Eliseu Machado: “Sempre procurei ver o que há de bom em qualquer coisa negativa” 

Aos 91 anos, Eliseu Machado, carinhosamente chamado Tito, é uma figura que carrega consigo não apenas as memórias de quase um século de vida, mas também a essência de valores sólidos: trabalho árduo, fé profunda e uma dedicação inabalável à família e à comunidade. Nascido em Viseu em 1933, mas tendo passado grande parte da sua infância no Porto, Tito passa a sua vida a aprender com a simplicidade do que o rodeia, tendo construído uma história rica, que ainda hoje ecoa em Queluz, onde reside há mais de 60 anos.

INFÂNCIA E PRIMEIROS ANOS DE TRABALHO

Tito descreve a sua infância como “fantástica”, numa época em que, apesar das dificuldades, existia um forte sentimento de comunidade e acolhimento. “Gostei da vida logo ao nascer”, diz. Filho de um pastor evangélico, cresceu no seio da igreja, aprendendo desde cedo o valor da fé e da solidariedade. “A vida foi-me ensinada cedo”, reflete. “O meu pai era pastor, e nós – eu e os meus 5 irmãos – lidávamos com muitos adultos. As crianças nas comunidades religiosas são muito acarinhadas, e isso deu-me uma visão especial do mundo.”. 

Com apenas dez anos, Tito começou a trabalhar num escritório, pois ainda não podia ingressar na Escola Industrial. “Tinha feito a 4ª classe com uma tia e aos 10 anos fui trabalhar com homens adultos, num trabalho sério. A responsabilidade era grande, mas fazia tudo como quem brinca”, recorda. “Ainda hoje tenho saudades daquelas pessoas”.

Aos 11 anos ingressou na Escola Industrial que frequentou durante 2 anos. Os seus pais haviam fundado um orfanato que sobreviveu graças à ajuda da comunidade, e cuja estrutura ainda hoje existe, sob o nome de Lar Evangélico Português, assumindo, porém, outras funções. “O orfanato acolheu mais de mil crianças ao longo dos anos. Eu cresci com essas crianças e via-as como meus irmãos”, relembra Tito. “O ofício de pastor não garantia um sustento estável. Éramos muitos em casa, e o dinheiro fazia falta. Eu sabia que tinha de ajudar”, explica. A situação económica familiar levou-o a voltar ao escritório onde havia trabalhado. Aos13 anos, Tito já cuidava dos movimentos bancários e da documentação de exportação de mercadorias para África. Apesar da sua tenra idade, a sua seriedade no trabalho fez dele uma presença respeitada no escritório, onde conquistou a confiança dos superiores. “Fazia tudo com precisão, e o patrão confiava em mim”, conta Tito, mostrando o orgulho pelo compromisso que sempre dedicou a cada função.

Os sogros

PAIXÃO PELA FOTOGRAFIA

Aos 18 anos, Tito descobriu a sua verdadeira vocação: a fotografia. Inicialmente, começou por vender materiais fotográficos e a desenvolver fotografias para empresas e outros fotógrafos, mas rapidamente aprendeu a técnica por si mesmo e a adaptar o seu estilo. “Vendia equipamentos, filmes, papel, e comecei a fotografar. O contacto com os fotógrafos foi-me ensinando, e aquilo tornou-se uma paixão”, afirma. A sua facilidade em lidar com crianças levou-o a desenvolver um sistema próprio de fotografá-las em colégios, numa época em que fotografias mais espontâneas eram incomuns. “Eu queria capturar a essência das crianças, algo que não fosse formal. Elas sentiam-se à vontade comigo”, conta.

Durante décadas, Tito percorreu escolas e colégios em todo o país, levando consigo a alegria de transformar cada retrato numa experiência. Este trabalho tornou-o conhecido por várias gerações, sendo recordado com carinho por muitas das crianças, agora adultas, que tiveram a sua primeira fotografia tirada por ele. A sua abordagem inovadora de fotografia infantil tornou-se uma marca pessoal.

Esta ligação ao mundo da educação levou-o a ser convidado a integrar os órgãos sociais de alguns colégios. “Fiz parte da direção do CBESQ, aqui em Queluz, durante 9 anos e estou a cumprir um segundo mandato (que finda para o ano) como elemento da direção do Colégio João de Deus”, conta. Dois dos seus filhos seguiram-lhe o gosto pelo mundo da fotografia e deram continuidade ao seu legado nos colégios.

A família

MUDANÇA PARA LISBOA

Com o aumento da família – aos 30 anos já tinha cinco filhos –, Tito tomou a difícil decisão de se mudar para Lisboa em busca de melhores oportunidades. “Naquela altura, o Porto ainda era uma aldeia. A capital tinha mais mercado, mais escolas, e era o centro do império. Era ali que eu tinha de estar para conseguir sustentar a família”, comenta. Instalou-se em Queluz, numa casa que se tornaria não apenas o lar da família, mas também o seu local de trabalho. Adaptou o espaço para criar um laboratório fotográfico, onde chegava a fazer ampliações de fotografias na banheira, um exemplo da criatividade e adaptabilidade que sempre o definiram. “Fiz de tudo para que a fotografia fosse o sustento da família.”, diz com uma risada nostálgica ao recordar essas invenções. “E não me dedicava apenas aos colégios – embora esse fosse o meu forte – também cheguei a fotografar operários a trabalhar em fábricas.”, recorda. 

Tito também explorou outras áreas profissionais, incluindo a distribuição de gás. “Um amigo meu era gerente de uma empresa em Coimbra e recebeu uma oferta para ficar com um negócio de gás ligado à Shell. Na altura ele precisava de alguém que estivesse em Lisboa e convidou-me para ingressar esta aventura, cabendo-me organizar todo o sistema de prospeção de clientes e instalação de fogões. Quando fazia a instalação de um fogão realizava de imediato um contrato de gás com a Shell. Foi um desafio enorme, mas eu adorava a adrenalina de criar algo novo”, relembra. A fotografia nunca deixou de fazer parte da sua vida e a certa altura, decidiu abandonar este projeto. Contudo, por volta de 1973, aquela empresa havia crescido muito e angariado inúmeros clientes dos quais se destacava a Torralta, uma importante empresa no setor do turismo e da hotelaria, do qual a empresa do seu amigo se tornara fornecedora exclusiva. “Este crescimento obrigou-o a criar um corpo de vendas estruturado e em quem é que ele pensou? Em mim. Lá voltei à empresa como chefe de vendas”, conta. A remuneração de Tito, de 7 contos e quinhentos, era substancial para a época, quando um professor ganhava em média quatro ou cinco contos. “Quando penso neste episódio da minha vida, tenho uma enorme vontade de rir. Aliás, na véspera do 25 de Abril de 1974, eles ainda chegaram a aumentar-me 5 contos”. Na senda das mudanças provocadas pela revolução a empresa fechou. 

Os pais

COMPROMISSO COM A FÉ E A COMUNIDADE

Para Tito, a fé sempre foi uma força orientadora. Criado numa família religiosa, sentiu sempre uma forte ligação à Igreja Evangélica, onde serviu como presidente de jovens a nível nacional e participou na organização de encontros e eventos juvenis. “A religião é uma questão de fé individual. A fé não se obriga. As igrejas unem as pessoas, criam solidariedade e amizade”, explica Tito. Apesar das limitações, Tito continua ligado à Igreja Batista de Queluz, onde, por muitos anos, foi uma presença ativa e inspiradora para a comunidade. “Atualmente a minha mulher está acamada pelo que precisa de apoio constante. Ela dorme numa cama especial e eu durmo ao lado dela, sempre alerta a tudo o que possa acontecer”, conta, com serenidade. Para ele, o cuidado é um ato de gratidão. “Eu não pago por dentro nada. Vivo do outro lado da gratidão. Sei dos dramas de saúde que muitas pessoas enfrentam, mas a minha esposa só ficou doente aos 85 anos. Olho para trás e agradeço por não termos sofrido antes. Por isso, não pago por dentro,” reflete, com uma sabedoria tranquila e uma fé inabalável.

Mesmo sem poder ir à igreja com a frequência de outrora, Tito, mantém viva a ligação espiritual. O amor pela esposa, o cuidado e a gratidão são hoje, para ele, a expressão mais profunda da fé e da dedicação que os uniram ao longo de uma vida.

O seu compromisso com a fé não é apenas espiritual, mas também uma filosofia de vida. Tito acredita que o amor ao próximo e a solidariedade são os pilares de uma vida com propósito. Para ele, a religião representa uma força que transcende as palavras e se manifesta nas ações diárias. Esse sentido de missão está presente em cada interação, seja com a família, amigos ou desconhecidos, e é visível no modo como ele encara os desafios, incluindo a perda trágica de um filho. “A morte de um filho é uma dor profunda, mas eu tento focar-me nas boas memórias. Foi uma bênção tê-lo conhecido”, reflete Tito. Para ele, a vida é uma busca contínua pelo que há de positivo, mesmo nas situações mais difíceis: “Sempre procurei ver o que há de bom em qualquer coisa negativa. No caso do meu filho penso o quão fantástico foi conhecer aquela pessoa. Se visitarmos um cemitério, encontramos tristeza nas pessoas que não resolveram nada, que ficaram presas na amargura. Mas para mim, é extraordinário ter conhecido alguém e manter viva essa pessoa na memória da família, como se ainda estivesse entre nós.”. Esta visão moldou a forma como Tito lida com o tempo e com a doença da esposa. “Cheguei ao que chamo o gozo da paciência, uma superação. Aceitar as coisas como são, sem lamentar, resolvendo o que é preciso resolver.” Essa aceitação permite-lhe continuar a viver plenamente ao lado da sua esposa, com uma paz que nasce da fé e do amor que ambos construíram ao longo de uma vida juntos.

Com a irmã Lídia Oliveira, de 94 anos

GOSTO PELA POESIA E FILOSOFIA DE VIDA

Na década de 1980, Tito descobriu a poesia como uma forma de expressar a sua visão do mundo. “Foi quase obsessivo; eu precisava de parar o carro para escrever assim que as ideias surgiam”, conta, recordando-se das vezes em que, inspirado pela simplicidade e pela beleza da vida, capturava pensamentos em verso. No Facebook Tito publica os seus escritos na página “Psicologias e filosofias de trazer por casa”, pequenos ensaios sobre a vida, a fé e a gratidão. As metáforas, segundo Tito, são fundamentais para ajudar as pessoas a transformarem a sua vivência. “Se eu tenho uma casa psicológica, posso usar essa casa para criar metáforas da minha vida – como me sinto, como me movimento, quem recebo,” explica. Essa abordagem ajuda a explorar e fortalecer a própria identidade, permitindo que se recorra a imagens que simbolizam qualidades positivas e inspiradoras. “Eu tenho uma metáfora de mim onde vou buscar poderes positivos. Para alguém que trabalha com automóveis, por exemplo, eu sugeriria pensar-se como um Lamborghini – analisar as qualidades desse carro, desde a beleza à potência, e aplicá-las a si mesmo.”. A metáfora que Tito escolheu para si é a de um avião. “Todos os dias alimento essa imagem e aplico-a em mim. O avião tem estabilidade, sobe às alturas, transporta pessoas e afetos. Tem controles, motores, equilíbrios,” descreve. “Se sou um avião, tenho o direito de estar equilibrado.” Para ele, a metáfora é uma forma simples de encontrar sentido e estrutura nas coisas, transformando a vida com a simplicidade e a eficácia de quem domina a arte de ver grandeza no quotidiano.

Até hoje, guarda cadernos repletos de versos e reflexões, um testemunho do seu apreço pela introspeção e pelo conhecimento. “A vida é feita de simplicidade. As pessoas não valorizam o que têm, mas cada dia é um presente”, conta. Esse espírito simples e generoso reflete-se em cada interação com a comunidade de Queluz, onde se tornou uma figura familiar, cumprimentando vendedores e partilhando palavras de incentivo com quem encontra. A este propósito Tito menciona um episódio com as vendedoras que costumam estar junto à estação de comboios de Queluz: “Certo dia de manhã, fui ao pé de uma dessas senhoras e disse-lhe que não ia comprar nada, mas que lhe desejava a maior sorte da vida. Nesse dia fiz isso com umas 20 pessoas…e senti-me tão bem!”, recorda. Questionado sobre se alguma vez pensou em publicar os seus poemas, Tito ri-se e diz “Não, porque ainda tenho tempo”. 

Com 9 filhos, 16 netos e 7 bisnetos, Tito continua a ser o pilar da família, uma presença forte e inspiradora para todos. O percurso de Tito é, assim, um testemunho de resiliência, fé e amor pela vida. Com a serenidade e sabedoria acumuladas ao longo de quase um século, ele é uma inspiração para todos aqueles que o conhecem, deixando um legado que vai além das palavras e das fotografias, um legado que se reflete nos gestos de carinho e na simplicidade com que encara cada dia.

NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Autor: Raquel Luís

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