João Correia: “O Desporto deve ser superação, nunca sofrimento”

Natural de Santo Tirso, João Correia, 42 anos, construiu um percurso desportivo marcado por conquistas, interrupções forçadas e uma persistência pouco comum. Nesta entrevista, revisita os momentos determinantes da sua vida, desde o acidente que marcou a infância até à afirmação no atletismo em cadeira de rodas ao mais alto nível. Entre medalhas internacionais, lesões graves e longos períodos afastado da competição, fala de escolhas decisivas, do regresso inesperado às pistas e da concretização do sonho paralímpico após três décadas de carreira. A conversa estende-se ainda ao trabalho desenvolvido fora da competição, à organização de grandes provas internacionais e ao desafio de criar melhores condições para os atletas em Portugal, um compromisso que ganha forma na criação da Academia João Correia, sediada em Oeiras, um projeto dedicado a garantir dignidade, apoio técnico, investigação e condições reais de desenvolvimento para atletas de atletismo em cadeira de rodas, da iniciação ao alto rendimento.

O Correio da Linha (CL) – De que forma o acidente marcou o seu percurso de vida?

João Correia (JC) – O acidente aconteceu quando tinha apenas dois anos. Fui atropelado e estive algum tempo em coma. Após estabilizar, iniciei um longo processo de reabilitação no Centro de Reabilitação de Alcoitão, onde permaneci até aos cinco anos. Apesar de ser muito novo, esse período revelou-se determinante para que pudesse, mais tarde, ter uma vida ativa e o mais autónoma possível.

A saída da instituição e a integração na sociedade trouxeram inúmeros desafios, sobretudo numa época em que o país ainda não estava preparado para acolher plenamente pessoas com deficiência. Ao longo do meu percurso escolar e social deparei-me com várias barreiras – felizmente a nível profissional nunca existiram entraves arquitetónicos – mas essas dificuldades ajudaram-me a desenvolver uma consciência muito clara da necessidade de lutar por condições mais justas, não apenas para mim, mas para todos aqueles que vivem situações semelhantes e, consequentemente, a assumir um papel ativo na defesa de melhores oportunidades para quem se encontra na mesma situação que eu.

CL – Como surgiu o desporto na sua vida?

JC – O desporto surgiu de forma natural como um espaço de integração e liberdade. Comecei pelo basquetebol em cadeira de rodas – em Braga – uma modalidade mais acessível, sobretudo por existirem mais clubes preparados para a receber. Sendo um desporto coletivo, torna-se também mais acolhedor, e é por isso que a maioria dos atletas com deficiência inicia o seu percurso por aí.

Mais tarde, chegou à equipa uma cadeira antiga — ainda assim bastante melhor do que a cadeira hospitalar que utilizava e que era extremamente pesada. Foi nessa altura que comecei a experimentar o atletismo na zona onde vivia, em Santo Tirso. Apesar das limitações, essa experiência deu-me uma enorme sensação de independência. Comecei a percorrer muitos quilómetros e rapidamente percebi que aquela podia vir a ser a minha modalidade.

O ATLETISMO COMO ESCOLHA E AFIRMAÇÃO

CL – Quando sentiu que o atletismo adaptado podia tornar-se um percurso de alto rendimento?

JC – Esse momento aconteceu em 2001, durante um estágio em Lisboa. Desloquei-me para participar numa meia-maratona que reunia atletas de vários países e, aproveitando essa presença internacional, o selecionador nacional convidou um atleta que era, na altura, o meu grande ídolo — Heinz Frei — a permanecer connosco durante mais três dias para fazer um programa com alguns atletas. Foi assim que realizámos um estágio conjunto, que viria a marcar profundamente o meu percurso. Apesar das limitações técnicas da cadeira que utilizava, ele acreditou em mim e em 2002, ofereceu-me uma cadeira com um enorme valor simbólico: a mesma com que tinha batido o recorde do mundo da maratona, em 1999, um recorde que só viria a ser superado no ano passado. Encarei esse gesto como uma verdadeira passagem de testemunho.

A partir daí, tudo se tornou mais claro. Em 2003, no Campeonato da Europa, trouxe para Portugal a primeira medalha (de prata) de atletismo adaptado. Só depois de cruzar a meta é que me apercebi verdadeiramente da dimensão do que tinha alcançado.

Então, percebi que tinha de fazer uma escolha: ou continuava a dividir-me entre modalidades ou me dedicava a cem por cento ao atletismo. Optei pelo atletismo e passei a trabalhar de forma mais individualizada, com um treinador fora da estrutura do clube que integrava, uma vez que não havia condições para uma preparação competitiva mais exigente.

CL – Apesar dessa decisão, surgiram algumas lesões que lhe dificultaram a vida…

JC – Sim, não estive presente nos Jogos Paralímpicos de 2004, devido aos primeiros sinais de uma lesão cervical. Voltei à competição em 2005, onde conquistei a medalha de prata no Campeonato da Europa. Em 2006, no Campeonato do Mundo, a situação agravou-se e fui obrigado a abdicar de competir. Seguiram-se cirurgias complexas, com probabilidades reduzidas de sucesso, mas foi aí que nasceu o lema que me acompanha até hoje: “nunca desistas”. 

CL – Que papel teve fora da competição durante o período de pausa forçada?

JC – Durante o período em que estive afastado da competição, entre 2007 e 2013, optei por canalizar a minha energia para apoiar a equipa de basquetebol onde tudo começou. A equipa enfrentava várias carências, desde a falta de material e equipamentos adequados até limitações nas condições de treino e no apoio logístico.

Na altura, mantinha uma boa relação com alguns parceiros e empresas, o que me levou a apostar na criação de melhores condições para os atletas. Em conjunto com esses parceiros, desenvolvi um projeto inédito que permitiu angariar entre 50 e 60 mil euros, investidos em novos equipamentos, cadeiras, aluguer de pavilhões e apoio às deslocações, nomeadamente combustível.

Os resultados desse trabalho tornaram-se evidentes em 2013, com a conquista do Campeonato Nacional, demonstrando que o investimento, a persistência e uma visão de longo prazo fazem, efetivamente, a diferença.

CL – Como surgiu a sua ligação à organização da Meia-Maratona de Lisboa?

JC – Embora só se tenha oficializado em 2015, essa relação já se havia iniciado há algum tempo, aliás, quando ainda competi. Com o tempo fui verificando que os atletas em cadeira de rodas precisavam de mais apoio e comecei, de forma totalmente voluntária, a fazer a ponte entre os atletas e a organização do Maratona Clube de Portugal. Não queria receber nada, apenas ajudar. Já fazia isto enquanto competia. Aos poucos, fui assumindo um papel mais ativo na organização da prova, sobretudo na vertente do atletismo em cadeira de rodas. Esse trabalho acabou por crescer e levou à candidatura e organização do primeiro Campeonato da Europa de Meia-Maratona de nível 1, e mais tarde de provas de nível mundial. A Meia-Maratona de Lisboa chegou a ser considerada a melhor prova do mundo em cadeira de rodas, com grande projeção internacional, muito além da realidade portuguesa.

LESÕES, PARAGENS E O REGRESSO IMPROVÁVEL

CL – O que o levou a regressar à competição depois de tantos anos afastado?

JC – O regresso à competição aconteceu de forma quase inesperada, a partir de um convite muito especial. Na altura, um dos melhores atletas do mundo, o britânico David Weir, deslocava-se com frequência a Lisboa para competir, acompanhado pela sua treinadora, Jenny Archer. Passávamos longas horas a conversar sobre atletismo adaptado e foi ela quem me lançou o desafio de voltar, de forma gradual, aos treinos. Conseguiu despertar algo em mim que ainda estava adormecido.

Foi, de certa forma, um recomeço absoluto. A minha estrutura física tinha mudado, assim como a posição de corrida, o que implicou a aquisição de uma nova cadeira e a criação, novamente, de condições para treinar. Tudo isto foi feito conciliando o treino com o trabalho e contando sempre com o apoio incansável dos meus pais.

Tratou-se de um percurso bastante solitário, uma vez que a minha classe funcional — uma das mais exigentes — conta com poucos atletas com condições para treinar de forma regular. É uma das categorias em que se torna mais difícil encontrar pares de treino, não tanto pelas exigências na pista, mas por tudo o que acontece fora dela: chegar à pista, fazer a transferência para a cadeira e preparar o treino. Em classes com menor grau de limitação funcional, esses processos são muito mais simples e rápidos, o que faz uma diferença significativa no dia a dia de um atleta.

CL – Como descreve o período que antecedeu a concretização do sonho paralímpico?

JC – Durante esse período, os resultados foram surgindo de forma consistente. Sempre que competia a nível nacional, os títulos iam-se acumulando. O ponto mais alto antes dos Jogos Paralímpicos de Tóquio, aconteceu em 2017, no Campeonato do Mundo, em Londres. No ano seguinte, em 2018, voltei a enfrentar um problema de saúde a nível cervical, que exigiu nova intervenção cirúrgica. Ainda assim, em 2019, consegui regressar à competição e participei no Campeonato do Mundo no Dubai, alcançando uma classificação dentro daquilo que era expectável.

Em 2020, quando toda a preparação estava orientada para os Jogos Paralímpicos de Tóquio, a pandemia veio alterar completamente os planos. Os treinos passaram a estar fortemente condicionados e fomos obrigados a alcançar a marca de qualificação no próprio ano dos Jogos – 2021 – algo particularmente exigente. Apesar de tudo, consegui atingir os tempos necessários logo nas primeiras provas do ano, em janeiro ou fevereiro, fruto de um bom trabalho de inverno — uma fase em que me sinto especialmente confortável a treinar.

Depois disso, foi essencial gerir o esforço com grande cuidado, uma vez que a zona cervical já dava sinais de alerta. As marcas de qualificação eram extremamente exigentes e cada detalhe contava. A participação no Jogos foi a concretização de um sonho que persegui durante quase 30 anos…desde que iniciei o meu percurso desportivo. Foi o fechar um ciclo feito de sacrifícios, de paragens forçadas e de muita persistência. 

Após o regresso a Portugal, foi necessário voltar a intervir a nível médico, dando início a uma nova etapa, marcada novamente por cirurgias.

CL Qual considera ter sido o maior desafio ao longo da sua carreira?

JC – Sem dúvida, as lesões. Foram elas que condicionaram vários momentos decisivos, desde Atenas 2004 até Pequim 2008, e que me obrigaram a longos períodos de paragem e a várias cirurgias. Houve anos em que questionei seriamente se valeria a pena continuar. O tempo acabou por dar essa resposta. Chegar aos Jogos Paralímpicos, quase 30 anos depois de ter começado, foi a concretização de um sonho enorme, ainda por cima num contexto tão atípico como o da pandemia. Hoje, essas vivências deram-me uma sensibilidade diferente. Olho para os atletas, seja na alta competição ou na iniciação, com um cuidado redobrado, atento a qualquer sinal de alerta, porque não quero que ninguém venha a passar pelo que eu passei. O desporto deve ser superação, nunca sofrimento.

CRIAR FUTURO FORA DA PISTA

CL – Por que razão decidiu criar a Academia João Correia?

JC – A ideia da academia já vinha de trás, desde a altura em que desenvolvi o projeto com a equipa de basquetebol de Braga. Sempre tive vontade de criar algo semelhante no atletismo, mas, naquele momento, fazia mais sentido canalizar os esforços para o basquetebol, onde conseguia chegar a mais pessoas e ter um impacto mais imediato. Esse projeto foi também uma grande aprendizagem, sobretudo na relação com empresas e parceiros, e mostrou-me que é possível criar estruturas sólidas, mesmo enfrentando preconceitos iniciais.

Mais tarde, após um período afastado da modalidade devido a cirurgias particularmente complexas, regressei ao atletismo em cadeira de rodas e fiquei alarmado com a realidade que encontrei: atletas a desistirem, falta de condições mínimas de treino e muito talento a perder-se. O Campeonato Nacional deste ano foi um momento decisivo. Assim que terminou, refleti durante alguns dias e marquei uma reunião com a Federação Portuguesa de Atletismo para perceber qual seria a melhor forma de colaborar e contribuir para mudar esse cenário.

Dessa reflexão conjunta surgiu a convicção de que era urgente criar um clube que garantisse dignidade, apoio e condições reais aos atletas. Foi assim que nasceu a academia, em articulação com a Federação Portuguesa de Atletismo. Em outubro, deu-se então o arranque oficial da Academia João Correia.

CL – Que dificuldades enfrentam atualmente os atletas de atletismo em cadeira de rodas em Portugal?

JC – Muitos destes atletas encontram-se numa situação de grande fragilidade. Sem o apoio da Federação, praticamente não teriam qualquer retaguarda, o que é profundamente preocupante. Existem clubes de referência no panorama nacional, como o Sporting ou o Benfica, mas a verdade é que, quando se trata de atletismo em cadeira de rodas, sobretudo pela exigência de material técnico específico, essas estruturas acabam por se afastar.

Não se trata apenas de fornecer equipamentos básicos. Para um atleta iniciar a competição são necessários investimentos iniciais que podem rondar os seis a sete mil euros, o que faz com que muitos clubes não estejam disponíveis para assumir esse compromisso. Como consequência, mesmo atletas com talento acabam por ficar isolados, sem enquadramento e sem apoio continuado.

Nestes casos, a Federação acaba por ser o último “balão de oxigénio”. No entanto, nem sempre consegue responder a todas as necessidades, o que leva muitos atletas, infelizmente, a não aguentarem a pressão e a acabarem por desistir da modalidade.

CL – Por que motivo a academia ficou sediada em Oeiras?

JC – Apesar de ser do Norte, a maioria dos atletas está na zona de Lisboa e Oeiras faz todo o sentido, porque é ali que se concentram as melhores condições de treino do país, tanto a nível olímpico como paralímpico. Treinamos no Jamor, junto às piscinas, num espaço com enquadramento técnico de excelência. Atualmente, temos dez atletas, metade já em alto rendimento, muitos deles sem qualquer apoio antes de chegarem até nós. 

CL – O vosso objetivo vai além da competição…

JC – O nosso objetivo é criar um modelo sustentável que apoie atletas com elevados custos técnicos e, ao mesmo tempo, desenvolva investigação científica em parceria com a Faculdade de Motricidade Humana. Queremos abordar todas as áreas essenciais para que um atleta em cadeira de rodas possa atingir um patamar mais elevado, desde a nutrição até à biomecânica, passando por todos os fatores que influenciam o desempenho.

A nível científico, existe muito pouco material documentado de forma aberta; grande parte da investigação fica guardada em cada país e não é partilhada. Nós queremos fazer exatamente o contrário: estudar, documentar e disponibilizar esse conhecimento a nível internacional. A ideia é preparar atletas para lutar por medalhas europeias e, a médio prazo, para os Jogos Paralímpicos de Los Angeles.

É um trabalho exigente, mas absolutamente necessário para que o atletismo adaptado em Portugal possa crescer de forma sólida e consistente, garantindo que os atletas têm as condições e o apoio técnico que merecem.

CL – Quais são os principais objetivos competitivos da academia para a próxima época?

JC – O Campeonato da Europa será o grande foco a nível internacional. Para além disso, teremos vários meetings internacionais, que funcionam como uma espécie de Diamond League do atletismo adaptado. A Federação assegura a participação em duas competições e nós estamos a trabalhar para garantir orçamento que permita estar presentes em mais provas, fundamentais para a preparação. Este é um ano um pouco mais controlado em termos de carga competitiva, sobretudo porque alguns atletas partem já com boas perspetivas. No caso do Mamudo Baldé, por exemplo, ele detém a melhor marca europeia com uma margem confortável, pelo que o principal objetivo é manter o ritmo competitivo e evitar lesões.

CL – Que desafios enfrenta a academia no apoio aos atletas de alto rendimento?

JC – O maior desafio continua a ser o material e as condições financeiras. Um atleta em cadeira de rodas de alto rendimento não compete apenas com talento e treino, compete também com tecnologia. O Mamudo, por exemplo, começou a época com uma cadeira de cinco mil euros, passou para uma de onze mil, mas enfrenta adversários que utilizam cadeiras de trinta ou trinta e cinco mil euros. Ele consegue compensar muito disso com uma condição física extraordinária, mas estamos sempre a correr em desvantagem. Há ainda a pressão internacional para que atletas com grande potencial mudem de país em troca de melhores condições. O nosso trabalho passa também por esse lado humano: fazê-los sentir que aqui têm um projeto sério, com acompanhamento, investigação e uma visão de futuro.

CL – Com que apoios contam?

JC – Neste momento, grande parte do investimento inicial está a ser assegurado por mim. Estamos também a contactar autarquias e juntas de freguesia das zonas de origem dos atletas, para sensibilizar para estas realidades. Os custos vão muito além do treino: incluem deslocações, manutenção de material e equipamentos altamente específicos. Basta um incidente no transporte de uma cadeira para comprometer uma época inteira. O equipamento faz uma diferença enorme no desempenho, que já é de alto nível. Um exemplo recente é o caso do Mamudo. Ele participou este ano numa competição de alto prestígio — uma Diamond League — integrada no calendário da Federação Internacional, em plena época de preparação para o Campeonato do Mundo. Venceu a prova, mas, durante o transporte da cadeira para Bruxelas, esta sofreu um rasgo na estrutura principal. Situações como esta são críticas, porque uma cadeira desta demora pelo menos duas semanas a ser produzida, e, considerando a lista de espera, o tempo real necessário pode chegar a três ou quatro meses.

CL – A Academia tem ainda uma colaboração internacional especial…

JC – Contamos com a colaboração estratégica da treinadora britânica Jenny Archer, que foi a minha treinadora e responsável por atletas de referência mundial. Ela traz uma visão internacional, orienta a tomada de decisões técnicas e estratégicas e apoia o desenvolvimento do projeto, sobretudo na ligação entre alto rendimento, iniciação e legado desportivo. Esta experiência é fundamental para consolidar a academia e garantir que o trabalho feito hoje tenha um impacto duradouro no futuro.

CL – Quem está responsável pelos treinos no dia a dia da academia?

JC – A coordenação técnica está a cargo de Valquíria Campelo, técnica integrada num projeto da Federação Portuguesa de Atletismo, com base no Estádio do Jamor. É a principal referência nacional no atletismo em cadeira de rodas e no desporto adaptado da área motora, sendo detentora de formação de nível 4. Para nós, é uma garantia de qualidade, conhecimento e enquadramento técnico de excelência.

CL – Com que regularidade treinam os atletas?

JC – Os treinos são diários e, em alguns casos, bidiários. Quando há sessões de ginásio, estas realizam-se no ginásio das piscinas do Jamor, complementando o trabalho de pista. Os atletas treinam faça chuva ou faça sol, porque a competição não escolhe condições climatéricas. Essa adaptação faz parte do processo e da preparação para a alta competição, incluindo a escolha do equipamento mais adequado para cada contexto.

PENSAR O FUTURO

CL – Como vai funcionar o banco de materiais para apoio aos atletas?

JC – O banco de materiais surge de uma parceria com a academia inglesa Weir Archer . Como eles têm maior capacidade de aquisição de material novo, vão substituindo equipamentos que ainda estão em boas condições, os quais recebemos, recuperamos e reutilizamos. Esse material é colocado à disposição de atletas em fase de iniciação. Quando já não se adequa a esse nível, é encaminhado para países onde a modalidade ainda está numa fase muito inicial, garantindo sustentabilidade e utilidade contínua dos equipamentos.

CL – Quais são os próximos passos do projeto a médio prazo?

JC – A ambição é criar três polos de desenvolvimento — no Norte, no Sul e na zona do Algarve — e não concentrar toda a atividade apenas num local. Para isso, será essencial investir na formação técnica, com certificações da Federação, do IPDJ e o envolvimento de técnicos nacionais e internacionais. Queremos também ligar esta estrutura à investigação, recolher dados, partilhar conhecimento e formar novos treinadores, garantindo que o projeto cresce de forma sustentada e com impacto real no atletismo adaptado.

CL – Que mensagem gostaria de deixar aos jovens atletas em cadeiras de rodas?JC – O meu lema de vida é “nunca desistas”. Por muito difíceis que sejam as condições do dia a dia, é fundamental nunca desistirem de lutar pelos sonhos em que acreditam. Eu lutei durante 30 anos pelo meu sonho, com o apoio de médicos e das melhores pessoas à minha volta, enfrentei situações impensáveis e lesões graves, mas nunca desisti. Consegui chegar aos Jogos Paralímpicos e agora estou a construir a academia, deixando um legado para que, daqui a alguns anos, não seja apenas o João, mas atletas como o Mamudo a assumirem este papel. Quero incutir este espírito em cada atleta: a modalidade só continuará a crescer se houver perseverança, paixão e a coragem de acreditar em si próprio.

NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Autor: Raquel Luís

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