No panorama educativo atual, a aprendizagem prática e experimental desempenha um papel crucial na formação dos alunos. O Clube de Ciências da Escola Secundária Sebastião e Silva (ESSS) em Oeiras, é um exemplo dessa abordagem, proporcionando aos estudantes a oportunidade de explorar a ciência e a tecnologia de forma envolvente e inovadora. Sob a coordenação dos próprios alunos, este clube tem-se destacado em competições de grande prestígio, como o CanSat Portugal e o VS Solar Challenge.
Para compreender melhor o impacto deste projeto e os desafios que enfrenta, o Correio da Linha falou com José Martins, coordenador de Comunicação e Projetos do clube e coordenador dos projetos Greenpower e VSolar Challenge. Nesta entrevista, o aluno partilha a trajetória do clube, os projetos em curso e as ambições para o futuro, evidenciando como a iniciativa tem inspirado jovens a aprofundar os seus conhecimentos em ciência, engenharia e tecnologia.
O Correio da Linha (CL) – Como surgiu o Clube de Ciências da ESSS e quantos alunos o integram?
José Martins (JM) – O Clube de Ciências da ESSS tem passado por várias transformações ao longo do tempo. Na sua configuração atual, foi estabelecido há dois anos, no ano letivo 2022-23. No entanto, foi no ano letivo 2023-24 que adquiriu uma abordagem mais séria, marcando presença, pela primeira vez, em competições de prestígio como o CanSat Portugal e o VS Solar Challenge. Este ano, o nosso objetivo não é apenas dar continuidade a esse legado, mas também ir além, traçando metas ainda mais ambiciosas.
Desde a sua criação, o clube adotou um modelo de funcionamento singular, que o diferencia de outros clubes de ciências: é gerido exclusivamente por alunos. Contamos com o apoio inestimável da direção da escola e de professoras excecionais, mas a organização, a tomada de decisões e todas as responsabilidades administrativas estão inteiramente nas mãos dos alunos. Acreditamos que esta filosofia, embora pouco convencional, é um grande trunfo, pois permite que o clube seja verdadeiramente “de alunos para alunos”. Atualmente, o clube integra cerca de vinte estudantes de diferentes níveis de ensino, unidos pela paixão pela ciência e inovação.
CL – Qual é a missão e os principais objetivos do clube?
JM – O clube tem como principal missão estimular nos seus alunos o interesse por áreas das ciências e engenharias. Ao proporcionar-lhes a oportunidade de participar em projetos únicos e estimulantes, o clube visa complementar a formação dos seus alunos, permitindo-lhes desenvolver conhecimentos nas suas áreas de interesses e adquirir competências técnicas e práticas, tudo isto enquanto se divertem e descobrem novas formas de aprender. A metodologia de aprendizagem por projeto é um pilar da abordagem do clube, colocando uma grande ênfase no desenvolvimento da capacidade de resolução de problemas e no trabalho em equipa.
CL – Quais atividades e projetos o clube tem desenvolvido?
JM – A principal atividade do clube centra-se no desenvolvimento de projetos, com destaque para o CanSat e para a construção de veículos destinados às competições VS Solar Challenge e Greenpower. Além disso, somos participantes assíduos na Portugal Space Design Competition (PTSDC), uma experiência enriquecedora que, há dois anos, levou as alunas e ex-coordenadoras do Clube, Maria João Lopes e Rita Fernandes, até às instalações da NASA, numa vivência que descrevem como verdadeiramente inesquecível.
Para além dos projetos competitivos, o clube dedica-se também à promoção da ciência através da realização de workshops, palestras e da participação ativa em feiras e mostras científicas, onde divulgamos e partilhamos o trabalho desenvolvido. Como culminar do nosso ano letivo, organizamos na ESSS a nossa Feira da Ciência, um evento que reúne e celebra todos os projetos concretizados ao longo do ano.

COMPETIÇÃO E INOVAÇÃO: O CLUBE EM AÇÃO
CL – Pode destacar algum projeto de maior impacto?
JM – Entre todas as atividades promovidas pelo clube, os projetos CanSat, VS Solar Challenge e Greenpower destacam-se como os mais relevantes.
O CanSat Portugal é uma competição nacional que desafia alunos do ensino secundário a conceberem e construírem um micro-satélite com as dimensões de uma lata de refrigerante – o CanSat. Cada equipa deve desenvolver uma missão primária, que consiste na medição da temperatura do ar e da pressão atmosférica, e uma missão secundária, definida de acordo com os seus próprios objetivos. Este ano, escolhemos medir a velocidade do som, permitindo-nos analisar as suas variações ao longo da atmosfera.
O VS Solar Challenge é uma competição nacional que coloca à prova carros movidos a energia solar. Para este desafio, cabe-nos desenvolver um veículo equipado com um sistema de painéis solares, otimizando-o para obter o melhor desempenho na corrida.
Por sua vez, o Greenpower é uma competição internacional destinada a estudantes de várias idades, baseada num circuito de corridas de carros elétricos, inspirado na Fórmula E. À semelhança do VS Solar Challenge, somos responsáveis pelo design e construção do nosso próprio carro, embora com características muito distintas.
Todos estes projetos têm um impacto significativo, sobretudo na experiência dos alunos que neles participam. São desafios únicos e incomparáveis que nos permitem expandir conhecimentos, desenvolver competências técnicas e, acima de tudo, viver experiências memoráveis.
CL – Como é que o clube tem trabalhado no desenvolvimento do carro solar para o VS Solar Challenge e para o Greenpower? Que aprendizagens retiraram da participação no ano passado?
JM – Temos dedicado um esforço significativo ao desenvolvimento tanto do carro solar para o VS Solar Challenge como do carro elétrico para a Greenpower. Estes projetos exigem um extenso trabalho teórico, a exploração de diferentes designs e a construção de protótipos, tornando estas atividades parte essencial de todas as reuniões do clube.
A nossa participação no VS Solar Challenge revelou diversas limitações no nosso modelo anterior, permitindo-nos identificar áreas a melhorar. Com esse conhecimento, este ano ambicionamos criar veículos altamente competitivos, mais compactos, leves e aerodinâmicos, maximizando assim a sua eficiência e desempenho em prova.
CL – Que impacto teve a conquista da 7ª posição no VS Solas Challenge na motivação dos alunos e no reconhecimento do Clube de Ciências dentro e fora da escola?

JM – A conquista do 7º lugar na nossa estreia no VS Solar Challenge foi um momento de imenso orgulho para o clube. Este feito representou um marco significativo, consolidando a nossa presença na comunidade escolar e reforçando o impacto do nosso trabalho.
Vale ainda destacar que fomos a equipa melhor classificada de Oeiras, um feito que tornou este resultado ainda mais especial. Esta conquista serve como uma grande fonte de inspiração e motivação para os nossos alunos, que ambicionam não só superar os resultados do ano passado, mas também alcançar novos patamares de excelência.
CL – Quais são as expectativas da equipa para a próxima edição da Competição CanSat Portugal e como estão a preparar-se para alcançar os objetivos definidos?
JM – Recentemente recebemos a notícia de que a nossa equipa, OrbiSat Oeiras, foi selecionada para a fase final da competição. Com as lições que aprendemos enquanto finalistas da edição anterior, procuramos dar o nosso melhor e apresentar um projeto do qual nos orgulhemos. As preparações são simples: temos de trabalhar no projeto com um empenho inabalável.
CL – De que forma é que o clube integra a filosofia educacional STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) nas suas atividades?
JM – Os projetos que o clube desenvolve, por natureza, integram-se na filosofia STEM. Transversalmente, as áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática surgem de forma orgânica nas atividades, sendo introduzidas pela necessidade de recorrer a conhecimentos diversos e frequentemente interdisciplinares para concretizar os projetos a que nos propomos. Deste modo, os alunos acabam por adquirir conhecimentos de uma forma muito prática e autónoma ao participarem em projetos como o CanSat, o VS Solar Challenge ou o Greenpower.
CL – Como é que os alunos podem inscrever-se e participar nas atividades do clube?
JM – O Clube de Ciências está aberto a todos os alunos da Escola Secundária Sebastião e Silva. Como reunimos todas as sextas-feiras, depois das aulas, qualquer aluno que esteja interessado em inscrever-se pode encontrar-nos facilmente e experimentar as nossas atividades.

DESAFIOS E FUTURO: O CAMINHO A SEGUIR
CL – Quais são os principais desafios que o clube enfrenta na promoção da Ciência entre os estudantes?
JM – O principal desafio reside no tempo disponível dos alunos, uma vez que os seus horários já são bastante preenchidos. Muitos hesitam em abdicar de uma tarde livre para permanecer na escola, o que pode dificultar a adesão ao clube. No entanto, aqueles que escolhem dar-nos uma oportunidade rapidamente percebem o valor da experiência e raramente se arrependem da decisão.
CL – Contam com o apoio de alguma entidade para desenvolverem as vossas iniciativas?
JM – Desde o ano passado, o clube tem tido o privilégio de colaborar com a InovLabs, uma parceria que se revelou essencial para o nosso crescimento e sucesso. Graças ao seu vasto conhecimento técnico e à sua experiência consolidada no apoio a clubes de ciências, a InovLabs tornou-se um pilar fundamental na concretização dos nossos projetos. O seu contributo tem não só impulsionado a nossa evolução, como também ampliado as nossas ambições, permitindo-nos atingir metas que, de outra forma, seriam significativamente mais desafiantes.
CL – Quais são os planos para o futuro do clube?
JM – Atualmente, o nosso foco é a conclusão dos projetos que iniciámos, garantindo que cada um deles atinge o seu pleno potencial. No início de cada ano letivo, definimos um conjunto de desafios que ocupam grande parte do nosso tempo e dedicação.
Para o próximo ano, pretendemos dar continuidade às nossas participações no CanSat, no VS Solar Challenge e no Greenpower, competições que têm sido pilares do nosso percurso. Embora o orçamento e o tempo disponível sejam fatores limitadores para a expansão de novas iniciativas, mantemo-nos abertos a novas oportunidades e desafios que possam engrandecer ainda mais a nossa experiência.
CL – Como é que a comunidade pode apoiar ou envolver-se com o Clube de Ciências da ESSS?
JM – Para o clube, todo o apoio é bem-vindo. Estamos sempre dispostos a receber membros da comunidade interessados em partilhar o seu saber técnico e científico e assim enriquecer a formação dos alunos do clube, para dinamizar atividades únicas. Qualquer um nos pode contactar através do endereço de e-mail clubedeciencias.esss@gmail.com, e é com muita felicidade que recebemos todas as manifestações de interesse pelo clube. Outra forma de nos apoiar é mantendo-se a par de tudo aquilo que fazemos através das nossas redes sociais.
CL – Que conselhos daria a outras escolas que desejam iniciar um clube de ciências semelhante?
JM – O nosso principal conselho para os alunos que desejam criar um clube como o nosso ou desenvolver projetos semelhantes é simples: não tenham receio de dar o primeiro passo. Pode parecer um desafio no início, mas certamente encontrarão outros interessados em partilhar essa paixão. Com determinação, espírito de equipa e perseverança, tudo se torna possível!
NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico























