Pepita Tristão: “Letras são indispensáveis na minha vida”

A imprensa regional teve na área da Grande Lisboa uma grande dinâmica a seguir ao 25 de Abril e até à primeira década deste século, desaparecendo depois na quase na totalidade, nomeadamente os jornais que faziam a cobertura noticiosa dos concelhos de Oeiras, Cascais, Sinta e Amadora.

Estes jornais contaram ao longo dos anos com muitos jornalistas que deixaram a sua marca nesta região, uns infelizmente já desaparecidos outros que continuam a alimentar o prazer de informar. 

Uma jornalista que ainda continua no ativo é Pepita de Alegria Sanchez Tristão Cardoso, com quem “O Correio da Linha” conversou.

Natural de Castelo de Vide, onde nasceu em 1951, frequentou o Colégio Nossa Senhora da Penha, vindo para Cascais com 19 anos, onde completou o 12º ano, entrando mais tarde na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que frequentou até ao 3º. Ano.

A sua atividade ligada às letras começou aos 14 anos com a publicação de poesias no jornal da sua terra “Terra Alta”. Quanto veio para Cascais, a par do seu emprego numa empresa, iniciou a colaboração na página juvenil da revista “Modas e Bordados” que depois do 25 de Abril, mudaria o nome para “Mulher Modas e Bordados ” colaborou com o “Jornal da Costa do Sol”, tendo em 1972 criado uma página juvenil designada “O Facho”, onde a censura gostava de fazer os seus riscos azuis. Colaborou também com o Jornal “A Nossa Terra” a revista “Podium” e o jornal “República”, inicialmente com contos infantis, na página semanal dedicada aos mais pequenos, e depois também com algumas reportagens. 

Em 2018, Pepita Tristão recebeu da Junta de Freguesia de São Domingos de Rana a Medalha de Mérito Cultural.

Correio das Linha – Foi fácil fazer carreira no jornalismo?

Pepita Tristão– Eu era nessa altura era a única mulher nesta zona a fazer este trabalho e era portanto uma menina muito acarinhada, recordo que assisti, por exemplo, à apresentação do projeto para a construção do Autódromo do Estoril, tendo-me sido explicado todo o projeto pelo presidente da Câmara de Cascais. 

O jornalismo começou para mim a tempo inteiro, em 1973, por convite do “Jornal Costa do Sol”, o que me levou a deixar o emprego que tinha nessa altura, na Presidência da República, como tradutora. Para equilibrar as finanças, acostumei-me, desde então, a colaborar com diversas publicações, sob pseudónimo.

CL- O 25 de Abril foi uma marca na tua vida e não só pela mudança do regime…

PT-Antes do 25 de Abril, em 1973, conheci o César, filho do fotógrafo César Cardoso, que profissionalmente começava a seguir os passos do pai. Passamos o 25 de Abril juntos, fomos fotografar o 1 de Maio de 1974, na Alameda e em novembro desse ano, casamos em Cascais.

Algum tempo depois colocou-se a possibilidade de ir trabalhar para o jornal “Diário de Lisboa” depois de ter falado com o Torquato da Luz, mas entretanto o diretor do “República”, Raul Rego, convidou-me para a redação e eu precipitei-me, despedi-me do “Costa do Sol” e quando fui assinar contrato com o “República”, o diretor disse-me que devia ingressar no Partido Socialista, o que eu recusei, por não querer prender-me a qualquer partido.

Estava convicta que entraria para o “Diário de Lisboa”, mas o Torquato da Luz explicou-me que com o regresso dos portugueses das colónias, deram prioridade aos jornalistas que trabalhavam lá e tinham ficado sem emprego.

CL-Foi o início de um interregno no jornalismo?

PT-Sim, já estava grávida do César, o meu filho mais velho e com um enorme barrigão, achei que não encontraria emprego enquanto ele não nascesse, pelo que decidi procurar um trabalho mais compatível com a vida de mãe. Entretanto engravidei outra vez e só depois do nascimento da minha filha é que fui trabalhar para a Carris, onde estive 15 anos. 

Durante esse período frequentei a Faculdade de Letras, fui escrevendo pequenos textos para diversos jornais, e investi mais na ficção. 

Anteriormente já publicara no “Diário de Lisboa” um ou dois contos, numa rubrica intitulada “Um conto por um conto” e nestes anos de escritório, aproveitei o tempo para participar em diversos concursos literários, tendo ganho alguns prémios. Como nesse tempo a maior parte dos concursos não atribuíam prémios pecuniários, compensavam os participantes com a edição de coletâneas das obras vencedoras. Foi assim que vi editados alguns dos meus contos e poemas.

CL -Mas também exploraste a faceta de empresária, como correu?

PT- Quando me despedi da Carris, por mútuo acordo, recebi uma pequena indemnização que investi na abertura de uma papelaria na Parede. A minha experiência como empresária foi curta e dolorosa, restando-me apenas a satisfação de não ter ficado a dever nada.

Quando estava quase a encerrar a loja, o arquiteto Viana Mendes, diretor do jornal regional “A Zona”, convidou-me para coordenar um curso profissional de jornalismo que estavam a ministrar naquele semanário, aceitei e depois do curso terminar fiquei na Zona, como chefe de redação, até, salvo erro, 1996.

CL- Mas voltaste ao “Costa do Sol”, como é que isso aconteceu?

PT-O então diretor do “Jornal da Costa do Sol”, Viriato Dias, formulou-me uma proposta convincente e eu decidi acabar a carreira de jornalista onde havia começado. 

Durante os cerca de 15 anos que estive neste semanário, escrevi também para outros, incluindo o diário, “24 Horas”, com o qual comecei a colaborar desde que era apenas um projeto. Lembro-me que durante quatro ou cinco, meses antes de sair a público, fiz reportagens com um fotógrafo enviado de Lisboa, apenas para as edições experimentais internas, o que eu considerava uma autêntica bizarria.

CL-Depois do “Costa do Sol”, criaste um jornal online, como é que está a resultar?

PT-Não podia adivinhar, quando regressei ao Costa do Sol, é que este encerraria, sem qualquer aviso, nem carta de despedimento. Por coincidência, a minha mãe ficou acamada nessa altura e com necessidade de cuidados permanentes, pelo que a única solução que arranjei foi a reforma antecipada, muito penalizada.

Entretanto, em 2006, tinha iniciado com o meu filho mais novo, Miguel, um jornal digital, o “Cyberjornal”, que embora nunca tenha explorado comercialmente, tenho mantido até hoje, dando especial ênfase, às iniciativas ligadas à cultura. 

CL-Durante vários anos viveu-se, entre os jornalistas, que trabalhavam sobretudo em Oeiras e Cascais, um ambiente muito agradável, como é que recordas isso?

PT-Era uma festa trabalhar, porque nos divertíamos uns com os outros sem descorar o trabalho e havia entreajuda em vez da competição que se verifica hoje. 

CL-Além do jornalismo, tens dedicado parte do teu tempo à literatura, fala-nos um pouco disso. 

PT-Em 2000 publiquei o meu primeiro livro a solo, um livro de contos para adultos, “O meu Universo é uma bola de pingue-pongue”, a convite do António Salgueiro, que tinha aberto uma editora chamada, “Vão de Escada”.

Desde então tenho vindo a publicar diversas coletâneas de contos com outros escritores, como a Maria de São Pedro, que coordenou a maior parte delas, José Jorge Letria e Maria Alberta Menéres.

O último livro que editei foi “O Engenho Humano e a Arte de Navegar”, que fala sobre os magníficos trabalhos de artesanato do Mestre Ilídio Carapeto (entretanto falecido), que fez uma grande pesquisa sobre a história da navegação e reproduziu em madeira, embarcações de todas as épocas e partes do mundo. 

Presentemente, estou a acabar de escrever um outro livro, sobre um poeta local, que no início do século passado foi pioneiro em levar e divulgar o Fado para fora do continente.

Para além desse livro, tenho na gaveta vários outros, de romance, contos e poesia, que aguardam edição.

CL-Como é que vez a existência do Dia da Mulher?

PT-Estou desejando que não haja Dia da Mulher, infelizmente isso não vai sendo possível porque as coisas cada vez estão piores, é assustador o panorama, sobretudo no que se refere à violência sobra as mulheres, estamos no século XXI e parece que em vez de evoluirmos estamos a regredir, mas espero que este dia deixe rapidamente de se justificar. 

Autor: Alexandre Gonçalves

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