Duarte Sabido: “É difícil arranjar malta nova para trabalhar em prol da colectividade”

O Grupo Recreativo e Dramático (GRD) 1.º Maio é uma instituição centenária que faz parte da história da vila de Tires, localidade integrada no território da freguesia de São Domingos de Rana, no concelho de Cascais. Com 105 anos de existência, esta associação sem fins lucrativos, que mantém bem vivo o propósito de promover o cultivo da Música e do Teatro, foi fundada em 1 de Maio de 1919.

No acto da sua fundação, a colectividade tirense foi inscrita como Grupo Recreativo de Bandolinistas 1.º Maio da Solidariedade da Construção Civil de Tires e instalada num velho barracão, que funcionou como a sua primeira sede. Poucos anos depois, passou a chamar-se Grupo Musical e Dramático 1.º Maio da Solidariedade Operária de Tires, até chegar à denominação actual, em 1964.

Mais de 100 anos depois da sua fundação, o GRD 1.º Maio continua apostado em atingir os objectivos para que foi criado. E tem somado também, ao longo do tempo, novas propostas à sua lista de actividades culturais, desportivas e recreativas disponibilizadas à comunidade, sendo ainda responsável pela organização de uma das festas mais populares de toda a região cascalense e não só.

As Festas de Santo António, realizadas em Junho, atraem dezenas de milhares de pessoas, que durante um período de 10 dias contam com um vasto programa de entretenimento nas ruas do centro de Tires, com espectáculos musicais, ranchos folclóricos e marchas populares, além de uma vasta oferta gastronómica, tendas de comes e bebes, carrocéis, carrinhos de choque, espaços de venda de artesanato e muito mais.

No leque de actividades disponibilizadas aos sócios do GRD 1.º Maio e à comunidade tirense em geral, contam-se: aulas de Música, Ginástica, Dança, Karaté, Trampolins, Ninjutsu, Boxe, Escola de Música, Coro (Grupo Vocal Discantus), Teatro, Yoga, Rancho Folclórico (Os Canteiros de Tires), Marchas Populares, Subbuteo, Banda Filarmónica e as já citadas Festas de Santo António (em torno do feriado 13 de Junho).

Para ficar a conhecer melhor esta colectividade nascida numa terra conhecida por ter uma forte tradição em torno do ofício de canteiro, o jornal ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa com o presidente da direcção Duarte Sabido, que assumiu o cargo no início de 2024, cumprindo actualmente o seu segundo mandato à frente de uma instituição que conta com cerca de 1.800 associados.

Foto: Paulo Rodrigues

“UMA GRANDE SURPRESA”

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – Como é que tem sido liderar uma instituição centenária?

Duarte Sabido (DS) – Tem sido uma grande surpresa para mim. Actualmente, estou a cumprir o meu segundo mandato.

CL – Quando é que iniciou o primeiro mandato na presidência do GRD 1.º Maio?

DS – Começou em Janeiro de 2024 e acabou no final do ano. Os mandatos aqui são anuais. Em Janeiro deste ano, iniciei o meu segundo ano na presidência. Como não apareceu outra lista, continuámos nós. É um bocadinho o hábito, aqui no GRD. Tenho pessoas na direcção já com quase 30 anos de casa.

CL – Essa veterania tem sido importante para a instituição?

DS – Sim, muito. É, por exemplo, o caso de Francisco Gingado. É uma pessoa superimportante, simples, de trabalho, responsável por muito do que se passa aqui dentro. É ele que resolve muitos problemas à colectividade, de todo o tipo. Também já foi presidente da Associação. Actualmente, tem o cargo de vice-presidente. Ele gosta de ficar na sombra, mas merece ser elogiado.

CL – No seu caso, há quantos anos entrou para o Grupo

DS – Eu estou no Grupo desde muito novo, desde a minha juventude.

CL – Recorda-se do primeiro contacto que teve com o GRD 1.º Maio?

DS – O meu pai escrevia peças de Teatro. Entrei para o Grupo quando começaram a aparecer aqui as Marchas dos Santos Populares. A partir daí, agarrou-se-me aos pés. Mas antes disso, já vinha aqui aos bailaricos. Cheguei a ser vocalista de um grupo que aqui havia, malta da antiga.

CL – Qual é a primeira memória que tem da Associação?

DS – É essa, na altura tinha 16 ou 17 anos. Ouviram-me cantar na marcha e perguntaram-me se queria experimentar. Gostei e depois agarrei-me. Gosto disto. Eu sou mesmo tirense. Nasci aqui na terra. Eu, o meu irmão e a minha irmã nascemos todos aqui.

CL – Tem familiares que estejam e/ou estiveram ligados à história da colectividade?

DS – Sim, passaram por aqui muitos Sabidos. E continuam a passar. O meu pai e o meu avô paterno fizeram parte da Associação. Tal como elementos de outras famílias que vivem em Matos Cheirinhos, também Sabidos, que são meus primos. Quando começaram aqui as Marchas dos Santos Populares, só da minha família éramos uns sete, entre irmãos, sobrinhos, netos e primos.

CL – Quem foi o primeiro Sabido a entrar para a Associação?

DS – O primeiro Sabido era de Matos Cheirinhos, chamava-se Raul Moreira Sabido e foi um dos fundadores da colectividade, chegou mesmo a fazer a planta da nossa primeira sede. Era primo direito do meu avô paterno. Esta presença na Associação já é uma tradição familiar.

CL – As próximas eleições serão no início de 2026…

DS – As eleições são sempre em Janeiro, todos os anos.

CL – Ter mandatos de apenas um ano não é pouco tempo?

DS – Já falámos nisso. Vai ser alterado nos estatutos, para passar a ser de dois em dois anos, ou de três em três. Três anos acho que já é suficiente, já permite às pessoas inteirarem-se do ritmo de trabalho a desenvolver dentro da Associação. Custa muito menos. Apesar de tudo, até agora não tem havido problemas.

CL – Como é que está a viver este seu segundo mandato?

DS – Este segundo ano está a custar menos. Não há dúvida que isto tira-nos um bocado à nossa vida caseira. No que me diz respeito, tenho sorte da minha mulher adorar as colectividades. Ela é de Manique de Baixo. Adora a colectividade da terra dela. Também participa aqui nas Marchas dos Santos Populares e nas Festas de Santo António. E entrou igualmente na Marcha de Manique. Eu próprio também já cheguei a ser presidente do Grupo Musical e Desportivo 31 de Janeiro, de Manique de Baixo, nos anos 1980.

CL – Quantos sócios tem o GRD 1.º Maio?

DS – Temos à volta de 1.800 associados.

CL – Todos com as quotas em dia?

DS – Há quem esteja atrasado com o pagamento, sim. Para aí uns 600 sócios têm quotas em atraso. Temos como associados muitos pais que têm aqui os filhos envolvidos em várias actividades. Os alunos que aqui entram têm de fazer-se sócios. Eles ou os pais. Esses é que são os pagantes. E também os sócios mais antigos, que costumam frequentar as nossas instalações.

Foto: Paulo Rodrigues

“JÁ NÃO HÁ AQUELE BAIRRISMO DE ANTIGAMENTE”

CL – Os jovens costumam colaborar nas actividades promovidas pela colectividade?

DS – A juventude aqui da terra desviou-se um bocado. Já não há aquele bairrismo que havia antigamente. É difícil arranjar malta nova para trabalhar em prol da colectividade. Temos de ser nós, os mais velhos, a puxar para a frente. Temos poucas ajudas, mesmo entre os sócios. Tem-se perdido um bocado a tradição do Associativismo.

CL – Que idade tem o sócio mais velho?

DS – Tem 97 anos.

CL – E o mais novo?

DS – O mais novo tem apenas três meses.

CL – Em 2024, inauguraram a Casa das Artes Carlos Martinho da Silva, o terceiro e mais recente edifício do GRD 1.º Maio a entrar em funcionamento.

DS – Foi inaugurado em Junho. É muito importante para a nossa Escola de Música. Antes de termos este edifício, os ensaios e a escola dispunham apenas de dois pequenos gabinetes com poucas condições para o que precisavam. Hoje, felizmente, já existem essas condições, já têm tudo. Estamos a receber constantemente novos alunos e temos também um grupo de Teatro que realiza aqui os seus ensaios.

CL – Organizaram recentemente um torneio internacional de Subbuteo, também conhecido como Futebol de Mesa.

DS – Sim, temos um grupo com jogadores federados. Participaram no torneio jogadores provenientes de seis países, entre os quais França e Bélgica.

CL – No domínio dos eventos culturais, o que está previsto até ao final do ano?

DS – O principal evento organizado pela colectividade é realizado em Junho: as Festas do Santo António de Tires.

CL – Já têm programa artístico para este ano?

DS – A Comissão de Festas já está a tratar disso, mas há sempre um artista fixo, que fica de ano para ano, que é o Quim Barreiros. Ainda estamos a decidir quais são os outros artistas que vamos convidar, sendo que os Santos Populares é o nosso pimba, a nossa tradição é essa. Goste-se ou não, é o que dá alegria, é o que põe a malta a mexer o pé e a cantar. Já aqui esteve, também, a Rosinha e a malta adorou.

CL – Quantos dias duram as Festas de Santo António?

DS – Duram dez dias e acabam com o desfile das Marchas Populares.

CL – Qual a importância destas festas para o GRD 1.º Maio?

DS – São a nossa principal fonte de receita para poder desenvolver as várias actividades que temos disponíveis. Para as realizar, contamos também com o apoio da Câmara Municipal de Cascais (CMC) e da Junta de Freguesia de São Domingos de Rana (JFSDR).

CL – Mais eventos culturais na agenda?

DS – Vamos ter um Concerto de Primavera, em Abril, com actuações da banda e do coro. Vamos participar no Encontro de Bandas Filarmónicas do 25 de Abril, em Cascais. Temos agendados Saraus de Ballet e Festas de Natal e de Final de Ano, com a participação das turmas de dança e da ginástica e, também, do grupo de Teatro. Vamos realizar ainda uma Festa dos Anos 80 com um DJ e espectáculos de Fado.

“OS SENIORES ADORAM OS NOSSOS BAILARICOS”

CL – Com que infraestruras contam para desenvolver as várias actividades?

DS – Contamos com três edifícios: a nossa sede, a casa mãe; o Pavilhão Serafim Tomé dos Santos, onde desenvolvemos as actividades desportivas, bem como a ginástica e o karaté (os ‘Reguilas de Tires’ treinam aqui o Futsal); e a Casa das Artes Carlos Martinho da Silva, inaugurada em Junho do ano passado. 

CL – Estão previstas obras nas infraestruturas do Grupo?

DS – Temos previstas obras no edifício principal, na nossa sede. Em breve, vamos fechar o Salão de Festas, para podermos substituir o piso, que já tem quase 50 anos e está a precisar de ser renovado. E vamos remodelar o gabinete da direcção. Estas obras vão ser realizadas com o apoio da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia.

CL – Os bailaricos realizados pelo GRD 1.º Maio têm dado que falar…

DS – Temos aqui bailaricos de 15 em 15 dias, sábado sim sábado não, para as pessoas de mais idade e, também, para os mais novos que queiram vir, entre as 13h00 e as 19h00. Têm um sucesso enorme. Estamos sempre com a sala completamente cheia. Chegamos a ter aqui umas 200 pessoas. Há quem peça já para fazermos os bailaricos todos os sábados. Os sócios mais velhos dispõem também de uma sala na Casa das Artes para poderem jogar às cartas e conviverem uns com os outros.

CL – Quais foram as principais conquistas alcançadas pelos atletas do GRD 1.º Maio?

DS – Temos um atleta, o Miguel Caetano, que esteve recentemente no Dubai a disputar um torneio de Karaté, em representação do nosso País. Nesta disciplina, em que já conquistámos medalhas de ouro, prata e bronze, contamos com a colaboração de um professor que é seleccionador nacional, o mestre Vítor Barreto.

CL – As inscrições para as Marchas Populares 2025 estão quase fechadas. Quantos grupos estão já confirmados?

DS – Temos 21 grupos confirmados, a contar com quatro Marchas Infantis.

CL – Quantos elementos tem a vossa Marcha?

DS – Temos 24 pares na marcha, mas enfrentamos um problema com os homens. Não há. Têm vergonha de participar. Este ano, devemos ter só três ou quatro homens. São sempre os mesmos. Eu também já lá estive. Chegámos a ser onze, mas agora está mais complicado.

CL – Qual é o tema deste ano da Marcha da Associação?

DS – Está relacionado com as Tradições.

CL – A letra de uma marcha apresentada nos últimos anos foi assinada por Duarte Carlos Moreira Sabido…

DS – Trata-se do meu pai, entretanto falecido, escrevia letras para as Marchas. Foi ele que assinou a letra do tema da Marcha de 2023: ‘Tires, Terras de Canteiros’. Ele adorava a colectividade.

“HÁ FALTA DE HOMENS”

CL – Quantos elementos tem o vosso Rancho Folclórico ‘Os Canteiros de Tires’?

DS – O Rancho Folclórico conta com cerca de 20 elementos e é um embaixador da nossa terra, pois mantém vivas as tradições. Tem recebido convites para actuar em vários locais, nomeadamente em centros comerciais. Ocorre aqui o mesmo problema registado nas Marchas, ou seja, a falta de homens. Só podemos contar com seis pares homem/mulher.

CL – Em relação à vossa Banda Filarmónica, quantos músicos tem?

DS – A nossa Banda Filarmónica tem 28 músicos e conta com mais de uma dúzia de alunos.

CL – Quantas pessoas integram o vosso grupo de Teatro?

DS – O Teatro sofre do mesmo problema da falta de homens. Ao todo, o grupo ‘Em Cena’ é composto por oito pessoas, quase todas mulheres na casa dos 20 anos, não são profissionais, mas trabalham muito bem, são espectaculares. Os elementos do grupo são todos amadores. Ensaiam à noite, quando saem dos empregos ou das escolas, e estão aqui até às 23h30/24h00. É preciso gostar muito disto.

Pessoalmente, confesso que não apreciava muito o Teatro. Um dia, já com 76 anos, decidi assistir a uma peça aqui apresentada e fiquei apaixonado. Fiquei mesmo apaixonado. Há um rapaz que também costuma entrar, que dizem que é muito bom. Mas, lá está, é só um homem, não há mais.

CL- Quais são os espectáculos teatrais que têm em cena este ano?

DS – Estamos a apresentar ‘A Casa de Bernarda Alba’, de Federico Garcia Lorca, mas já temos outra peça em fase de ensaios. Em princípio, para levar à cena ainda este ano. Em média, apresentamos duas peças por ano, com entradas gratuitas.

CL – Realizaram, este ano, pela primeira vez, um Workshop de Encenação. Qual a razão deste projecto?

DS – Foi um projecto solicitado pela Câmara, que apoiámos imediatamente. Contou com a participação do actor e encenador Hélder Gamboa e teve o objectivo de preparar/formar pessoas para encenar peças de Teatro nos grupos existentes na região.  

CL – O GRD 1.º Maio tem parcerias com outras instituições?

DS – Temos parcerias com escolas, na parte do ginásio, para a Ginástica. São aqui dadas aulas às crianças da escola pública. E temos parcerias, também, com escolas privadas, com a cedência das nossas instalações.

Durante as Festas de Santo António contamos com colaborações de algumas empresas. E durante todo o ano, registamos ainda o apoio de uma firma que tem cartazes instalados na parede do edifício-sede da Associação. 

CL – Quantas pessoas participam diariamente nas actividades que disponibilizam?

DS – Umas 500 pessoas.

CL – Como é que vê o futuro da Associação?

DS – Há dificuldade em atrair os jovens para a Associação. Das pessoas que estão a trabalhar comigo na direcção, eu sou o mais velho. Tenho 76 anos. Os outros são todos mais novos. Por isso, penso que o futuro está garantido durante os próximos anos, mas não é fácil. É com tristeza que vejo que não aparece mais gente nova, com as condições que temos, que são muito boas. Na altura das Festas, aparece toda a gente, mas não é para trabalhar. Quer queiram quer não, já temos de começar a pagar qualquer coisa a pessoas para virem trabalhar connosco.

CL – Vê com preocupação esta dificuldade que refere…

DS – Vejo, sim. E acho que os meus colegas na direcção também vêem.

CL – Projectos futuros?

DS – O principal projecto, que passa diariamente pelas nossas cabeças, é continuarmos a amar esta casa e a manter a porta aberta para os sócios. Eu estou aqui diariamente, há dias em que venho cá duas ou três vezes. Estamos aqui porque gostamos do que fazemos e por amarmos esta casa.

Foto: Paulo Rodrigues

Autor: Luís Curado

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