Maria Gameiro: “O Dakar é extremamente exigente a nível físico”

Maria Luís Gameiro, de 48 anos, residente em Cascais, percorreu mais de oito mil quilómetros no deserto da Arábia Saudita, tornando-se a primeira portuguesa em 15 anos a participar no Rali Dakar. A sua ligação ao Todo-o-Terreno começou por influência do marido e ganhou forma com a dedicação ao desporto e o equilíbrio entre a vida profissional e a competição.

Ao longo do percurso enfrentou desafios físicos, técnicos e logísticos, destacando a importância da preparação mental e do trabalho em equipa. Além da performance em prova, assumiu uma vertente solidária ao doar um euro por cada quilómetro percorrido à luta contra o cancro. A experiência no Dakar marca agora o ponto de partida para uma nova fase de aprendizagem e foco em competições internacionais.

O Correio da Linha (CL) – Como surgiu o seu interesse pelo mundo dos motores e do Todo-o-Terreno?

Maria Gameiro (MG) – Desde pequena que gosto de velocidade, mas não tive quaisquer referências familiares nem de amigos que me fizessem enveredar por esta área. Porém, assim que tirei a carta de condução, tornei-me a condutora da família. Quando conheci o José Gameiro, atualmente meu marido, ele já fazia Todo-o-Terreno (TT) e, portanto, daí consegui dar “fôlego” à minha paixão e estreei-me no TT em 2009.

CL – Como concilia a sua paixão pelos ralis com outras responsabilidades ou ocupações?

MG – Não sou profissional de automobilismo. Não pratico TT a tempo inteiro, à semelhança da maioria dos pilotos nacionais. Infelizmente são raras as exceções a esta regra. O desporto motorizado não tem visibilidade suficiente para termos patrocinadores que nos permitam sustentar a prática desta modalidade e por isso temos de ter outras fontes de rendimento. Naturalmente, no último ano, com a dedicação ao projeto do Dakar, tive de contar com o apoio da minha equipa, que tem sido fundamental, sobretudo quando estou ausente ou focada na preparação física, que exige bastante tempo. À exceção deste desafio em particular, consigo conciliar facilmente o trabalho com os treinos e, nos fins de semana em que há corridas, participo nelas.

CL – Houve algum momento ou pessoa específica que a inspirou a seguir este percurso?

MG – Em bom rigor foi o meu marido, José Gameiro, que me abriu as portas para este mundo, até porque até me juntar a ele, nem sabia muito bem o que era o Todo-o-Terreno, para além do Dakar. Era o que surgia em destaque nas notícias. Assim, não tenho dúvidas de que foi ele que me inspirou e que me “empurrou” para começar a correr. É verdade que, com o tempo, tudo foi crescendo e comecei a inspirar-me noutros pilotos. Como mulher, sempre me fascinou a história da Jutta Kleinschmidt, a única até hoje a vencer o Dakar. Ela alcançou algo que representa um verdadeiro marco a que muitas de nós sonhamos chegar.

CL – Sendo que as mulheres ainda não têm uma representação significativa nesta modalidade enfrentou alguns desafios na sua jornada?

MG – Claro. O primeiro passa, muitas vezes, pelo olhar dos outros: em vez de sermos vistas como pilotos, somos primeiro vistas como mulheres. No início, não somos levadas tão a sério. Para além disso, há questões práticas que tornam tudo mais difícil — desde necessidades fisiológicas até à falta de conforto e adaptação por parte das organizações. No campo, por exemplo, não há casas de banho, e os fatos de competição não são pensados para o corpo feminino. São pormenores que muitos nem imaginam, mas que fazem toda a diferença. Apesar de sempre ter sido tratada com respeito pelos meus colegas, demorou algum tempo até que começassem a ver-me verdadeiramente como piloto e concorrente.

Foto: Good News

PARTICIPAÇÃO NO RALI DAKAR

CL – O que a motivou a participar no Rali Dakar, considerado um dos ralis mais desafiantes do mundo?

MG – Para mim, e julgo que para a maioria dos pilotos de Todo-o-Terreno, o que atrai no Dakar é o objetivo de competição. É quase como os Jogos Olímpicos. Para nós estar lá, ter a oportunidade de o fazer já representa por si só uma enorme conquista.  Portanto, é uma referência para todos nós! É a prova rei a nível mundial, não só pela exposição que tem, mas, naturalmente, pela sua dificuldade.

CL – Como foi o processo de preparação para a sua estreia no Dakar 2025?

MG – A minha preparação para o Dakar passou por várias fases. Uma delas, naturalmente, foi a preparação física. Procurei conselhos de pilotos e copilotos portugueses que já tinham participado na prova, tentando absorver o máximo de informação possível. O que todos me disseram, e que acabei por confirmar, foi que o Dakar é extremamente exigente a nível físico. Fiz o melhor que pude, dentro do tempo que tinha disponível, para estar à altura desse desafio.

Sabia também que o lado psicológico seria crucial. Por isso, recorri ao apoio de profissionais especializados em desporto de alta competição, para garantir que a parte mental não se tornava um obstáculo.

Além disso, foi fundamental reunir uma excelente equipa — algo indispensável numa prova desta dimensão. Refiro-me não só à equipa que esteve comigo na Arábia Saudita, mas também à que ficou em Portugal e assumiu muitas das responsabilidades que tive de deixar temporariamente para me poder focar na corrida

CL – Quais foram as principais dificuldades que enfrentou durante a competição?

MG – Sem dúvida, o maior desafio foi a etapa das 48 horas, logo a segunda do rali. Eu e o José Marques, que formava dupla comigo, enfrentámos um sério problema mecânico em plena travessia de dunas, o que nos fez perder imenso tempo. Acabámos por ter de percorrer mais de 80 quilómetros de dunas durante a noite — e não eram umas quaisquer, eram consideradas das mais difíceis de todo o Dakar. Foi uma situação-limite, extremamente exigente, mas ali o fator psicológico e o espírito de equipa fizeram realmente a diferença. A capacidade de manter a calma, tomar decisões e apoiar-nos mutuamente foi crucial. Para mim, esse momento representou o verdadeiro Dakar, o maior teste que enfrentámos em toda a competição.

Foto: Good News

CL – Como foi a experiência de competir nas dunas e terrenos áridos da Arábia Saudita?

MG – Considero que as privações que vivi ao longo daqueles 15 dias deram-me uma nova perspectiva sobre o desafio e também motivação para continuar a fazer melhor. Ultrapassar cada obstáculo foi, em si, uma aprendizagem. Acho que as dunas têm muito para nos ensinar. Elas,que muitas vezes são um dos maiores receios dos pilotos, foram, para mim, verdadeiras aliadas. Durante todo o Dakar, não fiquei atascada uma única vez, o que é algo extraordinário. Claro que, por vezes, sentia alguma apreensão ao enfrentá-las, mas foi aí que o apoio e a experiência do José Marques, fizeram toda a diferença.

A verdade é que sempre gostei de conduzir nas dunas — mesmo nos poucos treinos que fiz antes da prova — mas o Dakar ensinou-me a gostar ainda mais. Há muito que se aprende ali, naquele tipo de terreno, onde tudo está em constante mudança.

CL – Como se sentiu ao ser a primeira portuguesa a competir no Dakar em 15 anos, sucedendo a Elisabete Jacinto?

MG – Senti, desde o início, um grande sentido de responsabilidade — porque, naturalmente, todos queremos dar o nosso melhor. Tinha plena consciência de que o meu carro apresentava várias limitações e de que, a minha experiência era nula. Entre os pilotos de Todo-o-Terreno, muitos consideram que esta edição do Dakar foi uma das mais difíceis de sempre, o que, para mim, é motivo de grande orgulho. Encaro isso como a melhor passagem de testemunho que a Elisabete Jacinto me podia ter feito, e senti sempre uma preocupação em não desiludir quem me acompanhava e acreditava em mim.

No final, senti um enorme alívio e, acima de tudo, uma felicidade imensa por ter conseguido chegar ao fim da prova.

CL – Pode falar sobre a sua iniciativa de doar um euro para a luta contra o cancro por cada quilómetro percorrido?

MG – Tudo isto partiu de um ato simples que foi a escolha de decoração do carro em cor-de-rosa. As pessoas começaram a associar a cor à luta contra o cancro e assim decidimos assumir mais este desafio. Tudo isto tornou-se muito mais do que o realizar de um sonho, ou o cumprir de uma grande aventura, transformada numa mensagem de otimismo e de força. A verdade é que o cheque que entregamos à Liga Portuguesa Contra o Cancro foi o sinal de missão cumprida. Cheguei ao fim do Dakar e com isso contribuí um pouco para esta luta que é de todos.

CL – Como foi a experiência de trabalhar com a sua equipa de apoio durante o rali?

MG – O trabalho da equipa foi absolutamente fundamental, e só posso agradecer a forma como todos se entregaram às suas funções. Sem eles, simplesmente não seria possível. Há um enorme esforço envolvido na preparação da prova, mas quero sobretudo destacar o trabalho no terreno. Os mecânicos e engenheiros foram incansáveis, independentemente do estado em que o carro chegava ao bivaque, conseguiam sempre pô-lo em condições para o dia seguinte. Tudo era resolvido com eficácia, tudo era antecipado e acautelado. Trata-se de um trabalho crucial, embora muitas vezes pouco visível ou até desvalorizado. Mas a verdade é que o sucesso de uma participação como esta depende, em grande parte, da dedicação e competência dessa equipa.

Foto: Good News

DAKAR 2026 EM PREPRAÇÃO

CL – Que aprendizagens retirou desta experiência que pretende aplicar em futuras competições?

MG – Não é fácil resumir tudo o que este Dakar me ensinou. Aprendi muito em muito pouco tempo. A gestão das expetativas é fundamental. Há que ser paciente porque, pese embora se trate de um rali, não é um sprint, é, sim, uma maratona e, portanto, não se pode ser só velocista, tem que se saber cuidar do carro e encontrar o equilíbrio destas duas partes. Psicologicamente, é preciso o estofo de aguentar até ao final, porque são muitos quilómetros em muitos dias. É algo que eu retiro não só para as próximas corridas, mas também para a minha vida pessoal. Admito que trago outra bagagem. Ultrapassar um desafio desta envergadura deixou-me seguramente mais preparada, mais capaz!

CL – Realizar o Dakar 2026 está nos seus objetivos?

MG – Sim, participar no Dakar 2026 é claramente um dos meus principais objetivos. É a meta que me motiva a evoluir constantemente enquanto piloto, a trabalhar em equipa e a aperfeiçoar todas as competências necessárias para enfrentar um desafio tão exigente. Quero chegar ao Dakar preparada, confiante e pronta para dar o meu melhor.

CL – E já realizou algumas provas de preparação…

MG – Primeiramente realizei um importante teste, promovido pela X-Raid, em Chateaux Lastours, no sul de França. Este teste foi fundamental para voltar a ganhar ritmo competitivo depois de cerca de três meses sem competir. Foi ótimo reencontrar-me com o meu Mini T1+ e trabalhar em evoluções técnicas e pessoais. Aproveitámos para testar novas afinações do carro e reajustar detalhes importantes, tanto na condução como na comunicação dentro do carro. Foi também um momento valioso para reforçar a sintonia com a minha navegadora, Rosa Romero, algo essencial para um bom desempenho. Além disso, tive a oportunidade de trocar impressões com o Denis Krotov, um piloto muito experiente, o que me permitiu aprender e aperfeiçoar ainda mais a minha técnica. No final, saí deste desafio com excelentes sensações e bastante confiança para enfrentar outro desafio: a Baja España Aragón. Mas antes disso ainda alcancei um 5º lugar no Morocco Desert Challenge.

CL – Relativamente à Baja España Aragón descreve esta experiência e o que representou para si competir novamente em solo europeu?

MG – Foi um regresso muito especial. A Baja España Aragón é uma prova com enorme tradição e um ambiente altamente competitivo. Esta prova tem um percurso técnico e exigente, com zonas rápidas, setores de média velocidade e uma navegação que exige grande precisão. Enfrentámos 797 quilómetros de prova, dos quais 545 cronometrados, divididos por três setores seletivos. A região de Teruel tem um terreno árido e desafiante, que coloca à prova tanto o piloto como a máquina. Estar novamente entre pilotos de topo mundial — como Nasser Al-Attiyah, Nani Roma, Cristina Gutiérrez ou Laia Sanz — foi um verdadeiro privilégio. Competi numa grelha com 165 equipas inscritas, o que demonstra o nível desta corrida.

Foto: Good News

CL – Que balanço faz desta participação e de que forma esta prova contribuiu para a sua preparação rumo ao Dakar 2026?

MG – O balanço foi muito positivo. A Baja España Aragón é uma prova histórica e extremamente técnica, o que a torna um excelente treino para o Dakar. Depois das dunas e da areia de Marrocos – que enfrentámos no Morocco Desert Challenge onde conquistámos o 5º lugar – este foi um desafio completamente diferente: pistas duras, rápidas e muito exigentes fisicamente. O ritmo foi alto desde o primeiro quilómetro e foi preciso gerir bem a concentração e o carro. Estivemos focadas em manter consistência e em ganhar experiência, sem perder de vista que o nosso principal objetivo é a preparação para o Dakar 2026.

CL – Mais recentemente participou na Baja de Marrocos, na qual, o ano passado alcançou o 16º lugar, tendo sindo a 1ª mulher a concluir a prova…

MG – A Baja de Marrocos é muito mais do que uma prova, é um verdadeiro Rally Raid de cinco dias, com setores seletivos muito exigentes, incluindo noturnos, e uma etapa maratona que testa ao limite a resistência e a navegação. Este ano o percurso total rondou os 1350 quilómetros, dos quais 1300 cronometrados, com 14 setores seletivos atravessando ergs, dunas, pistas rápidas e até trechos de asfalto. Tudo se desenrola em Merzouga, no coração do deserto do Saara, o que facilita a logística das equipas, mas não reduz a dureza do desafio. É uma competição que recria o ambiente das grandes maratonas africanas e é a preparação ideal para o Dakar 2026.

O resultado de 2024 foi um marco muito importante, sobretudo por ter sido a primeira mulher a terminar a Baja de Marrocos, algo que guardo com orgulho. Sinto que, desde então evoluí bastante, tanto em termos técnicos como na gestão da prova e da navegação. Regressar este ano é uma forma de continuar esse crescimento.

CL – Este ano alcançou uma vitória nesta prova. Como descreve esta conquista?

MG – Terminar com o segundo lugar nos Automóveis, o sétimo na geral e o triunfo entre as mulheres foi um resultado muito positivo. Representou consistência, trabalho e experiência acumulada ao longo do ano. Estou muito feliz com o que conseguimos nesta Baja — recuperámos depois de momentos difíceis e terminámos fortes, o que me deixa realmente satisfeita.

CL – Para além do resultado, esta prova serviu como mais um momento de preparação para o Dakar 2026…

MG – O grande objetivo era precisamente esse: evoluir e preparar-nos da melhor forma para o Dakar. A etapa maratona foi particularmente exigente, mas mantivemos o foco e a estratégia, aproveitando cada quilómetro para ganhar ritmo e confiança. Apesar do pódio, o nosso foco esteve sempre na aprendizagem e na preparação. A Baja de Marrocos é um teste completo: resistência, navegação, gestão do carro e mentalidade. Esta edição mostrou que estamos no caminho certo. Agora é continuar a trabalhar e a preparar-nos para o próximo desafio — a Baja do Dubai, no final de novembro.

CL – Que conselho daria a outras mulheres que desejam ingressar no mundo das competições de todo-o-terreno?

MG – O conselho que deixo aplica-se não só ao todo-o-terreno, mas à vida em geral: aproveitem todas as oportunidades que surgirem e não tenham medo de falhar. Será preciso alguma teimosia, muita resiliência e, talvez, uma boa dose de audácia. Mas, acima de tudo, façam! Atrevam-se. Arrisquem. Sigam os vossos sonhos com determinação — porque é isso que faz a diferença.

NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Foto: Good News

Autor: Raquel Luís

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.