A Junta de Freguesia de Cascais e Estoril (JFCE) homenageou os pescadores, armadores e famílias “que moldaram a identidade marítima de Cascais” com a inauguração de um mural de grandes dimensões, intitulado ‘Azul: A Alma dos Armadores e Pescadores de Cascais’, inaugurado no passado dia 3 de Setembro.
A obra, uma gravura em cerâmica com as dimensões de 240 x 460 centímetros, assinada pelo artista Telmo Guerra, está instalada na parede do edifício da Associação de Armadores e Pescadores de Cascais (AAPC) e constitui um espaço de memória, contemplação e reconhecimento.
De acordo com a explicação avançada pela JFCE, o mural intitulado ‘Azul: A Alma dos Armadores e Pescadores de Cascais’, inaugurado durante a realização das populares Festas do Mar em Cascais, “celebra a coragem, a dedicação e o legado de todos aqueles que fizeram do mar o seu destino”.
Acrescenta ainda a autarquia que esta iniciativa visa reafirmar o compromisso da JFCE em “preservar a identidade marítima local e valorizar a memória de quem construiu a ligação de Cascais ao mar, transformando a arte pública num tributo vivo, duradouro e colectivo aos Homens do Mar”.
A composição distingue-se pelo predomínio de tons azuis, evocando a profundidade e a vastidão do oceano, e integra sete elementos fundamentais que simbolizam os pilares da vivência marítima: o barco, o farol, as gaivotas, motivos de cerâmica tradicional portuguesa, a bandeira da JFCE e a cor azul.
“Cada detalhe da obra de Telmo Guerra reflecte a coragem, a resiliência e a dedicação de gerações de pescadores que fizeram do mar o seu destino, transformando a fachada da Associação de Armadores e Pescadores de Cascais num verdadeiro espaço de tributo vivo e contemplativo”, destaca ainda a nota informativa da Junta de Freguesia cascalense.
Estiveram presentes no evento o Presidente da Câmara Municipal de Cascais (CMC), Carlos Carreiras, o Presidente da JFCE, Pedro Morais Soares, o comandante do Porto de Cascais, José Marques Coelho, o Presidente e o vice-presidente da AAPC, respectivamente, Manuel Lorigo e António Ramos, bem como o autor do mural.

“SÍMBOLO DE MEMÓRIA E DE GRATIDÃO”
Sobre a obra inaugurada, Telmo Guerra explicou ao ‘Correio da Linha’ que demorou aproximadamente duas semanas a realizar, tendo sido executada na Suíça, após o que foi enviada para Cascais para ser montada e instalada no local onde se encontra exposta, com a colaboração especial de João Telles Ferreira.
“É com enorme orgulho que estou aqui convosco para inaugurar este mural, que representa uma homenagem àqueles que carregam no coração a verdadeira alma de Cascais, os armadores e pescadores desta vila”, afirmou Telmo Guerra durante a apresentação, fazendo questão de agradecer ao Presidente da JFCE pela “valorização da Cultura e das raízes de Cascais”, enaltecendo que “uma vila que investe na Arte e na Cultura é uma vila mais rica”.
O artista fez saber que escolheu o nome ‘Azul: A Alma dos Armadores e Pescadores de Cascais’ por ter um significado muito especial. “O azul é o mar que nos envolve, é o céu que nos guia e é, acima de tudo, a cor da esperança e da força que caracterizam esta comunidade”, justificou.
“Este mural procura reflectir a bravura de quem enfrenta diariamente o desconhecido e o orgulho de pertencer a uma tradição que faz parte da identidade desta vila. Este mural não é meu, este mural é dos armadores e pescadores de Cascais e também das suas famílias”, sublinhou Telmo Guerra.
“Esta é uma obra e um espelho que representa a vossa vida, as vossas histórias, a vossa luta e o vosso legado, que deve ser preservado e honrado por todos nós. Espero que este mural seja um símbolo de memória e de gratidão. Espero que cada pessoa que passe aqui sinta a presença viva dos homens do mar”, assinalou o artista, para concluir: “o mar é infinito, mas a alma dos pescadores de Cascais ainda é maior”.

ARTISTA RECONHECIDO
Telmo Ernesto Ives Guerra, de 50 anos, natural de Tortosendo (Covilhã), é mestre em Psicologia, formado pela Universidade da Beira Interior, e reside com a família em Neuchâtel, na Suíça, onde trabalha como assistente social com crianças e jovens e tem vindo, também, a desenvolver a sua actividade artística.
O autor da obra ‘Azul: A Alma dos Armadores e Pescadores de Cascais’ especializou-se na gravura em baixo-relevo, sendo a cerâmica um dos materiais que mais utiliza, devido à sua durabilidade e resistência, que permitem preservar “a marca do artista”, como costuma argumentar, realçando que a gravura pode ser realizada em praticamente qualquer suporte, nomeadamente madeira, vidro, ou metal.
Telmo Guerra tem murais expostos em La Chaux-des-Fonds, Valangin e Yverdon, na Suíça, e em vários outros locais, nomeadamente em Portugal, caracterizando-se por utilizar nos seus trabalhos elementos da cultura portuguesa. Em 2024, foi distinguido pelo Comité Olímpico Internacional (COI) com a reconhecida Medalha Pierre De Coubertin.
Entre outras personalidades, retratou nas suas obras Carlos Lopes, José de Guimarães, Pierre De Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos, e o Papa Francisco, com quem se encontrou no Vaticano no ano passado. Contam-se entre as suas obras vários trabalhos realizados para o COI, entre os quais o retrato de Pierre De Coubertin que se encontra exposto no Museu Olímpico, em Lausanne, Suíça.

“NÓS, OS PESCADORES, ESTAMOS CÁ”
“Nós, os pescadores, estamos cá. Cascais era uma Terra de Reis e Pescadores, agora só há pescadores. Temos tentado estar vivos e, então, lembrámo-nos de fazer um mural em honra dos pescadores para ficar aqui, na sede da nossa Associação”, referiu António Ramos, vice-presidente da AAPC, durante a apresentação da obra, aproveitando para agradecer a colaboração recebida por parte da CMC e JFCE.
“O senhor Presidente da CMC tem sido o que tem sido, mas o Pedro Morais Soares tem tido uma ligação especial à nossa Associação. Falámos e ele pôs-se do nosso lado, ajudou-nos e a obra está aqui, o artista está ali e os pescadores existem. Cada vez são mais novos, a classe piscatória está cada vez mais jovem, com barcos novos, a progredir em Cascais, e penso que seja para continuar”, comentou o dirigente.
Por sua vez, o Presidente da JFCE, aproveitou a oportunidade para deixar “um agradecimento profundo e um obrigado aos pescadores de Cascais e à Associação, aos representantes da Associação, mas acima de tudo à comunidade piscatória por tudo o que têm feito para manter as tradições da nossa cultura, da arte da pesca, e de manterem bem vivas as tradições”. “Nós não podemos nunca deixar de apoiar estas iniciativas”, destacou Pedro Morais Soares.

CARLOS CARREIRAS LAMENTA FALTA DE UNIÃO
“Há um termo poético, que foi aqui utilizado, que é uma Terra de Reis e Pescadores. Em termos históricos, não é assim. Em termos históricos, nós começámos por ser uma terra de lavradores. Mais tarde, até fomos uma terra de pedreiros, ou seja, a pedra que se utilizava em Lisboa saía de Cascais, trabalhada por homens daqui. Depois, de facto, fomos tendo pescadores. E também tivemos, durante um período curto da nossa História, reis aqui em Cascais”, precisou Carlos Carreiras, durante a sua intervenção.
Prosseguiu o Presidente da CMC: “Fica sempre bonito dizer que Cascais era uma Terra de Reis e Pescadores, porque basicamente simboliza esta junção, ou seja, os vários estratos sociais todos se relacionavam, desde o pescador até ao rei, que era a figura considerada mais importante”.
O autarca fez ainda questão de acrescentar: “Gostava que o mural inaugurado simbolizasse tudo aquilo que já aqui foi referido, mas ainda algo mais, que é uma luta que eu tive desde que assumi estas responsabilidades. Na verdade, não consegui cumprir com esse objectivo, que era que os pescadores de Cascais se unissem, porque a divisão não faz bem a ninguém”.
“Se estiverem unidos, os pescadores terão uma maior capacidade, até de afirmação, terão uma capacidade maior até de reivindicação daquilo que considerem ser os seus direitos e as suas aspirações. Portanto, que este mural seja de facto o símbolo dessa união entre os pescadores”, desejou Carlos Carreiras.






















