Humberto Gonçalves: “Não é preciso ir depressa para morrer numa mota” 

O Tentativa de Motoclube Carcavelos (TMC) é uma associação sem fins lucrativos que procura fazer a diferença nas iniciativas solidárias que desenvolve no seio da comunidade, nomeadamente ao apoiar e colaborar em actividades de acção social. Nascido em 14 de Julho de 2018 com base numa ideia lançada por um grupo de amigos, o Motoclube teve uma primeira sede, provisória, instalada em casa de um dos membros fundadores, até conseguir realizar o sonho de ter sede própria.

Em 22 de Abril do ano passado, o TMC mudou-se para as instalações que ocupa actualmente, localizadas na Rua dos Escuteiros, junto ao Jardim das Oliveiras, na freguesia de Carcavelos, não muito longe da Igreja de São Domingos de Rana. A mudança para a nova ‘casa’ veio concretizar uma promessa feita pela Câmara Municipal de Cascais (CMC) e pela União das Freguesias de Carcavelos e Parede (UFCP), que assim reconheceram o trabalho desenvolvido pela associação dentro do território concelhio.

Com seis anos de existência, o TMC mantém bem vivos os seus principais objectivos, promovendo o motociclismo e a realização de actividades desportivas, culturais, recreativas e turísticas, sem esquecer a defesa e valorização do património do concelho de Cascais e a preservação do Meio Ambiente. Em foco estão também sempre a promoção da imagem do motociclista, o cumprimento das regras do Código da Estrada e a aposta num convívio saudável entre os motociclistas sócios do Motoclube e as populações.  

Iniciativa lançada por um grupo de cinco amigos em Carcavelos, no seguimento de uma conversa mantida à mesa de um café, o TMC está a aproximar-se de atingir a dimensão desejada. O jornal ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa com Humberto Gonçalves, sócio número 1, presidente e um dos fundadores do Motoclube, sobre as iniciativas solidárias levadas a cabo com o apoio dos associados e sobre o futuro. Oportunidade ainda para sugerir alguns conselhos com vista a uma circulação na estrada mais segura e consciente.    

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – Quem é que pode fazer parte do TMC? O que tem de fazer para ser sócio?

Humberto Gonçalves (HG) – Por norma, a inscrição é feita online na nossa página na internet https://tentativademotoclube.pt. Depois, através de um sistema automatizado, é enviado um e-mail a convidar o candidato a sócio a deslocar-se à nossa sede (Rua dos Escuteiros, 2785-583 Carcavelos) para ser entrevistado por mim ou pelo vice-presidente. Em função desta conversa, combinamos com ele vir conviver aqui um bocadinho connosco. Só mais tarde é que passa a ser sócio.

CL – Na fase de selecção, quais são as principais características avaliadas no candidato a sócio?

HG – Acima de tudo, tem de ser uma pessoa com civismo, que seja também bem-disposta e esteja disponível para colaborar em eventos que organizamos. Não impomos a obrigatoriedade de ter mota para ser sócio. Há muitas pessoas que não têm mota, inclusive algumas senhoras que muito nos apoiam, que são os nossos anjinhos da guarda aqui na sede. Temos sócios que até nem tinham carta de mota. Quando participavam nos passeios connosco, iam de carro. Acabaram todos por tirar a carta de mota e muitos já têm mota.

CL – Com quantos associados contam?

HG – Neste momento, já ultrapassámos os 300 sócios.

CL – Têm uma quota?

HG – Temos uma quota de dois euros mensais, são 24 euros por ano, e uma jóia de entrada de 20 euros, que é paga uma única vez.

CL – O que distingue o TMC dos restantes motoclubes? Qual o elemento distintivo?

HG – Eu não acho que o nosso Motoclube se distinga dos restantes. Cada Motoclube tem uma forma de ser e de estar, não se distinguem uns dos outros. Todos nutrimos o mesmo gosto pelo ‘mundo das duas rodas’ e, sobretudo, pelo convívio.

A única regra que eu vejo que é diferente, que nós não temos, e que 99 por cento dos motoclubes têm, é que nós não impomos a obrigatoriedade do uso do colete. Há muita gente que não se identifica com o uso do colete. Quando foram escritos os estatutos, eu fui um dos que deu a ideia de não obrigar ninguém a andar com o colete. Eu, às vezes, quero ter liberdade de estar num determinado lugar sem ser identificado. Eu não tenho de usar o colete vá aonde for.

“SOMOS O ÚNICO MOTOCLUBE QUE TEM UM HINO”

CL – Portanto, essa é a única característica distintiva do TMC?

HG – Em termos dos estatutos, sim. Também somos o único motoclube que tem um hino. Um sócio escreveu a letra, que conta a história do TMC, outro criou a composição musical e outro cantou. (ouvir aqui: https://tentativademotoclube.pt/video/hino.mp3)

CL – Estão muito ligados às causas solidárias…

HG – Exatamente. Neste momento, estamos a promover uma angariação de fundos para dois irmãos que sofrem de paralisia cerebral. Temo-nos dedicado muito a esta causa, porque os pais são pessoas com alguma dificuldade. As crianças têm muitas limitações e têm de fazer muita fisioterapia. A mãe teve de abandonar o trabalho para se dedicar totalmente aos filhos. Não tem sido fácil para eles. Colaboramos muito com esta família, dentro do possível. Eles precisam mesmo desta ajuda.

CL – Que outras iniciativas estão a preparar?

HG – Neste momento, estamos a organizar também uma recolha de bens, essencialmente brinquedos, para entregarmos no Natal a uma instituição identificada pela UFCP. Todos os anos, costumamos fazer entregas de brinquedos durante um passeio de mota. O deste ano já está agendado para dia 21 de Dezembro. Durante o passeio compramos muitos doces, chupa-chupas e rebuçados para dar às crianças.

Nos últimos dois anos, juntámo-nos com o Motoclube de Cascais e com o Bairro dos Diamantes para termos mais volume. Este ano, vamos fazer o mesmo e queremos estender o passeio a todo o concelho.

CL – Na altura do Natal, também costumam entregar cabazes com bens de primeira necessidade a famílias carenciadas…

HG – É o Centro Comunitário de Carcavelos que trata desses cabazes, ficando à nossa responsabilidade fazer a distribuição pelas pessoas identificadas pela UFCP. Nós só fazemos a recolha dos cabazes e a sua distribuição com base numa lista com nomes e moradas que nos é facultada.

CL – Colaboram em muitos eventos realizados pela Autarquia?

HG – Sempre que nos é solicitado, tanto pela UFCP como pela CMC, estamos presentes. Mais recentemente, pela Câmara, estivemos a fazer o apoio ao Ironman com 18 motas. Levávamos os árbitros do evento à pendura. Das 06h00 até às 19h00, andávamos a circular entre os concorrentes, integrados no pelotão, e os árbitros faziam a avaliação das provas.

Mais recentemente, também colaborámos com 18 motas no III Rally Paper das Associações de Moradores de Cascais, igualmente organizado pela Câmara, a andar com os participantes. Não era bem um rally paper, era mais um moto paper. Teve uma afluência enorme, nomeadamente pessoas de idade que nunca tinham andado de mota.

BOMBEIROS RECEBEM MOTA EQUIPADA PARA EMERGÊNCIAS MÉDICAS

CL – Recentemente, entregaram uma mota equipada para actuar em situações de emergência ao corpo de Bombeiros de Carcavelos e São Domingos de Rana (BCSDR). Que tipo de veículo é este e como está adaptado à missão a que se destina?

HG – Sim, concretizámos aquilo que já era uma ambição com dois anos. Doámos aos BCSDR, por ocasião do 113.º aniversário da corporação, uma mota KTM 790 equipada com tudo, desde sirenes, rotativo, aparelho de oxigénio e um desfibrilhador automático externo. Foi o culminar de dois anos de angariações.

Durante a época dos fogos, fizemos também uma angariação grande de água e alimentos, que correu muito bem, que entregámos num posto de comando dos bombeiros na frente de combate às chamas na região de Viseu, mais concretamente em Castro Daire.

CL – Quais as principais dificuldades que o TMC tem enfrentado para desenvolver a sua actividade?

HG – Inicialmente, sentimos algumas dificuldades. Neste momento, já estamos um bocadinho mais confortáveis. A nova sede tem ajudado muito.

CL – Foi difícil construir esta nova sede?

HG – Os materiais utilizados são restos de obras que comprávamos em estâncias, para ser mais barato. Teve de ser aos bocadinhos. Quando a Câmara nos cedeu este espaço o edifício estava devoluto. Era para ser demolido. A obra foi toda à nossa custa. Fiquei espantado porque os sócios, quando souberam, colaboraram de uma forma que eu não estava à espera. Aos sábados, aos domingos, estavam sempre aqui a trabalhar. Nos dias de semana, saíam dos empregos e vinham para aqui ajudar a construir a sede. Todos faziam qualquer coisa, desde assentar tijolo e fazer cimento até aos trabalhos de electricidade e canalização.

CL – Quanto tempo é que demorou a obra?

HG – Demorou cerca de oito meses, com sócios a emprestarem dinheiro ao Motoclube. Depois, quando o bar começou a funcionar, à medida que íamos realizando dinheiro, fomos pagando tudo.

CL – Com que apoios é que contam para concretizar as vossas iniciativas?

HG – Fazemos essencialmente angariações. Procuramos ajudar quem precisa. As pessoas colaboram. Por exemplo, já mandámos operar dois cães de pessoas que não tinham possibilidade de pagar a um veterinário. Tentamos funcionar como intermediários entre quem necessita e quem pode disponibilizar os meios para concretizar a ajuda. Contamos com todos, pequeno comércio, supermercados, empresas, pessoas individuais e estamos cá nós, também.

CL – A Câmara e a UFCP também ajudam?

HG – A UFCP foi um dos grandes impulsionadores que nos ajudou muito desde o início, desde o primeiro ano, sobretudo no nosso aniversário. Com 24 euros por ano por cada sócio pouco ou nada se conseguia fazer. Nas festas é que conseguimos realizar algum capital para podermos financiar algumas iniciativas que promovemos. A UFCP ajuda-nos muito, todos os anos, ao ceder o espaço do mercado de Carcavelos para podermos realizar as nossas festas de aniversário. Tem-nos também permitido instalar um stand de comes e bebes nas Festas de Carcavelos, o que é muito bom.

Este ano, a Câmara, através do departamento de Associativismo, deu-nos uma boa ajuda, para podermos pagar o pavimento da sede, que é em resina. Neste momento, também já temos equipamento de ar-condicionado. Agora, precisamos de adquirir um televisor, pois o que tínhamos avariou.

CL – Contam com algum apoio das empresas da região?

HG – Há uma que tem apoiado muito, um importador de motociclos. Também temos um senhor que nos oferece os banners para a publicidade.

CL – Que tipo de serviços prestam aos associados?

HG – Fazemos parte do Balcão do Associativismo. Tudo o que esteja relacionado com a Câmara pode ser tratado através de nós, inclusive as renovações da carta de condução.

Além disso, um dos nossos sócios é técnico oficial de contas. Reformou-se agora. Na altura de entregar as declarações do IRS, vinham aí os vizinhos mais velhotes das redondezas para ele os ajudar a preencher a declaração.

De resto, daquilo que nos é solicitado, só não fazemos o que não conseguimos. Gostamos de ir mais além do que temos de fazer enquanto associação com direitos e deveres.

Os sócios colaboram muito e sentem-se bem, não ficam acomodados. Há muita gente que, se calhar, estava na disposição de colaborar e ajudar, mas depois não é capaz de dar o primeiro passo. Nós aqui fazemos a angariação desses meios. Temos muito essa dedicação.

“É PRECISO DISCIPLINAR. DEVIA HAVER MAIS FISCALIZAÇÃO”

CL – Do vosso ponto de vista, o que é que podia ser feito para facilitar a vida aos motociclistas no que respeita à circulação nas estradas?

HG – Aquilo que é feito em França. Em situações de trânsito, os automobilistas que vão à direita encostam à direita e os que vão à esquerda encostam à esquerda, para deixarem espaço livre para os motociclistas poderem passar.

E, sobretudo, tentar disciplinar. Agora, com isto das entregas em mota de refeições e outros produtos, está um descalabro. Acho um absurdo aquilo que fazem, acabam por denegrir muito a imagem do que é ser motociclista. Muitos deles nem carta têm. Estou farto de os ouvir comentar isso. Depois vão a olhar para as aplicações que usam para fazer as entregas… Devia haver mais fiscalização, pois colocam em perigo tanto os automobilistas como os motociclistas que querem usufruir do prazer de andar de mota.

CL – É importante promover a imagem dos motociclistas?

HG – Quanto a mim, é. E muito.

CL – Porquê?

HG – Porque as pessoas têm uma imagem que não corresponde à realidade. O povo português ainda tem aquela ideia de que o motociclista é o tipo que vive das drogas, do tráfico e das armas. Se calhar 80 por cento da população ainda mantém essa ideia e não é assim. Antigamente, mesmo aqui na zona, quando começámos com o Motoclube, e a aparecerem mais motas, as pessoas olhavam um bocadinho de lado para nós. Actualmente, muitas dessas pessoas são nossos sócios.

CL – Os motociclistas, em regra, são cumpridores do Código da Estrada?

HG – Os motociclistas são, seguramente. Agora, existem aqueles que andam de mota e que eu não considero motociclistas. Na estrada, o motociclista tem uma particularidade muito grande: embora não nos conheçamos uns aos outros, conseguimos identificar-nos.

CL – Quais são para si as características identitárias de um Motociclista?

HG – É o respeito pela mota e, sobretudo, por quem anda em cima dela. A gente para usufruir de um bom passeio não tem de ir a 200km/h. Não quer dizer que eu nunca o tenha feito. Há a autoestrada, há momentos… Agora, numa estrada nacional, eu acho isso uma aberração.

Nós estamos a organizar uma acção de formação aberta a todos, não é só para sócios, que vai decorrer no recinto do mercado de Carcavelos, com os instrutores/formadores da GNR de Queluz. Vamos ter quatro acções de formação distintas divididas por outros tantos módulos. Serão abordadas, por exemplo, técnicas de travagem, segurança em curva, cuidados a ter ao circular com chuva.

O programa está muito bem estruturado, é de extrema utilidade e tem um valor quase simbólico. Vamos avançar com isso em Janeiro. Já está combinado com o Sr. Presidente da UFCP, Nuno Alves.

“TEMOS DE NOS SENTIR CONFORTÁVEIS EM CIMA DE UMA MOTA”

CL – O respeito pela mota é importante para evitar acidentes?

HG – Nós, para usufruirmos da mota, temos de nos sentir confortáveis em cima dela. E não temos de ir uns atrás dos outros. Na minha geração, nós conhecíamos muito bem as motas que conduzíamos. Tínhamos a noção do que podíamos fazer com elas, do que éramos capazes de fazer. Além disso, começávamos com motas que não valiam nada. Isso deu-nos algum calo.

Actualmente, se dermos uma mota à moda antiga a um miúdo de 20 anos, ele vai cair com toda a certeza no primeiro quarto de hora. A mota não tem ABS, não tem travões de disco, não tem isto, não tem aquilo. Coisas a que eles hoje estão habituados.

E tudo ficou muito pior com o facto de as cartas de carro permitirem a condução de motas até 125 cm³. Isso foi um erro, porque algumas pessoas nem de bicicleta ainda sabiam andar. E uma mota é sempre uma mota. Nos dias de hoje, uma 125 facilmente dá 120/130 km/h. Depois, a pessoa não sabe travar, não sabe controlar o peso da mota e…

CL – Quais os principais conselhos que daria aos automobilistas para terem mais cuidado com os motociclistas?

HG – O primeiro conselho seria: “não acreditem nunca que acham que dá para passar”. Este é o grande erro. Por norma, o automobilista não tem a percepção do quão rápido a mota chega ao pé dele, numa fracção de segundo. Ele vê a mota no espelho retrovisor e pensa que dá, mas quando dá por isso já bateu. Para mim, este é o principal erro.

O segundo conselho é: “usem os piscas”. Quando andamos no trânsito, é das coisas a que damos mais atenção. Usem os piscas sempre que mudem de faixa. Outro conselho é: “não simulem travagens para assustar”. Se o motociclista for um indivíduo menos experiente vai travar a fundo, não lhe vai tocar e vai cair.

É só ter noção e respeitar. Em cima das motas vão pais de filhos, facilmente vão perder a vida. Não é preciso ir depressa para morrer numa mota. Já vi indivíduos quase parados que perderam a vida em situações trágicas.

CL – Quais os principais objectivos para o futuro? Como é que gostaria de ver o Motoclube daqui a uns anos?

HG – Não queria que crescesse muito mais. Quanto maior, mais difícil é. Tenho algum receio que, com a dimensão, se perca a capacidade de fazer. Não gostaria que o Motoclube crescesse muito mais, para não se perder isso. Já vi muitos motoclubes que cresceram muito rápido e acabaram. Depois, com a dispersão, perde-se também a unidade e o convívio. Se crescermos muito, chega a um ponto em que já não nos conhecemos uns aos outros.

CL – Portanto, a triagem para sócio vai ser mais apertada?

HG – Em Assembleia Geral já falámos nisso. Quando chegarmos aos 400 sócios, vamos restringir mais, seleccionar mais. Antes de serem sócios, os candidatos vão ter de conviver connosco durante, pelo menos, um ano.

Autor: Luís Curado

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