Aos 20 anos, Pedro Perino é já um dos nomes emergentes do automobilismo nacional. Nascido em Moçambique, veio para Portugal aos 11 anos, instalando-se em Oeiras, onde ainda hoje vive. Iniciou o seu percurso no karting, onde se destacou, chegando a competir ao mais alto nível internacional. Seguiu-se a passagem pela Fórmula 4 italiana, antes de dar o salto para as corridas de resistência, onde tem vindo a afirmar-se nas categorias de protótipos, nomeadamente LMP3 e LMP2.
Hoje, integra o programa de jovens pilotos da Toyota e prepara-se para competir no GT4 European Series, numa nova etapa na sua carreira, com o objetivo de evoluir para o GT3 e, a longo prazo, alcançar provas icónicas como as 24 Horas de Le Mans. Entre desafios dentro e fora de pista, Pedro Perino constrói o seu caminho com ambição, identidade própria e uma visão clara do futuro.
O Correio da Linha (CL) – Qual foi o seu primeiro contacto com o automobilismo?
Pedro Perino (PP) – O meu primeiro contacto com o automobilismo aconteceu em Moçambique, quando tinha quatro anos. O meu pai colocou-me num baby kart e explicou-me o básico: onde eram o acelerador e o travão. Percebeu rapidamente que eu tinha alguma aptidão natural e, a partir daí, tudo começou a desenvolver-se.
CL – Houve alguma influência familiar nesse percurso?
PP – Posso dizer que sim, embora de forma indireta. O meu pai sempre teve uma grande paixão por carros. Não teve a oportunidade de seguir esse caminho quando era mais novo e, de certa forma, acabou por me transmitir esse gosto e proporcionar-me a oportunidade de praticar o desporto desde cedo.
CL – Cresceu entre Moçambique e Portugal. De que forma esse percurso influenciou a sua identidade, dentro e fora da pista?
PP – Ter crescido em Moçambique permitiu-me viver realidades diferentes e enfrentar dificuldades que não são comuns à maioria dos pilotos, sobretudo num desporto como o automobilismo, que é, por natureza, bastante elitista.
Acredito que esse percurso me deu uma base mais sólida e uma perspetiva diferente. Trouxe comigo valores como a simplicidade e a humildade, que procuro manter no dia a dia e também na competição. Sinto que essas vivências me ajudaram a levar uma personalidade mais autêntica e diferenciada ao mundo do automobilismo. Hoje em dia, muitos pilotos acabam por ser muito semelhantes na forma como comunicam e se apresentam; eu tento manter essa diferença, essa identidade própria.

“O KARTING É A ESCOLA DO AUTOMOBILISMO”
CL – Quando é que percebeu que queria levar o automobilismo a sério?
PP – Quando vim para Portugal e fiz a minha primeira corrida. No início do fim de semana, qualifiquei-me numa posição baixa, creio que em 11.º, e senti alguma frustração, porque sempre fui muito competitivo e gosto de estar na frente. Percebi que estava num contexto mais exigente e que teria de trabalhar mais para acompanhar o nível. Na corrida, acabei por terminar em 6.º lugar e foi aí que tudo mudou. Esse resultado deu-me motivação e fez-me perceber que queria evoluir e fazer carreira no automobilismo.
CL – O karting foi o seu ponto de partida. Que aprendizagens dessa fase ainda hoje aplica na competição?
PP – O karting é a escola do automobilismo. Foi aí que aprendi as bases da competição: como atacar, defender e perceber o momento certo para o fazer. Para além disso, há uma componente técnica muito importante. Apesar de parecer simples, o kart exige um trabalho muito preciso, onde pequenas alterações de milímetros podem fazer toda a diferença. Com efeito, foi no karting que comecei a desenvolver uma maior sensibilidade mecânica. Desde cedo, temos contacto direto com o material e isso ajuda-nos a compreender melhor o comportamento do carro. Hoje, essa experiência permite-me ter uma noção mais clara do que preciso ajustar em pista e facilita a comunicação com os engenheiros no desenvolvimento do carro.
CL – Durante a fase do karting, chegou a competir a nível europeu e mundial. Como foi essa experiência?
PP – Quando competi no Europeu e no Mundial, estava integrado na Kart Republic, uma das equipas de referência no karting, por onde passam muitos dos pilotos que hoje estão nos mais altos níveis do automobilismo. Cheguei, inclusive, a partilhar equipa com pilotos que atualmente estão na Fórmula 1 como Kimi Antonelli e Arvid Lindblad, o que demonstra bem o nível de competitividade desse contexto.
Foi uma fase muito exigente, na altura tinha 14/15 anos e isto implicava estar fora de casa cerca de 30 fins de semana por ano, a competir um pouco por toda a Europa, sobretudo em países como Itália, Alemanha e Espanha. Foi uma experiência intensa, mas fundamental para o meu crescimento, tanto como piloto como a nível pessoal.

DOS MONOLUGARES À AFIRMAÇÃO NO ENDURANCE
CL – Em 2021 deu o salto para a Fórmula 4 italiana. O que foi mais exigente nessa fase?
PP – O maior desafio foi, sem dúvida, a questão financeira, que é uma das principais barreiras no desporto motorizado. Muitas vezes fala-se da falta de pilotos portugueses nos grandes palcos, como a Fórmula 1, mas a verdade é que para lá chegar é necessário um investimento muito elevado e, no nosso contexto, isso exige muitas vezes um apoio mais estruturado, até a nível nacional.
O talento e o trabalho existem, não só no meu caso, mas também em vários pilotos portugueses, mas a diferença acaba por estar nas oportunidades. Quando cheguei à Fórmula 4, por exemplo, muitos dos meus adversários já tinham acumulado dezenas de corridas em diferentes campeonatos, enquanto eu participava numa única competição. Isso cria uma desigualdade significativa em termos de experiência e preparação.
Nessa fase, representei a US Racing, uma equipa de grande nível, liderada por Gerhard Ungar, que era chefe de equipa da Mercedes no DTM, e por Ralf Schumacher.
CL – Em 2023 faz a transição dos monolugares para as corridas de resistência (endurance). Como surgiu essa mudança?
CL – A passagem para o endurance aconteceu de forma natural, acompanhando também uma tendência que se tem vindo a verificar no automobilismo. Comecei pelos LMP3, que são uma porta de entrada para corridas de resistência mais “reais”, e rapidamente percebi que este era um caminho com mais oportunidades de progressão.
No endurance, os pilotos têm a possibilidade de integrar programas de marcas, crescer dentro dessas estruturas e competir internacionalmente de forma mais consistente. Isso é algo muito importante para a evolução de um piloto. Pelo contrário, nos monolugares, a progressão está muitas vezes muito dependente do poder financeiro, seja na Fórmula 3 ou na Fórmula 2, o que acaba por limitar o acesso de muitos talentos. Acredito que esta é uma questão que o próprio sistema do desporto motorizado terá de repensar, nomeadamente a FIA, porque há muitos pilotos com qualidade que acabam por encontrar no endurance um caminho mais viável para desenvolver a sua carreira e competir ao mais alto nível.

CL – Como foi a adaptação às corridas de resistência?
PP – Foi uma adaptação exigente, porque é um tipo de competição bastante diferente. Por exemplo, ano passado em LMP2, houve pilotos da Fórmula 2, que estão inclusive com marcas da Fórmula 1, que passaram bastantes dificuldades. No endurance, não se trata apenas de ser rápido, é preciso ser consistente, sensível ao comportamento do carro e saber geri-lo ao longo de várias horas. O carro está constantemente a mudar durante um stint, e temos de perceber esses sinais e adaptar a condução.
Há também outros aspetos muito específicos, como as trocas de piloto, que têm de ser feitas em poucos segundos, e toda a componente estratégica. Qualquer incidente em pista, como um acidente ou a entrada do safety car, pode alterar completamente o rumo da corrida, pelo que temos de estar sempre muito atentos ao que está a acontecer.
É também uma modalidade em que o trabalho de equipa é ainda mais evidente. Há uma ligação muito próxima com os engenheiros e com toda a equipa, e uma grande capacidade de comunicação é essencial.
Por outro lado, uma das coisas que mais valorizo no endurance é a oportunidade de aprender com pilotos mais experientes. Eles têm uma leitura de corrida muito apurada e uma bagagem enorme, e sinto que foi precisamente nesse contacto que mais evoluí enquanto piloto.
CL – Que diferenças encontrou entre os LMP3 e os LMP2?
PP – Essa passagem foi um passo muito importante na minha carreira e aconteceu no ano passado. São categorias bastante diferentes. O LMP2 é um carro muito mais complexo, já estamos a falar de um verdadeiro protótipo de competição, com um nível tecnológico bastante elevado. Em termos de desempenho, a diferença é significativa, são carros muito rápidos, que podem ultrapassar os 300 km/h, e com uma capacidade impressionante em curva. Além disso, há uma componente técnica muito mais exigente, com muitos dados para analisar e uma maior necessidade de compreensão do comportamento do carro.
Foi precisamente isso que mais me motivou: a complexidade. É um nível onde se aprende muito, não só enquanto piloto, mas também na forma como se trabalha com a equipa e se interpreta toda a informação disponível.
CL – Neste tipo de competições como é feita a tomada de decisões entre pilotos que partilham o mesmo carro?
PP – A gestão depende muito da equipa e da dinâmica que se cria entre os pilotos. De uma forma geral, quem demonstra mais rapidez em determinado momento acaba por ter um peso maior nas decisões, mas é sempre um trabalho conjunto, baseado no feedback de todos.
Por exemplo, integrei uma equipa polaca onde, demorou algum tempo até ganharem total confiança em mim, por ser mais novo. Partilhei o carro com o Luca Ghiotto, um piloto muito experiente, com um percurso sólido na Fórmula 2, e foi muito importante poder comparar-me diretamente com ele nas mesmas condições. Apesar da diferença de experiência, os nossos ritmos eram bastante semelhantes – em várias ocasiões consegui estar ao mesmo nível ou até ser mais rápido – e o nosso feedback coincidia bastante. À medida que a confiança foi crescendo, o trabalho tornou-se cada vez mais colaborativo.
CL – Este ano abraça novos desafios…
PP – Sim, este ano marca uma nova fase no meu percurso. Saí do programa em LMP2 porque acabei por perder o meu lugar, por razões que nada tiveram a ver com o meu desempenho. Neste momento, mantenho-me como piloto de reserva em LMP2 e vou competir no GT4 European Series, integrado no programa de jovens pilotos da Toyota, através da Speed & Motorsports, uma equipa portuguesa. Vejo esta etapa como um passo importante dentro do endurance, com o objetivo claro de evoluir para o GT3, categoria que integra campeonatos de grande dimensão, como o GT World Challenge.
O GT4 funciona, de certa forma, como uma categoria de transição. São carros que, embora preparados para competição, mantêm uma base mais próxima dos modelos de estrada, o que cria uma ligação mais direta com o público. As pessoas olham para o carro e reconhecem-no, como acontece, por exemplo, com o Toyota Supra, o que torna a experiência mais próxima e envolvente.
Em termos competitivos, continua a ser endurance, mas com características diferentes dos protótipos.

PERCURSO CONSOLIDADO E AMBIÇÕES DE FUTURO
CL – Ao longo do seu percurso com que apoios tem contado?
PP – Tenho tido a felicidade de contar com cada vez mais apoios, o que tem sido fundamental para a minha evolução. Destaco, desde logo, a Rangel, que me acompanha desde o início, bem como o apoio constante da minha família, nomeadamente da empresa Perino, do meu avô, que sempre acreditou em mim e tem sido um pilar essencial ao longo de todo o percurso. Conto também com o contributo de outros patrocinadores, como o Sentidos Beach Retreat e o Oeiras Valley, que têm estado presentes e contribuído para que eu possa continuar a competir e a crescer no automobilismo.
CL – Olhando para o seu percurso até agora, qual considera ter sido o momento mais marcante?
PP – É sempre uma pergunta difícil, porque todos os momentos acabam por marcar, não apenas os bons, mas também os menos bons, até porque são esses que mais nos ensinam e nos fazem evoluir. No automobilismo, ganhar é extremamente difícil, porque tudo tem de estar perfeito: o piloto, a equipa, os engenheiros, o carro, os pneus… é um trabalho coletivo onde qualquer detalhe pode fazer a diferença.
Claro que as vitórias têm sempre um peso especial. Destaco, por exemplo, uma vitória em Magny-Cours, numa prova de LMP3 do Endurance Prototype Cup, à noite e com chuva intensa, onde consegui uma vantagem significativa sobre a concorrência. Foi uma corrida particularmente marcante, até porque tenho uma ligação especial com condições de chuva: sinto-me muito confiante e confortável nessas situações.
Logo a seguir, consegui outra vitória no circuito Paul Ricard, curiosamente também à noite e com chuva. Mas há outros momentos importantes, como a minha primeira vitória no karting, que me deu uma base de confiança essencial, ou o facto de ter sido o primeiro piloto a pontuar na Fórmula 4 tanto com licença portuguesa como moçambicana, algo que me deixa particularmente orgulhoso por representar os dois países.
CL – Competir nas 24 Horas de Le Mans está nos seus objetivos?
PP – Sem dúvida. Mais do que participar, o objetivo é ganhar as 24 Hours of Le Mans. É uma das provas mais exigentes do mundo onde, para além da performance, é preciso também alguma “estrelinha”, porque qualquer detalhe pode ditar o abandono. A própria pista de Le Mans é única: longa, desafiante e com características muito particulares. É, sem dúvida, uma prova impressionante e um grande objetivo de carreira.

DISCIPLINA, EXIGÊNCIA E MENTALIDADE
CL – Está atualmente a estudar em Barcelona. Como tem conseguido conciliar a exigência do automobilismo com a vida académica?
PP – Estou a estudar Gestão de Empresas porque o desporto automóvel envolve uma forte componente financeira e é importante compreender esse lado e saber geri-lo. Mas não só, também quero, no futuro, desenvolver projetos fora das corridas e ter uma base sólida para isso. Já terminei o primeiro ano de estudos, embora tenha tido de fazer algumas pausas por causa da competição.
Conciliar os estudos com o automobilismo não é fácil. Por um lado, há a exigência de uma vida de atleta; por outro, a vontade de viver também a experiência de um estudante “normal”. Nem sempre é possível estar presente em todas as aulas ou manter uma rotina académica tradicional, porque os treinos e as competições acabam por ocupar muito tempo. É um equilíbrio constante, feito de escolhas. Muitas vezes surgem convites de amigos para momentos de convívio, mas nem sempre é possível acompanhá-los. Tento gerir tudo da melhor forma possível para não abdicar de nenhuma das vertentes.
CL – Como é a sua preparação física para enfrentar as exigências das corridas?
PP – É de ter em conta que este é um desporto muito exigente nível físico. Não se trata apenas de conduzir, como muitas pessoas pensam. Dentro do carro, o esforço é extremo, podemos perder dois ou três quilos numa corrida. Há também muito trabalho específico, como o treino de pescoço, essencial para suportar as forças G nas travagens e manter a estabilidade necessária para conduzir com precisão. Além disso, há um grande foco nos braços e na resistência, até porque o travão pode exigir cerca de 150 kg de força. Portanto, a preparação física passa por um equilíbrio entre força, treino cardiovascular e mobilidade. Esta última é particularmente importante, já que o corpo está constantemente sob tensão e os músculos nunca estendem. Na semana que antecede a prova, o foco passa mais pelo treino de reação, sem nunca descurar o trabalho cardiovascular e a mobilidade. Treino cerca de cinco vezes por semana, e conto com o apoio de um PT e de um preparador mental. Há toda uma equipa por trás, e é mesmo necessário para conseguir competir a este nível.
Para além disso, faço também treinos em pista que decorrem em várias localizações pela Europa.
CL – Como lida com os acidentes, a velocidade e a adrenalina deste desporto?
PP – Já tive alguns momentos complicados ao longo da carreira. No karting, por exemplo, cheguei a capotar duas vezes, o que me levou ao hospital, mas apenas com pequenas lesões. O acidente mais sério aconteceu há cerca de dois anos, durante a Winter Series. Estava em qualificação, tinha acabado de fazer a pole position, e, pouco depois da meta fiquei sem travões e acabei por seguir em frente. Sofri quatro fraturas na coluna e uma lesão num disco, o que me obrigou a parar mais de um mês e a usar um colete de proteção. Foi um grande susto, mas consegui recuperar bem com o apoio do fisioterapeuta António Gaspar.
Em termos de velocidade, já atingi cerca de 310 a 315 km/h, o que mostra bem a intensidade deste desporto. A adrenalina é enorme e se tivermos medo “mais vale irmos para casa”.
CL – Num desporto tão competitivo como vive as rivalidades, dentro e fora de pista?
PP – As rivalidades, fazem parte do desporto, mas podem ser saudáveis. Tenho, por exemplo, uma rivalidade muito positiva com o Manuel Espírito Santo. Somos amigos, crescemos juntos no karting e já fomos colegas de equipa. Somos amigos e respeitamo-nos, no entanto, quando se entra em pista, tudo muda. Dentro do carro o objetivo é claro: competir ao máximo e ganhar.
CL – Com apenas 20 anos e já exposto mediaticamente, como lida com as críticas?
PP – É algo completamente normal, especialmente hoje em dia com as redes sociais, estamos muito mais expostos e as críticas surgem naturalmente. No meu caso, sinto que, dentro do automobilismo em Portugal, sou provavelmente um dos pilotos mais criticados, também por ter uma ligação a dois países. Em Portugal, por ser moçambicano, e em Moçambique, por ser português. Acabo por estar sempre no meio dessas duas realidades.
Mas aprendi a lidar com isso. Tento manter-me fiel a mim próprio, dentro e fora de pista. Gosto de ser autêntico. Sei que isso pode gerar críticas, mas faz parte. No final, o mais importante é estar confortável com quem sou e focado no meu caminho.
CL – Que mensagem gostaria de deixar aos jovens portugueses que sonham seguir uma carreira no automobilismo?
PP – Diria, em primeiro lugar, que acreditem em si próprios. Hoje em dia, as críticas estão sempre presentes e é fácil duvidar, por isso a confiança e a resiliência fazem toda a diferença.
É importante perceber também que, muitas vezes, as pessoas só veem o resultado final e não todo o trabalho que está por trás. Quando algo corre bem, fala-se em sorte ou facilidade, mas a verdade é que a sorte se constrói com muito esforço e dedicação.Por isso, o mais importante é ir atrás do que realmente querem. E, ao nível a que o desporto está hoje, não basta gostar: é preciso um nível de compromisso quase obsessivo, uma dedicação total para conseguir chegar mais longe.
NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico






















