Com 103 anos de existência, a Olegário Packaging & Labels é uma referência na indústria gráfica portuguesa, marcada por uma história de reinvenção e resiliência. Fundada em 1922 e adquirida por João Baeta em 1968, a empresa passou de um estado de falência a um projeto sólido, sustentado por uma visão de crescimento assente no trabalho constante, na fidelização dos clientes e na capacidade de adaptação a um setor em permanente transformação.
Atualmente, a empresa conta com cerca de 150 colaboradores e uma área industrial de mais de 13 mil metros quadrados, operando nas áreas da impressão offset, flexográfica e digital, com especialização em embalagens e rótulos autocolantes. A estrutura assenta num modelo familiar, com uma liderança partilhada entre João Baeta, a filha Cristina Baeta e o genro Duarte Sousa, preservando uma identidade assente na confiança, continuidade e responsabilidade.
A par do desenvolvimento industrial, a Olegário criou em 2019 o Lugar da Memória, um espaço museológico que vai além da história da empresa e se dedica à preservação e valorização do património gráfico nacional. Com exposições temáticas, arquivos documentais e peças históricas do design e da impressão, este projeto desempenha um papel essencial não só na promoção da cultura gráfica em Portugal, mas também na sua vertente pedagógica. Recebendo regularmente estudantes e profissionais, o Lugar da Memória oferece uma experiência imersiva que alia conhecimento histórico à observação prática dos processos gráficos contemporâneos, mantendo vivos os valores de rigor, criatividade e inovação que definem tanto o setor como a identidade da Olegário.
O Correio da Linha (CL) – Como começou a sua ligação à Olegário Fernandes e de que forma a empresa evoluiu desde então?
João Baeta (JB) – Cheguei à Olegário há quase 60 anos, tinha 25 anos. Eu e um amigo, que era compositor gráfico manual falávamos frequentemente sobre o futuro e sobre a vontade de deixarmos de trabalhar por conta de outrem. Na altura, não sabíamos bem qual o rumo a seguir, mas como ele era da área gráfica, decidimos procurar uma empresa já existente para comprar, o que nos permitiria ter acesso a um alvará, obrigatório naquela época devido ao condicionamento industrial. E foi assim que em 1968 surgiu a oportunidade de adquirir a Olegário Fernandes, uma gráfica fundada em 1922 que na altura estava obsoleta e falida.
Começámos por manter os serviços tradicionais da empresa: faturas, cartas, envelopes, cartazes e cartões de visita. Estávamos na Rua do Benformoso e a maioria dos clientes eram pessoas que passavam ali na zona. Depressa percebemos que, para crescer, precisávamos de investir. Comprámos a primeira máquina tipográfica – uma Heidelberg que está à entrada do nosso museu – começámos a angariar novos clientes e a experimentar novas áreas. Durante muito tempo, a publicidade foi o grande motor da empresa. Trabalhámos com diversas marcas em campanhas intensas, mas irregulares, o que nos levou a notar que a continuidade temporal era essencial para a viabilidade do negócio. Entretanto passados três anos o meu sócio saiu e fiquei apenas eu à frente da empresa.

ESPECIALIZAÇÃO E CRESCIMENTO DAS INSTALAÇÕES
CL – O que motivou a aposta na especialização em rótulos e embalagens?
JB – A especialização foi uma decisão estratégica. A experiência com a publicidade mostrou-nos que depender de picos de produção não era sustentável. Precisávamos de uma base sólida, algo que nos permitisse garantir trabalho ao longo de todo o ano. E foi assim que apostámos na produção de rótulos em papel, que rapidamente se tornou a principal atividade da empresa. Com novas máquinas e uma nova escala de produção, começámos a fornecer milhões de rótulos, sobretudo para águas e sumos.
Com o tempo, fomos observando o mercado, vendo o que faziam os nossos concorrentes e, sobretudo, as empresas que mais se destacavam. O passo seguinte foi natural: juntar os rótulos à produção de embalagens. Não fizemos tudo de uma vez, porque tal exigia capital e tempo. Fomos crescendo com os meios que tínhamos, reinvestindo lucros e avançando de forma sustentada. A nossa grande aposta sempre foi a especialização e a solidez.
CL – Como foi o processo de crescimento das estruturas da empresa?
JB – Tudo foi feito com muito trabalho e com uma lógica de reinvestimento constante. No início, estávamos instalados debaixo de prédios em Lisboa, o que não oferecia condições para uma produção em série. Em 1991, surgiu a oportunidade de construir instalações próprias no terreno em que nos encontramos atualmente, no Cacém, que adquiri na totalidade. Começámos com mil metros quadrados e fomos ampliando as instalações à medida que havia condições financeiras — a última ampliação foi em 2015. Hoje temos cerca de 13.500 metros quadrados entre as instalações principais e armazéns anexos. Contamos ainda com um armazém no Carregado.
CL – Que desafios enfrentaram com a mudança do mercado de rótulos em papel para rótulos autocolantes em bobine?
JB – A certa altura começámos a perceber que o mercado estava a mudar. Os clientes começaram a informar-nos de que iam deixar de usar rótulos em papel e passar para rótulos autocolantes em bobine. Disseram-nos claramente: “ou se adaptam ou ficam para trás”. E nós decidimos avançar. Foi assim que criámos uma nova empresa em Góis, a minha terra natal. Estivemos lá cerca de seis anos. No entanto, nesse período, enfrentámos uma crise significativa. A empresa era rentável, mas o fundo de maneio estava fragilizado — o crescimento e os investimentos tinham-nos deixado com dificuldades de liquidez. Chegámos a recorrer à banca, encomendámos um estudo de viabilidade, tentámos apresentar o projeto a várias instituições financeiras. No final, a empresa responsável pelo estudo chegou a aconselhar-nos a declarar insolvência.
Foi um momento duro. Reuni a família e decidimos que não iríamos desistir. Sabíamos que tínhamos um bom produto, uma empresa sólida, e estávamos simplesmente a atravessar uma fase de desequilíbrio financeiro. Persistimos, e em boa hora o fizemos. Acabámos por encerrar a unidade de Góis e concentrar tudo novamente em Lisboa, em 2003, focando-nos nas áreas que melhor dominávamos.

TRANSFORMAÇÃO TECNOLÓGICA E SUSTENTABILIDADE
CL – Quais são os principais setores em que a empresa opera?
JB – A Olegário atua sobretudo na produção de embalagens e rótulos autocolantes em bobine. Uma área com grande peso na nossa atividade é a indústria farmacêutica: fazemos embalagens de medicamentos e também bulas. É um setor exigente, mas onde nos especializámos e temos vindo a consolidar relações duradouras.
Além da área farmacêutica, trabalhamos também com os setores da higiene e limpeza, o setor alimentar e o vinícola. Temos clientes com mais de 40 anos de relação comercial connosco. Sempre pautámos a nossa atuação por valores de honestidade e seriedade. Essa confiança mútua é um dos pilares da nossa longevidade.
CL – Como descreve a estrutura atual da empresa?
JB – Hoje, a Olegário Packaging & Labels está organizada em três grandes áreas de impressão: offset, flexografia e digital. O offset, que usamos principalmente para as embalagens, é um sistema indireto, em que a imagem passa por um cilindro de borracha antes de chegar ao papel. A flexografia, que usamos para os rótulos autocolantes, funciona como um carimbo de alta precisão. Já o digital é utilizado para tiragens mais pequenas, em que a flexibilidade é essencial.
Além da impressão, temos setores de corte e vinco, acabamento — onde se fazem colagens e fechos — e logística e expedição. A produção é acompanhada por equipas técnicas e sistemas digitais que permitem visualizar, em tempo real, se os objetivos estão a ser cumpridos.
CL – Que inovações tecnológicas foram implementadas nos últimos anos?
JB – Temos feito uma aposta muito forte na modernização e digitalização dos processos, tanto ao nível da maquinaria como da organização interna. Uma das nossas prioridades tem sido a integração digital dos fluxos de trabalho. Atualmente, desde que uma encomenda entra no sistema até ao momento em que o camião é carregado, tudo é acompanhado através de um software especializado. O circuito passa pelas vendas, pela pré-impressão, pelo planeamento e pela produção, sempre com acompanhamento técnico e controlo em tempo real. Isto não visa substituir pessoas, mas sim tornar os processos mais eficientes, produtivos e transparentes.
No que respeita ao investimento na modernização tecnológica nunca ficamos abaixo de um milhão de euros de investimento anual. O objetivo é mantermo-nos competitivos, responder às exigências do mercado e melhorar continuamente a qualidade dos acabamentos.
CL – De que forma a digitalização tem contribuído para o controlo de qualidade da empresa?
JB – Num setor como o gráfico, qualquer erro pode ser gravíssimo, especialmente quando trabalhamos com a indústria farmacêutica, onde há exigências muito rigorosas. Utilizamos sistemas de câmaras de última geração que monitorizam em tempo real a produção, comparando o que está a ser feito com os modelos aprovados. Há uma obrigatoriedade de visualização em todas as etapas do processo, para garantir que nada falha. Além do controlo interno, somos auditados regularmente por empresas externas e pelos próprios clientes. Estas auditorias são exigentes, mas fazem parte do nosso compromisso com a excelência.
CL – Quais são as vossas principais práticas ao nível da sustentabilidade?
JB – A nível ambiental, somos certificados pelas normas ISO — qualidade, ambiente e segurança. Temos uma preocupação séria com a origem das matérias-primas, sobretudo o papel, que compramos apenas com certificação de florestas geridas de forma responsável. Trabalhamos com fornecedores que se comprometem a repor o que extraem. A nível social, apoiamos várias instituições, tanto do nosso concelho como de fora, porque entendemos que uma empresa também deve ter um papel ativo na comunidade onde se insere.

DESAFIOS E PROJEÇÕES PARA O FUTURO
CL – Quais os principais desafios que o setor enfrenta?
JB – Um dos mais graves é a escassez de formação especializada. Durante anos não houve praticamente nenhum investimento na qualificação técnica dos profissionais desta área. Os nossos operadores aprendem tudo dentro da empresa, o que exige muito tempo e esforço. Há iniciativas pontuais, como as Instituto Politécnico de Tomar, mas ainda estão longe de dar resposta às necessidades do setor.
Outro desafio é a dificuldade de expansão internacional. Uma verdadeira aposta na exportação exige presença em feiras, investimento comercial e diferenciação e a verdade é que, neste setor, qualquer gráfica pode produzir aquilo que nós fazemos. Não temos ainda um produto suficientemente distinto para facilitar esse caminho. Mesmo assim, discutimos a exportação todos os anos no planeamento e mantemos esse objetivo em aberto. Na realidade, indiretamente, mais de 50% das embalagens que produzimos acabam por ser exportadas pelos nossos clientes.
CL – Quais são os objetivos estratégicos para o futuro da empresa?
JB – Quanto ao futuro, o nosso principal objetivo é manter a competitividade. Continuar a investir em equipamentos que respondam às exigências do mercado e à evolução tecnológica. A informatização total da cadeia produtiva continua a ser uma aposta.
CL – Ao longo dos anos quais considera terem sido os momentos mais marcantes para a Olegário?
JB – A transição da tipografia tradicional para uma gráfica especializada foi um marco. Outro foi a construção das nossas próprias instalações, depois de anos divididos por vários prédios na Rua do Benformoso. A adaptação aos rótulos autocolantes foi igualmente um passo crítico. Tivemos também experiências internacionais, nomeadamente a gráfica que tivemos na Guiné durante sete anos, que nos deram outras perspetivas. Mas, acima de tudo, o que nos trouxe até aqui foi a persistência, a capacidade de adaptação e a vontade de fazer bem.

PRESERVAR O PASSADO, INSPIRAR O FUTURO
CL – Em que consiste O Lugar da Memória?
JB – Este espaço nasceu em 2019 com o objetivo de preservar e dar a conhecer a história da Olegário Fernandes e, inevitavelmente, a história pessoal e empresarial de João Baeta. Mas rapidamente se transformou num centro de valorização do património gráfico nacional, onde se cruzam memórias da empresa com momentos marcantes da evolução das artes gráficas em Portugal. O museu resulta de um trabalho contínuo de recolha, organização e digitalização de um espólio vastíssimo que foi sendo reunido ao longo de décadas. Desde que integrei este projeto, sou responsável pela sua gestão diária, assegurando que tudo é fotografado, catalogado e documentado, de forma digital. O meu papel é garantir que esta história continua viva e acessível, através de exposições, registos digitais e a promoção de visitas guiadas. Além disso contamos com o contributo essencial de Manuel Paula, que é o curador criativo das exposições. É com ele que concebo cada mostra. Ele tem um profundo conhecimento das artes gráficas e um sentido expositivo muito apurado. Basicamente, eu asseguro o funcionamento diário e a ligação com o arquivo e o público, enquanto ele se foca na narrativa visual e no conceito de cada exposição. É um verdadeiro trabalho de equipa, feito com muito rigor e paixão.
CL – Que exposições já foram aqui realizadas?
JB – O Lugar da Memória já vai na sua quarta exposição. A primeira foi dedicada à história da própria empresa, desde a aquisição da Olegário Fernandes por João Baeta, em 1968, até às transformações mais recentes. Depois homenageámos Stuart de Carvalhais, uma figura central da ilustração e da banda desenhada portuguesa, cuja ligação ao universo gráfico fez todo o sentido destacar. Seguiu-se uma exposição comemorativa do centenário da empresa, em 2022, que incluiu uma Sessão Solene, um evento para clientes e outro para colaboradores e ex-colaboradores.
CL – Atualmente, o que podem os visitantes ver neste local?
JB – A exposição atual reúne rótulos, embalagens e brindes históricos, muitos deles do início do século XX, gentilmente cedidos pelo Manuel Paula. Entre as peças, há desde garrafas com rótulos de época a caixas litografadas que documentam práticas de comunicação visual há muito desaparecidas. A única peça em exposição produzida pela Olegário Fernandes é uma vitrine na qual estão exibidos os brindes que costumávamos dar aos clientes, um gesto que simboliza a importância das relações comerciais ao longo do tempo. É uma viagem pela história do design e da embalagem, onde se revelam marcos importantes da indústria gráfica em Portugal.
CL – Há alguma peça que destaque?
JB – É difícil escolher apenas uma, mas há várias peças que se destacam pelas suas características gráficas e valor histórico. Alguns rótulos e embalagens antigos, expostos nas vitrines, impressionam pelo detalhe e pela elegância do design, com técnicas de impressão e acabamentos — como papéis texturados ou tintas metalizadas — que hoje seriam quase impossíveis de reproduzir em grande escala. Também chamam muito a atenção os brindes promocionais, que refletem estratégias de marketing bastante diferentes das atuais. Mais do que objetos bonitos, são testemunhos vivos de como se comunicava e valorizava o produto noutros tempos.
CL – Quem visita o Lugar da Memória e como é que a interação com o público tem evoluído?
JB – Começámos por convidar escolas — nomeadamente a Escola Superior de Educação e o Instituto Politécnico de Tomar —, mas neste momento já existe uma procura espontânea e crescente. O público é sobretudo composto por jovens estudantes, especialmente da área do design e comunicação, mas também recebemos grupos interessados na história industrial e gráfica. O que procuramos é dar-lhes uma experiência completa: começam por visitar a exposição e depois fazem uma visita guiada à fábrica em funcionamento, onde podem ver, na prática, como se produz uma embalagem, um rótulo ou uma bula farmacêutica. Essa conjugação entre memória e presente é o que mais os entusiasma.
NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico























