Fernando Lemos: “Estou próximo de realizar mais um desejo no GDDA”

O Grupo Desportivo de Deficientes de Alcoitão (GDDA) acumula o título de campeão nacional da época 2024/25 com a conquista da Supertaça de Basquetebol em Cadeira de Rodas (BCR). Esta conquista foi assegurada num encontro realizado dia 18 de Outubro, em Torres Vedras, frente à equipa da Associação Portuguesa de Deficientes (APD) de Braga, detentora de oito Supertaças, que os cascalenses, comandados pelo treinador Fernando Lemos, venceram por 57-36.

A terceira Supertaça a dar entrada no palmarés do GDDA veio marcar também o regresso do clube ao patamar mais alto desta modalidade do Desporto Adaptado, 30 anos depois do último título alcançado pelo emblema na competição, na época 1994/95. O clube tem-se afirmado como uma referência no BCR, com um total de cinco Campeonatos Nacionais, três Taças de Portugal e três Supertaças, além de uma vitória no Torneio Internacional de Lisboa.

Entretanto, está já confirmado que o GDDA fará a sua estreia absoluta nas provas europeias de BCR no próximo ano (23 a 26 de Abril), mais concretamente na EuroCup 4, plataforma de apuramento para a fase de grupos da temporada seguinte da EuroCup 3, tornando-se na terceira equipa portuguesa a atingir as competições internacionais de clubes organizadas pela IWBF Europe, depois da APD Sintra e da APD Braga.

A hierarquia das competições europeias de BCR é a seguinte: Champions Cup, EuroCup 1, EuroCup 2, EuroCup 3 e EuroCup 4. Inserido no Grupo A da EuroCup 4, nesta primeira participação europeia o GDDA vai defrontar os Rebel Wheelers (Irlanda), os Reading Rockets (Grã-Bretanha), os Sunrise Medical Shooters (Holanda) e os Megas Alexandros 1994 (Grécia). Na época seguinte, o vencedor do grupo assegura passagem à fase de grupos da EuroCup 3.

O jornal ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa com o treinador Fernando Lemos para saber mais sobre o percurso do GDDA, conhecer as expectativas do técnico para as competições que aí vêm, nomeadamente a estreia do Clube na jornada europeia, protagonizada por um grupo vencedor, resultante de um “sonho iniciado há cerca de cinco anos”, depois da pandemia COVID-19 e da profunda reestruturação da equipa, que tem Hugo Maia como capitão.

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“SEMPRE TIVE CURIOSIDADE PELO DESPORTO ADAPTADO”

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – Há quanto tempo treina a equipa de BCR do Grupo Desportivo de Deficientes de Alcoitão (GDDA)?

Fernando Lemos (FL) – Estou a iniciar a oitava época desportiva

CL – Porquê o Basquetebol Adaptado?

FL – Sou treinador de Basquetebol há 35 anos, desde os meus 17 anos. Sempre tive curiosidade pelo Desporto Adaptado. Em 2018, surgiu a oportunidade de experimentar, gostei e abracei este projecto desde então.

CL – O que significou para si o triunfo alcançado na Supertaça frente à APD Braga?

FL – Foi uma afirmação da equipa e do clube enquanto projecto desportivo, que tem registado um crescimento sustentado, e confirmou o facto de ser Campeão Nacional em título frente a um adversário (APD Braga) que tem tido a hegemonia do BCR Nacional na última década.

CL – Como viveram os atletas esta conquista?

FL – Com natural satisfação, por terem alcançado mais um objectivo, que alimentávamos desde a pré-temporada, e por se afirmarem definitivamente no panorama nacional.

CL – O GDDA vai estrear-se nas competições europeias de BCR no próximo ano. Como encaram os jogadores a participação no EuroCup 4? O que representa para eles?

FL – Será o realizar de um sonho poder representar o clube e o País numa competição de alto nível internacional, só anteriormente disputada por duas equipas portuguesas (APD Sintra e APD Braga). Será, certamente, mais um momento de afirmação para os atletas e a possibilidade de serem vistos em palcos importantes, o que naturalmente os valorizará.

CL – Está previsto algum plano especial de preparação com vista a esta participação? De que tipo?

FL – O plano de preparação será a nossa época desportiva. A exigência já é grande, uma vez que estamos a defender o título nacional que conquistámos a época passada. Por consequência, teremos sempre de trabalhar ao mais alto nível. Gostaríamos, adicionalmente, de agendar jogos de preparação com equipas espanholas. Estamos a envidar esforços nesse sentido, no entanto não temos ainda nada confirmado.

CL – Enquanto treinador, quais as suas expectativas para esta participação na fase de grupos na EuroCup 4?

FL – Primeiramente, ser competitivo em todos os jogos e mostrar à Europa que em Portugal também se trabalha de forma séria e comprometida. Logicamente, tenho também o sonho de fazer algo que ainda não foi feito. Ou seja, parafraseando José Torres, ex-seleccionador nacional de Futebol: “Deixem-me Sonhar!”

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“BASTA APARECER NOS LOCAIS DE TREINO”

CL – Quantos atletas tem o clube no BCR?

FL – Neste momento, contamos com 22 atletas inscritos.

CL – O que é preciso fazer para poder ingressar neste projecto? Como atleta e como apoiante?

FL – Basta aparecer nos locais de treino, ou contactar-nos através dos nossos contactos oficiais disponíveis em www.gddalcoitao.com

CL – Quantos atletas paralímpicos em BCR tem a equipa do GDDA? Quais os seus nomes?

FL – O GDDA conta com seis atletas internacionais (Hugo Maia, Lassana Indjai, Ângelo Pereira, André Gomes, Afonso Tavares e Ahmat Afaskov) seniores e Sub-23 não paralímpicos (VER), uma vez que Portugal nunca se apurou para os Jogos Paralímpicos na modalidade de BCR. No entanto, estes atletas competem com regularidade em Campeonatos da Europa e Jogos Paralímpicos da Juventude Europeia.

CL – Entre que idades têm os atletas da equipa? O mais novo e o mais velho?

FL – Entre os 16 anos, no caso do Maxim, que é um atleta jovem em formação e iniciou este ano a prática da modalidade, e os 63 anos do Carlos Arrais, o nosso decano, que foi um baluarte da equipa que conquistou o tetracampeonato na década de 90 do século passado.

CL – Quais as principais dificuldades que enfrentou enquanto treinador de BCR?

FL – A principal dificuldade que enfrentei, inicialmente, foi entender as dificuldades de cada atleta e a sua adaptabilidade ao jogo, para que também eu pudesse adaptar-me e fazer o transfer entre o Basquetebol convencional e o BCR.

CL – Quando e como surgiu o GDDA?

FL – O GDDA surgiu na década de 1970, quando foi introduzida a prática do BCR no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão (CMRA), no âmbito de um programa destinado à reabilitação de pacientes com limitações motoras.

CL – Que tipo de instituição é esta? Quais os seus principais objectivos?

FL – Trata-se de um clube desportivo dedicado a modalidades adaptadas para pessoas com mobilidade reduzida. Temos o objectivo desportivo de formar atletas e conquistar títulos sem descartar a missão social de reabilitar e facilitar a integração destas pessoas na sociedade.

CL – Qual a ligação do Grupo Desportivo de Deficientes de Alcoitão ao CMRA?

FL – Essa ligação não existe há décadas. No entanto, temos desenvolvido algumas acções com o objectivo de nos reaproximarmos da instituição para encaminhar as pessoas com mobilidade para o Desporto no seu processo de reabilitação.

CL – Para além do BCR, que outras modalidades de Desporto Adaptado podem ser praticadas no GDDA?

FL – Neste momento, estamos a reabrir a secção de Atletismo Adaptado de forma a ampliarmos a oferta desportiva do clube. Quem sabe, mais modalidades virão depois desta.

CL – Com quantos sócios conta o GDDA?

FL – Actualmente, o GDDA não tem sócios. Estamos a trabalhar para mudar este paradigma.

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“O NOSSO PARCEIRO PRINCIPAL É A CÂMARA DE CASCAIS”

CL – Com que apoios conta o GDDA?

FL – O nosso parceiro principal é a Câmara Municipal de Cascais (CMC), que tem permitido continuarmos a nossa missão desportiva no concelho. Outros são a Federação Portuguesa de Basquetebol e a Associação de Basquetebol de Lisboa. Alguns parceiros pontuais têm facilitado a nossa missão, como é o caso, nesta época, da Telmo Morais Serralharia Civil. Todos têm um relevo de extrema importância para conseguirmos realizar o nosso trabalho com maior qualidade.

CL – O Desporto Adaptado é devidamente apoiado em Portugal? O que falta fazer?

FL – Felizmente, a CMC tem sido um bom exemplo do que uma autarquia deve fazer em prol do desenvolvimento do Desporto Adaptado. Sabemos que nem todas as autarquias funcionam tão bem, no entanto julgamos que os incentivos, ou mesmo obrigatoriedade de entidades privadas, empresas, de apoiar instituições, como é prática noutros países, seria uma medida que permitiria um melhor trabalho destas instituições.

CL – Onde é que a equipa de BCR do GDDA costuma treinar? Tem algum espaço próprio? Com que infraestruturas conta?

FL – A equipa treina três vezes por semana. Às terças e quintas-feiras, treina na escola Básica Pereira Coutinho, em Cascais, e, às sextas-feiras, na Escola Secundária de Alvide, no pavilhão onde jogamos habitualmente em casa. Estes espaços são-nos cedidos pela CMC, uma vez que não dispomos de infraestruturas próprias

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CL – Com quantas equipas conta o Campeonato de BCR em Portugal? Quantos jogos são realizados por época no Campeonato? Existem vários escalões?

FL – A Liga BCR conta com sete equipas. Realizamos entre 12 e 22 jogos no Campeonato Nacional dependendo do apuramento ou não para os Playoff. Não existem escalões de formação no BCR, nem competição feminina, pelo que todos os atletas jogam conjuntamente independentemente da idade ou do género.

CL – Como decorrem a Taça e a Supertaça? Quem participa?

FL – A Taça de Portugal conta com a participação das sete equipas da Liga BCR mais a participação de uma equipa da Madeira, que por razões logísticas não consegue participar na Liga. O formato da competição está desenhado com 1/4 final em eliminatória, seguida de uma Final Four entre os quatro apurados disputada num fim-de-semana em pavilhão neutro. Por sua vez, a Supertaça disputa-se num único jogo, também em pavilhão neutro, entre o Campeão Nacional e o vencedor da Taça de Portugal.

CL – O GDDA tem participado ou promovido actividades destinadas a dar a conhecer melhor o Desporto Adaptado no País?

FL – Participámos recentemente na Semana Europeia da Mobilidade e na Semana Europeia do Desporto, sendo que é frequente deslocarmo-nos a escolas para dar a conhecer o BCR e o nosso trabalho.

CL – Qual a importância do Desporto Adaptado na vida destes atletas?

FL – O Desporto Adaptado muda completamente a vida destes atletas, reforça a sua confiança, autoestima e a determinação para enfrentarem todos os desafios a que estão sujeitos nas suas vidas.

CL – Um desejo por realizar no GDDA no âmbito do Desporto Adaptado?

FL – O desejo por realizar está muito próximo de se concretizar, é a participação numa competição europeia, que ocorrerá em Abril de 2026 na EuroCup 4 a disputar em Cork, na Irlanda.

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UM POUCO DE HISTÓRIA

A criação do Grupo Desportivo de Deficientes de Alcoitão (GDDA) resultou da vontade de dar resposta à dificuldade de promover a prática do Basquetebol em Cadeira de Rodas (BCR) por parte de um grupo de pacientes com limitações motoras utentes do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (CMRA).

A prática da modalidade de BCR foi introduzida no CMRA durante a década de 1970, no âmbito de um programa destinado à reabilitação de pacientes acompanhados na instituição, sendo que estas actividades de Desporto Adaptado começaram por ser, inicialmente, financiadas pelo próprio Centro.

Mais tarde, elementos envolvidos no programa mostraram desejo de constituir uma equipa formal de BCR, propondo ao CMRA a sua inscrição na Associação Nacional de Desporto para Deficientes Motores, entidade tutelada pela Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência, com o objectivo de participar em competições oficiais.

A equipa de BCR, entretanto formada, acabou por reunir adeptos em torno do projecto, não apenas entre os utentes do CMRA, mas também junto de outras pessoas com deficiências motoras, incluindo sobreviventes de poliomielite, portadores de lesões medulares e outros cidadãos com mobilidade reduzida que não eram pacientes do Centro.

Entretanto, face ao aumento dos encargos resultantes da participação nas competições oficiais, o CMRA deixou de assegurar o apoio financeiro à equipa, o que levou os atletas a avançar com a constituição do GDDA, uma entidade autónoma, sem fins lucrativos, dedicada à prática e promoção de várias modalidades de Desporto Adaptado.

Entre as modalidades desportivas promovidas pelo clube cascalense, figuravam o Tiro com Arco, o Atletismo, o Ténis de Mesa, o Boccia, a Natação, o Goalball e o BCR. Contudo, devido a limitações financeiras, apenas esta última modalidade conseguiu manter-se activa em funcionamento contínuo ao longo de cinco décadas.

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Autor: Luís Curado

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