A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Belas, fundada a 15 de julho de 1925, é uma das mais antigas e respeitadas instituições do concelho de Sintra. Ao longo de cem anos de existência, tem desempenhado um papel essencial na proteção de pessoas e bens, afirmando-se como um pilar de segurança, solidariedade e proximidade junto da comunidade.
Com uma história marcada pela dedicação dos seus voluntários e pela constante modernização dos seus meios e infraestruturas, os Bombeiros de Belas celebraram em 2025 o seu centenário, um marco de orgulho coletivo e reconhecimento por um século de serviço público exemplar.
Nesta entrevista, o presidente da Associação, Paulo Messias, e o comandante do corpo de bombeiros, Álvaro Melo, partilham os bastidores das comemorações do centenário, recordam momentos históricos da corporação e refletem sobre os desafios atuais e as metas para o futuro, revelando o espírito de missão que continua a definir os Bombeiros Voluntários de Belas.
O Correio da Linha (CL) – Como foi a preparação para a comemoração do centenário da Associação?
Palma Messias (PM) – A preparação das comemorações do centenário começou com bastante antecedência. Cerca de um ano antes, foi criada uma Comissão do Centenário, composta por várias pessoas diretamente ligadas à Associação, incluindo representantes das juntas de freguesia da nossa área de atuação. Tratou-se de uma equipa dedicada e colaborativa, que se reuniu mensalmente para delinear o programa das celebrações e assegurar que o centenário fosse assinalado com a dignidade e o reconhecimento que a história dos Bombeiros de Belas merece.
CL – Que atividades e momentos marcaram as comemorações da referida efeméride?
PM – As comemorações começaram a 5 de julho, no Jardim da Samaritana, com uma exposição de antigas viaturas de várias associações de bombeiros nacionais e com a atuação da Orquestra Ligeira da Sociedade Filarmónica Boa União Montelavarense. No dia 12 de julho realizámos um exercício de simulacro de acidente rodoviário na zona da Piedade da Serra, perto de Almargem do Bispo, e, no dia 19, no Parque Central de Casal de Cambra, promovemos novamente uma exposição de veículos antigos, acompanhada por um animado festival de ranchos folclóricos.
O ponto alto teve lugar a 20 de julho, com a cerimónia oficial do centenário. O dia começou com a formatura e o içar da bandeira no quartel, seguido da visita ao antigo quartel de Belas, onde descerrámos duas placas: uma em homenagem à comissão fundadora do corpo de bombeiros de Belas; e outra que presta tributo a todas as direções que serviram a associação desde 1925. Seguiu-se a habitual romagem ao nosso talhão no cemitério, onde recordámos com emoção os bombeiros e dirigentes já falecidos. De regresso ao quartel, vivemos mais um momento marcante com a promoção de bombeiros e a inauguração de duas novas ambulâncias de socorro — uma oferecida pela União de Freguesias de Queluz-Belas e outra comprada pela associação e apadrinhada por Rui Villas Boas, que integrou os órgãos sociais da associação durante 56 anos. A tarde desse dia ficou marcada pela realização de uma sessão solene.

CL – A sessão solene contou com várias entidades oficiais e homenagens simbólicas. Que importância atribui a esse reconhecimento público?
Álvaro Melo (AM) – As comemorações do centenário representaram um marco de enorme significado para a nossa Associação. O desfile da guarda de honra contou com a presença do Secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, e do atual presidente da Câmara Municipal de Sintra, Marco Almeida — que, à data, exercia funções de vereador. Estiveram igualmente presentes, entre outras entidades civis e militares, o então vice-presidente da autarquia, Bruno Parreira, o vereador Pedro Ventura e os presidentes das três uniões de freguesia abrangidas pela área de atuação dos Bombeiros de Belas.
Durante a cerimónia, procedeu-se à inauguração oficial do edifício onde atualmente nos encontramos — embora já se encontrasse em funcionamento há cerca de cinco anos —, bem como do Parque 3, situado à entrada do quartel e destinado ao estacionamento e operacionalização das viaturas.
Na sessão solene, tivemos a honra de receber, das mãos do Secretário de Estado da Proteção Civil, em representação da Ministra da Administração Interna, o diploma que certifica a atribuição da Medalha de Mérito de Proteção e Socorro, Grau Ouro, Distintivo Azul, que passou a integrar o nosso estandarte. A Liga dos Bombeiros Portugueses distinguiu ainda a Associação com o diploma Fénix de Honra, símbolo dos nossos cem anos de serviços relevantes à comunidade, e com uma medalha alusiva ao trabalho desenvolvido durante a pandemia de Covid-19, igualmente incorporada no estandarte. Nesse mesmo momento, foi também atribuída a Medalha de Ouro de Serviços Distintos a Rui Villas Boas, em reconhecimento pelo seu longo e dedicado contributo à instituição.
Foram momentos de profundo simbolismo e de merecido reconhecimento pelo trabalho desenvolvido ao longo de um século pelos Bombeiros de Belas. A encerrar a cerimónia, foi ainda entregue uma medalha do centenário a todos os elementos que integraram a mesa de honra.
CL – Olhando para estes 100 anos de história, quais foram os momentos mais marcantes, tanto do ponto de vista operacional como associativo?
AM – Eu estou cá há 40 anos e, a nível operacional, o momento que mais me marcou foi o incêndio do Chiado. Estivemos lá com quatro viaturas e foi, sem dúvida, uma das ocorrências mais exigentes e inesquecíveis da nossa história recente. Pela dimensão, pelo impacto e pela mobilização que exigiu, foi um marco para todos nós.
PM – Do ponto de vista associativo, os momentos mais marcantes estão intimamente ligados à construção dos nossos quartéis. O primeiro, inaugurado a 26 de maio de 1956, representou uma nova etapa na vida da Associação, proporcionando melhores condições de trabalho e de convívio. Já o atual quartel, concluído a 31 de julho de 2020, simboliza a modernização e a projeção da associação para o futuro. Cada estrutura reflete a dedicação e o esforço de várias gerações que contribuíram para o desenvolvimento da Associação.

SERVIR COM PRONTIDÃO
CL – Que dimensão tem a vossa área de atuação?
AM – A nossa área de intervenção abrange aproximadamente 70 quilómetros quadrados e uma população de mais de 130 mil habitantes. Porém, a nossa atuação não se limita à área de Belas. Trabalhamos em estreita colaboração com as associações vizinhas: Agualva-Cacém, Queluz e Caneças e sempre que há necessidade, estamos prontos a apoiar. Essa coordenação é feita através do Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS), que assegura a gestão integrada dos meios e garante que todos os recursos são mobilizados de forma eficiente. Já fomos chamados a intervir em Lisboa, Setúbal, Costa de Caparica. O nosso objetivo é sempre o mesmo: servir onde for preciso, com prontidão e profissionalismo
CL – Qual é a dimensão atual do corpo ativo e que áreas de intervenção registam maior incidência de ocorrências?
AM – Atualmente, o corpo de bombeiros conta com cerca de 90 bombeiros, e o ritmo de trabalho é bastante intenso. O dia-a-dia no quartel é marcado sobretudo por serviços de emergência pré-hospitalar. Desde janeiro, já ultrapassámos os 5700 serviços deste tipo. São, na maioria, situações de doença súbita, quedas e acidentes de viação.
CL – Como descreve o atual estado das viaturas e que investimentos estão previstos para a sua renovação?
AM – Atualmente, contamos com 28 viaturas, entre as quais oito ambulâncias de emergência do INEM. Ainda assim, uma das nossas maiores preocupações continua a ser o estado do material e de algumas viaturas mais antigas. Temos, por exemplo, um veículo urbano com 27 anos, já bastante obsoleto. Felizmente, no âmbito das comemorações do Centenário, a Câmara Municipal de Sintra atribuiu-nos uma verba de 350 mil euros para a aquisição de um novo veículo especial de combate a incêndios urbanos. O processo já foi a concurso público, a viatura está encomendada e acreditamos que chegará até ao final do ano.

FORMAR PARA SALVAR
CL – Como é que os bombeiros se preparam para responder às diferentes situações de emergência?
AM – Internamente realizamos inúmeras formações, habitualmente entre o final de outubro e o mês de maio. Durante esse período, os bombeiros são preparados em várias áreas de atuação: incêndios urbanos e florestais, acidentes rodoviários, matérias perigosas, emergências médicas, entre outras. É um trabalho contínuo, que permite manter as equipas atualizadas e prontas para responder com eficácia a qualquer tipo de ocorrência.
CL – Hoje em dia, como é que se atrai jovens para os bombeiros e como decorre o seu processo de formação?
AM – Temos procurado chegar aos mais jovens através de várias iniciativas de divulgação. Fazemos, por exemplo, campanhas e distribuímos flyers pela comunidade, o que tem dado alguns resultados — neste momento contamos com quatro estagiários que se inscreveram recentemente. Depois de se inscreverem, os candidatos iniciam um processo de formação que dura cerca de seis meses e que totaliza 250 horas. Essa formação inclui preparação em incêndios urbanos e florestais, desencarceramento, acidentes rodoviários, emergência pré-hospitalar e matérias perigosas. Além disso, há uma componente de base que abrange áreas como construção civil, eletricidade, hidráulica, utilização de extintores, equipamentos e veículos. É uma formação muito completa, que prepara os futuros bombeiros para lidar com qualquer tipo de situação no terreno.
CL – E em relação aos sócios, como está atualmente a adesão e que medidas estão a ser tomadas para reforçar esse apoio à Associação?
PM – A atual direção entrou em funções em abril e uma das nossas principais preocupações tem sido precisamente aumentar o número de sócios. A verdade é que, apesar de termos uma área de atuação muito vasta e uma população significativa, contamos apenas com cerca de dois mil e poucos associados, um número que não reflete a realidade nem o papel essencial que os bombeiros têm na comunidade. Toda a gente precisa dos bombeiros em algum momento da vida, mas nem sempre há uma contribuição efetiva da sociedade nesse sentido. Por isso, estamos a desenvolver campanhas de sensibilização e a estabelecer novas parcerias que incentivem as pessoas a tornarem-se sócias e a manterem as suas quotas em dia. A quota é simbólica — apenas um euro por mês, ou seja, 12 euros por ano —, mas representa muito mais do que o valor: é um gesto de apoio e de reconhecimento pelo trabalho dos bombeiros.
CL – Quais são os principais projetos e investimentos previstos para os próximos anos?
PM – Antes de assumir a presidência, estive 12 anos como vice-presidente, o que me permitiu conhecer bem as necessidades reais da Associação. Nesta nova direção, temos vários objetivos, mas o principal é, como mencionado, aumentar o número de sócios e promover uma maior integração da comunidade nos bombeiros — não apenas para atrair mais recrutas, mas também para garantir a renovação das direções. Hoje em dia é cada vez mais difícil encontrar pessoas dispostas a assumir cargos de responsabilidade de forma voluntária, e acredito que o Governo também deveria rever o Estatuto do Dirigente Voluntário, que já não é atualizado há muitos anos.
Outro dos nossos focos é reduzir custos administrativos e logísticos, sem nunca comprometer os meios e recursos necessários ao corpo de bombeiros. Queremos fazê-lo de forma inteligente, apostando, por exemplo, na eficiência energética, na redução do consumo de eletricidade e água, e na implementação de sistemas que nos ajudem a gerir melhor os recursos. Também estamos a estudar formas de rentabilizar a exposição solar do quartel, o que representará uma poupança importante a médio prazo.
Acima de tudo, queremos continuar a dar aos bombeiros todas as ferramentas necessárias para um desempenho cada vez mais eficiente. E há ainda um projeto que me é particularmente querido: a requalificação do “Fordecas”, o nosso carro mais antigo, inaugurado em 1936 e de fabrico inglês. É um símbolo da nossa história e uma forma de homenagear todos os que passaram por esta casa. Preservar esse património é essencial, não apenas pela memória, mas também para inspirar as novas gerações de bombeiros.

MODERNIZAR SEM PERDER A IDENTIDADE
CL – Que avanços tecnológicos têm vindo a integrar no vosso trabalho e que ferramentas consideram prioritárias para o futuro próximo?
PM – Temos sentido uma evolução significativa. Já há quase quatro anos que dispomos de uma sala de operações equipada com tecnologia moderna, o que tem facilitado bastante a coordenação das equipas e o acompanhamento das ocorrências.
AM – No entanto, há uma ferramenta que consideramos fundamental adquirir a curto prazo: um drone. Os drones são extremamente úteis em situações de incêndio, pois permitem avaliar o terreno, localizar focos de fogo e posicionar melhor as viaturas no combate. Também são essenciais em operações de busca por pessoas desaparecidas, especialmente em zonas de vegetação densa. Recordo um caso aqui em Belas, há alguns anos, em que uma senhora vinda de Lisboa passou a noite perdida na zona do Casal da Carregueira. Na altura, sem drone, foi preciso recorrer às coordenadas do telemóvel, com o apoio da operadora, para a localizar. Felizmente tudo correu bem, mas uma ferramenta como essa teria facilitado muito o trabalho e reduzido o tempo de procura.
CL – Que estratégias têm utilizado para despertar o interesse dos mais jovens pelo vosso trabalho?
AM – Acredito que as escolas são o local mais atrativo para despertar o interesse pelo voluntariado. Além dos cartazes e folhetos que deixamos, seria muito importante realizar ações de divulgação diretamente nas escolas. Já recebemos alguns convites e, sempre que é requisitado, organizamos atividades, como visitas ao quartel ou demonstrações de suporte básico de vida. Por exemplo, em Casal de Cambra temos feito várias ações para crianças entre os 5 e os 10 anos, permitindo-lhes conhecer de perto o trabalho dos bombeiros.
PM – As escolas têm um papel fundamental, pois permitem trabalhar a prevenção desde cedo e dinamizar instituições que estão no coração da comunidade, seja em aldeias ou vilas. Explicar às crianças o que fazemos, o impacto do voluntariado. Essas ações podem começar ainda dentro das aulas, em disciplinas como cidadania, e ajudam a criar uma ligação duradoura com os bombeiros, formando futuros voluntários e cidadãos conscientes.
CL – A Associação conta com um museu aberto ao público. Que objetos e memórias têm vindo a preservar ao longo dos anos?
AM – O museu reúne um conjunto de peças que fui guardando ao longo dos anos. Antigamente, muito deste material acabava simplesmente no lixo. Hoje temos aqui um espólio bastante representativo da história dos Bombeiros de Belas: viaturas antigas, placas de inauguração de veículos, capacetes de várias épocas, antigos cartões de bombeiro, agulhetas, sirenes e medalhões oferecidos em diversas comemorações. Também preservamos as primeiras máquinas de escrever que chegaram à corporação e várias fardas usadas pelos bombeiros ao longo das décadas. É um espaço de memória e identidade.
CL – A fanfarra dos Bombeiros de Belas tem uma presença marcante nas vossas cerimónias. Pode contar-nos um pouco sobre a sua história?
PM – A fanfarra surgiu há muitos anos, de forma espontânea, quando alguns bombeiros que sabiam tocar decidiram desfilar pelas ruas no dia do aniversário da corporação. Desde então, passou a estar presente em desfiles, procissões e aniversários de outras coletividades. Nas nossas comemorações, é a fanfarra que abre o dia, com o hastear das bandeiras e o desfile até ao cemitério, onde homenageamos os bombeiros e dirigentes já falecidos.
Atualmente somos cerca de vinte elementos, com clarins, bombo, tarolas e caixas de guerra. Tocamos sobretudo marchas militares — cerca de trinta — e destacamos a “Os Soldados da Paz”, oferecida à fanfarra em 1979 por Joaquim Francisco Batista.
NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico























