O Pavilhão Henrique Miranda voltou a revelar-se pequeno para a energia que transbordou do XVI Torneio Fernando Paulino, organizado pelo Clube Atlético de Queluz (CAQ), que se realizou entre 6 e 8 de dezembro. Durante três dias o recinto encheu-se de crianças em movimento, companheirismo, fair-play, aplausos e espírito de entreajuda. A edição deste ano reuniu 450 jovens atletas, 70 jogos, 20 equipas, 8 árbitros em formação e cerca de 50 voluntários, transformando o pavilhão numa verdadeira casa do basquetebol formativo.
No total participaram 12 clubes – com algumas associações a levarem mais do que um escalão. A organização decidiu alargar o convite e envolver mais clubes do que em anos anteriores, seguindo o lema “todos até Queluz”. O objetivo, explica Telmo Botelho, coordenador do minibasket, foi simples: “Este ano quisemos fazer algo diferente e trazer mais gente a esta nossa festa.” Entre os participantes estiveram o Basket de Loures, o Sport Algés e Dafundo, o 5Basket, o Maria Pia Sport Club, o Sport Lisboa e Benfica, o Sporting Clube de Portugal, o Paço de Arcos Clube, os Linces de Mafra, o Odivelas Basket Clube, o Barreirense Basquetebol e Os Belenenses Basquetebol.
Telmo Botelho recorda a responsabilidade que assumiu ao ingressar no clube: “Quando cheguei ao Queluz, o torneio já existia. Percebi logo que era um momento importante, uma tradição que honra Fernando Paulino, alguém que formou muitos jovens e deixou marca.” Com o tempo, essa perceção aprofundou-se: “Quando comecei a contactar os clubes para os convidar, percebi que já havia um peso histórico associado ao torneio. Até a tradição de receber o 5Basket, de Gondomar, é de longa data. Este é um torneio de minibasket de Natal, um momento para juntarmos o máximo de comunidade, famílias e gente do clube, para homenagear uma pessoa que foi muito importante.”

Apesar da dimensão do evento, o torneio decorreu sem contagem oficial de pontos, uma escolha consciente que alterou o ambiente nas bancadas e no campo. “A vontade de ganhar está no ser humano, mas o espírito do minibasket não é esse. O importante é aprender, evoluir e divertir-se. E sem resultados oficiais, tudo corre de forma mais saudável”, explica o coordenador. Porém, a competitividade, garante, não desaparece: os próprios atletas fazem questão de contar o marcador, mas torna-se mais leve, mais pura e fiel à ideia de formar antes de comparar.
Para os treinadores do CAQ, o torneio funciona também como um momento de avaliação do trabalho realizado desde o início da época. Jogos consecutivos e adversários exigentes proporcionam um cenário ideal para perceber quem está pronto para dar um passo em frente. “Entre dezembro e janeiro temos a primeira etapa do nosso planeamento anual. É nesta altura que começamos a decidir quem pode treinar e, até, competir num escalão acima”, adianta Telmo Botelho, sublinhando ainda a importância da assiduidade e do empenho: “Os nossos miúdos chegam, de modo geral, a esta altura da época, com aquilo que definimos bem apreendido. Aqueles que treinam regularmente correspondem bem em jogo; quem falta, naturalmente não evolui tanto. Portanto, estamos satisfeitos: a maior parte dos miúdos evoluiu, e quem não evoluiu, sabemos o motivo…e isso é totalmente visível num torneio como este.”
Para muitos dos pequenos atletas, este foi o primeiro contacto com um torneio prolongado, e o impacto emocional — o orgulho, a camaradagem e a diversão dentro e fora do campo — superou qualquer cansaço físico. Logo após o último dia de competição, foi dia de treino e os “minis” mostraram-se com a mesma energia e entusiasmo.

UM TORNEIO QUE MOBILIZA TODA A COMUNIDADE
No que respeita aos apoios para a realização do torneio, a Câmara Municipal de Sintra garantiu, como já vem a ser hábito o acesso à cantina da escola, permitindo que o 5Basket, de Gondomar, pudesse almoçar no local. Por sua vez, a Associação de Basquetebol de Lisboa cedeu árbitros jovens em formação. O torneio contou ainda com dezenas de voluntários que se revezaram no bar, colaram cartazes, limparam, deram boleias, montaram e desmontaram estruturas, assegurando que nada faltasse. Muitos ajudaram mesmo sem terem filhos no clube. Para Telmo Botelho, esse é um dos aspetos mais comoventes do evento: “Não tem preço. Ver tanta gente a dar o seu tempo, a sua energia, mesmo sem ligações diretas… é um verdadeiro trabalho de equipa.”
O torneio assume ainda um papel motivador para os pais e familiares, uma vez que todas as receitas angariadas revertem para apoiar a participação da equipa no torneio de Carnaval em Valongo, no Porto. Este apoio concreto incentiva os familiares a envolverem-se ativamente, contribuindo para o sucesso logístico e comunitário do evento.
Entre jogos, sorrisos, quedas, abraços e conquistas, o torneio foi também uma afirmação do papel do clube na formação. O coordenador lembra que, no país, são poucos os emblemas que tratam o minibasket como prioridade. “Há clubes onde o minibasket serve apenas para dar receita. Aqui não. O Queluz tem um coordenador só para minibasket e isso é raríssimo em Portugal. Somos assumidamente um clube de formação.” Atualmente, o clube conta com cerca de 70 crianças inscritas, embora sejam 50 a 55 a treinar regularmente.
Com a energia ainda no ar, já se fala do que vem a seguir. Em fevereiro, os jovens minis rumam ao norte para participar nos tradicionais torneios de Carnaval em Gondomar e Valongo. Em junho realiza-se o torneio “Cidade de Queluz”, sub-12, que depois de ter recebido 10 equipas o ano passado, procura este ano aumentar ainda mais a participação, sobretudo de equipas fora da região de Lisboa.
No final, o que fica não são resultados nem troféus, mas memórias. O brilho nos olhos, a amizade, a superação, o orgulho de vestir as cores do clube e a certeza de que, durante três dias, Queluz respirou basquetebol. O torneio que começou para homenagear um nome continua, ano após ano, a honrar aquilo que Fernando Paulino mais defendia: formar pessoas, unir a comunidade e manter viva a paixão pelo jogo.
NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico























