O desafio dos carros movidos a energia solar

Todos os anos, a VS-Solar Challenge lança dois importantes desafios aos jovens de todo o País: construírem e desenvolverem um automóvel movido a energia solar e participarem numa competição original e aguerrida que tem reunido centenas de entusiastas em torno da mesma causa. Pretende-se com isso dar a conhecer as virtudes da aplicação da energia produzida de forma gratuita pela estrela que nos está mais próxima na locomoção de veículos. E também incentivar os jovens a desenvolverem conhecimentos que permitam tirar o máximo partido dessa tecnologia, levando-os a criar formas mais eficazes de aproveitar essa potente fonte energética nos veículos do futuro. 

Por detrás desta iniciativa, que visa despertar consciências para as potencialidades da energia solar na locomoção de veículos e não só, está o seu principal mentor, Paulo Carvalho, formado em Electrónica e com todo um percurso profissional ligado a esta área. Este empresário de 54 anos, dono da empresa VS-Solar, reside e trabalha no concelho de Sintra, onde desenvolve a sua actividade profissional precisamente na aplicação da energia solar à locomoção de veículos e na divulgação das várias aplicações possíveis deste tipo de energia a outras actividades relacionadas com o nosso dia-a-dia. Nos últimos anos, a competição promovida anualmente pela VS-Solar Challenge tem vindo a ser realizada no concelho de Sintra com o apoio da autarquia local.

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – O que é a VS-Solar Challenge e como surgiu a ideia de lançar esta iniciativa?

Paulo Carvalho (PC)– A VS-Solar Challenge é uma corrida de carros movidos a energia solar, de participação gratuita e de entrada livre, que se realiza todos os anos. Mais do que uma competição, é uma corrida por um Ambiente melhor. A ideia de criar esta corrida como forma de divulgar esta tecnologia ficou a dever-se ao facto de eu já trabalhar há cerca de 18 anos na aplicação da energia solar na locomoção de veículos.

CL – Quais os principais objectivos desta competição?

PC – Esta corrida tem como principais objectivos despertar consciências para as potencialidades da energia solar na locomoção de veículos, o que na minha opinião faz todo o sentido tendo em conta que Portugal é um dos países com maior número de horas de Sol da Europa, e dar oportunidade aos nossos jovens de poderem pôr em prática algumas das matérias que estudam nas escolas, como por exemplo na área da Física, da Matemática, da Electrónica, da Mecânica, das Energias Renováveis, etc..

CL – Com quantos patrocinadores contam? Que apoios têm?

PC – Não sei se lhes poderemos chamar patrocinadores, eu chamaria parceiros, isto porque eles apenas se limitam a contribuir, não com dinheiro, mas sim com pequenos brindes para podermos oferecer às equipas, por exemplo chapéus, camisolas, canetas, etc.. Também temos outros parceiros, que colaboram para cobrir algumas necessidades que possam existir. Por exemplo, o SMAS, distribui água a todos os participantes e público, a Oficina de Ciência de Sintra dinamiza um pequeno espaço onde os mais jovens podem fazer algumas experiências com anergia solar, etc.. Depois temos o apoio do Real Sport Clube, que nos disponibiliza as suas magníficas instalações para a realização do evento, e a Câmara Municipal de Sintra, que, além de nos ajudar na organização do evento e na sua divulgação, nos disponibiliza alguns dos seus meios, como o sistema de som, as tendas de apoio aos parceiros, os troféus para oferecermos às equipas, etc.. Temos também a ajuda preciosa de muitos amigos que, por acharem este evento ambientalmente relevante e terem igualmente preocupações ambientais, de uma forma voluntária, simpática e muito dinâmica, nos ajudam quer nos preparativos, quer na realização do evento executando várias tarefas e funções durante todo o dia da corrida. Pessoalmente, ainda espero, que com a crescente divulgação deste evento único na Europa com este formato, e ainda único no País, conseguir o apoio de um patrocinador que nos ajude a alavancar esta corrida para patamares mais elevados.

CL – Quantas edições já foram realizadas da VS-Solar Challenge?

PC – Já vamos na quinta edição, com cada vez mais equipas a participar na corrida.

CL – Quantas equipas participaram na última edição, realizada a 16 de Julho deste ano?

PC – Tivemos 21 carros na corrida vindos de vários pontos do País.

CL – Quem pode participar e como o pode fazer?

PC – Todos os que quiserem, sejam grupos informais, escolas, universidades, politécnicos, escolas profissionais, empresas, etc.. Apenas terão que criar uma equipa, construir o seu carro solar e inscrever-se. Tanto as inscrições como a participação na corrida são gratuitas. Para se inscreverem basta ir à página da corrida em http://vssolarchallenge.blogspot.com e lá poderão encontrar toda a informação necessária para participar na corrida.

CONTRIBUIR PARA A EVOLUÇÃO DA TECNOLOGIA DE APROVEITAMENTO DA ENERGIA SOLAR

CL – A tecnologia utilizada pelas equipas dos carros vencedores é usada no desenvolvimento de algum produto? Pode haver algum tipo de colaboração entre os elementos destas equipas e alguma empresa interessada em aproveitar essa tecnologia?

PC – Outro dos objectivos da corrida é que todos em conjunto possamos contribuir para a evolução desta tecnologia. Esse tem sido o meu trabalho de investigação já há 18 anos, quando comecei a fazer os meus primeiros carros a energia solar. Depois de desenvolver e consolidar esta tecnologia criei uma pequena empresa, a VS-Solar, em que construímos carros a energia solar para várias aplicações (ver http://vssolar.blogspot.com). Eu próprio utilizo nas minhas deslocações diárias, desde 2005, uma carrinha movida a energia solar transformada por mim com resultados muito interessantes. Esta é uma prova que esta tecnologia pode ser usada no nosso dia-a-dia. Estes módulos solares produzem cerca de 850W de energia eléctrica por hora, o que permite andar durante todo o ano a custo zero e sem poluição. Apenas convém estacionar o veículo ao sol para que as suas baterias estejam sempre carregadas. Também pode circular à noite com a energia que estiver armazenada nas baterias, e nos dias de chuva, já que estes módulos solares conseguem produzir electricidade nesses dias, embora em menor quantidade. 

CL – A edição do próximo ano já está a ser preparada? Quando vai ser realizada? Onde?

PC – Sim, a 6.ª edição da VS-Solar Challenge já está a ser preparada e realizar-se-á em Junho de 2020. O dia e o local ainda não estão definidos. Essas informações só estarão disponíveis no final de Outubro deste ano.

CL – Quais os melhores resultados obtidos desde sempre em termos de performance dos carros participantes?

PC – Quase todos os anos são batidos recordes, na medida em que as equipas mais experientes vão fazendo melhoramentos nos seus carros com a experiência adquirida nas corridas dos anos anteriores. Este ano não foi excepção, tivemos uma equipa que na prova de velocidade conseguiu dar três voltas à pista de 400m em 1 minuto e 15 segundos. Na prova de resistência, durante uma hora, deu 88 voltas à pista. 

CL – Qual o carro mais curioso/interessante que surgiu até agora? 

PC – Essa é uma das atracções desta corrida, apesar de o regulamento obrigar a que as equipas, ao construírem os seus carros, cumpram algumas regras, quer nas dimensões máximas, quer no peso máximo, entre outros parâmetros. Este regulamento não é restritivo quanto à imaginação e criatividade dos participantes. Por essa razão aparecem-nos todos os anos carros muito originais, curiosos e interessantes.                 

CL – Algum dos elementos das equipas participantes já trabalha com alguma empresa do ramo? Pode revelar-nos um episódio de sucesso que tenha ocorrido em resultado desta competição? 

PC – Poderia aqui enumerar vários casos de sucesso de alunos em que os conhecimentos adquiridos nas corridas foram uma mais-valia para o seu ingresso no mercado de trabalho. Até porque com o número crescente de carros eléctricos a circular nas nossas estradas é necessário pessoal qualificado nas oficinas das marcas de automóveis para lhes dar assistência. A tecnologia que utilizamos na corrida, quer o tipo de motor, quer o seu controlador electrónico, é muito semelhante ao que é usado nos carros eléctricos actuais, apenas divergem na dimensão e potência.

“É RECOMPENSADOR VER O ENRIQUECIMENTO DE CONHECIMENTOS QUE OS JOVENS ADQUIREM COM ESTE PROJECTO”

CL – Quais as principais dificuldades que enfrenta na organização de uma competição destas?

PC – Eu não lhe chamaria dificuldades, diria antes que dá muito trabalho organizar uma competição destas. As minhas funções vão muito para além de organizar o evento: faço os regulamentos (todos os anos tento fazer pequenos ajustes no sentido de melhorar a corrida e de a tornar mais atractiva), dou formação nas escolas a professores e alunos que queiram participar na corrida e, caso seja solicitado, acompanho a construção do carro, dando apoio técnico e dicas de como construir o carro. Para facilitar esta tarefa criei um kit com todas as peças necessárias para a construção do carro solar, que poderá ser disponibilizado às escolas, em que faço o acompanhamento passo a passo da montagem do carro realizada pelos alunos em várias sessões. 

Para mim, que tenho tido o privilégio de acompanhar muitos alunos de várias escolas na construção dos carros solares, tem sido muito gratificante ver o entusiasmo e a dedicação que eles mostram nas várias fases da construção do carro. Tem sido muito recompensador ver o enriquecimento de conhecimentos que adquirem com este projecto. No final das várias sessões, quando terminam a construção do seu carro solar e vamos para o exterior fazer os primeiros testes, eles têm oportunidade de conduzir o carro que construíram. Ver a alegria espelhada nos seus rostos tem sido para mim muito satisfatório. O retorno que tenho tido da parte dos professores tem sido muito positivo. Com este projecto a autoestima, autoconfiança e o espírito de equipa são reforçados. Além disso, é uma oportunidade que os professores das várias disciplinas têm de, com este projecto, explicar de uma forma prática algumas matérias que se tornam mais interessantes quando são explicadas desta forma. Talvez sejam estas as razões para este formato de corrida estar a despertar muita curiosidade e interesse não só a nível nacional, mas também internacional.          

CL – Os carros eléctricos são o futuro? Actualmente, na fase de desenvolvimento em que se encontram, quais as principais vantagens que têm? E principais desvantagens?

PC – Sem dúvida que os carros eléctricos são o futuro por muitas razões, só para enumerar algumas: são mais seguros, mais fáceis de conduzir, mais fiáveis, praticamente não têm manutenção, além de não poluírem. Têm outra vantagem pouco divulgada: são muito eficientes, os motores eléctricos conseguem eficiências que podem chegar aos 95% enquanto que os motores de combustão não vão além dos 38%. O problema dos carros eléctricos está na bateria, é volumosa, pouco eficiente, muito cara e tem pouca densidade energética. Essa é a razão pela qual os carros eléctricos são caros e têm pouca autonomia, mas a boa notícia é que este problema irá estar resolvido dentro de 4 ou 5 anos.

CL – O que falta fazer em termos de aproveitamento da energia solar?

PC – Ainda há muito a fazer no aproveitamento da energia solar, principalmente num País como o nosso, com muito sol. Com os painéis fotovoltaicos que temos hoje já conseguimos produzir 200Wh por cada m2 de exposição solar, agora é só multiplicar os 200Wh pelos m2 que temos disponíveis nos telhados dos edifícios, nas coberturas dos parques de estacionamento, nos espelhos de água das barragens com plataformas flutuantes, etc.. Além disso, iremos precisar de electricidade para alimentar o número crescente de carros eléctricos que circulam nas nossas estradas. A energia solar pode ser a solução pelo facto de o preço dos painéis solares estar cada vez mais baixo devido à produção em massa e ao baixo preço da matéria-prima de que são feitos.

CL – Projectos futuros para o VS-Solar Challenge? O que falta fazer? 

PC – A internacionalização é o passo seguinte, ter equipas de outros países na nossa corrida é um dos meus principais objectivos. Para isso é preciso mais divulgação, uma aposta mais dinâmica e efectiva de um município na criação de uma pista maior, com mais condições, e apoio de um patrocinador para haver prémios mais atractivos. A nível da corrida propriamente dita, todos os anos o grau de dificuldade é maior, a exigência para que os carros sejam mais eficientes é o objectivo. A duração da prova de resistência irá passar dos 60 para os 90 minutos já no próximo ano, até chegarmos a uma corrida de três horas seguidas. Actualmente, cerca de 70% dos carros que participam na corrida já conseguem ter autonomia ilimitada, ou seja, já conseguem o equilíbrio entre a energia produzida pelo painel solar e a energia consumida pelo carro. Explicando melhor, nesta altura do ano num dia sem nuvens em piso plano conseguem andar ininterruptamente desde as 11h00 até às 17h00. Depois dessa hora a radiação solar já começa a baixar significativamente.

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