O Museu do Ar, cujo pólo principal está instalado na Base Aérea n.º 1, na Granja do Marquês, freguesia de Pêro Pinheiro, concelho de Sintra, é um garante da missão de preservar a História da Aviação Portuguesa sob o lema ‘Dever da Memória’, sendo que essa memória está marcada por um passado repleto de feitos memoráveis que devem orgulhar-nos a todos. Sintonizada nesse objectivo, a infra-estrutura museológica propriedade da Força Aérea Portuguesa, inaugurada em Dezembro de 2009, conta com mais dois pólos, um instalado em Alverca, o primeiro a ser criado e a abrir portas, no início dos anos 1970, e outro em Ovar.
Desde o espírito inovador do padre Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) que, no início do século XVII, inventou o aeróstato, concebendo um balão de ar quente que conquistou a admiração dos lisboetas, abrindo a porta à conquista dos céus e materializando um dos grandes sonhos da Humanidade, até à Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, realizada em 1922, protagonizada por Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924), foram muitos os aventureiros, inventores e heróis portugueses que conquistaram, antes e depois desta data, merecidos lugares de destaque nas páginas douradas da História da Aviação Portuguesa.
Numa altura em que o pólo do Museu do Ar de Alverca cumpre o 58.º aniversário desde a sua criação em 1968 (acabou por abrir portas ao público três anos mais tarde, em 1971), efeméride assinalada dia 21 de Fevereiro, o jornal ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa com o seu director, Coronel Carlos António Mouta Raposo, que assumiu funções em 2019. Entre os temas abordados nesta entrevista, merecem destaque o passado, presente e futuro de uma instituição que recebeu o título de Membro Honorário da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, entregue pelo anterior Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, em Julho de 2024.

NARRAR A HISTÓRIA DA AERONÁUTICA PORTUGUESA
Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – O Museu do Ar (MUSAR) assinalou o seu 58.º aniversário no passado dia 21 de Fevereiro. Foi organizado algum programa especial para marcar a efeméride?
Coronel Carlos Mouta Raposo (CMR) – Essa cerimónia será realizada em data a anunciar.
CL – Qual é o principal objectivo do MUSAR?
CMR – O Museu do Ar, fruto dos protocolos estabelecidos com a TAP e a Ana, é responsável por narrar a Histórica da Aeronáutica Portuguesa, militar e civil.
CL – O MUSAR conta com mais dois pólos, um em Alverca e outro em Ovar…
CMR – Neste momento, o MUSAR apenas opera dois pólos: Sintra e Alverca. O pólo de Ovar encontra-se encerrado temporariamente por questões operacionais.
CL – Quantos visitantes tem o Museu? Já existem números apurados para o ano de 2025? Qual a percentagem de estrangeiros?
CMR – Durante o ano de 2025, tivemos 49.041 visitantes em Sintra e 1.423 no pólo de Alverca, totalizando no conjunto das duas instalações 50.464 visitantes. Desde o início de 2021, registámos um total de 210.761 visitantes em Sintra e 5.790 visitantes no pólo de Alverca, num total de 216.551 nas duas infra-estruturas. A percentagem de visitantes estrangeiros foi de 6,08 por cento em 2024 e de 5,31 por cento em 2025.

CL – Recebem visitas de muitas escolas no pólo de Sintra?
CMR – Em 2024, recebemos 87 visitas escolares. No ano passado, esse número ascendeu a 115 visitas.
CL – Existe algum programa especial com as escolas da região para receberem estudantes durante as férias de Verão?
CMR – Mantemos uma parceria com a Junta de Freguesia de Pêro Pinheiro, ao abrigo da qual o Museu tem sido incluído como actividade nos programas de férias que têm vindo a ser desenvolvidos.
CL – Quais os principais desafios de manutenção e preservação apresentados pelos modelos que estão à guarda/expostos no Museu?
CMR – O principal desafio no que diz respeito à manutenção e preservação dos modelos de aeronaves à guarda do MUSAR é o trabalho contínuo que temos de realizar, o que obriga a muito planeamento.
CL – Que tipo de aeronaves motorizadas têm aqui expostas?
CMR – Temos expostas nas nossas instalações 24 aeronaves motorizadas: 14 Bis, Dragon Rapide, Tiger-Moth, Avro Cadet, Sikorsky, Junker 52, TA-7P, F84, F86, Dakota, DC-3 Dakota, Noratlas, Alouette III, Puma, Fiat G91 R3 e R4, T6, DO-27, Alpha-Jet, T37, Falcon20, P3, P2V5 e Aviocar.
No total, o MUSAR tem expostas 61 aeronaves, motorizadas e não-motorizadas, sendo que 44 estão em Sintra e outras 17 no pólo de Alverca.
CL – Qual a área de exposição das instalações visitáveis do MUSAR?
CMR – Dispomos de uma área de exposição interior com 7.500 metros quadrados em Sintra, mais uma zona de placa exterior com 12.437 metros quadrados. Em Alverca, contamos com uma área de exposição com 4.200 metros quadrados. No total das duas instalações, a área de exposição interior é de 11.700 metros quadrados.
CL – Quantas aeronaves em exposição no Museu estão em condições operacionais de voar?
CMR – Neste momento, nenhuma.

AERONAVES UTILIZADAS EM FILMES, SÉRIES E DOCUMENTÁRIOS
CL – O MUSAR tem recebido pedidos para utilização de aeronaves expostas no Museu em filmes, séries ou em outros programas televisivos?
CMR – Sim, já registámos vários pedidos nesse sentido. Por exemplo: o P3-P foi usado nas gravações da série ‘Cuba Libre’ (2021); o Aviocar entrou nas gravações do filme português ‘Revolução (Sem) Sangue’, de Rui Pedro de Sousa (2023); foi realizada uma gravação em 3D do A7 por Oleg Kovalev, da Flyinglorn Simulations, para o ‘Digital Combat Simulator’, da Eagle Dynamics (2023); o Caudron G3 foi utilizado nas gravações do documentário ‘A Primeira Aviadora’ (2024), e o Boeing 707 entrou nas gravações da curta-metragem ‘Kalunga, Kalunga’, que contou com o apoio de uma bolsa de criação atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian (2023-2025).
Nos últimos anos, as instalações do MUSAR foram também utilizadas nas gravações da série ‘Azul’ (2024, SIC) e dos programas ‘A Máscara’ (2025, SIC), ‘Somos Portugal’ (2025, TVI) e ‘Alta Definição’, com Júlio Isidro (2025, SIC).
CL – Qual é a aeronave ou peça mais valiosa exposta no Museu?
CMR – Todas as aeronaves e peças expostas no MUSAR são valiosas historicamente. Todas remetem para momentos importantes da Aeronáutica Portuguesa.

CL – Entre a colecção exposta no Museu, se tivesse oportunidade de poder pilotar a aeronave que mais admira, da sua eleição, qual escolheria?
CMR – O icónico Spitfire, um avião caça monomotor de hélice desenvolvido e fabricado na Inglaterra, que foi muito utilizado durante a Segunda Guerra Mundial.
CL – Como gostaria de ficar conhecido em função da sua acção enquanto director do Museu do Ar?
CMR – O meu trabalho é em prol da missão MUSAR e, consequentemente, da Força Aérea, que cumpre as suas missões em prol dos portugueses e de Portugal.
CL – Estão previstas algumas iniciativas a realizar no Museu do Ar durante os próximos anos? Pode revelar-nos as mais importantes?
CMR – Entre 2021 e 2036, prevemos assinalar a comemoração de diversos centenários. A saber: Travessia do Atlântico Sul (1922); Travessia Portugal-Macau (1924); primeiro voo a ligar Lisboa a Bolama, Guiné (1925); Travessia Nocturna do Atlântico Sul (1927); primeiro voo a ligar Lisboa/Guiné/S. Tomé/Angola/Moçambique (1928); ligação Amadora-Índia (1930); Travessia Lisboa-Guiné-Angola-Lisboa (1930/31); ligação Lisboa-Guiné-Lisboa (1931); ligação Lourenço Marques-Lisboa (1933); ligação Amadora-Timor-Amadora (1934); voo a solo à Índia Portuguesa (1934); Cruzeiro Aéreo a Marrocos (1934) e Cruzeiro Aéreo às Colónias (1935-36).
CL – O MUSAR conta com quantos colaboradores?
CMR – Actualmente, a equipa é constituída por 12 elementos: 11 militares, oficiais, sargentos e praças, e uma funcionária civil.

“CUMPRIR A MISSÃO QUE NOS ESTÁ CONFIADA”
CL – As receitas conseguidas através das entradas no Museu são suficientes para assegurar o seu funcionamento?
CMR – A Força Aérea destina, do seu orçamento anual, um valor para os órgãos culturais, o que, somando às receitas, permite cumprir a missão que nos está confiada. Contudo, o apoio de outras unidades e serviços da Força Aérea é fundamental. Sendo nós uma unidade militar, somos vistos, naturalmente, como parte do todo.
CL – O Museu conta com apoios exteriores à estrutura da Força Aérea?
CMR – Temos o apoio da Associação de Especialistas, com alguns membros que se constituem como voluntários. Temos o Grupo de Amigos do Museu do Ar. Não sendo considerado apoio, recebemos também estagiários de escolas secundárias do concelho, assim como dos cursos promovidos pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), em aéreas de interesse comum.
CL – O que sentiu quando foi conferido ao Museu do Ar o título de Membro Honorário da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, pelo anterior Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas Marcelo Rebelo de Sousa? O que significou para si?
CMR – Orgulho e honra pelo reconhecimento prestado pelo Comandante Supremo das Forças Armadas, o reconhecimento do trabalho desenvolvido pela Força Aérea, pelos homens e mulheres que, desde 1971, têm servido no MUSAR com dedicação, muito empenho e garbo. Eu apenas tive a sorte de ser o director na altura da entrega desta condecoração.

CL – Os portugueses conhecem suficientemente bem a História da Aviação Portuguesa? O ‘Dever da Memória’ está devidamente presente?
CMR – O trabalho por nós desenvolvido é com esse intuito. Temos protocolos com a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, com a TAP Air Portugal e com a ANA – EP. E mantemos parcerias institucionais com outras instituições: Câmara Municipal de Sintra, Vintage Aero Club, Associação de Especialistas da Força Aérea, Grupo de Amigos do Museu do Ar (GAMA) e o Projecto Lusitânia 100.
Também temos vindo a trabalhar com museus internacionais, nomeadamente com o Park of Military History de Pivka e com o Techincal Museum of Slovenia, respectivamente, um museu militar e um museu técnico nacional da Eslovénia. Além destes, estamos a preparar uma colaboração com o Museu da Força Aérea Finlandesa e estamos a estudar uma outra colaboração com o Museu das Força Armadas Alemãs.
Entre as iniciativas desenvolvidas pelo MUSAR, destaco a exposição infográfica realizada em 2022 sobre o centenário da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, uma mostra que esteve exposta em 28 locais, no continente e ilhas, bem como em Cabo Verde e no Brasil. Mais recentemente, em 2024, promovemos outra exposição infográfica, desta feita sobre o centenário da Viagem Aérea Portugal-Macau, que esteve patente ao público em Portugal Continental, Macau e Hong Kong.
CL – Que outras iniciativas poderiam ser realizadas para promover a divulgação da História da Aviação Portuguesa?
CMR – Nós temos consciência de que o trabalho por nós desenvolvido vai nesse sentido. Neste momento, estamos a terminar outra exposição infográfica sobre as grandes viagens aéreas realizadas pelos portugueses, que contamos inaugurar muito em breve.
CL – Como vê o futuro do Museu do Ar?
CMR – Posso assinalar que há vontade e trabalho desenvolvido pela Força Aérea no sentido da procura da expansão do Museu.

LISTA DE PRÉMIOS RECEBIDOS
O Museu do Ar acumula várias distinções recebidas ao longo da sua existência, nomeadamente vários Prémios APOM, que distinguem instituições museológicas e outras entidades pelo trabalho desenvolvido no âmbito da Museologia. Aqui fica a lista: Melhor Museu Português (2013); Menção Honrosa pelo restauro da aeronave F-84G, da Força Aérea Portuguesa (2018); Menção Honrosa pelo restauro da aeronave North American T-6 G Harvard (2021); Menção Honrosa em Marketing e Merchandising Cultural – Museu do Ar – Loja Aeronáutica (2022); Menção Honrosa pela Visita Virtual do Museu do Ar – Pólo de Alverca (2023); Menção Honrosa – Projecto Internacional com a exposição ‘O Homem Voador – Stanko Bloudek’ (2024), e Menção Honrosa – Projecto e Conteúdos Digitais – Plataforma Izi Travel (2025).
Além da já referida distinção com o grau de Membro Honorário da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 2024, é de realçar também a atribuição ao Museu de uma Medalha Municipal de Mérito Prata – Classe Cultura (2022).























