Jorge Delgado: “Pretendo concretizar projeto do Rossio de Porto Salvo”

Eleito presidente da Junta de Freguesia de Porto Salvo, Jorge Delgado, junta esta responsabilidade à direção do Grupo Recreativo Leões de Porto Salvo, que dirige desde 1997, cargo que assumiu numa altura em que o clube estava em dificuldades, colocando a sua experiência de empresário e gestor ao serviço da sobrevivência da instituição e da continuidade da prática desportiva dos jovens que a frequentavam. ‘O Correio da Linha’ conversou com Jorge Delgado sobre os seus planos de gestão da Freguesia.

Correio da Linha – Este assumir da presidência da Junta é uma transição nas suas prioridades?

Jorge Delgado (JD) – Não é uma transição, é mais uma sequência natural. Os Leões de Porto Salvo e outras forças vivas da freguesia, em que é rica, com coletividades, ranchos folclóricos, um tecido associativo numeroso e com qualidade, contribuíram, no final dos anos 90, face à vinda de muitas pessoas de diversas origens, com um papel importante para que a inserção social dessas pessoas corresse muito bem.

Portanto, eu diria que este caminho é uma sequência. Ao longo dos anos, enquanto dirigente desportivo e associativo, sempre tentei que a coletividade tivesse resultados desportivos e uma atenção grande no que é a formação dos homens de amanhã. Nessa perspetiva, os Leões desempenharam e continuam a desempenhar um papel muito significativo, não só naquilo que é a nossa terra, porque quando se fala dos êxitos desportivos fala-se de Porto Salvo, mas também no nosso ADN, que está na formação de homens e mulheres.

Hoje, já estamos em sete espaços diferentes, em Porto Salvo e noutros locais, como Carnaxide e Linda-a-Velha, com dois polos, um deles, feminino, pelo que temos um grande papel social.

CL – Como é que aparece esta faceta política?

JD – Penso que todos nós, no nosso dia-a-dia, temos de ser um pouco políticos. Eu entendo isto como uma consequência direta de alguém que tem, ao longo dos anos, dedicado muito do seu tempo a Porto Salvo e às suas gentes. Numa primeira fase, aos mais jovens, com projetos nas escolas e nos bairros municipais, e agora também aos seniores acima dos 50 anos. O pavilhão acolhe, três vezes por semana, iniciativas para quem tem mais de 55 anos.

O meu aparecimento na Junta, através do convite endereçado pelo presidente da Câmara, Isaltino Morais, julgo vir na perspetiva de eu ser alguém que, ao fim destes 30 anos, tem obrigação de conhecer bem a realidade de Porto Salvo, não só associativa e desportiva, mas também social, e também por a minha atividade profissional, de mais de 40 anos, ter ligação às empresas, seja por ser CEO, empreendedor ou acionista. Porto Salvo tem a riqueza de ter na sua área geográfica dois dos mais importantes parques empresariais do País, o Taguspark e o Lagoas Park, sendo uma das três freguesias portuguesas onde há maior produção de riqueza. 

CL – Isso vai influenciar o seu trabalho?

JD – A minha posição de presidente de Junta, apesar de só o ser há três meses, claramente é trabalhar em prol da melhoria das condições de vida das pessoas que aqui vivem e se orgulhem de aqui viver, e dar condições também para que quem venha para a freguesia possa aqui fazer as suas vidas e criar os seus filhos. Isto já aconteceu no passado, por exemplo, com o Bairro da Autoconstrução, só que os tempos são diferentes. 

Foto: Jorge Rodrigues

PESSOAS QUE HONRAM TRADIÇÕES

CL – Quando fala em desenvolvimento, isso tem a ver com o facto de haver alguma ideia de, apesar das áreas empresariais, Porto Salvo ser ainda um pouco rural?

JD – Não concordo com essa ideia. Felizmente, Porto Salvo tem a beleza de ter zonas com população que honra as tradições, pessoas que vivem aqui há 60 ou 80 anos, que aqui nasceram, que são uma mais-valia, pelo amor que têm a esta terra, onde criaram os filhos e têm ao seus netos, mas tem hoje uma vertente de mais desenvolvimento e de potencial futuro que rapidamente vai ultrapassar essa população. Nunca devemos esquecer esse passado, porque é importante ter uma identidade e o que é inteligente fazer é juntar as mais-valias de cada uma das partes.

Temos hoje aqui grandes empresas, na área da Saúde, da Sibersegurança, das tecnologias de informação, dos operadores, do setor financeiro, o Taguspark como cidade do conhecimento, da cultura, o polo do IST, etc..

Porto Salvo não é o de antigamente, e se não está totalmente desenvolvido… ainda bem, é um desafio para mim e para o meu executivo, há que o fazer crescer, aproximar essas realidades pegando no que há de bom do antigamente e aproveitar o potencial da gente nova que para aqui vem morar. Sabemos que há dificuldade na habitação, mas felizmente Oeiras e Porto Salvo julgo que são um exemplo nesse aspeto. Tem havido muito investimento, por parte da Câmara de Oeiras, no sentido de que todos tenham uma habitação condigna, mesmo quem tem menos posses, o que tem sido um dos desígnios do presidente Isaltino Morais.

E o grande desafio é conseguir pôr a comunidade, a sociedade civil, as instituições de ensino, as empresas, as forças vivas, a partilharem do mesmo ecossistema, cada uma com os seus objetivos, mas com uma partilha grande, para fazer de Porto Salvo uma freguesia de referência. 

CL – Há áreas específicas onde pretenda atuar?

JD – Quando se chega a alguma instituição há sempre coisas boas e menos boas, e eu gosto sempre de estar do lado em que não vejo coisas más, mas oportunidades de melhoria. Ao fim destes três meses, já temos uma ideia melhor do que tínhamos no início e, basicamente, passa muito por criar melhores condições de trabalho necessárias para os nossos assistentes profissionais e técnicos poderem desempenhar um bom trabalho. A junta tem hoje perto de 40 colaboradores e eu penso que há oportunidade de melhoria nas suas condições de trabalho, porque no fundo eles são o nosso rosto, os operacionais que andam na higiene urbana, a fazerem pequenas reparações, e que se cruzam todos os dias com os munícipes. 

Nas próprias instalações da junta, precisamos de ter melhores condições de atendimento aos fregueses. Um dos projetos estruturantes está previsto para os próximos anos e espero que se concretize ao longo deste mandato, é o projeto do Rossio de Porto Salvo, uma obra que está orçada em cinco milhões de euros, com um Centro de Saúde, novas instalações para a Junta de Freguesia, uma Biblioteca Municipal, a nova Escola de Música, comércio e serviços, o que vai trazer uma outra dimensão e centralidade a Porto Salvo e, naturalmente, proporcionará melhores condições nas infraestruturas da junta, mas até lá temos que melhorar as temos hoje.

Outra vertente desta aposta tem a ver com a modernização do atendimento. Aproveitando o digital, já instalámos um novo sistema de gestão documental e registo de ocorrências. Agora, qualquer freguês pode registar online os seus pedidos. E vamos instalar em breve uma aplicação que permite pedir e pagar registos de canídeos ou pedir atestados. Ou seja, estamos a modernizar a Junta e a conseguir que haja serviços que possam ser acedidos sem os fregueses terem de se deslocar às nossas instalações.

Também no sentido de ir ao encontro das necessidades dos fregueses, passámos a abrir à hora do almoço, de forma ininterrupta, entre as 9h00 e as 17h00. Temos o nosso sistema informático mais seguro. Uma área onde também estamos a trabalhar é na melhoria da Comunicação. O que se faz é importante, mas também importa que as pessoas saibam o que estamos a fazer.

CL – Existiam no centro da Vila de Porto Salvo caixas multibanco. Com o encerramento da agência bancária, as caixas desapareceram. Há alguma possibilidade de ser reposto este serviço?

JD – Essa é uma área que não está dentro do nosso raio de ação, mas é um dos nossos objetivos. Estamos a encetar conversações e espero ter boas notícias sobre isso até ao final deste ano.

CL – Há obras de grande dimensão, além do Rossio, previstas para a freguesia?

JD – Neste momento estão a decorrer obras que se prendem com a habitação, que serão terminadas este ano, com 117 fogos no Bairro dos Navegadores, mais 20 fogos perto da igreja. Estão previstos, para os próximos quatro anos, um total de cerca de 400 fogos, isto da responsabilidade da Câmara de Oeiras, que ao nível da renda apoiada tem sido um exemplo para o País, no sentido de conseguir uma habitação digna para todos. Ao nível do privado, também haverá mais construção.

Com mais pessoas a viver aqui são precisas mais escolas e infantários e já estão previstas obras na antiga Custódia Marques, que será uma nova escola, até ou primeiro ciclo, com parque de estacionamento subterrâneo. Estão ainda a ser feitas requalificações em alguns jardins-de-infância, como o Tão Balalão e o Pingole, com investimento de mais de três milhões de euros.

Os mais velhos de Porto Salvo também não estão esquecidos. Está a ser construído o Centro de Dia e Residencial Irmã Joana, no Bairro de Auto Construção, em Talaíde uma residência sénior, e vai ser construído um novo edifício da CERCIS. Estão igualmente a ser realizadas obras de apoio ao polidesportivo da Escola Aquilino Ribeiro, além de obras de requalificação nas restantes escolas. A Câmara não espera que o Ministério da Educação faça obras.

No campo desportivo, vai ser inaugurado um polidesportivo descoberto em Leião. Naturalmente que nesta área há prioridades noutras freguesias, mas é meu desejo poder criar mais espaços desportivos.

RESOLVER PROBLEMAS DAS PESSOAS

CL – A esse propósito, tendo nós um grande número de jovens e adultos a praticar Atletismo, não temos, além do Jamor, uma pista de Atletismo que possa até permitir realizar provas internacionais. Via com bons olhos uma estrutura dessas em Porto Salvo?

JD – Tudo o que se possa fazer pela atividade física é sempre pouco. O Atletismo é uma atividade física que muita gente pratica, que é relativamente barata, que dá saúde. Eu diria que Porto Salvo estaria disponível para ter uma pista de Atletismo.

É verdade que hoje já há muitas pistas de Atletismo informais, como são os casos do Passeio Marítimo e das ciclovias que estão a ser feitas e que poderão também ser utilizadas como pedovias. Já há uma entre Leceia e Vila Fria e será construída outra a ligar Leceia ao Taguspark. Entendo que deverá haver espaços para a prática federada do Atletismo, mas, do ponto de vista informal, já há espaços disponíveis. Também esperamos que sejam construídos espaços verdes em Porto Salvo. 

Ao nível dos transportes, é intenção da Câmara avançar, por exemplo, com o SATU e a Via Longitudinal Sul (VLS), o que também virá a melhorar a mobilidade.

No que diz respeito ao Património, estão previstas pela Câmara obras de requalificação na capela de Nossa Senhora de Porto Salvo, orçadas em cerca de 650 mil euros. Esta capela fará 500 anos dentro de quatro anos. 

Também estão previstas obras na igreja de Leião e no Casal da Chocas, onde está prevista a reabilitação da Casa Amarela, que passará a ser dedicada ao apoio de vítimas de violência doméstica. Será um investimento de dois milhões de euros, e em toda esta zona de génese ilegal a Câmara está a desenvolver um trabalho que visa resolver este problema, como está a ser feito no caso da Lage.

CL – Também há planos para a Cultura?

JD – Temos já intensificado o que é a Agenda Cultural, que passa por vezes em proporcionar momentos de cultura a todos, numa primeira instância aos mais velhos, que durante o dia têm mais disponibilidade. No mês de fevereiro, fomos ver o espetáculo ‘Amália’, fomos à casa da Amália a uma sessão de fados e ver uma revista. 

Tínhamos programado uma atividade para o Carnaval, com as escolas, que as condições meteorológicas não permitiram e tivemos de fazer isso de outra forma. Já tínhamos programado um desfile com as 11 escolas e colégios, com cerca de 1.400 crianças a participar. Para o Dia da Criança estamos a preparar uma atividade que pretende ter todas as crianças a conviver umas com as outras.

Vamos também passar a ter o Porto Salvo Ativo. Todas as segundas-feiras, numa localidade, vamos proporcionar prática desportiva das 11h00 às 12h00. Temos uma ação de colaboração com o Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora de Porto Salvo, que permite levar ali mais pessoas. Ou seja, abrir as portas do Centro Social, para que, além dos utentes, possa estar acessível a toda a população.

Estão ainda programadas as habituas Festas de Nossa Senhora de Porto Salvo, de 22 a 26 de julho, a festa de produtos tradicionais, a Feira Rural, um Festival de Folclore com maior dimensão, dias 17 e 18 de setembro. A preocupação é não fazer só eventos na Vila de Porto salvo, mas estar também noutros locais, como a Lage, Vila Fria, o Lagoas Park, ou o Taguspark. Esse calendário vai ser divulgado em breve.

Foto: Jorge Rodrigues

CL – Como consegue coordenar o Desporto, a Junta e a vida particular?

JD – Quem anda nisto anda por paixão. Eu comecei há 30 anos, quando o meu filho era pequenino, e houve um vazio diretivo nos Leões de Porto Salvo. No dia 1 de agosto de 1997, o clube fechou as portas. Em conversa com outra pessoa, decidimos que era preciso fazer alguma coisa e não deixar as nossas crianças sem esta ocupação. Eu não tinha grande disponibilidade, mas dei o prazo de um ano e já lá vão 28. 

Não estarei 28 anos na Junta, mas vejo a Junta como uma extensão do que os Leões já faziam. Foi isso, de alguma forma, que me levou a aceitar, porque a capacidade de ação das juntas ainda é pequena, apesar de já ter alguma autonomia com a Delegação de Competências, mas é naturalmente muito superior a qualquer clube ou coletividade. Hoje, sinto-me como um interlocutor com uma ponte privilegiada com os clubes, as associações, as empresas e a sociedade civil. Será bom se eu conseguir fazer mais do que fazia no clube. 

Atualmente, eu já não tenho clube, tenho uma grande paixão pelos Leões, mas a partir do momento em que assumi estas funções, não quero que os Leões tenham tratamento diferente por o seu presidente ser presidente da Junta, quero que tenham o mesmo tratamento que os outros. 

Há muito trabalho a fazer, não posso ter buracos na rua, que devem estar limpas. Estamos cá para servir a população, tentarei agradar a todos, mas sabemos que isso não é possível. Contudo, estaremos sempre disponíveis e atentos para ouvir e aprender.

Quanto à vida familiar, o meu filho já é crescido. Enquanto era pequeno, foi mais difícil, a minha esposa tentou acompanhar-me, agora já nem tanto. 

A minha vida empresarial conta ainda com algumas empresas. Eu sempre gostei muito de gerir recursos humanos, apesar de ser sempre mais difícil, porque gerir as expectativas das pessoas, seja no que for, é sempre complicado, mas tenho conseguido saber delegar em todas as áreas, e isso é importante para que tudo funcione.

Eu sou um eterno desassossegado, tenho de ter coisas que me motivem todos os dias. Quem trabalha comigo sabe isso. Estes três meses têm sido para mim um desafio muito desgastante, mas também me têm dado muito gozo. Eu gosto de resolver os problemas das pessoas e numa Junta aquilo que se pode fazer e se tem obrigação de fazer, é precisamente resolver o maior número possível de problemas das pessoas. É a mensagem que deixo aos fregueses.

NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Autor: Alexandre Gonçalves

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