José Vicente-Paulo: “O Enoturismo tem sido importante para vender o vinho de Colares”

Volvidos quase 95 anos desde a fundação, em 1931, a Adega Regional de Colares (ARC) atravessa uma fase de modernização e prepara-se para assinalar o seu primeiro centenário com instalações já renovadas. Nesse sentido, foi recentemente finalizada a segunda fase dos trabalhos de requalificação iniciados em 2023, que resultaram na recuperação das duas torres do edifício, na limpeza do telhado, no reforço da estrutura que suporta a cobertura e na pintura e reparação das paredes, nomeadamente da fachada centenária.

No plano que está delineado pela direcção da adega cooperativa mais antiga de Portugal, seguir-se-á a recuperação do seu património, entre os quais os tonéis guardados na nave central, que é palco de inúmeros eventos e provas de vinho, uma outra vertente da actividade da adega, o Enoturismo, que tem vindo a crescer de importância nos últimos anos. Em preparação está ainda um ‘rebranding’ da marca e dos produtos produzidos na adega, que inclui a modernização da imagem e dos rótulos das garrafas de vinho.

Com o vinho de Colares numa fase de expansão e modernização, que prevê uma diversificação de produtos destinados a conquistar novos clientes e a satisfazer uma procura crescente interessada em viver novas experiências, falta ainda superar um conjunto de dificuldades que teimam em manter-se e dificultar o trabalho dos vinicultores. A relação com o Parque Natural de Sintra-Cascais nem sempre tem sido pacífica, no que diz respeito à manutenção de determinadas tradições e devido a ameaças trazidas pelo aumento de javalis na região.

A entrevista que se segue aborda estas e outras questões relacionadas com a actividade desenvolvida pela cooperativa de produtores que gere a ARC. Os esclarecimentos são de José Vicente-Paulo, engenheiro agrónomo de formação, que assumiu a direcção da cooperativa em Junho de 1994. É com orgulho que fala do trabalho empreendido para assegurar o equilíbrio entre a continuidade de uma herança baseada na preservação de tradições mantidas ao longo de séculos e a necessidade de preparar um projecto capaz de enfrentar os desafios do futuro.

Jornal ‘Correio da Linha’ (CL) – Da última vez que falámos, em Abril de 2023, estavam a começar os trabalhos de limpeza e recuperação do telhado da Adega. Este processo já está finalizado?

José Vicente-Paulo (JVP) – Em 2023, conseguimos recuperar a zona central do edifício, entre as duas torres. Era o que mais nos preocupava. Quando chovia e tínhamos provas de vinhos a decorrer a água caía ao lado da mesa. Como não havia dinheiro para mais, tivemos de recorrer a um apoio da Câmara Municipal de Sintra (CMS), de 100 mil euros. Ficou o resto por fazer, os telhados das torres, as pinturas, as janelas…

A verba recebida da autarquia foi para realizar os trabalhos necessários no telhado sobre a nave central do edifício, onde estão expostos os tonéis, que tem 105 metros de extensão. Agora, nesta segunda fase, que terminou em Setembro de 2025, reabilitámos os telhados das torres, realizámos as pinturas exteriores, recuperámos as janelas e pintámos o interior do lagar, além de outros melhoramentos. O edifício ficou recuperado exteriormente.

CL – Contaram com mais algum tipo de apoio? Quanto custou a intervenção?

JVP – A CMS apoiou com mais 100 mil euros. No total, as obras custaram 720 mil euros, sendo que 200 mil foram da Autarquia. Ou seja, a Cooperativa investiu 520 mil euros. O nosso orçamento anual é de 600 mil, pelo que foi praticamente um orçamento anual. É incrível que neste País as coisas funcionem assim. Um edifício desta idade (estamos a falar na mais antiga Adega Cooperativa do País e numa região demarcada ancestral), e não houve nenhuma verba a que pudéssemos candidatar-nos para a sua recuperação, nem mesmo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Portanto, este apoio da Câmara foi fundamental.

CL – Já referiu o que foi feito. O que ainda falta fazer em termos de requalificação dos edifícios?

JVP – Depois do que já foi feito, hoje o impacto é outro. Isto é uma requalificação para 50 anos ou mais. É muito bom. Agora é preciso fazer algumas coisas no interior, nomeadamente a recuperação e conservação dos tonéis, pinturas e outras intervenções. Nós temos uma única utilização de inoxs e, portanto, menos utilização de tonéis, mas temos de manter a sua conservação, porque este património é fundamental para quem nos visita. O edifício funciona um pouco como museu. Portanto, a preocupação principal agora é a recuperação do património que existe no interior da Adega.

CL – Está prevista alguma novidade, em termos de marca, imagem?

JVP – Vamos fazer um ‘rebranding’, apostar numa nova imagem. Queremos pegar nas nossas marcas, projectá-las. É fundamental. Nós não temos feito isso, porque tivemos aqui uns anos de acumulação de verba para ver se conseguíamos recuperar o telhado, mas agora vamos trabalhar tudo o que diz respeito à rotulagem, embalagem, apresentação, divulgação, etc. Tudo o que existe tem sido feito com boas vontades, mas agora temos de trabalhar isso a sério.

Foto: Jorge Rodrigues

PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE

CL – O edifício da Cooperativa já está classificado como imóvel de interesse municipal? Era uma aspiração…

JVP – Ainda não estamos aí, mas queremos estar. Estamos em vias de… Ou seja, já procedem para connosco como se tivéssemos essa classificação. Ainda bem que assim é, senão as obras teriam demorado muito mais.

Neste momento, apostamos também noutra vertente importante que estamos a desenvolver com a CMS, que é a tentativa de obter a classificação da região demarcada como Património Cultural Imaterial da Humanidade por parte da UNESCO. Não é fácil conseguir essa aprovação para o reconhecimento da vitivinicultura tradicional. É o saber fazer aquilo que nós fazemos de diferente aqui em Colares. Ou seja, aquilo que nos caracteriza.

Esta é uma preocupação que eu tenho actualmente, não descaracterizar a cultura das nossas vinhas, isso seria matar a galinha dos ovos de ouro, porque enfrentamos o perigo dessa descaracterização. Não há mão-de-obra disponível, há uma intensidade enorme de utilização de mecanização e isso implica alterar os sistemas de condução e por aí afora.

O apoio para esta candidatura já foi solicitado à Câmara. O Chefe de Gabinete da Autarquia organizou um almoço com todos os produtores da região, durante o qual foi pedido à CMS que utilizasse mais meios e recursos no sentido de apresentar a candidatura rapidamente para evitar que esta descaracterização avance a alta velocidade.

Sem dúvida que, apesar disso, a Câmara pode apoiar os viticultores para que eles possam manter aquilo que é tradicional. É óbvio que todos procuram gastar o mínimo e obter o máximo, mas temos de preocupar-nos com o património, manter a qualidade do produto, manter a tradição. E nós já perdemos a cestaria, já não há quem faça cestas de vime, que era a melhor forma de transportar as uvas. Já perdemos os abrigos de protecção contra o vento, feitas artesanalmente pelos produtores. Também já não há quem faça.

Eu estou a pressionar bastante, em todas as áreas, porque vejo que essa descaracterização pode ser o fim. Os visitantes quando vêm aqui não querem ver uma vinha moderna, querem ver uma vinha tradicional, querem ver uma planta que tem 150, 200 anos. É aí que está a grande diferença. Há videiras com 300 anos. Já chegámos a ter videiras com 46 varas de produção.

CL – Com vista a esta candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade, seria importante o edifício da Adega já estar classificado como imóvel de interesse municipal.

JVP – Isso vai ser rápido.

CL – A direcção da Cooperativa já manteve algum encontro com a nova presidência da CMS?

JVP – Sim. O PSD esteve aqui e o doutor Marco Almeida também. O PS também aqui esteve, mas não houve mais contactos com outras forças políticas. Estas reuniões correram bem, ficou claro o que é que nós precisávamos, quer para o Partido Socialista, quer para o PSD.

CL – Que temas foram abordados nas reuniões com estas forças políticas?

JVP – Todos estes de que já falámos. A questão da vinha, a questão da Adega. Tudo foi clarificado. Não posso dizer que o presidente anterior, Dr. Basílio Horta, tenha sido um mau presidente para a Agricultura, porque não foi. Nós temos a AgroAruil (feira agrícola da região saloia de Sintra), que teve uma evolução significativa, que a ele se deve. Temos a recuperação da Adega, que a ele se está a dever. Temos a minha participação no Conselho Estratégico Empresarial, representando a Agricultura, que a ele se deve. Portanto, a Agricultura foi colocada no mapa pelo Dr. Basílio Horta. Não há dúvida nenhuma.

CL – Acha que a colaboração que tem existido com a Adega é para manter com a nova presidência da Câmara?

JVP – Eu penso que sim. Na sequência de uma visita ocorrida antes das Eleições Autárquicas, o Dr. Marco Almeida disse que iria fazer tudo para promover o Vinho de Colares, afirmando que para ele era uma das características da região e do concelho que não podia ser perdida. Por causa disso é que o seu Chefe de Gabinete convocou para um encontro todos os produtores e engarrafadores da região. Além da Adega, existem mais 14 adegas com marcas e no mercado. Nós, na Adega, temos 20 produtores associados, mas são pequenos produtores.

Esse almoço que foi realizado foi importante para posicionar as coisas. Ficou claro que só seria possível a Câmara apoiar a vitivinicultura da região se nos associássemos e houvesse um apoio a essa associação, que depois faria a distribuição dos fundos de acordo com o que fosse protocolado.

Foto: Jorge Rodrigues

JUNTAR ESFORÇOS A FAVOR DE TODOS

CL – E há possibilidade de todos os produtores da região se juntarem debaixo do tecto da Cooperativa?

JVP – Há, porque já antes das eleições se fez uma reunião. Nós estávamos um pouco mais adiantados do que a política do concelho.  Estamos bem. Aliás, ocorreu já uma segunda reunião, da qual saíram duas cartas, uma para a Comissão Vitivinícola regional e outra para a Câmara. A Associação tem várias vertentes a explorar. Por exemplo, podemos centralizar a questão da mão-de-obra na Associação, tal como a mecanização e a distribuição. Há um conjunto de coisas que podem ser feitas em conjunto. Dessa forma podemos baixar os custos da actividade. A ideia inicial é esta. Depois, vamos tentar pôr as coisas em prática e ver o que é que resulta.

CL – Qual é a alavancagem que a associação de todos os produtores poderá trazer em termos de produção total do vinho de Colares?

JVP – Tudo o que seja escoar a produção a bom preço tem um reflexo no terreno sobre a área plantada. Eu acho que poderá ser mais um passo para se aumentar a área de produção, embora esta esteja muito limitada devido às casas que estão instaladas. E agora temos também um fenómeno extraordinário, que é a instalação de casas de madeira, como se fossem cogumelos a aparecer por todo o lado, também junto às vinhas. E isso pode ser um problema para a aprovação pela UNESCO da zona de produção do vinho de Colares como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Ter uma vinha e ao lado ter uma construção, uma família a viver. É uma descaracterização.

CL – Da última vez que falámos, mencionou vários problemas enfrentados pelos viticultores. Nomeadamente na recuperação de muros colapsados, alguns destruídos por javalis, e na protecção das vinhas com o recurso a canas, como sempre tem ocorrido, um sistema ao qual o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) se tem oposto. Estas situações foram ultrapassadas?

JVP – Eu fui director da Cooperativa Agrícola de Sintra durante 11 anos. Nesse período, tivemos uma reunião com o Secretário de Estado do Ambiente, em que esses problemas foram expostos, mas resultado zero. Neste momento, os agricultores também já não querem saber e avançam na mesma. Os javalis são, de facto, um problema. Eu plantei um hectare e meio de vinha em duas parcelas e tive de vedá-las com rede e paus tratados. É claro que isto tem um custo brutal.

A questão dos muros, eles caem naturalmente. No plano de ordenamento do Parque Natural prevê-se que só se possa repor os muros depois de isso ser autorizado. Se fosse assim, enquanto o pau vai e vem, entrava toda a gente dentro dos terrenos. Neste momento, as pessoas vão repondo os muros, embora alguns casos já tenham acabado em tribunal porque puseram na base cimento para suportar aquilo, para ficar mais forte. De facto, isto não faz sentido. Muitas pessoas já estão a colocar, não cimento, porque a legislação não permite, mas uma mistura de areia e saibro, para garantir que os muros se mantêm.

E, lá está, se eu for fazer isso em solo arenoso vou descaracterizar a cultura, porque eu tenho os muros de pedra solta, fazem parte da região. Quanto à questão da utilização de paus tratados e rede para a proteção contra o vento, também vai descaracterizar a vitivinicultura da região, mas é o que vai acontecer, porque já não há ninguém que saiba fazer um abrigo. Há um que ainda faz qualquer coisa, mas tem 78 anos.

Nós estamos a chegar ao fim da possibilidade de fazer abrigos. Eu tenho tentado, tenho isso escrito ponto por ponto, a designação de cada tipo de canas que se põe nos abrigos, porque são vários, e como é que aquilo se constrói. Se algum dia, alguém mais novo quiser começar a pegar nisso tem a descrição e vai conseguir fazê-lo, mas estamos a chegar ao limite. Isto não é agora que se trata do assunto, devia ter sido há 10 ou há 15 anos.

Os cesteiros acabaram porque não tiveram apoio e aquilo não é rentável. Mas porque é que deixam acabar essas coisas? Estão preocupados? Uma Câmara desta dimensão, a segunda em termos financeiros do País, que o doutor Basílio Horta deixou a abarrotar de dinheiro… Eu acho que, mesmo tardiamente, temos condições para que o executivo municipal possa cuidar da vinha. Se não o fizer neste mandato e no seguinte, podemos dizer adeus à vinha. Não vai continuar tal como a conhecíamos anteriormente, pelo menos.

CL – O ICNF tem mantido algum tipo de colaboração com os produtores do vinho de Colares?

JVP – Sempre tivemos uma grande colaboração com o ICNF, com os vários directores anteriores, desde há uns 30 anos. Inclusivamente, o meu trabalho de fim de curso ainda foi feito parcialmente no Parque Natural, quando ainda era de paisagem protegida antes de ser Parque Natural. Depois, passaram vários directores que mantiveram sempre o contacto connosco. Entretanto, eu fiz parte do Conselho Consultivo do Parque Natural até que desisti. Chegámos a ter um protocolo que previa a defesa dos muros, dos abrigos, da utilização de estrume animal, de manutenção de pontões e dos suportes das vinhas, que agora também deixam de existir. Esse protocolo durou durante 4/5 anos, chegámos a ter uma agroambiental feita a nível de Bruxelas.

O protocolo acabou porque o Parque Natural deixou de ter correspondência connosco. Aliás, eu nem sei quem é o director do Parque Natural, nunca o vejo em lado nenhum, não aparece. Dá-me ideia que era uma senhora que era directora de 3, 4 ou 5 parques. Não sei para que é que isso serve. O Parque Natural faz-se com as populações, com as pessoas, faz-se com quem trabalha no terreno. Se não o fizerem, nunca chegam a lado nenhum. Como não conseguiram perceber isso, deu-se este afastamento total. Nós entramos dentro do Parque Natural e não vemos diferença nenhuma, absolutamente nenhuma. Enfim, temos um Paraíso e damos cabo dele. É o que nós fazemos.

Foto: Jorge Rodrigues

“TEMOS DE MANTER A QUALIDADE”

CL – Como correu a vindima de 2025?

JVP – Correu muitíssimo bem. A produção é mais ou menos a mesma, talvez tenha aumentado um bocadito nalguns casos, porque temos mais vinhas DOC, mais vinhas em chão de areia, de gente mais nova que pega no assunto. Isso é bom. A vindima decorreu sem precipitações, conseguimos fazer a vindima toda sem chuva.

CL – Quando é que ter terminaram a vindima?

JVP – Terminámos a vindima ainda em Setembro. Começámos dia 13 e terminámos no fim do mês, dia 28. Como o tempo esteve sempre seco, sem chuva, houve um avanço. O problema da chuva é que, no caso do Ramisco, que é uma casta tardia, normalmente raramente conseguimos maturação a 100 por cento e o grau baixa. Este ano correu bem. A preocupação agora é conseguir repetir o processo nos anos seguintes. Nós não podemos ter altos e baixos. Temos de manter a qualidade. Este ano será excelente, vamos ter aqui um bom vinho.

CL – Qual é a estimativa de produção?

JVP – A estimativa deste ano andará, no caso do Colares, à volta das 30 mil garrafas. O regional é um bocadito mais e depois há o vinho de mesa. A produção total anda aí pelos 80 mil litros. Estamos a falar de mais pequena adega cooperativa do País. Quando falamos de uma adega cooperativa falamos sempre de milhões de litros. Aqui o que importa é a qualidade e o preço a que conseguimos vender o nosso produto, mais do que a quantidade.

CL – Existe algum plano para aumentar a área de vinha?

JVP – Isso é fundamental, mas vai gradualmente. Isto é uma coisa que nunca se consegue fazer de um ano para o outro, mas vamos tendo mais plantações.

CL – Portanto, é de esperar um aumento da produção nos próximos anos?

JVP – Vai haver um aumento. Se calhar, na denominação de origem poderá registar-se um aumento de cerca de 20 a 30 por cento nos próximos 3/4 anos. No Chão Rijo, ou seja, no vinho regional, no branco vai ocorrer um maior acréscimo do que no tinto, porque nós temos menos vinho tinto que branco. Temos tentado que haja mais plantações de branco, que deve crescer uns 60 por cento nos próximos três anos.

CL – Qual é o peso que as exportações têm no total da vossa facturação?

JVP – À volta de 25/30 por cento. Claro que varia, até podemos ter uma gama mais alargada entre 20 a 30 por cento nas três gamas (vinho de mesa, regional e Colares), mas nós limitamos, não podemos ultrapassar isso.

CL – Para onde exportam?

JVP – Reino Unido e EUA são os dois principais destinos. Também alguma coisa para os países nórdicos. Não conseguimos satisfazer sempre a exportação, porque senão levava tudo. Temos de pôr travão, temos explicado aos importadores de lá que isto tem limite, um x de garrafas. Para cima disso só com muita dificuldade. Existe essa contenção.

CL – Em Portugal, quais são os canais de escoamento mais utilizados?

JVP – Nós nunca quisemos meter um distribuidor nacional, mas se calhar temos de avançar para isso. Temos pequenos distribuidores em diversas regiões. Por exemplo, não temos em Faro, no Algarve. É importantíssimo para vinhos desta natureza, pelo poder de compra que a região tem.

No resto do País temos, mas são sempre pequenos distribuidores, pessoas que vêm aqui, que levam o vinho e o distribuem. Provavelmente, vamos ter de ir para uma distribuição maior. O problema é que essas distribuições levam uma fatia significativa e nós pretendemos fazer o máximo de venda directa, no balcão da Adega e no Enoturismo, nas provas de vinho, e também nos eventos que ocorrem aqui com frequência.

O Enoturismo é um meio de distribuição importante, depois há as lojas locais, temos um comercial nosso que dá a volta pelas lojas da região, também vendemos aos restaurantes, e há ainda uma grande superfície, o Auchan. Estamos apenas em cinco ou seis lojas desta marca, aqui em Sintra, em Cascais e nas Amoreiras, em Lisboa, porque não queremos banalizar a coisa para a grande superfície.

Foto: Jorge Rodrigues

A IMPORTÂNCIA DO ENOTURISMO

CL – Qual a importância do Enoturismo para a Cooperativa? Qual é o peso que representa na facturação total?

JVP – O Enoturismo tem sido importante, está sempre com força. Representa à volta de 20 por cento da nossa facturação e pode aumentar ainda bastante. Nós temos possibilidade de chegar aos 40 por cento. Não tenho dúvidas disso.

CL – Têm algum programa especial com os restaurantes da região?

JVP – Eu sou um bocado exigente. Nós temos condições especiais para todos os restaurantes da região, melhores do que as praticadas aqui na venda ao balcão, mas há estabelecimentos que nos trocam por 10 cêntimos. Eu não gosto disso. E há outra coisa fundamental: os restaurantes locais ainda não se capacitaram que quem nos visita quer provar produtos da região. É claro que também temos a questão do preço. Não é qualquer restaurante que nos compra uma garrafa por 16/17 euros. E os que compram vendem-na depois por 40 e tal euros. Eu, como produtor, recebo por uma garrafa 2,5 euros e o restaurante recebe 25 euros. Isto é o normal. Há uma sobrevalorização exagerada do preço nos restaurantes. Depois, claro que não conseguem vender grande coisa e queixam-se que não vendem muito, que ganham mais dinheiro na água. É evidente, as pessoas consomem mais água porque ela é mais barata…

CL – Está previsto o lançamento de novos vinhos?

JVP – Vamos ter, ainda este ano, um rosé regional, que nunca tivemos. Já fazemos rosé, mas como vinho de mesa, um vinho corrente. É bom para animar. Vamos começar com o ‘refresh’ de marcas e de rótulos, a misturar com vinhos novos. Actualmente, os rosés são muito procurados.

E vamos ter também outra novidade, que já não é bem uma novidade. Trata-se de uma cerveja fruto de uma parceria que temos com o Sintra Hop Sin Brewpub, que está aqui em frente, do outro lado da rua. Mantemos e queremos ampliar esta parceria para criar uma cerveja Grape Ale, um híbrido que mistura cerveja com um vinho feito a partir da casta Malvasia de Colares. Trata-se de uma cerveja artesanal produzida em pequena quantidade.

Este ano, produzimos à volta de 600 garrafas. Esta cerveja, com uma cor mais para o acastanhado, é feita com uma percentagem à volta de 30 por cento de Malvasia e estagiou durante dois anos em barricas de Ramisco. Não é uma cerveja qualquer, tem 13 graus e é bastante saborosa. É preciso cuidado. Se beber duas garrafas pode ir dormir a sesta. É uma experiência diferente. Nós queremos fortalecer esta parceria, ver se conseguimos mantê-la por muito tempo e ampliá-la também em termos de produção.

CL – Existem mais algumas iniciativas ligadas ao lançamento de novos produtos?

JVP – Teremos sempre a ideia de criar produtos novos, mas estamos limitadíssimos pela reduzida produção que temos. Outra das coisas que está na calha, um projecto em que eu aposto, é o espumante de Malvasia. Já está a ser testado há uns anos. Acredito que em 2027 já devemos ter o Espumante Malvasia de Colares.

Foto: Jorge Rodrigues

Autor: Luís Curado

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