Francisca Shearman: “Reciclar é transformar o que aparentemente já não tem utilidade”

Dar nova vida ao que é descartado, criar impacto social e repensar a forma como produzimos e consumimos: é este o mote de um projeto que cruza sustentabilidade, design e consciência ambiental. Através do upcycling e da economia circular, uma pequena equipa transforma desperdício em peças únicas, cheias de significado. Com parcerias nacionais e internacionais, e com um forte compromisso social, a United To Remake mostra que é possível gerar valor — estético, ambiental e humano — a partir do que antes era considerado lixo.

O Correio da Linha esteve à conversa com Francisca Shearman, fundadora da United To Remake, que nos deu a conhecer o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido e os desafios de fazer da sustentabilidade uma missão com impacto real.

O Correio da Linha (CL) – Como surgiu a ideia de criar a United to Remake?

Francisca Shearman (FS) – Trabalhei muitos anos na banca, e nesse ambiente tive contacto com a área da Responsabilidade Social Corporativa e, inerentemente, com a vertente ambiental.

O ponto de viragem deu-se com a pandemia. Como tantos outros, fiquei sem trabalho. Porém, em vez de encarar isso como um fim, vi uma oportunidade de começar algo novo, alinhado com os meus valores e com aquilo que me apaixona. Sempre tive um grande fascínio pela sustentabilidade ambiental, mas foi só quando fui mãe é que me confrontei, de forma mais direta, com o impacto das nossas escolhas diárias. Comecei a reciclar, quase como um gesto simples, e rapidamente percebi o quão desconectados estávamos do que produzimos e desperdiçamos.

Essa tomada de consciência levou-me a querer influenciar outros e a dedicar-me a esta causa de forma mais vincada. A United to Remake nasce assim da vontade de dar nova vida ao que é descartado, de apoiar outras empresas a integrarem a sustentabilidade nos seus processos e, simultaneamente, criar emprego verde. Muitas organizações não têm capacidade instalada para lidar com todos os temas da sustentabilidade, e é aí que entramos. Acreditamos que, trabalhando em parceria com todos os agentes — empresas, designers, consumidores — conseguimos não só reduzir o impacto ambiental, mas também criar peças de upcycling bonitas e com qualidade e propósito.

CL – Em que consiste o upcycling e como é que a United To Remake o aplica?

FS – O upcycling é uma forma criativa de reutilização. É transformar o que aparentemente já não tem utilidade — aquilo a que chamamos de desperdício — em algo novo. Na United To Remake, acreditamos que o upcycling não é apenas uma tendência, mas sim uma resposta necessária aos desafios ambientais que enfrentamos. Acreditamos também que deve ser feito com qualidade, criatividade e com uma forte componente estética. O nosso objetivo não é apenas reaproveitar — é transformar com propósito e com estilo, levando as pessoas a perceberem que lixo pode ser luxo. E é exatamente essa transformação que procuramos: criar peças com design, que sejam bonitas, sofisticadas e capazes de mudar a forma como olhamos para o desperdício. A verdade é que o upcycling não é novo, sempre se fez, basta pensar na costura tradicional, no aproveitamento de tecidos e objetos.

CL – Produzem as vossas próprias peças, mas também trabalham com ONG’s internacionais…

FS – Na United To Remake trabalhamos com uma abordagem de dupla dimensão: por um lado, representamos projetos internacionais de referência no upcycling, e por outro, desenvolvemos as nossas próprias peças a partir de desperdício recolhido em Portugal.

Entre os projetos internacionais, destacamos a colaboração com a Ocean Sole, uma ONG sediada no Quénia que recolhe cerca de 10 mil chinelos por semana das praias e do oceano. Estas peças, que têm uma estética vibrante e um detalhe impressionante, são muito mais do que arte, são símbolo de um problema ambiental grave, mas também de uma solução transformadora. O processo é totalmente artesanal: os chinelos são lavados e escovados manualmente, empilhados, colados em camadas e depois esculpidos à mão com apenas uma faca e um polidor. As peças maiores incorporam estruturas de poliuretano reciclado, forradas com fragmentos de chinelos moldados com precisão. Este projeto não só combate a poluição marinha, como cria emprego digno e capacita comunidades locais. Muitos dos artesãos são antigos trabalhadores da madeira, agora dedicados à escultura destas obras, o que permite também proteger a floresta autóctone. Sentimo-nos verdadeiramente embaixadores deste movimento, e não apenas representantes comerciais.

Ainda a nível internacional, trabalhamos também com uma ONG sediada em Zanzibar que reaproveita vidro recolhido do lixo.

A nível nacional, colaboramos com empresas como a Leroy Merlin, a Decathlon, o Pingo Doce, entre outras. Recolhemos materiais como velas náuticas, fatos de neoprene, fardas, tendas e equipamentos desportivos que estão em fim de vida e, através da criatividade, transformamo-los em novos produtos, muitos dos quais são reintegrados nas cadeias de valor das empresas que nos fornecem o material. É um ciclo que une a inovação com responsabilidade social e ambiental.

Foto: Paulo Rodrigues

ECONOMIA CIRCULAR EM PRÁTICA: PARCERIAS, REAPROVEITAMENTO E REINTEGRAÇÃO

CL – Estão então no centro da denominada economia circular…

FS – Sim, a economia circular é o pilar daquilo que fazemos. É um modelo que procura fechar o ciclo de vida dos produtos, evitando o desperdício e prolongando a utilidade dos materiais. Como referi, colaboramos com diversas empresas que nos fornecem materiais em fim de vida, como lonas publicitárias, telas de estádios de futebol, uniformes corporativos ou outros desperdícios industriais. Estes materiais, que normalmente teriam como destino o aterro, são recolhidos por nós — ou entregues diretamente — e transformados em novas peças. Por exemplo, neste momento estamos a criar peças personalizadas para uma empresa de jardinagem, reutilizando exatamente essas telas. Às vezes fazemos peças únicas, outras vezes integramos fragmentos dos materiais noutras criações.

O que muitas empresas procuram hoje é fechar o ciclo dos seus próprios desperdícios, transformando-os em novos produtos úteis e alinhados com os seus valores de sustentabilidade. Isto responde, por um lado, às crescentes exigências dos consumidores, que querem ver compromisso ambiental real nas marcas que escolhem, e por outro, oferece às empresas a possibilidade de reintegrar esses materiais na sua cadeia de valor. O nosso papel é garantir que essa transformação é feita com qualidade, criatividade e responsabilidade.

CL – Pode dar-nos um exemplo concreto desse reaproveitamento empresarial e de como ele fomenta a economia circular?

FS – A nossa parceria com a Leroy Merlin é um ótimo exemplo disso. Somos responsáveis pela gestão das fardas em fim de vida da empresa, e esse processo é dividido em várias etapas. Em primeiro lugar, avaliamos o estado das peças. Aquelas que estão em boas condições e não têm a marca visível — ou cuja marca é facilmente removível — são doadas a organizações sociais, nomeadamente a Crescer, uma ONG que admiramos muito pelo trabalho de reintegração social que desenvolve com populações vulneráveis, que depois distribuiu por quem precisa.

As peças que estão em pior estado são cuidadosamente desmanchadas: retiramos botões, fechos, etiquetas, etc. para servirem de enchimento têxtil. Em certos casos, os fechos ou componentes de peças mais degradadas são reaproveitados em artigos feitos para outras marcas.

Por fim, o que pode ser reaproveitado é usado para criar novos produtos, muitos deles para a própria Leroy Merlin: fitas de identificação para colaboradores, material para eventos, coleções cápsula como a coleção PET, entre outros.

CL – Que critérios utilizam na seleção dos materiais e que desafios enfrentam no processo de reaproveitamento?

FS – O nosso objetivo é sempre reaproveitar o máximo possível, mas nem todos os materiais têm qualidade ou características que permitam esse reaproveitamento direto. Há materiais que, por mais que queiramos, não são moldáveis, não são seguros ou não têm o acabamento necessário para podermos transformá-los em peças vendáveis. Por exemplo, as lonas publicitárias são um grande desafio: por vezes quebram, desgastam-se rapidamente ou não têm o apelo visual necessário. Tentámos fazer sacos com lonas e cintos de segurança, mas percebemos que o material não resultava como esperávamos. A solução foi integrá-las de outra forma: como forros ou componentes interiores, protegidos por tecido.

Além disso, fazemos um trabalho de curadoria criativa de materiais. Quando recebemos algo com pouca aplicabilidade prática — como capacetes, componentes metálicos pesados ou plásticos específicos — procuramos outros parceiros. Por exemplo, não temos maquinaria para trabalhar plástico, mas temos um parceiro que tem. Entregamos-lhe o material, ele transforma-o e devolve-nos algo pronto a integrar numa peça. Este espírito de colaboração permite-nos dar resposta à necessidade ambiental sem desperdiçar oportunidades. Acreditamos que a solução está no trabalho em equipa e na entreajuda dentro do ecossistema da sustentabilidade.

CL – No processo de transformação dos desperdícios têxteis que preocupações têm com o consumo de recursos, como a água?

FS – O processo de transformação dos desperdícios têxteis é muito manual, detalhado e consciente. Um dos aspetos mais importantes que consideramos desde o início é o impacto ambiental do próprio processo de reaproveitamento, nomeadamente no que toca ao uso de água.

Temos, por exemplo, toneladas de têxtil acumulado — só de uma empresa, temos cerca de 20 toneladas — o que demonstra bem a escala do problema. Por isso, temos uma política muito clara: não lavamos tudo. Só a peça final, já transformada, é que é lavada. Todo o processo anterior, desde a triagem, desmontagem, corte e costura, é feito a seco.

Se estivermos a trabalhar, por exemplo, com camisas antigas para produzir fitas de identificação, começamos por separar as peças em bom estado. Depois retiramos as golas, as mangas, abrimos o tecido, cortamos em tiras, costuramos, e só então, na fase final, é que lavamos o produto pronto. O excedente de corte, não é lavado, pois será usado como enchimento e não justifica o uso de água.

CL – Quanto tempo demora, em média, a produção de uma peça?

FS – Depende, mas posso dar um exemplo concreto. Uma fitinha de identificação, como as que fazemos para a Leroy Merlin, pode demorar cerca de meia hora a ser feita.

O verdadeiro desafio está no desmanche da peça original. Uma camisa, por exemplo, tem de ser aberta, as mangas retiradas, a gola separada… E cada peça tem particularidades. É esse processo moroso e manual que nos toma mais tempo e que gostaríamos de automatizar no futuro. Com efeito, o nosso grande objetivo passa por adquirir maquinaria de destroçamento de têxtil, o que nos permitiria processar mais rapidamente muitos dos materiais que agora temos de tratar manualmente. No entanto, essas máquinas são de grandes dimensões, pelo que exigem mais espaço e investimento. A verdade é que embora ainda consigamos trabalhar no espaço que temos, já não temos capacidade para o volume de desperdício que recebemos. Só em têxtil, temos toneladas acumuladas à espera de transformação. Infelizmente, faltam-nos apoios neste sentido o que nos obriga a crescer com os nossos próprios recursos.

Foto: Paulo Rodrigues

ENTRE DESAFIOS E PROPÓSITOS: COMO SE CONSTRÓI UMA MARCA COM IMPACTO

CL – Por quantas pessoas é composta a vossa equipa?

FS – Neste momento, somos uma equipa de apenas três pessoas. Somos nós que fazemos as peças, desde a conceção ao acabamento. No entanto, quando temos encomendas de maior dimensão, recorremos à parceria com a Crescer que nos fornece mão-de-obra. Formamos uma equipa à qual damos formação especifica e garantimos que o trabalho tem valor para todos: para nós, que conseguimos dar resposta ao solicitado pelo cliente, e para quem colabora, que ganha competências e integração.

Mais do que um parceiro operacional, a Crescer é também o nosso suporte e conselheiro na área da responsabilidade social. São eles que nos orientam sobre como podemos ter impacto de forma responsável: quem devemos apoiar, em que formato, e com que abordagem.

CL – Como asseguram a qualidade dos produtos feitos com materiais reutilizados?

FS – A qualidade é uma das nossas grandes prioridades. Quem conhece ou já adquiriu uma peça da United To Remake reconhece imediatamente o cuidado com os acabamentos, a estética e a durabilidade. Temos um compromisso claro com os nossos clientes: qualquer peça que apresente defeito pode e deve ser devolvida. Valorizamos imenso esse feedback e integramos essas devoluções no nosso próprio processo de reaproveitamento, para que o ciclo continue. Além disso, estamos muito empenhados em evoluir com as ferramentas tecnológicas. Um dos nossos objetivos para o futuro é criar um passaporte digital para cada peça, isto porque elas são feitas de múltiplos materiais e têm diferentes origens. O passaporte digital permitiria que através da leitura de um QR code o cliente tivesse acesso a toda informação sobre o produto: de onde vêm os materiais, quanto impacto foi evitado, quanta água foi poupada, onde foi feito e por quem. Este tipo de transparência é essencial para que o consumidor confie e compreenda o verdadeiro valor do que está a comprar, reforçando o impacto positivo da sua escolha e reforçando a rastreabilidade e a confiança no que fazemos.

CL – Qual tem sido o feedback das empresas e do público desde que fundou a United To Remake, em 2021?

FS – Tem sido muito positivo e motivador. No início foi difícil…apesar de todas as empresas falarem em sustentabilidade, poucas tinham orçamento, tempo ou capacidade para investir em projetos como o nosso. Mas com o tempo, fomos crescendo, ganhámos a confiança de grandes marcas e o reconhecimento da qualidade do nosso trabalho.

Hoje, as pessoas ficam fascinadas com o que fazemos, não só pela estética das peças, mas também pela história e pelo propósito que carregam. E isso é o mais gratificante.

CL – Qual é a gama de preços das vossas peças e como lidam com a perceção de valor do público?

FS – Temos peças a partir dos 3 euros, como lenços para animais, até peças que podem ultrapassar os 1000 euros, no caso das esculturas artesanais vindas do Quénia. O grande desafio está efetivamente, na perceção do valor. Não nos podemos esquecer que por trás das peças da Ocean Sole está um trabalho incrível, feito inteiramente à mão. Ainda assim, mesmo nesta gama de produtos os valores começam nos 23€.

É também importante mencionar que os custos de transporte têm disparado, devido aos conflitos internacionais, o que dificulta ainda mais a gestão dos preços. Mas continuamos fiéis ao nosso compromisso de valorizar o trabalho manual e o impacto social por trás de cada peça.

Foto: Paulo Rodrigues

CL – Costumam participar em feiras ou eventos para dar a conhecer o vosso trabalho?

FS – Durante algum tempo participámos em feiras, mas deixámos de o fazer. A verdade é que as feiras são caras, exigem um esforço logístico enorme — especialmente para uma equipa de apenas três pessoas — e muitas vezes não compensam em termos de retorno.

Atualmente, optamos por marcar presença apenas em eventos institucionais ou de sustentabilidade, onde o nosso trabalho é valorizado e onde conseguimos estabelecer parcerias e sinergias com outras organizações e empresas.

Quem quiser conhecer o nosso trabalho e adquirir as nossas peças pode fazê-lo através do nosso site ou dirigindo-se à nossa loja/oficina.

CL – Há alguma peça ou projeto que tenha uma história particularmente especial?

FS – Todos os nossos projetos têm uma história especial, pelo que prefiro destacar o mais recente: a coleção feita com as velas do navio Santa Maria Manuela. Este navio é, ele próprio, um exemplo de upcycling — um antigo bacalhoeiro que agora serve como navio de passeio e investigação científica. As nossas peças foram feitas com as velas em fim de vida do navio, combinadas com neoprene e tecido feito com plástico retirado dos oceanos. É um projeto lindíssimo, com muito simbolismo, e as peças já estão à venda a bordo. Em breve, estarão também disponíveis ao público em geral.

CL – Têm uma ligação muito visível ao universo dos animais…

FS – Essa ligação nasceu de forma muito orgânica, a partir da nossa colaboração com a Leroy Merlin. Criámos juntos uma coleção cápsula PET e foi nesse contexto que conhecemos o trabalho extraordinário da Ânimas — uma associação dedicada aos cães de assistência, que presta um apoio inestimável em hospitais, lares e outras instituições.

O que mais nos tocou foi o facto de grande parte dos cães serem resgatados de associações, e o projeto ter não só um impacto animal, mas também um enorme impacto social. Por isso, decidimos doar uma parte das vendas da coleção PET à Ânimas, e recentemente produzimos os fardamentos para todos os cães da associação — cerca de 80 — que agora andam orgulhosamente vestidos de verde. É uma parceria que nos enche o coração.

CL – Quais são os planos da United To Remake para o futuro?

FS – Temos dois grandes objetivos: escalar e digitalizar. Por um lado, queremos escalar o que fazemos — hoje, cada peça é feita de forma muito manual, com um cuidado extremo, mas isso limita a nossa capacidade de produção. Gostaríamos de industrializar parte do processo, mantendo sempre a essência artesanal e sustentável.

Por outro lado, queremos informatizar e digitalizar a rastreabilidade de todos os nossos produtos, através do mencionado passaporte digital. Isso permitiria mostrar, com total transparência, de onde vem cada componente, o impacto ambiental evitado e a história da peça.

CL – Enquanto fundadora de uma startup de impacto, que conselhos daria a quem quer começar na área do upcycling e da sustentabilidade?

FS – Acima de tudo, perseverança. Este caminho é desafiante, e muitas vezes sentimo-nos sozinhos. Por isso, não trabalhar isolado é essencial. Há muita gente já a fazer coisas nesta área — o segredo está em criar parcerias, aprender com os outros, partilhar recursos e conhecimento. No caso específico do upcycling têxtil, ainda estamos todos a aprender — nós, os parceiros, o mercado e até os próprios consumidores. Não há um manual. E depois, manter a motivação viva. Haverá dificuldades — falta de apoios, falta de tempo, falta de espaço — mas o impacto que conseguimos gerar faz tudo valer a pena.

NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Foto: Paulo Rodrigues

Autor: Raquel Luís

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