora, vem aí na calha a Matilde Antunes, que se sagrou este ano bicampeã da Taça do Mundo de Patinagem Artística Livre na categoria de Cadetes, e que para o ano já será atleta júnior. Se Deus quiser, deverá ser também campeã da Europa nesta categoria.

E atrás da Matilde, já surgem outras atletas, como a Carolina Barroca (campeã da Taça da Europa em iniciados), atrás da qual já vem a Francisca Seco (medalha de bronze na Taça da Europa em infantis).

CL – Para uma modalidade iniciada no clube em 2012 são conquistas meritórias. Na sua opinião, qual a razão destes êxitos?

HC – Iniciei o meu mandato em Fevereiro passado. Antes, já tinha sido vice-presidente. Os últimos seis anos foram de muito trabalho, sendo que a anterior presidente e tesoureira realizaram um trabalho espectacular. Foram elas que conseguiram colocar um novo chão de madeira no pavilhão, que antes era só em cimento, e que realizaram obras e conseguiram as escrituras necessárias. Devemos valorizar as pessoas que fizeram este trabalho por amor à camisola, que eu também tenho. A minha filha patinou aqui desde 2012 a 2018 e conseguiu competir internacionalmente.

“ALGUMA COISA ESTAMOS A FAZER BEM”

CL – O que significa para a SRVS a conquista da Matilde Antunes na Taça do Mundo?

HC – Representa muito. Esta conquista da Matilde é uma conquista individual, mas é, também, o resultado do trabalho realizado pela nossa direcção e pelos nossos treinadores. A equipa técnica está formada, temos uma boa equipa técnica. E isto quer dizer que alguma coisa estamos a fazer bem e que estamos a trabalhar todos no sentido de conseguir levar o clube para a frente e alcançar grandes feitos. Mas não são só as conquistas da Rita Azinheira e da Matilde Antunes, o nosso principal foco são os pequeninos, é a formação e iniciação, quantos mais atletas conseguirmos abranger nessas áreas melhor. Claro que os êxitos obtidos são muito importantes para nós, porque ajudam na divulgação, são as melhores campanhas publicitárias que podemos ter, que nos dão visibilidade para chegar aos mais pequeninos e ter mais atletas na iniciação.

CL – Quem são os treinadores da Matilde Antunes?

HC – Os treinadores da Matilde são o Sebastião Oliveira, que considero um dos melhores treinadores do País, e a Andreia Martinho. Antes de virem comigo para a SRVS, estavam na Amadora, na Associação Académica de Patinagem de Portugal Rollersky.

CL – Cada um dos vossos atletas internacionais tem treinadores específicos ou estes dois funcionam para todos?

HC – O Sebastião Oliveira é o nosso coordenador técnico, o treinador principal, que depois também está delegado à competição. Nas provas internacionais é sempre ele o nosso representante, ou então na companhia da Andreia Martinho.

CL – Portanto, são eles os criadores das atletas campeãs?

HC – Nos últimos anos, trabalhei com o treinador Sebastião Oliveira na Associação Académica de Patinagem de Portugal Rollersky, antes de virmos para a Várzea de Sintra, após passarmos também por um clube de Almargem do Bispo.

Há cerca de quatro anos, criámos um projecto desportivo que propusemos à direcção da SRVS. Acabámos por construir uma equipa e iniciar o caminho que nos trouxe até aqui. Logo ao fim do primeiro ano, já começámos a obter alguns resultados interessantes.

Acabei por ficar no clube como vice-presidente. No início deste ano, fui eleito presidente. Temos muita iniciação, temos muitas pequeninas com vontade de praticar esta modalidade. Agora, estamos a trabalhar no projecto ao nível dos apoios, também queremos colocar um telhado novo no pavilhão, fazer melhoramentos nas infraestruturas.

CL – Quantos treinadores é que têm na Patinagem?

HC – Neste momento, estamos com nove treinadores: sete oficiais mais duas monitoras.  Temos dois treinadores para a competição, o Sebastião Oliveira e a Andreia Martinho. Depois temos o Guilherme Sousa e a Carolina Talhadas, que são os treinadores de Dança. Seguem-se a Maria Varanda, a Inês Costa e a Sara Godinho, que são treinadoras de iniciação e de formação.

E contamos ainda com mais duas atletas internacionais que ainda não têm curso de treinador, a Carolina Pereira e a Carolina Garcia, que trabalham mais com a iniciação e com um grupo de potenciais seguidores dos actuais campeões, que estão a ser talhados para lhes sucederem. 

CL – É possível um jovem vir ao clube experimentar a Patinagem, para saber se gosta?

HC – É possível, sim. E acontece.

CL – O que é preciso fazer?

HC – Temos no nosso site uma ligação directa. O interessado acede à nossa página na Internet (https://srvs.pt), preenche um formulário que disponibilizamos e nós entramos em contacto para a criança poder vir experimentar rapidamente. Também podem contactar connosco através do telefone (962 146 566 / 965 135 025).

CL – O clube tem material disponível para emprestar de forma a facilitar essa experiência?

HC – Sim, temos cerca de 30 pares de patins com todos os números necessários. O que acontece é que não estamos a aceitar atletas a partir de uma certa idade, porque esta modalidade acaba no máximo aos 25/26 anos. Portanto, quanto mais cedo começarem melhor.

CL – O clube aproxima-se do seu primeiro centenário. Festejou recentemente o 93.º aniversário. Como gostava que o centenário fosse festejado?

HC – Muito sinceramente, ainda não pensei muito nisso, mas terá de ser uma coisa em grande. Até lá, queria melhorar as instalações, porque o projecto está feito e tem tudo para andar. Temos treinadores bons, temos atletas melhores ainda, as crianças saem daqui felizes e a ideia é continuar como está. Acho que o projecto está bem feito, acredito nele. Agora, o que falta é melhorar a infraestrutura, podermos renovar o pavilhão e os espaços de que dispomos.

Foto: Jorge Rodrigues

AMIANTO NO TELHADO

CL – O que falta fazer no pavilhão?

HC – Primeiro de tudo, legalizá-lo, que é o que estamos a tratar este ano. O sr. presidente da Câmara Municipal de Sintra (CMS), Marco Almeida, lançou um projecto para facilitar o licenciamento dos equipamentos desportivos do concelho e nós entrámos no concurso. A ideia é licenciar o pavilhão desportivo para podermos usá-lo sem restrições, porque isto não tem licenças. Isso é a coisa mais importante. Por exemplo, o Instituto Português do Desporto e Juventude tem apoios económicos muito interessantes, aos quais não podemos concorrer por não termos as instalações legalizadas.

Depois, também temos amianto no telhado, pelo que é preciso substituir a cobertura. Temos crianças ali a praticar desporto todos os dias…

CL – Mas isso não está dependente da legalização…

HC – Para conseguirmos obter a legalização temos de fazer obras e essas obras dependem do apoio da Câmara, do projecto que o doutor Marco Almeida lançou, que reuniu uma equipa para poder fazer a avaliação dos clubes e ver o que é preciso. No nosso caso, é preciso mudar o telhado, que é a obra principal, e metermos portas de emergência. Como temos seis portas de acesso ao pavilhão, não há-de ser por aí que vamos ter problemas. Também queríamos renovar a iluminação do pavilhão e pintar a fachada de um dos lados, mas falta verba para podermos avançar com estas obras.

CL – Quantos sócios tem a SRVS?

HC – Temos cerca de 700 sócios inscritos. O problema é que, desses, só pagam quotas cerca de 200. No caso dos atletas que temos, pelo menos um dos pais tem de ser sócio pagante.

A nossa equipa directiva começou a trabalhar em Fevereiro e temos vindo a organizar tudo: o site, os projectos entregues na Câmara e na Junta de Freguesia… as coisas têm vindo a ser feitas aos bocadinhos. Somos poucos, só sete, nem todos temos disponibilidade e não podemos exigir mais.

CL – Qual é o valor da quota?

HC – O valor da quota é de 12 euros anuais, ou seja, um euro por mês.

CL – Além das quotas pagas pelos sócios, com que outros apoios contam para poderem desenvolver as vossas actividades?

HC – Contamos com os apoios do associativismo, que são cerca de 3.000 euros por ano por parte da Câmara e 500 euros da União das Freguesias de Sintra (UFSintra). Para além disso, quando organizamos eventos para angariação de fundos, a UFSintra tem ajudado com mais alguma coisa, por exemplo, quando organizámos a primeira parte do Campeonato Distrital de Patinagem Livre, no passado mês de Maio. Sempre que organizamos mais qualquer coisa, contamos com o apoio da UFSintra.

CL – Em termos de patrocínios, contam com apoios de empresas da região, ou outras?

HC – De momento, ainda não. Estamos a trabalhar nisso, faz parte do nosso projecto. Queremos também vender publicidade anual (fixa e não-fixa) a empresas interessadas, por exemplo, disponibilizar espaços nas fachadas do nosso pavilhão. Estamos a preparar vários pacotes, com diversos tamanhos de anúncios.

Foto: Jorge Rodrigues

“NÃO HÁ BONS ATLETAS SEM UM BOM ACOMPANHAMENTO FAMILIAR”

CL – O êxito dos vossos atletas estende-se a outras modalidades, ou está tudo mais concentrado na Patinagem?

HC – É tudo na Patinagem.

CL – O papel dos pais tem sido importante para os resultados obtidos pelos atletas?

HC – Não é só a vontade do atleta, há muita coisa à sua volta, que envolve também os pais. Não há bons atletas sem um bom acompanhamento familiar. De outra forma é impossível.

CL – Qual é o investimento que é preciso fazer para um jovem poder praticar Patinagem Artística?

HC – O preço dos patins varia muito. Na fase de iniciação, em novos podem custar 150 euros no mínimo, mas também se conseguem comprar usados melhores e mais baratos. E depois vai até aos chamados ‘Ferraris’ da competição, que podem chegar aos 3.000 euros.

No que toca à roupa para treinar, podem usar umas ‘t-shirts’, umas calças de treino ou umas ‘leggings’ que tenham lá por casa. Mais tarde, quando chega a altura de realizarem os testes de desempenho (iniciação/formação) têm de ter o fato completo do clube, que custa cerca de 100 euros. Isto é o básico.

Os fatos para praticar a modalidade podem variar de acordo com o que se pretende. Consegue-se comprar um fato por 60/70 euros e depois há os fatos especiais, mais vistosos, que algumas campeãs usam nas competições internacionais, que podem ascender aos 300 euros.

CL – Em média, por semana, quantas horas é que os atletas treinam na Patinagem?

HC – Na fase de iniciação, por semana, têm três treinos de 45 minutos cada. Mais 15 minutos de aquecimento antes e alongamentos no final. Temos espaços especiais para isso.

Mais tarde, quando chegam à fase da alta competição, os atletas já fazem treinos bidiários. Fazem quatro horas diárias de treino, a que se somam mais umas quantas horas no ginásio, com aquecimento e preparação física.

Agora, temos um ginásio novo, foi a primeira obra desta gestão, que implicou um investimento de cerca de dois mil euros. 

CL – Quem é que custeia as deslocações dos atletas para poderem participar nas competições internacionais?

HC – No caso dos atletas, recai tudo sobre os pais. Em alguns casos, com uma ajuda do clube, mais nas competições nacionais. Não recebemos nada nesse sentido da Câmara Municipal ou da Junta de Freguesia. Dizem-nos que são as federações que têm de estar encarregues pelos clubes, sendo que estas dizem que têm de ser os pais a arcar com as despesas. Neste momento, estamos a conseguir fazer, já aos bocadinhos, a comparticipação total das despesas dos treinadores nas provas nacionais. Porque, além de terem de pagar as despesas dos atletas, as famílias ainda têm de assumir as despesas dos treinadores que os acompanham nas competições internacionais. Em todos os clubes funciona assim.

Agora, o que estamos a tentar fazer é angariar dinheiro com a realização de festas e outros eventos para que, pelo menos, a despesa dos treinadores possa ser toda paga por nós, para assim conseguirmos aliviar os pais dos atletas de parte dos custos, para não ser tão duro para eles. Esse é um dos nossos projectos, ajudar a reduzir a despesa dos pais, que já pagam a mensalidade, têm de suportar os custos dos patins, fatos, todas as deslocações e mais o resto que é preciso. Isto limita muito o surgimento de novos atletas de nível internacional.

Foto: Jorge Rodrigues

“VONTADE DE LEVAR ISTO PARA A FRENTE”

CL – Não é fácil…

HC – É mais uma casmurrice, vontade de levar isto para a frente. As vitórias de que eu gosto mais é poder ver as atletas que têm passado por aqui seguirem as suas vidas com sucesso, estão todas na faculdade. É isso que me move. Ajudar a formar pessoas mais alegres, resilientes e concretizadas, com objectivos.

CL – O que é preciso fazer para formar um campeão de Patinagem? Quais as condições necessárias para isso?

HC – Da nossa parte, é acompanhar os atletas o máximo que conseguimos, dar disponibilidade de ringue e criar as condições necessárias para eles atingirem os objectivos. No fundo, é dar ferramentas aos atletas e aos treinadores para poderem trabalhar bem e serem mais produtivos.

CL – A SRVS tem alguma parceria com as escolas da região?

HC – Esse é outro projecto que estamos a preparar. Queremos encontrar outro espaço para podermos ter aulas de iniciação em mais dias da semana, eventualmente numa escola. Temos o desejo de fazer a Patinagem chegar a mais jovens, a famílias menos abastadas. É um dos nossos objectivos, poder chegar a uma escola e qualquer menina que tenha o sonho de fazer patinagem poder fazê-lo.

Já chegámos a ter aqui actividades extracurriculares. Quando acabava o ano lectivo, as escolas tinham Actividades de Enriquecimento Curricular e colónias de férias. Havia um dia em que os alunos vinham para aqui todos patinar. Chamávamos algumas atletas mais velhas para os ajudar. Foi assim que angariámos várias atletas aqui da zona, que entraram através desses programas. É uma das coisas que queremos voltar a fazer.

CL – A captação de novos atletas passa essencialmente pelas redes sociais?

HC – Sim, temos o Facebook e o Instagram, que está mais activo.  

CL – Projectos para o futuro?

HC – Isso passa basicamente por licenciar o pavilhão desportivo, adquirir o estatuto de utilidade pública, que é muito importante, e efectuar melhorias nas infraestruturas.

Pretendemos, também, conseguir dar uma maior comparticipação financeira para ajudar a suportar as despesas realizadas pelas famílias das atletas, porque elas trabalham muito, trabalham em nome do clube, trabalham em nome do País… e o País não lhes dá aquilo que elas merecem, mas nós vamos conseguir dar. Vamos trabalhar para isso.

CL – Ainda não têm o estatuto de utilidade pública?

HC – Ainda não temos e isso só virá quando tivermos a legalização do pavilhão, que é a base de tudo para podermos partir para outros níveis.

CL – Gostava que a Patinagem Sobre Rodas alcançasse o estatuto de modalidade olímpica?

HC – Alcançar o estatuto de modalidade olímpica é quase um sonho da Patinagem Sobre Rodas. Acho que é a coisa mais importante que podia acontecer. As regras da modalidade foram criadas para esse objectivo. É um caminho, um processo que estamos a percorrer. Ainda nem sequer fomos convidados. Por exemplo, o Skate e o Surf já foram convidados e entraram para a lista das modalidades olímpicas. O Hóquei em Patins também já foi convidado, mas nós continuamos à espera…

CL – A Patinagem Sobre Rodas é considerada por muitos como uma espécie de parente pobre da Patinagem no Gelo. O que pensa disto?

HC – É visto assim, sim. As próprias televisões fazem isso, transmitem o Campeonato Mundial de Patinagem no Gelo, onde não temos tradição, e depois, no Campeonato do Mundo de Patinagem Artística, onde temos portugueses e temos objectivos, não transmitem em canal aberto. Se nós tivéssemos Patinagem no Gelo, eu compreendia, mas o que temos é tão fraquinho, que não percebo. Eu acho isso um bocadinho triste.

“SENTI UMA GRANDE EMOÇÃO”

Aos 16 anos, Matilde Antunes sagrou-se bicampeã da Taça do Mundo de Patinagem Artística Livre na categoria de Cadetes. Um triunfo que abre excelentes perspectivas para o futuro. No próximo ano, a atleta da Sociedade Recreativa da Várzea de Sintra ascende ao escalão júnior e a conquista dos títulos europeu e mundial são um desafio em que promete estar empenhada.

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – O que sentiu ao vencer a Taça do Mundo de Patinagem Artística? O que significou para si?

Matilde Antunes (MA) – Eu já tinha conquistado este título em 2025. Revalidá-lo foi uma grande emoção, foi a recompensa por todos estes anos de trabalho.

CL – Foi uma grande responsabilidade ter vencido a primeira vez e voltar a conquistar este troféu? Foi mais difícil esta segunda vez? Ou a primeira?

MA – Acho que cada prova tem as suas dificuldades próprias e os seus benefícios. Portanto, não posso dizer que uma tenha sido mais difícil do que a outra.

CL – Com que idade começou a praticar Patinagem Artística?

MA – Com três anos.

CL – Quantas horas treina por semana?

MA – Treino umas seis horas por dia, seis dias por semana. Ou seja, cerca de 36 horas semanais.

CL – Com toda esta dedicação à modalidade, como é que encaixa depois os estudos, os hobbies, os amigos e tudo o resto que gosta de fazer?

MA – Dá para conjugar tudo quando gostamos do que fazemos. É uma questão de prioridade.

CL – Tinha alguém na família que já praticasse Patinagem Artística?

MA – A minha irmã, Rebeca Antunes (nadadora de competição do Benfica com vários pódios e títulos nacionais conquistados), também praticava Patinagem Artística quando era mais pequena. Eu comecei a praticar depois dela.

CL – Os seus pais também estiveram ligados ao Desporto?

MA – Sim, é verdade. A minha mãe, Susana Neves, foi nadadora de competição no Benfica e campeã nacional de triatlo. E o meu pai também praticou Desporto.

CL – Qual é o seu principal objectivo na Patinagem Artística? Qual a prova que ainda sonha ganhar?

MA – Eu acho que todas as provas são importantes. O meu objectivo é conquistar o máximo de provas a nível mundial.

CL – Gostava que a Patinagem Artística viesse a integrar as modalidades olímpicas? Vir a representar Portugal nos Jogos Olímpicos?

MA – Seria extraordinário se isso acontecesse. Seria algo muito bom. Eu acho que a Patinagem Artística tem tudo para ser um desporto olímpico. E claro que gostava de representar Portugal nessa prova.

CL – Como é que vê o seu futuro na Patinagem Artística?

MA – Ambiciono revalidar os meus títulos e melhorar as classificações ao longo dos anos, ser a melhor atleta.

CL – Qual é a sua área de estudos?

MA – Estou no 10.º ano, vou agora para o 11.º ano. Estou na área de Ciências e Tecnologias.

CL – Um desejo profissional?

MA – Se calhar, seguir Medicina.

CL – O que é que é mais difícil na Patinagem Artística?

MA – Eu acho que nada é difícil quando se gosta daquilo que se faz. Acima de tudo, temos de ter consistência no nosso trabalho, em tudo o que nós fazemos.

CL – Quais são as figuras de estilo que mais gosta de executar?

MA – Gosto muito de saltos, de fazer triplos. É uma sensação diferente, é bom.

CL – Quem viaja consigo nas provas internacionais?

MA – A família viaja sempre comigo. Além disso, sou acompanhada por uma equipa técnica, pelo menos um dos meus treinadores. Nunca vou sozinha, porque todo o trabalho, todo o esquema, é tudo feito em equipa.

Autor: Luís Curado

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