A Associação de Armadores e Pescadores de Cascais (AAPC) representa os homens do mar numa vila conhecida por ser terra de Reis e Pescadores. Constituída em 1932, a instituição conta actualmente com cerca de 300 associados, entre pescadores e viúvas de pescadores, aos quais presta a ajuda possível, nomeadamente apoio médico, através da abertura de um posto clínico a funcionar na sua sede, que disponibiliza serviços prestados por uma equipa formada por um médico e por uma enfermeira.
Presentes de forma bem marcante na História da vila de Cascais, os pescadores têm sobrevivido às alterações que têm ocorrido em função do acelerado crescimento do Turismo na região. Hoje, ao largo da praia que lhes serve de base, os seus barcos de pesca continuam fundeados na imagem de uma terra que ajudaram a fazer crescer e a ter o estatuto que hoje ostenta. O pequeno cais de apoio, a nova grua ali instalada e as casinhas construídas do outro lado da baía, para guardarem os materiais da faina, mantêm viva a sua presença.
A Casa dos Pescadores, sede da Associação, instalada na Villa Eugénia, pertença do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, tem sido alvo de algumas obras de requalificação ao longo dos anos. Contudo, as chuvas muito intensas do último Inverno fizeram os seus estragos na cobertura do edifício, já enfraquecida pelo crescimento de vegetação, ervas sobretudo, mas também uma pequena árvore, que já ultrapassa 1,5m de altura. Depois de germinarem entre as telhas, têm aberto caminho às infiltrações.
A Direcção da Associação, que dispõe de parcos recursos para cobrir os custos derivados do seu funcionamento, está preocupada com os efeitos nefastos de uma meteorologia mais agressiva e inconstante. A água da chuva infiltrada no telhado da Casa dos Pescadores começa a causar danos e ameaça tornar mais dispendiosa uma intervenção que carece de urgência para que a cobertura, que já ostenta dois rombos significativos, não venha mesmo a ruir totalmente, o que, inevitavelmente, pode acontecer se nada for feito.
O jornal ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa com Manuel Caçoa Lorigo, presidente da AAPC, cargo que tem desempenhado ao longo de anos, com pequenas intermitências pelo meio. Profundo conhecedor da História da vila de Cascais e das estórias protagonizadas pelos homens do mar, nas suas vidas dominadas por uma faina difícil, dura, tantas vezes perigosa, fala-nos de uma classe por vezes negligenciada, esquecida, engolida por um desenvolvimento nem sempre contemplativo q.b..

ALERTAS E PEDIDOS SEM RESPOSTA
Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – O que se passa com o telhado da vossa sede?
Manuel Lourigo (ML) – Começaram a crescer ervas que estão a levantar as telhas e a criar um intervalo entre elas, o que tem permitido que a água da chuva se infiltre na cobertura do edifício. Isto começou para aí há uns seis meses, em Novembro. Começámos a ver pingos a caírem dos tectos e tentámos saber o que se passava.
CL – Também têm uma árvore a crescer no telhado…
ML – É verdade, deve ter brotado devido a sementes que caíram sobre o telhado provenientes de uma árvore que está no passeio, na parte de fora do recinto da Associação. Os ramos dessa árvore deviam ter sido podados com mais frequência. Como isso não aconteceu, servem agora de pouso a aves que vêm comer as sementes, fazendo com muitas caíam em cima das telhas e ali acabem por germinar.
O telhado já devia estar sujo e isso, associado ao estrume deixado pelos pássaros, deu origem a muita vegetação e até pequenas árvores, uma das quais já cresceu bastante, tem cerca de 1,50m de altura. Se o telhado não for intervencionado, as raízes dessa árvore e do resto da vegetação vão causar cada vez mais estragos na cobertura.
CL – Quais os estragos que já detectam no edifício?
ML – Neste momento, já temos buracos de tamanho considerável em dois tectos do piso superior, que podem vir a cair a qualquer momento e causar ferimentos a alguém. Além disso, a humidade está a penetrar cada vez mais nas paredes, que estão a ficar negras e a criar bolor. Como a água da chuva está a infiltrar-se, temos de proteger, tanto quanto possível, o que está guardado nas dependências afectadas. Está a ser muito complicado e tememos a ocorrência de estragos maiores. Não sabemos exactamente qual é o estado da estrutura. O forro é de madeira e vai apodrecendo aos poucos, por isso começa a faltar suporte. Se nada for feito, vai acabar por cair tudo.

CL – O que têm feito para tentar encontrar uma solução para esta situação?
ML – Já contactámos a Câmara Municipal de Cascais (CMC) a dar conhecimento do que está a passar-se na nossa sede, mas ainda não obtivemos qualquer resposta. Enviámos a primeira comunicação, através de email, há cerca de seis meses, a explicar a situação e a pedir que retirassem daqui a árvore, que está junto ao muro do edifício da nossa sede e que está na origem deste problema, para evitar que a situação piore. Já reiterámos o pedido, mas ainda não obtivemos qualquer resposta. Isso deixa-nos bastante preocupados com o que possa acontecer ao telhado e à cobertura do edifício.
Antigamente, acho que faziam a poda das árvores todos os anos, mas agora já é só de dois em dois anos. Por isso, a árvore que está a causar o problema tem ramos que já passaram para cima do telhado. Tem uma dimensão exagerada para o local onde está. Devia ser cortada para o espaço ficar livre e para que isto não se repita. Já enviei vários emails a comunicar o problema, mas ainda não obtive respostas. Seis meses para tomar uma medida é muito tempo. E já passámos aqui o Inverno, que foi bastante chuvoso, com isto por arranjar. E ainda pode ficar pior se continuar a chover.
CL- Quem é o responsável pelo edifício?
ML – Sentimo-nos prejudicados, porque isto não é nosso. De acordo com o Decreto-Lei n.º 215-B/75, de 30 de Abril de 1975, as Casas dos Pescadores foram extintas. O património existente passou para o Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social.

“SOU UMA PESSOA MUITO AGARRADA AO MAR”
CL – Que relação tem com Cascais?
ML – Eu sou uma pessoa muito agarrada ao mar. A minha família veio para Cascais há muitos anos. Somos ancestrais dos meus avós, os meus tios, todos nós. O meu pai foi pescador durante muitos anos. Acabou por morrer ainda jovem, aos 55 anos de idade.
Eu, pessoalmente, não sou pescador, sou maquinista (oficial de máquinas) da Marinha Mercante. Era responsável pela gestão, manutenção e reparação das máquinas existentes dentro de um navio, assegurava que tudo estava a funcionar bem para o navio estar pronto a navegar.
Contudo, pertencia a uma família de pescadores. Estou à-vontade para falar da vida dos pescadores, porque vivi ‘in loco’ as situações concretas. Hoje, eu já tenho 76 anos, sou um velho avançado e luto contra uma doença complicada, maligna, que me tem enfraquecido.
CL- Portanto, sempre acompanhou a vida dos pescadores, aqui em Cascais?
ML – Sim, acompanhei tudo isso, os tempos difíceis das suas vidas, a sua faina no mar cheia de riscos e perigos, por vezes fatais. Cheguei mesmo a escrever um livro, quase com 800 páginas, sobre os ‘Pescadores de Portugal – Património Cultural Imaterial da Humanidade’. Apresentei esse livro ao Dr. António Capucho, antigo presidente da Câmara Municipal de Cascais (2001-2011). Precisava que a obra fosse revista por técnicos, para me ajudarem a preparar a sua publicação por quem tivesse interesse em avançar com esse projecto. Precisava desse apoio técnico. O livro está aí, mas nunca chegou a ser editado. Acabou por ficar em suspenso.
CL – Então, o livro nunca chegou a sair da gaveta?
ML – Não. O livro está guardado na Junta de Freguesia, carece de eventuais correcções, de uma análise dos termos utilizados. Enfim, tenho algumas dificuldades com isso. E podiam até ser inseridos mais temas, enriquecer o conteúdo.
CL – Tem pena que este projecto não tivesse seguido em frente?
ML – Claro. Só quem vive aqui, como nós, que acompanhámos a evolução da vila de Cascais e o percurso dos pescadores locais, é que temos o conhecimento pessoal para poder contar as suas histórias e perpetuar a sua memória e cultura junto das gerações futuras. Eu também fui deputado municipal durante 14 anos, estava na Assembleia de Freguesia, fiz tudo e mais alguma coisa. Agora, deixei isso tudo, sou apenas um cidadão comum. Já não sou militante de nenhum partido nem nada, deixei de ser. Agora voto naquele que melhor me serve.
CL – No passado dia 27 de Abril tiveram eleições na AAPC…
ML – É verdade, tivemos eleições e fiquei eu à mesma como presidente. Já desempenhei este cargo durante vários anos. Dizem que eu sou a pessoa entendida para assumir o lugar e chamar a atenção da comunidade para os pescadores. É pena eu sentir algumas dificuldades para falar. Sofri um AVC há uns anos e fiquei com a fala afectada. Contudo, mesmo quando não falo bem, às vezes por estar mais nervoso, exprimo-me melhor através da escrita.

“NUNCA FALARAM CONNOSCO”
CL – Referiu ter sido maquinista da Marinha Mercante. Desempenhou outro tipo de actividades?
ML – Eu também cheguei a ser dirigente do Sindicato dos Maquinistas da Marinha Mercante. Depois fui para o mar integrado na tripulação de navios da Marinha Mercante, andei nos reboques, corri tudo. Trabalhei ainda em carpintaria, cheguei a fazer móveis para os navios onde trabalhei, tudo sem pregos, apenas com encaixes, os malhetes. Era bom no que fazia. Era procurado por isso, pela perfeição. E trabalhei igualmente num estaleiro naval.
Fora do trabalho, nos momentos de lazer, também criei miniaturas de barcos. Cheguei a vender trabalhos desses feitos por mim. Queriam levar-me para o Museu da Marinha, em Belém, mas eu não quis, tinha de ir todos os dias para Lisboa e era complicado. Na altura, já estava reformado. Todos me pediam para fazer barcos e eu fazia.
CL – Os pescadores estão bem representados no Museu do Mar?
ML – Acho que estão mal representados. O museu deve transmitir a ancestralidade, contar a história de como é que os pescadores viveram, mostrar parte da sua paramenta, parte do material que existe. Um gajo ajuda quem não souber. Nunca falaram connosco!
Os materiais alusivos à vida dos pescadores estão arrecadados. Chegaram a trazer uma espécie de contentor, hermeticamente fechado e com ar-condicionado, para preservar o património rico que lá está, de pescadores e varinas, mas aquilo está fechado, não está exposto ao público.
A minha mãe ofereceu tanta roupa, aventais de varinas, por exemplo. Eles simplesmente arrumaram esses materiais todos, junto com uma bandeira nossa, que foi mandada bordar especialmente para colocar no museu. Tudo isso acabou por ser guardado em contentores junto ao museu. Não está exposto ao público.
Na minha opinião, eles deviam ter mais espaço disponível, deviam ampliar o museu, ter um espaço maior para mostrar tudo. Assim, já não admira que a Juventude vá esquecendo estas coisas.























