Bruno Maurício: “Consigo ter um desenho intacto durante cerca de duas horas” 

Bruno Maurício, conhecido artisticamente como BEMMA, tem vindo a destacar-se pelos desenhos que cria na areia, muitas vezes ao nascer do dia, e pelas obras em tela, onde retrata rostos com um traço inconfundível.

Entre praias silenciosas e pinceladas meticulosas, o seu percurso cruza técnica e intuição, sempre com uma atenção particular ao gesto, ao tempo e ao lugar onde a sua arte acontece.

O Correio da Linha (CL) – Como surgiu o nome artístico “BEMMA” e o que representa para si?

Bruno Maurício (BM) – O nome BEMMA nasceu há cerca 9 anos de uma vontade muito pessoal de criar algo que representasse a minha arte e a minha família. A minha filha chama-se Ema e o meu filho Martinho. Juntei então o “B” de Bruno, com o “em” de Ema e o “ma” de Martinho e assim que surgiu este nome, uma fusão simbólica e afetiva. Queria também um nome mais curto e memorável do que Bruno Maurício, e esta escolha permitiu-me ter os meus filhos presentes na minha identidade artística.

CL – Qual é a sua formação e como se cruzam a sua profissão e a arte?

BM – A minha formação foi sempre ligada ao desenho. Embora não seja licenciado, estudei na área até ao 12.º ano. Desde então, nunca larguei os lápis nem os rabiscos: desenhar sempre fez parte de mim. Profissionalmente, trabalho com tecidos de decoração, numa empresa que já era do meu pai. É uma área que, embora à primeira vista possa parecer técnica, também tem um lado artístico, desde a escolha de cores à combinação de padrões. De certa forma, é uma extensão da minha sensibilidade estética. A arte está presente em tudo o que faço, seja numa tela, na areia ou num tecido.

CL – Como surgiu a ideia de desenhar na areia?

BM – Tudo começou graças à internet, que nos leva a descobrir mundos e pessoas fascinantes. Foi assim que encontrei um artista que fazia desenhos na areia, numa escala impressionante. Fiquei imediatamente cativado. Certo dia, num fim de semana com amigos no Algarve, entrei numa drogaria e comprei um ancinho. Era inverno pelo que era algo inusitado para levar à praia, mas o ato foi encarado como mais uma das minhas maluqueiras. Enquanto os meus amigos ficaram “lá em cima”, na areia seca, eu desci até à zona da areia mais dura, junto à água, e comecei a desenhar. Perdi completamente a noção do tempo — passaram-se duas ou três horas num ápice, tal era o prazer que aquilo me dava. Quando deixámos a praia, olhámos para baixo e vimos a composição final. Tinha ficado algo de muito especial. Esse foi o meu primeiro desenho na areia, há cerca de nove anos. Desde então, nunca mais parei e fui desenvolvendo a técnica até ao que é hoje.

CL – Como é que os desenhos na areia se tornaram uma prática recorrente?

BM – Quando comecei, era o primeiro a fazer este tipo de arte em Portugal. Tinha a certeza de que mais cedo ou mais tarde iria resultar: pela novidade, pela beleza, e pelo facto de não ser intrusivo. Não estou a danificar paredes nem a invadir espaços. E, acima de tudo, dá-me um gozo imenso. Levanto-me às seis da manhã para ir para a praia, quando ainda não há pegadas na areia, e posso trabalhar com tranquilidade. Mesmo não sabendo nadar, sempre senti uma ligação muito forte ao mar. É uma experiência quase meditativa: estou sozinho, descalço — o que me liga ainda mais à terra — e completamente concentrado naquele momento. Com o tempo, fui aperfeiçoando a técnica, e atualmente já consigo fazer sombras. De igual modo fui-me afastando intencionalmente das mandalas para composições mais livres, porque gosto de fugir à simetria e à “matemática” que essas exigem. Prefiro o traço espontâneo. Hoje em dia, com a ajuda de um drone, consigo ter uma perspetiva totalmente diferente dos meus desenhos.

CL – Quanto tempo demora, em média, a realizar um desenho na areia, e como encara o facto de a obra desaparecer com a maré?

BM – Normalmente demoro entre três a quatro horas a concluir um desenho. Depois, deixo o mar levar o meu trabalho. Para muitos pode parecer um desperdício, mas para mim é puro prazer. Faço-o por carolice, por gosto pessoal. O processo é o que mais me motiva — acordar cedo, enfrentar o frio, ter de estar em sintonia com a maré. Já aconteceu chegar à praia e não haver areia suficiente, ou estar tudo coberto de pedras por causa das intempéries, como aconteceu recentemente com a tempestade Martinho. O que me move é o gozo de criar, não a permanência da obra. Além disso é engraçado porque quando era mais novo saía muito à noite e chegava às seis ou sete da manhã a casa… agora saio de casa a essa hora para ir desenhar. Volta e meia, como costumo dizer em brincadeira, cruzo-me comigo, ou seja, vejo-me a chegar a casa quando estou a sair. Nessas alturas cumprimento-me e sigo o meu caminho.

CL – Há alguma mensagem que queira transmitir com estas obras?

BM – É uma coisa absolutamente pessoal. Não há uma mensagem pré-definida, nem um propósito didático ou político. Faço porque me diverte, porque me realiza. É uma expressão muito íntima, quase terapêutica. E se depois alguém passar pela praia, vir o desenho e se emocionar ou admirar o que fiz — melhor ainda. Mas o essencial é o momento em que estou a criar, ligado à areia e ao mar, apenas por prazer.

CL – Onde costuma fazer estes desenhos e quanto duram até a maré os levar?

BM – Costumo fazer os desenhos no Rabo da Baleia, na Praia da Torre. O tempo de exposição de um desenho na areia varia muito, depende das marés e do movimento na praia. Sensivelmente até às 10h30 dá para apreciar com qualidade. Normalmente, consigo ter o desenho intacto durante cerca de duas horas. No início, confesso que me custava ver os cães ou os banhistas a pisarem a obra, mas com o tempo aprendi a desapegar-me. Hoje, quando tiro a fotografia com o drone, sinto que o desenho deixa de ser meu — passa a pertencer ao tempo, ao mar e a quem o viu naquele instante.

CL – Como é que o público reage aos seus desenhos na areia?

BM – Apesar de trabalhar sempre com headphones, consigo ouvir muitas das pessoas que passam cedo pela Praia da Torre — geralmente a fazer jogging — a chamarem por mim ou a comentarem que o desenho está “brutal”. E isso enche-me de alegria. Quando olho para cima e vejo a arriba cheia de gente a observar o meu trabalho, é um momento verdadeiramente especial. Já tive grupos de crianças a bater palmas, elogios vindos de todas as direções… é um reconhecimento que me dá um enorme prazer.

CL – Durante que altura do ano é possível ver os seus desenhos na areia?

BM – No geral, é fora da época balnear que mais trabalho, quando as praias estão mais tranquilas. Durante o verão, só se o dia estiver mais cinzento e, consequentemente com menos banhistas, é que arrisco a fazer os desenhos. Mas é sobretudo nas estações intermédias, com as praias vazias e silenciosas, que consigo mergulhar a sério neste tipo de criação.

CL – Que tipo de composições tem explorado atualmente e com que ferramentas realiza os seus desenhos?

BM – Como referi, estou a tentar fugir das mandalas, que são muito geométricas e exigem um rigor quase matemático. Agora estou numa fase de exploração mais livre, mais intuitiva, com composições feitas à base de linhas. Tenho imensos desenhos guardados que quero começar a transportar para a areia, e um dos meus grandes desafios é conseguir desenhar um rosto — como os que faço em tela — em grande escala sobre a areia. Em termos de ferramentas, trabalho com dois ancinhos: um mais fino, para os detalhes, e outro em forma de leque, como aqueles usados para apanhar folhas, que me permite criar traços mais largos. Estes ancinhos funcionam como se fossem pincéis com diferentes espessuras.

CL – Como mencionou, também trabalha em tela. Pode explicar-nos a sua técnica e o tipo de materiais que utiliza nas suas obras?

BM – A minha técnica é relativamente simples. Pinto sobretudo rostos, e trabalho sempre a partir de uma fotografia. Começo por desenhar o traço com base nessa imagem, depois transporto-o para a tela — seja ela de pequeno ou grande formato — ou então amplio-o para murais. Uso normalmente um fundo branco, que dá mais força à imagem, e trabalho apenas com preto, usando pincéis muito pequenos, geralmente de tamanho 6. Pinto sempre em acrílico, porque é mais prático: limpa-se com facilidade e seca rapidamente. Tenho uma predileção especial por pintar pessoas mais velhas: as rugas, as expressões marcadas, permitem-me capturar a essência do rosto de uma forma muito intensa.

CL – Como foi o percurso até encontrar o seu traço?

BM – Tenho 50 anos, e diria que há pelo menos 45 que ando à procura do meu traço — algo que considero ser o maior desafio para qualquer artista. Ao longo do tempo, vamos absorvendo influências, quer na pintura quer noutras formas de expressão, e isso acaba inevitavelmente por se refletir no nosso trabalho. Mas sempre procurei fazer algo diferente, algo que fosse genuinamente meu. Claro que nem todos gostam, mas acredito que finalmente encontrei o meu traço, e é este que hoje apresento nas minhas obras. Chegar aqui foi um caminho longo e exigente, por isso vou continuar fiel a ele.

CL – Recentemente, os seus quadros estiveram em exposição no Casino do Estoril, no Casino de Lisboa e no Parque dos Poetas, em Oeiras e tinham um tema que lhe é especial…

prestou homenagem à comunidade piscatória de Paço de Arcos. Como surgiu essa ideia e como foi o processo de criação?

BM – A exposição intitulava-se “Abraço aos Meus Mares” e visava prestar a devida homenagem à comunidade piscatória de Paço de Arcos. Com efeito, nasci e cresci nessa zona, a poucos minutos a pé da praia, por isso esta exposição teve um significado muito especial para mim. Curiosamente, nunca aprendi a nadar, e talvez por isso, enquanto os meus amigos mergulhavam no mar, eu ficava mais próximo dos pescadores. Com o tempo, fui criando uma ligação afetiva com essa comunidade. Para preparar a exposição, passei cerca de 15 dias com os pescadores: conversei com eles, almocei com eles, vivi quase como um deles para absorver verdadeiramente a essência do seu dia a dia. A partir dessa convivência, selecionei rostos, alguns de pessoas que conheci pessoalmente e outros de figuras já falecidas, cujas imagens me foram gentilmente cedidas pelos próprios pescadores. Na exposição estiveram expostas 11 telas, mas pintei um total de 18.

CL – Onde é possível adquirir os seus trabalhos?

BM – Quem quiser adquirir os meus trabalhos pode contactar-me diretamente através do Instagram. É por lá que vou partilhando as obras mais recentes e que recebo a maioria dos pedidos. Muitos deles são feitos por pessoas que não conheço pessoalmente, que me enviam fotografias — normalmente de entes queridos que já partiram – para eu transformar em telas. Tenho feito cada vez mais retratos a partir dessas imagens, o que me dá um enorme prazer. As telas podem ser encomendadas em diferentes tamanhos, embora eu recomende formatos maiores para garantir o impacto e os detalhes, sobretudo no olhar, que é algo que gosto muito de trabalhar.

Foto: Paulo Rodrigues

CL – O que é que mais o realiza nesse processo de criar uma peça por encomenda?

BM – O que me dá mais gozo é sentir que a minha arte toca realmente as pessoas. Os meus amigos e familiares têm muitas telas minhas, mas ir a casa de alguém e deparar-me com uma, é algo fenomenal. Já tive experiências muito marcantes nesse sentido. Lembro-me de uma amiga do liceu, com a qual não falava há anos que me ligou para pedir que fizesse uma tela a partir de uma fotografia do avô que tinha falecido recentemente. Ela desembrulhou a tela com a família e depois enviou-me uma fotografia desse momento: a emoção era visível. Se me dá prazer ir à praia desenhar algo que o mar vai apagar, então imaginem o que sinto ao saber que uma obra minha vai viver numa casa, numa parede, num espaço cheio de significado. Não vivo apenas da arte, e talvez por isso consiga manter esta ligação tão pura e emocional com o que faço.

CL – Que trabalhos e colaborações que já realizou enquanto artista?

BM – Tenho tido a sorte de colaborar com várias entidades e em diferentes formatos. Um dos momentos marcantes foi quando fui convidado pela Câmara Municipal de Oeiras para desenhar o logótipo do município na areia. Mais tarde, esse convite estendeu-se à execução de 14 murais no concelho sobretudo com mandalas, que são composições muito simbólicas e visualmente apelativas. Também realizei murais na União de Freguesias de Carcavelos e Parede, mais concretamente nos Jardins da Parede junto ao Garden Café, onde fiz murais maiores com o meu traço mais conhecido. Também tenho sido convidado para realizar workshops em várias zonas do país como, Oeiras, Matosinhos e Porto. De igual modo já colaborei com vários canais de televisão para reportagens e iniciativas relacionadas com o meu trabalho.

CL – Já teve oportunidade de apresentar ou desenvolver o seu trabalho fora de Portugal?

BM – Ainda não tive exposições formais noutros países, mas já levei a minha arte da areia além-fronteiras. Uma das experiências mais marcantes foi em São Tomé e Príncipe, onde fiz vários desenhos na praia durante aquelas que considero as melhores férias da minha vida. Estive lá sozinho, passei os dias praticamente descalço, em contacto direto com a terra — foi uma experiência intensa, crua, inesquecível. Também desenhei no Rio de Janeiro, embora nessa altura ainda não tivesse drone, por isso não consegui registar as obras como faço hoje. Mas o impulso de criar, mesmo fora do meu território, está sempre presente. Onde houver areia, há possibilidade de expressão.

CL – Pode partilhar connosco o que vem a seguir?

BM – Felizmente tenho vários projetos em andamento. Recentemente concluí um mural no parque de estacionamento do Casino de Lisboa: uma parede com 12 metros de comprimento. Foi uma experiência fantástica, até porque não é comum por cá valorizarmos espaços como parques de estacionamento com arte, apesar de serem locais que recebem imensa gente. Além disso, estou prestes a iniciar um novo projeto em Sevilha, onde vou colaborar com um artista amigo na criação de um mural de grande dimensão. Também tenho novidades na arte da areia, com um trabalho encomendado por uma empresa. É uma fase bastante ativa e quem quiser acompanhar tudo pode seguir o meu percurso através do Instagram, onde vou partilhando cada passo.

CL – Qual é a sua visão sobre o panorama da arte urbana em Portugal?

BM – A arte urbana tem muitas vertentes. Para mim, ela é tudo o que mexe no espaço público. Pode ir desde uma intervenção num edifício a um MUPI publicitário. Tudo isso, de alguma forma, comunica e transforma a paisagem urbana. No entanto, sinto que a arte urbana em Portugal está muito concentrada nas mesmas pessoas, nos mesmos nomes. Falta abrir espaço a outros artistas, dar oportunidade a novas vozes e abordagens. Mesmo aqueles que fazem tags ou grafittis — que muitas vezes são desvalorizados ou considerados “sujos” — estão a intervir no espaço urbano e, portanto, também estão a fazer arte urbana. Precisamos de uma visão mais abrangente e inclusiva, tanto por parte das entidades públicas como da própria sociedade.

NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Autor: Raquel Luís

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