Cante Alentejano está vivo em Tires

Elevado à categoria de Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2014, o Cante Alentejano é um género musical único no Mundo, tradicional do Alentejo, cujas raízes se perdem na História. De acordo com alguns musicólogos, esta forma de cantar particular, que ajudava também a suportar as difíceis jornadas na lavoura, poderá ter uma origem que remonta à época pré-romana. Em vários estudos surgem também referências mais actuais, nomeadamente ao canto gregoriano e a aspectos ligados à cultura árabe, que deixou marcas significativas na Península Ibérica. 

Numa época em que muitas tradições tendem a desaparecer, derrotadas pelo avanço da modernidade, o Cante Alentejano, mercê do reconhecimento obtido junto da UNESCO, voltou a ganhar fôlego impulsionado pelo trabalho desenvolvido por muitos grupos de cantares apostados em manter vivo este género musical de excepção. Um desses embaixadores desta importante marca da cultura alentejana é o Grupo Coral ‘Estrelas do Guadiana’, integrado na Associação Cultural e Recreativa dos Alentejanos Residentes em Tires (ACRART). 

“O Grupo Coral ‘Estrelas do Guadiana’ surgiu em 1975, nas já conhecidas ‘reuniões de café’, onde um grupo de alentejanos residentes na localidade de Tires recordava, entre conversas e muitas alegrias, as tradicionais modas alentejanas. No início, o grupo era constituído por um número reduzido de participantes. Actualmente é composto por 24 elementos, com idades compreendidas entre os 18 e os 80 anos. Estes cantores são oriundos das regiões do Alto e Baixo Alentejo e do Algarve, regiões atravessadas pelo Rio Guadiana, daí a escolha do nome ‘Estrelas do Guadiana’”, explica o presidente da ACRART.

David Jesus Ortiz, de 66 anos, sublinha que a projecção de que o grupo goza beneficiou de um maior impulso a partir de 1988, depois de ter sido criada uma sede na colectividade Dramático 1.º de Maio, em Tires, onde os elementos do grupo passaram a reunir-se para confraternizar e ensaiar. Desde então as ‘Estrelas do Guadiana’ têm participado em vários eventos que resultaram na gravação de um CD e três cassetes. Além do património musical editado, o grupo tem sido convidado a colaborar em várias iniciativas culturais e programas televisivos. 

“Participaram no programa de televisão ‘Obrigado por Tudo’, apresentado por Serenela Andrade, colaboraram na gravação do genérico da telenovela ‘Roseira Brava’ e marcaram presença na apresentação de um livro do escritor José Saramago na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, entre outras iniciativas”, recorda o presidente da ACRART, que faz questão de realçar que o grupo coral da associação tem como principais objectivos da sua actividade “a divulgação, valorização e defesa do Património Cultural Artístico e Etnográfico do Alentejo”.

MEDALHA DE MÉRITO E CONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIO-SEDE

Em 2004, mercê do trabalho desenvolvido para preservar o património artístico e cultural do Alentejo, o Grupo Coral ‘Estrelas do Guadiana’ foi reconhecido e agraciado com a Medalha de Mérito Cultural atribuída pela Câmara Municipal de Cascais. “A atribuição deste galardão significou um orgulho muito grande para todos os elementos do grupo. Foi o reconhecimento do nosso trabalho feito em prol da divulgação da música alentejana no concelho de Cascais, que nos recebeu e nos ajudou a melhorar as nossas vidas”, salienta David Jesus Ortiz.

Entretanto, em 2014, a UNESCO classificou o Cante Alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade, o que trouxe uma responsabilidade acrescida ao grupo. “Este mérito atribuído pela UNESCO não veio só galardoar todos os nossos antepassados como também todos os elementos presentes e incentivar ainda os nossos jovens (como já se verifica em largas zonas do Alentejo) a darem continuidade à nossa cultura”, sublinha o presidente da associação, que conta com cerca de uma centena de sócios efectivos.

Outro marco importante na história do grupo ocorreu em Setembro de 2017, data em que estes embaixadores do Alentejo no concelho de Cascais viram realizar-se a concretização de um sonho antigo com a inauguração de um edifício-sede construído de raiz no adro do antigo mercado de Tires, junto à delegação da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana. “A obra foi totalmente financiada pela Câmara Municipal de Cascais”, refere o dirigente associativo, acrescentando que a associação é também apoiada pela edilidade cascalense e pela Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana.

David Jesus Ortiz explica que a criação da ACRART na freguesia de S. Domingos de Rana ficou a dever-se “à necessidade de procurar uma vida melhor na cintura industrial de Lisboa, já que os alentejanos nas suas terras não tinham condições porque o trabalho escasseava e não tinham meios de subsistência para si e para os seus”. A associação dedica-se exclusivamente à divulgação do Cante Alentejano. Apesar de todo o entusiamo, nem tudo são facilidades. “Devido à idade avançada de muitos elementos do grupo, por vezes é com muita dificuldade que desempenhamos as nossas tarefas aquando das festividades organizadas por nós”, admite o presidente da associação.

‘É DIFÍCIL RECRUTAR JOVENS PARA O GRUPO’

Que importância tem o Cante na vida dos alentejanos? “A vida dos Alentejanos nunca foi fácil. Apesar de parecer um povo triste, não o é. Apesar das amarguras sofridas era através do Cante que manifestavam a sua cultura cantando as suas melodias e divulgando os seus cantes e as suas gentes”, responde David Jesus Ortiz. Quando questionado sobre a possibilidade de as tradições culturais alentejanas correrem o risco de desaparecer, o dirigente da ACRART não se mostra demasiado pessimista. “Julgo que não, pois vão aparecendo por aí novos talentos do Cante Alentejano. No entanto”, admite, “na zona onde residimos e onde está inserido o grupo ‘Estrelas do Guadiana’ temos muitas dificuldades no recrutamento dos jovens”.

Quer isto dizer que os jovens de hoje não mostram interesse em aprender os cantares alentejanos? “Apesar de tentarmos sensibilizar a juventude para não deixarmos perder o nosso património cultural não é fácil trazer para o grupo novos elementos jovens”. Uma situação que pode vir a ser diferente no futuro. “Temos um intercâmbio com a Ideia – O Nosso Sonho (uma Cooperativa de Ensino e Solidariedade Social instalada em Tires), incorporando um grupo de jovens meninos entre os seis e os oito anos, um grupo com cerca de 20 elementos que já nos acompanham e interpretam as suas melodias do Cante Alentejano.”

O principal evento que a associação organiza, ‘Encontros de Grupos Corais Alentejanos’, realiza-se no dia 13 de Julho na Coletividade 1.º de Maio, em Tires. A organização prevê que esta iniciativa, que já vai na 39.ª edição, venha a contar com a presença de 150 participantes. Antes disso, a ACRART vai assinalar o Dia Internacional da Mulher (8 de Março) com a participação de quatro grupos corais femininos. Segue-se, dia 18 de Maio, o evento ‘Alentejo Canta Cascais’, com a participação de quatro grupos corais do Baixo Alentejo. Outro momento alto no calendário de festividades da associação é o arraial de Santo António, que vai decorrer durante a primeira quinzena de Junho. Destaque também para o segundo aniversário da sede da Associação, celebrado dia 16 de Setembro.

Apesar de toda a persistência para levar por diante a missão de divulgação da Cultura Alentejana, David Jesus Ortiz antevê com alguma apreensão o futuro da associação a que preside. “Sejamos realistas, o futuro da ACRART depende das gerações vindouras, depende da aderência dos jovens ao Cante Alentejano. Caso isso não aconteça, não vejo como salvar a associação”, avalia o dirigente. Um cenário que os interessados pela cultura alentejana desejam que não se concretize. Que os jovens possam continuar a ser os guardiões de uma cultura que tem passado de geração em geração, até hoje, para que o Alentejo continue a ser cantado por esse País fora e também além-fronteiras.

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