Tiago da Cruz é um actor com aptidão para viver, literalmente, no fio da espada… e não só. Também usa com mestria o equilíbrio necessário para bramir outro tipo de armas de lâmina, das mais antigas, usadas durante a época medieval, por exemplo, às mais modernas. Fazem parte do seu ‘cardápio’ disponível espadas, adagas, punhais, alabardas, machados, escudos e outros instrumentos dignos para levar para um duelo de mestres de armas.
Coreógrafo de combates, acostumado a encenar lutas de cena ou de palco, inscrito na Federação Portuguesa de Esgrima, está habituado a participar em lutas épicas de capa e espada e em demonstrações de técnicas e estratégias realizadas em muitas feiras medievais realizadas um pouco por todo o País, do continente às ilhas, e também no estrangeiro. Mestre na manipulação das armas que usa em duelo, dá lições sobre armaria medieval e não só.
Um dos sócios fundadores do Duelo – Clube de Praticantes de Esgrima de Todas as Épocas, criado em 2007 pelo mestre de armas Eugénio Roque, Tiago da Cruz lecciona Esgrima Artística, Esgrima Histórica e Esgrima Desportiva, sendo também responsável pelo desenvolvimento de um Curso Técnico de Esgrima em Cadeira de Rodas e outro para invisuais, além de ser um dos protagonistas do projecto ‘Soul Atlas Universe’. ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa sobre estes e outros assuntos. En garde!
‘O Correio da Linha’ (CL) – O que o levou a dedicar-se à prática da Esgrima?
Tiago da Cruz (TC) – Foi a série de animação infantil ‘D’Artacão e os Três Mosqueteiros’, exibida nos anos 1980, baseada no romance ‘Os Três Mosqueteiros’, de Alexandre Dumas. Eu era pequenito, via os desenhos-animados e gostava de brincar às espadas. Na altura, o meu pai começou a treinar-me.
CL – O seu pai era desportista?
TC – O meu pai tinha praticado vários desportos: Esgrima, Râguebi, Espeleologia, Karaté. Ele era de uma geração em que os rapazes cresceram a acreditar que iam para a guerra colonial.

FAMÍLIA DE ARTISTAS E DESPORTISTAS
CL – Portanto, a sua família já tinha essa tradição, de praticar Desporto?
TC – Muitos dos meus familiares eram artistas. A minha avó cantava, o meu o meu tio-avô também cantava na rádio acompanhado de orquestra. Além de praticar desporto, o meu pai, Paulo Cruz, foi actor e músico. A minha mãe, Maria Júlia Antunes, também foi atriz durante algum tempo e ainda hoje canta. Tiveram um grupo musical, o Cantaril. Chegaram a actuar com o Zeca Afonso e a Brigada Vítor Jara. Ou seja, o lado artístico também foi herdado da família.
CL – Foi, então, o seu pai quem começou a ensinar-lhe Esgrima?
TC – O meu pai começou a ensinar-me Esgrima quando eu tinha quatro anos. Na altura, ele começou a ensinar-me também um bocadinho de luta desarmada, de karaté e de judo. Mais tarde, os meus pais divorciaram-se e tornou-se difícil continuar a treinar com o meu pai, que foi viver para outra cidade. Na altura, vivíamos em Almada, depois fui viver para Lisboa com a minha mãe. Isso fez com que tivesse de procurar outras pessoas para aprender, porque eu gostava. Fui treinar judo e outras Artes Marciais.
CL – Com quem?
TC – Houve duas pessoas muito importantes para mim nas Artes Marciais, para além do meu pai, que foi quem me iniciou. Foram o mestre Carlos Lee e o grão-mestre Bruno Rebelo, que já chegou a dirigir o Kempo a nível mundial.
CL – Quem foi o mestre que o treinou depois do seu pai?
TC – Na Esgrima, foi o Mestre Eugénio Roque. Conheci-o em 1996, no I Campeonato do Mundo de Esgrima Artística, organizado por ele, sob a égide da Academia de Armas Internacional e da Federação Portuguesa de Esgrima. Ele foi, de certa forma, o fundador do departamento de Esgrima Artística na Academia de Armas Internacional, que é uma associação de mestres de armas profissionais que junta as várias academias a nível mundial.
O Mestre Eugénio Roque foi muito importante para mim, pois treinou-me para ensinar, ensinou-me Esgrima Desportiva e Esgrima Artística. Dentro da Esgrima Artística, comecei também com ele a estudar Esgrima Histórica. Mais tarde, trabalhei também neste domínio com os mestres Fernando Brecha, uma referência na divulgação e prática da Esgrima Histórica em Portugal, e João Maia, historiador militar responsável pelo grupo Espada Lusitana, que começaram a promover a Esgrima Histórica em Portugal e o estudo das técnicas.
CL – O que é que o levou a ser coreógrafo de combates?
TC – Eu estudei na Escola Superior de Teatro e Cinema, especializei-me no Combate Cénico junto do mestre Eugénio Roque, fundador e presidente da Academia de Armas de Portugal, e fiz formação com duplos e com outras pessoas com quem trabalhei.
CL – Costuma trabalhar como duplo?
TC – Eu não sou um duplo de todo, não faço trabalho de duplo. O que eu sei fazer é representar, cantar… herdei isso da minha família. E também estudei Música.

CL – Também se dedica à Música?
TC – Eu também canto. Agora menos, mas durante muito tempo cantei, fiz alguma coisa de teatro musical, cantei num coro. No Teatro, fiz coisas muito giras. Trabalhei como coreógrafo, cantor e actor em ‘A Reconquista de Olivenza’, do Ricardo Neves-Neves. Depois, coreografei também para ele ‘O Livro de Pantagruel’ e a ‘Maria da Fonte’: Da Revolta à Opereta’. Coreografei as lutas destes espectáculos.
CL – Há muita procura de coreografias de lutas de cena e de lutas de palco em Portugal?
TC – Em Portugal, nim. Ou seja, há alguns sítios onde são muito necessárias, como, por exemplo, em eventos de recriação histórica.
CL – E tirando isso?
TC – A Televisão, às vezes tem algumas cenas. Não é uma coisa muito regular. No Cinema, estou a coreografar para uma curta-metragem do ‘Soul Atlas Universe’, um projecto lançado online. E estou a iniciar o processo de coreografar para os Artistas Unidos, em Lisboa, para uma peça que eles vão começar a preparar.
No ano passado, estive a coreografar as cenas de violência da peça ‘Killer Joe’, levado à cena pela companhia de teatro Urso Pardo no Teatro Municipal São Luiz. Enfim, tenho tido algum trabalho como coreógrafo, não é todos os meses, mas tenho tido algum trabalho.
CL – Quando é que se estreou como actor?
TC – Estreei-me em 1997, antes de estudar representação e interpretação. Tinha 17 anos.
CL – Lembra-se do papel que desempenhou?
TC – Foi numa campanha a nível nacional contra a droga chamada ‘O Dia D’, destinada a sensibilizar a sociedade para os problemas da toxicodependência. Todos os jornais, cinemas e canais de televisão passavam essa publicidade. E também se realizaram acções de sensibilização junto das escolas.
Eu fazia o papel de um filho com problemas, era o coitadito do drogado. A actriz Beatriz Batarda fazia de minha irmã, a minha tia Luísa Cruz fazia de minha mãe, o Luís Lucas era o meu professor, e o Joaquim de Almeida fazia de meu pai.
CL – Contou com o apoio dos seus familiares?
TC – Eu cresci muito neste meio, via os ensaios, acompanhava os exercícios. O meu pai e a minha tia davam formação e às vezes eu ia assistir, mas na altura era uma pessoa muito bloqueada a nível emocional.

“ERA OBRIGADO A DEFENDER-ME QUASE TODOS OS DIAS”
CL – Qual a razão dessa dificuldade?
TC – A partir de certa fase da minha vida, vivia num bairro muito violento da cidade. Quase todos os dias ocorriam cenas de assaltos, violência, tiroteios, tinha de bater em pessoas, ou levava muita porrada. Eu era pequenino, era só um e eles eram muitos…
Quando tinha cinco anos, a minha mãe mudou-se para a Picheleira. Mais tarde, aos 11 anos, por questões práticas da vida, comecei a frequentar uma escola na zona. Não conhecia ninguém lá, estava sozinho, não tinha amigos nenhuns, porque eu tinha estado a estudar antes em Alvalade, perto do trabalho da minha mãe, e perdi o contacto com os meus amigos.
Era obrigado a defender-me na rua quase todos os dias. Foi isso que motivou também que, a partir dos 14 anos, começasse a treinar defesa pessoal muito a sério. Treinava três horas por dia, quatro vezes por semana, e estava a estudar e a ajudar a minha mãe e o meu padrasto no trabalho numa loja de animais. Eu trabalhava, estudava e treinava, treinava, treinava sempre que podia.
CL – Como actor, já interpretou alguma personagem baseada nos seus conhecimentos de Esgrima?
TC – Eu tenho colaborado desde 2004 com o Teatro Nacional de São Carlos. Já fiz trabalho de figuração, de actor, de bailarino, de coreógrafo de combates, já fiz muita coisa. Participei em produções espectaculares, como a tetralogia de ‘O anel dos Nibelungos’, do compositor alemão Richard Wagner.
Na Televisão, participei em muitas telenovelas, em pequenos papéis, e fiz parte do elenco da série de ficção juvenil ‘O Diário de Sofia’ (2005/2007, RTP). Também tenho feito coreografias para séries, por exemplo, para a ‘Madre Paulo’ (2017, RTP), baseada na história de uma amante do rei D. João V, em que havia um duelo.
Entretanto, fiz uma coisa ou outra no Cinema. No filme ‘FM – Rádio Relâmpago’ (2003), realizado por José Nascimento e produzido por Paulo Branco, da autoria de Nuno Markl, fiz o papel de um jovem que trabalhava numa rádio amadora dos anos 1980/1990.
Estou também envolvido num projecto que tem muita gente a trabalhar, já somos cerca de 300 colaboradores, chamado ‘Soul Atlas Universe’, uma fantasia medieval que inclui filmes, banda-desenhada e música. O primeiro filme que fizemos foi protagonizado por mim. Agora, também temos um jogo.
CL – O que o levou ao grau de Mestre de Armas?
TC – Em 2012, realizámos o Campeonato do Mundo de Esgrima Artística em Portugal, em Cascais. Por essa altura, eu decidi, juntamente com o Mestre Eugénio Roque, fazer o curso de grau um de treinador de Esgrima no âmbito do percurso para me tornar Mestre de Armas. Ele treinou-me durante os últimos sete anos da sua vida para que eu pudesse dar continuidade ao seu trabalho e eu faço-o com muito gosto. Uma missão que acolho com muito prazer, com sentido de orgulho, missão e honra. E tenho procurado expandir. Actualmente, dou aulas em várias escolas, no Instituto para o Desenvolvimento Social, na Escola Profissional de Imagem, na Nicolau Breyner Academia, na Escola Profissional de Teatro de Cascais, na In Impetus – Escola de Actores e na Escola João de Barros.
CL – O que é exactamente um Mestre de Armas?
TC – O Mestre de Armas é, basicamente, a pessoa que sabe ensinar Esgrima, ou que sabe ensinar a usar armas. Actualmente, está muito focado na espada, mas na verdade ensinava a usar, dependendo da época, uma lança, uma alabarda ou outro tipo de armas. Depois temos instrutores, temos pessoas que têm menos experiência, eu aprendi a ensinar as três armas da Esgrima Moderna com a Federação Portuguesa de Esgrima. E o mestre Eugénio Roque foi uma pessoa muito importante nesse processo. Gostava muito dele, tínhamos uma relação muito próxima, quase de avô e neto. Ele era um cavalheiro, uma pessoa como já não se vê hoje. No final de 2019, ele já estava muito doente e acabou por falecer a 18 de Janeiro de 2020. O meu pai também foi muito importante no percurso que fiz, no sentido de me ter dado apoio desde o início.
CL – As feiras medievais que se realizam um pouco por todo o País fizeram renascer as artes performativas recriando duelos com espada e outras armas?
TC – Eu acredito que as feiras com animação de cariz histórico tiveram esse efeito, há muita gente que está a fazer Esgrima Artística e combate cénico com o propósito de fazer eventos. Se não houvesse feiras medievais havia muito menos conexão das pessoas com o seu passado. Assim, as pessoas tornam-se mais curiosas. Eu conheço várias pessoas que foram a feiras medievais e que quiseram depois vir aprender esgrima, vir aprender como é que se fazia, como é que as pessoas viviam. Estes eventos têm promovido a aprendizagem da Esgrima Histórica e de várias artes ali expostas. Por isso, mesmo quando não são muito fiéis, acho que continuam a ter uma função cultural. Nas feiras medievais, eu faço muito a promoção daquilo que é a Esgrima no seu todo, a Histórica, a Artística, a Olímpica.

CL – Participa em muitos eventos deste tipo?
TC – A partir de meados da Primavera e até meados do Outono, tenho eventos quase todos os fins-de-semana, às vezes duram uma semana inteira ou mais, realizados no continente, na Madeira e nos Açores. Também já fui a Itália, França e Espanha.
CL – Quais são os eventos que recorda com maior satisfação?
TC – Eventos diferentes trazem coisas diferentes. Não posso dizer que tenha assim uma preferência por algum. Às vezes, depende mais do que se passa na envolvência do que propriamente no evento. Ou seja, com quem é que estou, o que é que se passa… Por exemplo, gosto de ir a Machico, na Madeira, porque tem uma vista muito bonita, costumamos ter boas condições de trabalho, mas também gosto muito de fazer eventos mais pequeninos, aqui perto de Lisboa, pelo simples facto de poder ir dormir a casa.
CL – Quais são as armas que costuma utilizar nas suas aulas?
TC – Nas escolas de Teatro, como tenho relativamente pouco tempo, só ensino faca e espada. Na sala de armas, utilizamos uma variedade de espadas, mas também já estamos a utilizar o bastão do jogo do pau, que é uma coisa que eu também gosto e pratiquei. Estamos ainda a usar espada com adaga, espada com broquel (pequeno escudo que protege a mão), espada com escudo, já experimentámos lança, lança com machado, temos feito várias coisas.
CL – Qual é a sua arma preferida?
TC – Eu não tenho uma arma preferida. Depende do contexto. Se tiver muito espaço à minha volta, vou querer uma arma de lâmina mais comprida, ou uma arma com alcance, tipo uma besta, para matar à distância, ou um arco.
Se estiver num combate corpo a corpo, se houver espaço para me mexer, fico confortável com uma lança ou um machado de guerra, ou mesmo uma alabarda. Dou-me bem com a lança, é uma arma com que estou bastante familiarizado. A lança tem alcance.
Dependendo ainda da distância a que estou do meu adversário, num combate mais próximo, posso também querer uma espada, ou mesmo uma faca. Também depende da arma que o outro tem, da sua protecção ou de outros factores.
No meu caso específico, posso dizer que tenho muito mais horas de treino com espada, o que também pode pesar na minha decisão.
CL – Qual é a sua espada de eleição?
TC – Eu acho que a melhor é a ‘rapier’ (rapieira ou roupeira), de lâmina comprida e estreita, que depois dá origem ao espadim e à espada moderna. Era uma arma de ponta que se alinhava bem com a mão, que tinha uma lâmina à volta de 1,10 metros. Acho que era a espada mais eficiente num duelo.
CL – É também a arma que mais gosta de utilizar nas suas demonstrações?
TC – Gosto muito de usar a ‘rapier’. Uso principalmente espadas medievais, porque a maior parte das feiras são medievais. Gosto muito de usar a ‘rapier’, principalmente acompanhada por adaga. Também gosto de usar a ‘rapier’ com broquel e com capa. Espada e adaga é uma das minhas combinações preferidas.

CLUBE DE PRATICANTES E ESTUDIOSOS DE ESGRIMA DE TODAS AS ÉPOCAS
CL – Foi um dos sócios fundadores do Clube Duelo – Clube de Praticantes e Estudiosos de Esgrima de Todas as Épocas, criado pelo mestre Eugénio Roque. O que representa este clube para si?
TC – O Clube Duelo acabou por ser uma empresa que o mestre Eugénio Roque tinha, que era a Stage Combat, com a qual nós fizemos animação, por exemplo na Casa da Pesca da Quinta dos Marqueses de Pombal, em Oeiras, em 2004/2005. O clube acabou por ser uma forma de nós termos uma estrutura legal que nos permitisse praticar Esgrima sem que fosse um clube desportivo.
CL – Ainda está ligado a esse clube?
TC – Eu estou a dirigir esse clube.
CL – Organizam algum tipo de eventos?
TC – Se nos pedirem para organizar alguma coisa, nós organizamos.
CL – Quais os próximos eventos que têm agendados?
TC – Vamos ter um evento setecentista em breve e vamos participar num outro a realizar ainda este mês em Monte Abraão, no concelho de Sintra (dias 16, 17 e 18).
No ano passado, realizámos 35 eventos. Este ano, já fizemos 27, mas devido à falta de disponibilidade tivemos de recusar alguns convites. Trabalhamos muito com eventos, para além do facto de cada actor ter a sua própria carreira. Por vezes, isso limita um bocado a nossa disponibilidade para fazer mais.
CL – Lecciona vários cursos de Esgrima. Quais?
TC – Neste momento, só Esgrima, estou a ensinar no Clube Desportivo da Costa do Estoril, à quinta-feira e ao sábado. Nas escolas ensino movimento, interpretação e combate cénico.
CL – Quem é que pode frequentar os seus cursos?
TC – Qualquer pessoa, não há limite de idades. A minha sala está muito focada na Esgrima como prática desportiva, mas para lazer e manutenção da saúde.
CL – Existem cursos de Técnica de Esgrima em Cadeira de Rodas e para invisuais. Fale-nos desses cursos?
TC – Eu já dei aulas de Esgrima em Cadeira de Rodas e também para invisuais. Actualmente, não dou. Nesse tipo de esgrima, temos uma estrutura rígida de metal que fixa a cadeira à pista e a impede de sair do lugar durante os duelos. Depois há uma série de regras de como é que se medem as distâncias, como é que se faz a apreensão da arma, porque há pessoas que não conseguem agarrar bem na arma. Há três categorias de deficiência. Em função da incapacidade da pessoa, ajusta-se o equipamento para aquilo que a pessoa é capaz de fazer.

CL – Existem competições de Esgrima em Cadeira de Rodas nos Jogos Paralímpicos…
TC – Exactamente. E nós chegámos a organizar cá em Portugal um Campeonato da Europa de Esgrima em Cadeira de Rodas, nos quais incluímos também uma prova para invisuais.
CL – No caso da Esgrima para Invisuais, que não faz parte do programa oficial dos Jogos Paralímpicos, como é que funciona?
TC – Existem vários graus de incapacidade na Esgrima para Invisuais: pessoas que não vêem nada, pessoas que só vêem sombras… Para ser justo, toda a gente coloca uma venda e, então, ninguém vê nada. Eu já fiz isso também, como treinador e como atleta. Nós temos várias formas de marcar os limites da pista, para que os praticantes o possam sentir com o pé. Obviamente, têm de estar todos protegidos e só podem atacar depois de sentirem o ferro do adversário. Ou seja, quando se colocam em guarda, vão procurar com a lâmina o ferro da outra espada, sendo que, a partir daí, já ficam a saber a posição do adversário. Existem algumas variações de regras, dependendo do que fica acordado com quem organiza a competição.
CL – Basicamente, toda a gente pode praticar Esgrima…
TC – Sim, desde que se tenha um mínimo de saúde.
CL – Quais são os principais benefícios de praticar Esgrima?
TC – A nível de saúde, é um desporto que desenvolve o sistema cardiorrespiratório, desenvolve os músculos do corpo todo, desenvolve muito os reflexos. Para se ter uma noção, a ponta de um sabre lançado por um atirador profissional, de alta competição, desloca-se à mesma velocidade de uma bala disparada pelas pistolas dos Jogos Olímpicos. Nós estamos a reagir a estímulos dessa velocidade. Portanto, desenvolve reflexos extraordinários. Desenvolve força, acuidade visual e mental também.
CL – Que tipos de Esgrima existem?
TC – A meu ver, nós temos três tipos principais de Esgrima. A Esgrima Olímpica, a Esgrima Desportiva Moderna, que é aquela que a gente faz com os fatos brancos e as máscaras, e está nos Jogos Olímpicos. E temos a Esgrima Artística e a Esgrima Histórica.
CL – O que distingue a Esgrima Artística da Esgrima Histórica e da Esgrima Desportiva?
TC – Tanto a Esgrima Desportiva Moderna como a Esgrima Histórica são desportos de combate. A Esgrima Desportiva Moderna deriva da Esgrima do século XIX, principalmente da linha francesa, da Europa, e divide-se por três armas com regras, pesos e áreas de toque específicas: florete, espada e sabre.
Na Esgrima Histórica faz-se a pesquisa a partir de tratados medievais e de manuais de esgrima mais recentes sobre como é que se lutava ao longo dos séculos em várias regiões da Europa. Na Esgrima Histórica, nós referimo-nos a uma coisa chamada HEMA (Historical European Martial Arts) e estuda-se, não só Esgrima, mas como é que se usava uma alabarda, um machado, como é que se faziam duelos em determinadas condições, como é que se lutava corpo a corpo, com e sem armadura. A HEMA é um mundo vastíssimo, porque trabalha centenas de anos na Europa. E funciona como Arte Marcial.
Tanto uma como outra derivam de coisas que foram feitas para matar e tornaram-se competitivas. Eu aprendo para depois ir competir com alguém, ir combater. Portanto, saímos de uma esgrima para matar, que é uma arte marcial, para passar a ser utilizada para treinar pessoas, para se saberem defender, para saberem aplicar as armas. É um desporto competitivo.
E chegamos à Esgrima Artística, que é pegar em algo que foi criado para matar, e que depois se transformou em competição, para vir a tornar-se colaboração. A Esgrima Artística não é a parte artística da Esgrima é a Esgrima ao serviço da Arte. Portanto, eu posso ter uma coreografia de dança, posso ter uma peça de teatro, posso ter um filme, uma série de televisão, que tem uma história, e de repente há um momento de violência com espadas. É aí que entra a Esgrima Artística. Se os intervenientes estiverem desarmados é o combate cénico. Resumindo, não é o lado artístico da Esgrima, ou o lado artístico do combate, é o combate ao serviço e adaptado à Arte. E tem regras específicas e formas de fazer específicas para simular violência sem que as pessoas se magoem.

MELHOR ESPADACHIM PORTUGUÊS
CL – Qual foi para si o melhor espadachim português?
TC – Houve homens que na sua função bélica, que é andar a matar pessoas, se destacaram. Ocorre-me, por exemplo, Gonçalo Mendes da Maia (1079-1170), O Lidador, que morreu em combate aos 91 anos a matar um chefe mouro.
CL – E a nível internacional?
TC – Há vários mestres de armas que deixaram um trabalho escrito que influenciou o que fazemos hoje. Um deles foi o célebre cavaleiro, mercenário e mestre de armas Fiore dei Liberi (1350-1420), considerado um dos fundadores da escola italiana de esgrima.
CL – Como é que vê o futuro da Esgrima?
TC – A Esgrima, enquanto desporto, vai evoluindo tecnologicamente, mas vai-se mantendo o que é, porque a espada é o que é, funciona como funciona… Portanto, eu acho que o jogo já evoluiu bastante em função das tecnologias modernas, da flexibilidade das armas e por aí fora. Sendo assim, acho que vai manter-se igual a si própria. Vai tendo a evolução possível em função do número de pessoas que a querem praticar, mas é o desporto que é, não vai mudar.
Acho que os produtos culturais que mostram o uso das espadas vão tendo sempre influência na quantidade de pessoas que surge. Quando nós vemos ‘O Senhor dos Anéis’, o ‘Game of Thrones’, o ‘Star Wars’ e outros, há pessoas que vêm aprender Esgrima porque vêm com vontade de aprender a fazer aquilo que viram. Umas querem aprender Esgrima Histórica porque viram espadas medievais. Outras, querem aprender Esgrima Artística porque querem ser actores ou querem fazer coreografias bonitas. Cheguei a treinar uma equipa de demonstração de sabres de luz, de malta que se veste como o ‘Jedi’.
CL – Enquanto actor e coreógrafo de combate, associando as duas coisas, qual é o projecto que gostaria de desenvolver?
TC – Gostava de realizar um projecto que contasse a História de Portugal, não só a parte bélica, obviamente, mas com uma componente bélica. Recordar as grandes figuras. Gostava de fazer isso, mas não há recursos para fazer uma coisa dessas.
CL – Mas já pensou nisso mais a sério, chegou a elaborar algum projecto?
TC – Já pensei nisso, falei com realizadores, fiz pesquisa, escrevi textos, só que nós não temos meios para realizar um projecto desse tipo, portanto abandonei completamente a ideia. Agora, o que vou continuar a fazer é manter a colaboração naquele projecto em que tenho vindo a trabalhar, o ‘Soul Atlas Universe’, como actor, produtor e conselheiro na parte militar, por causa das armas. Trata-se de uma fantasia medieval.
CL – Onde pode ser visto esse trabalho?
TC – No Instagram e no YouTube. Também desenvolvemos uma aplicação, a app ‘Soul Atlas Universe’ , que está a ser reformulada neste momento.























