Filipa Elvas: “A corrida é um espaço de liberdade”

De Lisboa à Grande Muralha da China, da Antártida à Gronelândia, passando por desertos e cidades emblemáticas, Filipa Elvas, de 49 anos, já soma 19 maratonas – três delas vencidas – em cenários tão desafiantes quanto inspiradores. Assistente de bordo de profissão e socióloga de formação, decidiu contar essa aventura no livro Nem Tudo Foi a Correr, que já se encontra disponível nas livrarias. Numa conversa descontraída, Filipa partilhou como concilia a vida nos céus com os treinos, as maiores dificuldades físicas e mentais, as lições que trouxe de cada quilómetro e o impacto transformador que a corrida teve na sua vida.

O Correio da Linha (CL) – Como começou a sua relação com o desporto?

Filipa Elvas (FE) – Na adolescência pedalava numa bicicleta estática no alpendre da casa dos meus pais, em Caxias. Fazia isso religiosamente todos os dias antes de ir para as aulas: sessenta minutos a pedalar e a olhar em frente. Durante dois anos, cheguei a trocar a bicicleta estática por uma verdadeira, percorrendo diariamente o trajeto Caxias–Cascais–Caxias, 45 minutos para cada lado. A certa altura comecei a ter receio de pedalar na estrada e acabei por abandonar a bicicleta, que ficou esquecida na garagem. Hoje arrependo-me de não a ter restaurado, pois podia estar exposta no “museu” que tenho aqui em casa.

CL – E em que momento da sua vida entra a corrida?

FE – Entrei para a TAP aos 31 anos e, mais tarde, aos 35, surgiu o convite de um colega e amigo para integrar a equipa de triatlo da companhia. Foi uma experiência entre 2009 e 2010, mas não era exatamente a minha praia: odiava nadar – sentia-me sufocada dentro do fato – e no ciclismo estava constantemente com medo de cair. A única parte em que me revia, ainda que com pouca paixão, era a corrida. Foi aí que percebi que, apesar de tudo, esse poderia ser o caminho a seguir.

OS PRIMEIROS PASSOS

CL – E quando começou a participar em competições?

FE – Depois de deixar o triatlo em 2010, comecei a correr apenas por mim. Primeiro no Jamor, muito timidamente: cinco minutos, depois seis, sete… Mas o verdadeiro gosto nasceu em junho de 2011, quando participei na minha primeira prova de atletismo: a Marginal à Noite, em Oeiras. Tinha 35 anos e fui sozinha: apanhei o comboio em Caxias, cheguei à partida, comi uma banana antes da prova e alinhei sem grandes expectativas. Surpreendentemente, acabei os 8 quilómetros em 32 minutos, conquistando o 8.º lugar. Voltei para casa, tomei banho, deitei-me e pensei: “estou a gostar disto”.

Poucos dias depois aventurei-me na Corrida das Fogueiras, em Peniche — 15 quilómetros — e, para minha surpresa, cruzei a meta novamente em 8.º lugar, numa 1 hora e 8 minutos. Passadas uma ou duas semanas, decidi arriscar a minha primeira meia-maratona: os 21 quilómetros do Rio de Janeiro. Neste caso específico, não adorei a prova, mas foi mais uma etapa que consolidou a certeza de que queria continuar neste caminho.

CL – Como surgiu a sua primeira maratona e como foi essa estreia?

FE – Quando aterrei em Lisboa vinda da meia maratona do Rio de Janeiro, liguei a um amigo e perguntei-lhe se queria ser meu treinador. Ele aceitou e disse-me de imediato: “Filipa, vais fazer a tua primeira maratona daqui a 23 dias, em Helsínquia”. Sem pensar muito, aceitei o desafio e lá fui. Completei a prova em 3h26, terminei em 25.º lugar entre 500 mulheres e fui a única portuguesa presente. Foi uma estreia inesquecível, que abriu portas para tudo o que veio a seguir. Pouco depois, corri a maratona de Varsóvia e, em 2012, aventurei-me em Miami e Chicago. Em 2013, fui até à China, e mais tarde a Berlim e à Gronelândia, entre outras.

Até hoje, Chicago é a minha melhor maratona em termos de tempo, concluída em 3h23. Ao todo, já somei 19 maratonas, com três vitórias memoráveis: na Grande Muralha da China, na Gronelândia e na Antártida.

CL – Como é que se prepara mental e emocionalmente para enfrentar desafios tão exigentes?

FE – Para mim, tudo começa na cabeça. É a mente que corre antes do corpo. Sempre acreditei que o cérebro é o músculo mais importante e, sem foco, nada feito. A disciplina, a motivação e a concentração foram sempre as minhas maiores aliadas — nunca desisti de nenhuma maratona, e devo isso ao poder da mente. Houve provas em que o corpo parecia vacilar, mas a obstinação manteve-me de pé. É essa força interior que me leva a cruzar todas as metas: nunca abandonei nenhuma prova.

CL – E no plano físico, como foi a sua rotina de treinos para estas maratonas?

FE – Dependeu muito das provas. Para a minha primeira maratona, em Helsínquia, treinei apenas 23 dias, foi quase uma preparação relâmpago. Nunca tive treinos longos e estruturados como alguns atletas profissionais. Por exemplo, quando fui à Gronelândia, nunca tinha treinado na neve. Corri pela primeira vez nesse tipo de terreno no próprio dia da prova, às oito da manhã, com uns ténis adaptados com pitons. Foi surreal, mas funcionou. Só mais tarde, já na Antártida, em 2018, tive a minha segunda experiência a correr em neve. A verdade é que a minha preparação sempre foi marcada mais pela obstinação mental do que pela quantidade de quilómetros nos treinos. Com efeito, o relógio que uso durante as corridas é um modelo básico de 10 euros, que só marca minutos. Desde os 35 anos que treino assim. Não me preocupo com velocidade nem com quilómetros; treino apenas pelo tempo que corro. Por exemplo, para a Maratona da Muralha da China, cumpri quatro meses de treino à risca, sempre em minutos, com os planos que o meu treinador me enviava por email. Para esta corrida ia muito bem preparada.

DESAFIOS SUPERADOS

CL – Qual foi a maratona mais difícil que enfrentou?

FE – É difícil escolher apenas uma, porque cada prova traz adversidades próprias. Sofri imenso em Davos, na Suíça, apesar de ser talvez a corrida mais bonita que já fiz. As descidas eram autênticos tormentos para os meus joelhos, que funcionavam como travões — foi um verdadeiro inferno. Também o deserto da Jordânia foi duríssimo: tive uma dor horrível no tendão de Aquiles durante toda a prova. Curiosamente, sofri mais nessas duas corridas do que na emblemática Muralha da China, com os 20 mil 500 degraus – demorei 7h54 a cortar a meta. Ainda assim, senti menos desgaste físico do que em Davos ou na Jordânia.

CL – E o que a fez não desistir nessas alturas de maior sofrimento?

FE – Foi sempre a cabeça que me salvou. Houve momentos em que estava quase a parar, completamente derrotada pelo corpo, mas a mente gritava mais alto: “Filipa, vieste de tão longe, não é agora que vais desistir. A maratona não tem culpa”. Essa voz interior acompanhou-me sempre, empurrando-me para a frente quando os joelhos doíam ou quando o corpo parecia esgotado.

Tenho muitos diálogos interiores enquanto corro: verdadeiras estratégias mentais que surgem no momento. No Peru, por exemplo, no Vale Sagrado dos Incas, logo nos primeiros quilómetros havia uma subida duríssima. Eu quase parada, dizia para mim mesma: “Se conseguires subir isto a correr, mesmo que seja devagar, enquanto os outros caminham, vais cruzar a meta da maratona”. E assim foi: aguentei. Aliás, nessa corrida eu só ia fazer 21 km, acabei por fazer a maratona e fiquei em 4º lugar.

Na Jordânia, em Petra, aconteceu algo parecido. Uma atleta belga ultrapassou-me perto do fim e eu caí para o 5.º lugar. Senti uma raiva imensa, mas transformei essa energia em força. A dois quilómetros da meta, ultrapassei-a e garanti o 4.º lugar. São estes diálogos interiores que me permitem superar os limites.

CL – Qual foi a prova ou o cenário que mais a marcou?

FE – Não dá para escolher uma só. Chicago é linda, uma verdadeira festa. A Muralha da China também é incrível, mas não dá muito para olhar à volta — se se tirar os olhos do chão, cai-se, porque são degraus atrás de degraus. Mas numa parte, aos 21 quilómetros, lembro-me de olhar em redor e simplesmente abrir os braços e deixar-me envolver na grandiosidade da paisagem. Na Gronelândia, foi o glaciar azul-turquesa, imenso e silencioso, que me deixou sem palavras. No Vale Sagrado dos Incas, a beleza é quase mística, e na Antártida vivi uma experiência única: terminar a corrida entre pinguins e focas que se aproximavam como se fizessem parte da celebração.

CL – E qual foi a maratona ou corrida de onde tirou a maior lição?

FE – Foi a da Antártida. Eu só treinei 20 dias, foi tudo mental. A minha estratégia era simples: aumentava um minuto por dia — comecei com 10, depois 11, 12, 13, 14… e na véspera da prova corri 32 minutos sozinha em Ponta Arenas. Foi uma forma de ensinar o corpo a melhorar sempre um pouco em relação ao dia anterior. Cheguei ao dia da prova com o foco máximo, lembro-me de cada passo, a caminhar com os outros atletas… já estava noutra. Fiz a prova em 5h e 6 min. Mas a maior lição foi aprender a confiar na minha estratégia mental e na capacidade do meu corpo de se superar.

CL – Em alguma maratona ou corrida assistiu a um gesto que a tenha emocionado?

FE – Esses gestos existem sempre, sobretudo na parte final. As claques de apoio são incríveis: ouve-se constantemente “Go, go, go!”, “You can do it!”. Acontece em todas as provas. Mas há uma que me marcou muito, no Peru. Já ia no quilómetro 38, completamente exausta, a subir uma elevação muito acentuada e longa. Eu só queria silêncio para manter o ritmo e conseguir chegar ao fim. E, de repente, numa curva cheia de crianças, todas aplaudiam, a gritar “Go, go, go!”. E eu, tão focada, nem olhei para elas, nem retribuí. Cruzei a meta e arrependi-me logo. Elas estavam a dar-me tanta força, e eu não correspondi porque precisava daquele silêncio para me focar.

CL – Tem algum ritual antes das maratonas?

FE – Tenho sempre comigo a Nossa Senhora de Fátima. Ela viaja comigo e, em cada maratona, fica à minha espera: à janela do hotel, voltada para o percurso que vou enfrentar, ou até mesmo na meta — como aconteceu na Antártida, onde a levei dentro da mochila e foi a primeira coisa que agarrei ao cruzar a chegada. Também corri 18 maratonas com um anel em malha de prata, que infelizmente perdi, mas que me acompanhou sempre. E há ainda um ritual muito meu: na véspera, estendo todo o equipamento. Se o quarto de hotel tiver duas camas, numa delas coloco os calções, a camisola, os géis, as bananas… tudo alinhado. É como um momento de preparação e concentração antes da prova.

CL – E qual é a sua filosofia quando corre? Corre por objetivos, por superação ou por prazer?

FE – Corro por mim e para mim. A corrida é um espaço de liberdade. Não é sempre fácil. Há dias em que o corpo se arrasta, em que as pernas parecem patas de elefante. Nesses momentos, a motivação vem da cabeça. Obrigo-me a continuar porque sei que a disciplina compensa. Nem sempre há prazer imediato; muitas vezes há sofrimento. Mas é nesse contraste que encontro a verdadeira essência da corrida: transformar a dor em força. Aprendi a estruturar objetivos, a compreender que a motivação não é constante e que a disciplina tem de assumir o comando em muitos dias.

CL – Como faz para correr, tendo em conta os seus problemas de joelhos?

FE – As descidas são horríveis para mim, quem tem joelhos assim sabe. E desde 2014 tenho de evitar o alcatrão, o que é muito difícil, seja em Portugal ou em qualquer cidade do mundo. O impacto é 8 a 10 vezes maior do que na relva, por isso corro muitas vezes num campo de futebol, no Jamor, à noite. Só consigo correr em relva, terra batida ou areia firme e nivelada — se estiver inclinada, é pedir para ter outra lesão. Não faço ginásio nem reforço muscular, calço os ténis e vou para a rua. Fui operada em 2019, não tenho cartilagem, por isso tenho de ter cuidado. Agora já faço um bocadinho de treino de força em casa, ponho uma cadeira, um tapete, uns pesos e faço três séries de agachamentos. Sinto as pernas mais fortes. O truque para correr bem é mesmo o reforço muscular…e isso é algo que eu nunca fiz a sério. Porém, mesmo com os joelhos frágeis e as limitações atuais, continuo a viver cada corrida com o mesmo entusiasmo e alegria de sempre.

CL – Como é que consegue conciliar uma profissão tão exigente dadas as constantes viagens, com os treinos?

FE – O equipamento segue sempre comigo, na mala de porão, mesmo que nem sempre chegue a usá-lo. Há dias em que simplesmente não me apetece. Mas onde quer que esteja, São Paulo, Rio de Janeiro, Chicago, Zurique, Milão, Paris, Barcelona ou Moscovo, tento sempre correr.

A CONCRETIZAÇÃO DE UM SONHO

CL – Como surgiu a ideia de escrever um livro?

FE – Escrever um livro sempre foi um sonho meu. Sempre quis fazê-lo, e com as maratonas tornou-se ainda mais natural. Depois de cada prova, escrevia algumas coisas, imprimia e fui guardando tudo em pastas ao longo dos anos. E as pessoas à minha volta só reforçavam a ideia: “Filipa, a tua vida dá um livro”, “Quando é que escreves um livro?” … Esse incentivo acabou por me motivar a transformar o sonho em realidade. Enviei o primeiro capítulo, o último e a sinopse para dez editoras, e a Self agarrou o projeto de imediato. Foi tudo muito ágil e dinâmico. Ao contrário das grandes editoras, que demoram mais tempo e editam vários livros por mês, a Self dedica-se a apenas dois livros por mês e trata cada obra com muito cuidado. Vê-se isso na apresentação, nos pormenores, em tudo. São rápidos, mas atentos, e isso faz toda a diferença no resultado final.

CL – O título do livro é “Nem tudo foi a correr”. Quem o escolheu e porquê?

FE – Fui eu. Em 2019, estava a dormir, levantei-me, fui à sala e escrevi num guardanapo: “Nem tudo foi a correr” …porque tudo é cabeça. É isso que quero transmitir: foco, força de vontade, motivação e resiliência. Lembro-me de situações extremas em provas e é nesses momentos que a motivação conta. Correr é também alegria, liberdade. Eu não corro para ninguém, corro por mim. Não tenho horários; se me apetecer correr em Helsínquia às 11 da noite, como já fiz, vou. Correr é a minha liberdade.

CL – Há alguma parte do livro com a qual os não corredores se possam identificar?

FE – Todos os capítulos têm algo para todos. O livro tem 25 capítulos, dos quais 23 são sobre corridas, com o nome das cidades onde corri: Varsóvia, Miami, Chicago, China, Berlim… Mas há camadas mais profundas em cada capítulo. Exponho pensamentos e reflexões, sobre a reforma, por exemplo, do que quero fazer quando deixar de trabalhar. Esse é um tema muito importante para mim, porque quero continuar com objetivos diários mesmo depois da reforma, seja alimentar gatos de rua, como costumo fazer, regar árvores como a que regastei do lixo e plantei no Jamor, ou outras pequenas rotinas. Quem não corre, vai encontrar pontos em comum nestas experiências.

CL – E como surge a sua paixão pelos “resgates do lixo” mencionados no livro?

FE – O penúltimo capítulo chama-se “Resgates do Lixo” e é onde quem não corre também se pode identificar. É o meu hobby: resgatar objetos do lixo, restaurá-los e dar-lhes nova vida. Recupero tapetes, louça, móveis… e falo de todos esses resgates no livro. São pequenas ações, mas dão sentido e mantêm a vida ativa e cheia de objetivos, mesmo fora das corridas.

CL – Como é que incentiva alguém a fazer a sua primeira maratona?

FE – A pessoa tem de pensar assim: se os outros conseguem, eu também consigo. Uma maratona é difícil por isso, a pessoa tem de querer muito fazer a prova. Começar devagar é fundamental. Calçar os ténis, vestir o equipamento e sair de casa é o primeiro passo. No dia seguinte, o objetivo é melhorar um pouco em relação ao dia anterior. O cérebro precisa de perceber: “Estou aqui, quero correr e vou conseguir.” No livro há um guia passo a passo que menciona tudo isto. É também muito importante visualizar a meta e os treinos. Eu faço isso sempre, e funciona.

CL – Depois do livro, que novos desafios e metas pessoais tem em mente, seja no mundo da corrida ou fora dele?

FE – O livro, para mim, já foi uma meta cruzada, um sonho realizado que agora tenho nas mãos. E agora, desejo que estas 240 páginas, que se leem em três horas, consigam inspirar todas as pessoas que as abrirem. Porque o livro não é sobre técnicas de corrida, é sobre simplicidade, hábitos diários, pequenas rotinas que podem motivar qualquer pessoa. O meu verdadeiro sonho é esse: que os leitores, encontrem inspiração nas coisas simples da vida, que se emocionem, que até possam chorar ao ler, mas que sobretudo sintam vontade de se inspirar e seguir em frente.

NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Autor: Raquel Luís

1 comentário em “Filipa Elvas: “A corrida é um espaço de liberdade””

  1. Tenho o privilégio de conhecer pessoalmente esta menina, e tudo o que dizem … é pouco! Dizer que espalha, harmonia e coragem, por onde passa ainda é pouco para uma pessoa, com uma vida tão rica em humanismo, e que ela distribui como se fosse rebuçados ou notas. Sou mais rico por a ter conhecido.

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