Fernando Ferreira Marques: “A Política não faz sentido quando nós não somos capazes de prestar contas”

A dinâmica interna desenvolvida no seio dos aparelhos partidários implica, muitas vezes, ficar refém de determinados ‘timings’ e da clarificação de algumas opções que nem sempre se conjugam para poder preparar com a desejada antecedência e firmeza uma candidatura capaz de fazer a diferença e assegurar os resultados desejados numa eleição autárquica. 

Confrontado com essa possibilidade, Fernando Ferreira Marques coloca a vontade de se recandidatar pelo PSD à presidência da Junta de Freguesia de São Domingos de Rana (JFSDR) refém da concretização de algumas condições que estão dependentes da decisão de a Câmara Municipal de Cascais (CMC) disponibilizar os meios necessários para serem alcançadas antes do final do seu primeiro mandato. 

Independentemente do sentido dessa decisão, o autarca tem uma certeza: na rua, os vizinhos (como chama aos munícipes) mostram-se satisfeitos com o seu trabalho e apoiam a continuação da sua gestão à frente da autarquia. Para já, admite que todas as possibilidades estão ainda em aberto, nomeadamente a hipótese de poder avançar com uma candidatura independente.

No passado dia 18 de Outubro, o autarca assinalou o seu terceiro ano de mandato em ambiente de festa no Pavilhão do Complexo Desportivo Municipal. Uma celebração aproveitada para fazer o balanço da sua gestão, explicar aos munícipes o que ainda falta fazer no que resta do seu primeiro mandato e para prestar contas dos investimentos realizados na Freguesia. 

O jornal ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa com Fernando Ferreira Marques, eleito para a presidência da JFSDR integrado nas listas de uma coligação liderada pelo PSD, que venceu as eleições autárquicas de 2021 no concelho de Cascais. Oportunidade para falar do trabalho já realizado, sobre o que falta fazer e do futuro da freguesia, já com as próximas eleições autárquicas no horizonte.     

Foto: Paulo Rodrigues

Jornal ‘O Correio da Linha (CL) – Antes de chegar à JFSDR, passou pela CMC.

Fernando Ferreira Marques (FFM) – Em 2011/2012, eu estava na CMC, no gabinete do então vereador Miguel Pinto Luz. Fazia parte de uma agência municipal que havia na altura. No fundo, era um organismo que agregava as associações dos comerciantes, dos construtores e dos hoteleiros de Cascais, os interesses económicos, que tratavam um bocadinho do Turismo. Estávamos ainda longe de ter a Associação de Turismo de Cascais. Portanto, no fundo, aquilo era um embrião de um conjunto de homens bons, que eram os líderes locais do Turismo, da Hotelaria, da Restauração e do Comércio. Fui também administrador da DNA Cascais.

CL – Quando e como é que começou a sua ligação à JFSDR?

FFM – A minha ligação à JFSDR começou em 2012. O senhor Presidente da CMC, Carlos Carreiras, convidou-me para acompanhar a campanha para as eleições autárquicas de 2013 na freguesia, que tinha como candidato José Rodrigues. Fiz a campanha toda, corri a freguesia de uma ponta à outra e participei em todas as acções de campanha. Isso permitiu-me ficar a conhecer melhor a freguesia, as pessoas e as colectividades.

Em 2013, não ganhámos por uma diferença de 300/400 votos. Dois anos mais tarde, em 2015, o senhor Presidente chamou-me e convidou-me para ser o próximo candidato à Presidência da JFSDR. Em 2017, concorri pela primeira vez à presidência, mas perdemos por cerca de 700 votos. Entretanto, acabámos por ganhar em 2021. Desde o primeiro minuto, começámos a tentar resolver todas as grandes situações que se arrastavam aqui há muitos anos.

CL – É natural de onde?

FFM – Eu nasci em Arroios, na rua António Pedro. Nasci, cresci e vivi ali durante a minha infância e juventude. Quando casei fui viver para Telheiras durante quatro ou cinco anos. E depois fui viver para Cascais, para a Av. 25 de Abril. Entretanto, estou há 21/22 no Estoril, onde resido actualmente. Casei com uma cascalense. Desde 1987, que passo a minha vida entre Lisboa e Cascais. Como fui Presidente da JSD na distrital de Lisboa, a minha vida era um bocadinho andar aqui, Sintra, Cascais, Amadora… corri muito o distrito.

CL – Como é que correu a festa para assinalar o terceiro ano do seu mandato?

FFM – Correu bem. Este ano, decidimos não ter surpresas. Eu convidei o senhor ministro das Obras Públicas e das Infraestruturas, o engenheiro Miguel Pinto Luz, que não pôde estar presente por motivos de agenda. Ainda assim, passámos um vídeo seu, que reproduziu muito daquilo que ele concerteza viria dizer, e que no fundo se reduz ao seguinte: “Tem muito mais Cascais a ganhar com São Domingos de Rana do que São Domingos de Rana com Cascais”. Ou seja, o desenvolvimento, o futuro, aquilo que se pode ainda fazer de grande e de bom no concelho, é nesta freguesia, porque aqui ainda não está tudo construído, ainda há muita coisa para construir.

CL – O que representam, para si, as festas para assinalar os anos do seu mandato?

FFM – Uma coisa que eu sempre disse é que “a política não faz sentido quando nós não somos capazes de prestar contas”. A minha vida não foi fazer política, eu trabalhei muitos anos nas empresas, trabalhei no estrangeiro, trabalhei 10 anos na Jerónimo Martins, depois fui para Espanha, para França, para a Alemanha. 

Numa empresa, nós habituamo-nos a prestar contas de três em três meses, ou porque apresentamos o que vamos fazer, ou porque apresentamos o que já fizemos, ou porque fazemos a análise do que estamos a fazer. Há aqui um ciclo de prestação de contas permanente. Na Política não é assim. As pessoas habituam-se a prestar contas de quatro em quatro anos. As pessoas gostam pouco de ser avaliadas e gostam pouco de dizer o que é que andam a fazer.

“É IMPOSSÍVEL DECIDIR BEM SOBRE AQUILO QUE NÃO SE CONHECE”

CL – Trata-se, pois, de uma aposta na transparência?

FFM – Quando cheguei à presidência da Junta de Freguesia (JF), obriguei-me a mim e ao meu executivo a prestarmos contas todos os anos. Começámos em 2022, a fazer uma coisa que se chama ‘Ambição Positiva. Somos de Contas Certas’. Resolvemos fazer sessões públicas em várias localidades a explicar onde é que foi aplicado o dinheiro que nos foi atribuído. 

E quando vamos prestar contas não é dizer que fizemos, fizemos, fizemos… É dizer fizemos e custou exactamente isto. O dinheiro público não é mais do que o governo e as autarquias a redistribuirem o dinheiro que todos os meses nós pagamos em impostos. Tudo o que é o dinheiro do Estado é o dinheiro que nos levam do bolso. Portanto, o que nós fazemos é agarrar no dinheiro de todos os que pagam impostos aqui em São Domingos de Rana e aplicá-lo nas escolas, nos jardins, no alcatrão, nas calçadas, em tudo. 

Mesmo que Cascais seja um concelho rico, como às vezes alguns dizem, nós temos de ter noção de que há pessoas a viver com muita dificuldade e nós temos de gerir a coisa pública, o dinheiro de todos, com muita parcimónia.

CL – Tem privilegiado um contacto mais directo com a população. O que tem significado para si essa política de proximidade? 

FFM – Vou dar um exemplo. Na Jerónimo Martins, quando as pessoas entram para a empresa fazem seis meses de treino. Estamos a falar de jovens que saíram da Universidade, advogados, economistas, gestores de empresas… Esse treino começa com uma reunião na administração, depois vão a uma reunião com os recursos humanos, a seguir acompanham os camionistas pelo País na distribuição, segue-se um supermercado e o processo não fica por aqui. 

É impossível, e o termo é mesmo este, impossível, algum gestor gerir uma empresa que não conheça de A a Z. Aqui é exactamente a mesma coisa. Embora eu tivesse chegado à JF com 11 anos de experiência na Câmara, com uma estrutura muito maior, eu sinto necessidade, e todos deviam sentir, que as pessoas percebam o que é que se passa na realidade. 

Para nós percebermos e termos a noção real daquilo que se passa na freguesia, temos de andar no terreno, temos de sentir as pessoas, temos de sentir a sua dor, a sua angústia, as suas dificuldades. Se isso não acontecer, se uma pessoa não sair do gabinete, nada a emociona, nada a faz sentir. Eu sinto necessidade de estar com as pessoas, de as ouvir, de sentir as suas felicidades e as suas angústias. É impossível decidir bem sobre aquilo que não se conhece.  

CL – Acha que esse é um problema das lideranças actuais, o distanciamento em relação às pessoas, o desconhecimento dos problemas que enfrentam no dia-a-dia?

FFM – As lideranças têm de ir acompanhando os nossos tempos, independentemente de termos 90 anos ou 20. Temos de estar sempre à procura e temos de estar permanentemente disponíveis para aprender. Quem está sentado numa cadeira, atrás de uma secretária, a olhar para um ecrã não aprende. Pode ficar com essa noção, que aprendeu muito de um vídeo, que viu um tutorial e que ficou a saber muita coisa, mas não é verdade.

Eu defendo que nós temos de ir ao terreno, temos de nos confrontar com a realidade, temos de ir ver e perguntar aos outros como é que fizeram, quanto mais não seja para perceber onde é que erraram, para nós não errarmos também. É importante ver o que os outros andam a fazer pelo Mundo e escolher, entre todas as soluções que vimos, aquela que se encaixa melhor no nosso território, e como.  

CL – A um ano do término do mandato, o que falta realizar? Quais as suas principais apostas?

FFM – Falta fazer muita coisa. O senhor Presidente da CMC Carlos Carreiras costuma dizer que as pequenas obras são, muitas vezes, aquelas que são mais sentidas pelas pessoas e isso é verdade. Eu, quando aqui cheguei, a primeira coisa que fiz foi uma coisa que não existia, que havia muito pouco em São Domingos de Rana, o que é ridículo: passeios. Em São Domingos de Rana, não havia passeios. E no centro de Tires existiam poucos.

Portanto, uma das primeiras coisas que nós fizemos foi passeios. Isto é muito engraçado, até dá vontade de rir, mas quando nós olhamos para Cascais, para Carcavelos, para a Parede, ou para o Estoril, isto não tem graça nenhuma. Durante décadas ninguém se lembrou que São Domingos de Rana também era Cascais. Portanto, essa foi outra das nossas frases: “São Domingos de Rana também é Cascais”. 

Começámos pelas pequenas coisas. Essas pequenas coisas ainda não acabaram. Por exemplo, a requalificação do largo de Tires. Aquilo não existe em lado nenhum, é uma anarquia completa. Isto acontece nas outras freguesias, nos outros centros urbanos? Não existe. Nós temos de continuar a requalificar a freguesia de São Domingos de Rana do mesmo modo que já requalificámos o centro da Parede, o centro de Carcavelos, o centro do Estoril, etc. etc.. Esse é o grande objectivo. Há aqui um conjunto de pequenas obras que temos de realizar. 

Foto: Paulo Rodrigues

“ENTREGÁMOS UM CADERNO REIVINDICATIVO À CÂMARA”

CL – Que outras obras estão em falta?

FFM – Por exemplo, nós herdámos um equipamento que durante muitos anos teve muito sucesso aqui na freguesia. Trata-se da Escola Fixa de Trânsito, que acabou com a pandemia COVID. Quando nós cá chegámos já estava moribunda, porque não tinha tido, como nada nesta freguesia teve, manutenção, a começar pelo edifício da JF, que tinha infiltrações e humidade por todo o lado. Ao longo de muitos anos, não houve qualquer investimento na freguesia.

Nós entregámos um caderno reivindicativo ao senhor vice-presidente da CMC, um dossier muito bonito. Na apresentação que fiz no passado dia 18, fiz questão de mostrar a todas as pessoas presentes na festa do terceiro ano do meu mandato aquilo que está referido nesse caderno de encargos para eu me recandidatar. Para isso acontecer, aquelas obras terão de estar prontas, ou em vias de estar concluídas. 

Um exemplo: a Associação Desportiva Reguilas de Tires Futsal tem vindo a ter uma actividade contínua desportiva crescente nos últimos 11/12 anos. Não têm uma sede. Todo o cão e gato no concelho de Cascais teve uma sede nova. Eu fui, em nome do senhor Presidente da Câmara e em nome da Câmara, em 2018, a um jantar de Natal dos Reguilas dizer: “Os meus amigos vão ter uma sede”. 

Estamos a falar de um investimento de 300 mil euros. Não estamos a falar de 3 milhões ou de 1,5 milhões. É uma instituição importante para a freguesia. Eu não posso fazer de conta que estes senhores não merecem, pelo trabalho que fazem, uma sede. Se esta obra não estiver construída até Junho do ano que vem será uma das razões por que eu não me candidatarei.

CL – A requalificação da EN249 também tem sido uma preocupação?

FFM – Fizemos um grande esforço na requalificação da EN249, que é um eixo fundamental para nós, atravessa a freguesia praticamente toda. Dois terços desse troço já estão requalificados. Não havia passeios, também passou a haver passeios. Falta um bocadinho em Trajouce e Cabra Figa. Essas obras vão começar agora. 

Toda a gente conhece as piscinas, ali junto à Prio. É só chover um bocadinho. Isso também vai acabar. As bacias de retenção e a requalificação da Ribeira de Sassoeiros já começaram. O estreito de Caparide também já está resolvido, já apresentei o projecto, é outra das situações que temos de resolver. 

CL – Para quando a demolição da torre vermelha em Matos Cheirinhos?

FFM – Em Janeiro de 2025, vamos, finalmente, demolir aquilo que muitos pensam que é a torre de controlo do aeródromo de Tires, aquela torre enorme pintada de vermelho que está em Matos Cheirinhos. Trata-se de um depósito de água que nunca funcionou. Vamos demolir aquilo e fazer um jardim naquele espaço. Estamos a falar de questões que andam na freguesia há duas décadas para ser resolvidas. 

CL – E a requalificação dos espaços abandonados das Águas de Cascais, em Quenena? Já está agendada?

FFM – No que a isso diz respeito, existem ali uns edifícios abandonados há não sei há quantos anos. Esses espaços podem ser transformados num centro escutista. Estamos a resolver essa situação. Já falámos com dois agrupamentos escutistas, o 1400 da Abóboda e o 113 de São Domingos de Rana. Tudo isto vai trazer vigor à freguesia, porque estamos a falar de gente nova.

O que nós estamos a fazer é juntar toda a gente, melhorar a qualidade de vida e, sobretudo, desenvolver a freguesia e capacitar a freguesia, sem destruir. Agora, sabemos que estas coisas, às vezes, não dependem de nós. O plano director municipal não é feito pela Junta de Freguesia, os grandes investimentos que estão pensados serem feitos também não dependem da Freguesia. 

CL – Por exemplo?

FFM – Por exemplo, há um investimento que andam há anos a dizer que vão fazer aqui. Cascais tem um campo de futebol municipal, que é o António Coimbra da Mota. Toda a gente acha que aquilo é do Estoril Praia, mas não é, aquilo é da Câmara, é um estádio municipal que tem de ser demolido, porque foi construído num leito de cheia. 

Supostamente, vão construir o novo campo municipal de futebol em São Domingos de Rana. Isso é bom para a freguesia, vai trazer aqui gente. E é bom também, porque à volta do campo vêm outras estruturas desportivas. É bom ainda se à volta do estádio vier a ser construído um hotel para que as equipas possam vir para aqui estagiar. Não faz sentido nenhum que São Domingos de Rana seja a única freguesia que não tem um hotel. 

Há aqui uma quantidade de grandes infraestruturas que é importante começarem a ser construídas. Não podemos estar sempre a dizer que vamos fazer, que vai acontecer e, entretanto, passaram quatro anos. Por outro lado, se essas obras não me preocupam tanto, porque me é indiferente se o Estoril Praia joga em frente à minha casa ou se joga aqui, já não me é indiferente se o Reguilas de Tires tem uma sede, não me é indiferente se há melhores jardins.

E também não me é indiferente que o projecto Bata Branca (serviço que garante o acesso a consultas de clínica geral aos munícipes maiores de 18 anos sem médico de família atribuído) seja em Cascais e que os meus vizinhos também possam ir a Cascais. Mas porque é que fizeram a Bata Branca em Cascais e não fizeram aqui, na freguesia? Porque é que também não há uma Bata Branca em São Domingos de Rana? 

O problema é que os meus vizinhos de Talaíde, de Trajouce e da Abóboda têm de apanhar dois autocarros para ir a Cascais. Isso fica difícil para uma pessoa que tem 60 e muitos anos, que tem uma dificuldade física, ou que tem uma idade mais avançada, e que não tem uma família que o possa transportar de forma cómoda. Pedimos que se possa encontrar uma solução de Bata Branca aqui na freguesia. Teríamos metade do concelho a ser servido por uma Bata Branca numa ponta e a outra metade do concelho a ser servida por outra.

CL – Quais as principais apostas culturais a desenvolver na Freguesia? 

FFM – Descobrimos que há muitos jovens artistas com dimensão internacional instalados na freguesia. Ninguém sabia deles. Onde é que andou o executivo da JF nos últimos 28 anos? O que é que fez? Às vezes, as pessoas não gostam de me ouvir. O facto é que não conseguimos pensar que estes jovens artistas precisam de um atelier. Custa-me muito que a Câmara não tenha meia dúzia de tostões para construir uma Casa de Artes Plásticas.

Queremos recuperar e transformar as instalações ocupadas pela Escola Fixa de Trânsito para ali instalar o que vamos chamar CAPA (Centro de Artes Plásticas da Abóboda). O edifício tem dois andares, que vão ser transformados em pequenos estúdios, três ou quatro T0, dois T1 e um T2. Vamos ter ali residências, vamos trazer artistas de renome internacional que possam encontrar ali estúdios a preços que possam pagar e onde possam desenvolver o seu talento. E não têm de ser necessariamente da freguesia, podem ser do concelho de Cascais. 

O que é que nós explicámos à Câmara? Que também é possível fazer de São Domingos de Rana um Centro de Artes Plásticas, um Centro de Cultura. Não tem de estar tudo, para resultar, enfiado na beira-mar.

CL – Sendo que São Domingos de Rana regista um défice de investimento, que a coloca atrás das restantes freguesias, qual a capacidade de convencer a CMC destes desejos?

FFM – Eu sou uma pessoa muito incómoda, cada vez mais incómoda. Portanto, estou sempre à procura. Sou um bocadinho como o António Variações, estou sempre à procura de “fazer o que ainda não foi feito”, mas com alguma racionalidade. Daí ser importante conhecer e perceber o que está à minha volta.

CL – Tem de se fazer a diferença?

FFM – É preciso conhecer as realidades, é preciso conhecer o território e é preciso prever os investimentos a 10/20 anos. Certo tipo de investimentos não pode ser para agora. Para agora, são aqueles que têm navegação à vista. O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer que esta questão da Cultura é fundamental para o futuro do concelho. Não é para o futuro de São Domingos de Rana, porque não é porque nós temos quatro ou cinco artistas, mesmo com carreiras internacionais, que isto é importante. É importante para que os miúdos das novas gerações possam encontrar um sítio onde consigam desenvolver o seu talento. E que outros possam seguir-lhes o exemplo. Isso é fundamental. 

Do mesmo modo que é fundamental nós termos um auditório em São Domingos de Rana, que não temos actualmente. Nós, o ano passado, quisemos discutir a saúde mental, um tema que está muito na moda. Só que as pessoas discutem a saúde mental do ponto de vista médico. E quando nós estamos a discutir a saúde mental do ponto de vista médico já estamos no fim da linha. Nós queremos discutir a saúde mental do ponto de vista filosófico e até, se quiserem, do ponto de vista académico. 

O que nós fizemos foi chamar grandes filósofos, psicólogos, psiquiatras que tratam estas questões da saúde mental para uma discussão e trouxemos dois homens extraordinários: um reconhecidíssimo de esquerda e outro reconhecidíssimo de direita do Brasil, o Christian Dunker e o Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé, para discutir o tema connosco. E punha-se a questão: Onde é que vamos fazer isto? Porque as coisas têm de ser feitas com profissionalismo e com qualidade. 

Foto: Paulo Rodrigues

“AINDA VIVEMOS NUMA PARTIDOCRACIA”

CL – Pelo entusiasmo como fala de todos estes projectos, depreende-se que gostaria de recandidatar-se às próximas eleições autárquicas. Recebeu esse convite? Já referiu que isso vai depender da concretização das obras que se comprometeu realizar… 

FFM – Isto tem regras simples, mas ainda vivemos numa partidocracia. Não é bom nem é mau, é o que é. Quando é bom, como em tudo na vida, corre muito bem. Quando é mau, tem as suas anomalias. Para já, eu não vejo que seja mau, embora eu entenda que, nalguns casos, a lei que permite candidaturas independentes devia ser um bocadinho mais abrangente e um bocadinho mais leve do que é. As candidaturas independentes estão muito cortadas na sua liberdade. 

Isto para dizer o quê? A decisão da minha candidatura passa pela comissão política do meu partido. Eu sou filiado no PSD desde 1979/1980, estou cá há muitos anos. Depois, tem de ser ratificada em Assembleia de Militantes do concelho. Contudo, há um barómetro para mim, que é o mais importante: o barómetro da população e dos vizinhos de São Domingos de Rana. 

Eu não tenho dúvidas de que a grande maioria da população quer que eu continue. Aliás, já o manifestaram publicamente. Quando ando na rua e contacto com as pessoas, transmitem-me esse apoio. Mesmo aqueles que são de outros partidos reconhecem que nós não temos governado com nenhuma força política, não governamos com qualquer camisola, até porque este executivo tem dois independentes, dois do CDS e três do PSD. Portanto, não é um governo partidário. 

Apesar de tudo, resolvemos os problemas de todos. Quando resolvo o problema de um vizinho não lhe pergunto se ele é do Sporting, do Belenenses, do FC Porto, do PSD, do CDS, do Bloco de Esquerda ou de outra cor política qualquer. Todos reconhecem isso.

CL – Pelas suas palavras percebe-se que está a meio de um compromisso que lhe custará muito interromper… 

FFM – Eu acho que as pessoas se sentiriam defraudadas se o candidato não fosse eu. Uma das coisas que eu já equacionei é se valia a pena continuar, porque acho que também não temos de estar muito apegados aos lugares. Há pessoas que estão até ao fim, até ao último dia, porque acham que sem elas o mundo vai acabar. E nós já sabemos que o mundo não acaba. Eu não sou desses. 

Eu acho que temos de abrir espaço para os mais novos, temos de abrir espaço para a mudança, temos de abrir espaço para outras lideranças. Agora, também acho que nesta altura, e depois do trabalho que fizemos nestes quatro anos, seria um bocado ingrato, e até injusto, eu não me recandidatar. Numa situação em que as pessoas querem que eu continue a desenvolver este trabalho, seria egoísmo da minha parte dizer que não. 

Se sentisse que a coligação Viva Cascais, que o PSD, ou até que os partidos da coligação tinham uma solução melhor do que a minha, eu era o primeiro a admitir isso. Da mesma forma que já acertei com a minha equipa, que se ficar mais quatro anos, qual é o dia e a hora em que sairei no fim do próximo mandato. Na política, a pior coisa que há é as pessoas acostumarem-se aos cargos. 

CL – Esse apoio popular pode levá-lo a avançar com uma candidatura independente? 

FFM – Eu não estou cá para criar problemas. Do ponto de vista dos vizinhos, eu acho que a questão está resolvida. No que diz respeito à minha consciência, eu tenho essa vontade, mas não posso deixar de reconhecer que, se todas as coisas que nós assumimos, os compromissos do que nos propusemos fazer nestes quatro anos, não estiverem feitas, é porque eu sou incompetente, ou porque alguém não me quer aqui. Isto porque quem decide se as coisas estão feitas, ou não, é a CMC, é a Câmara que tem o dinheiro. Nós vivemos e fazemos aquilo que as câmaras municipais autorizam. Todos nós, não sou só eu, sou eu e os outros todos do País inteiro. Se o Presidente da Câmara entender que me quer secar, que eu não faça nada, não transfere dinheiro.

Eu entendo ainda que nós continuamos a ter uma discriminação negativa, porque eu tenho a mesma transferência de dinheiro que tem Carcavelos/Parede, que tem Cascais/Estoril e que tem Alcabideche. São 1,5 milhões de euros por ano, mas desses 1,5 milhões eu não tenho zero vírgula qualquer coisa de autonomia. Porquê? Porque o dinheiro que vem, por exemplo, para a Educação é para tratar da sanita que está entupida, do vídeo que avariou, da fechadura que se partiu, do cabo que está estragado, do ar condicionado, disto e daquilo. É para obras de manutenção das escolas. 

Depois recebo dinheiro para manter os espaços verdes e os parques infantis, para isto e para aquilo. Ou seja, todo o dinheiro que chega não é para eu fazer coisas, é para eu fazer as coisas que a Câmara, entre aspas, não quer fazer ou não consegue fazer melhor do que eu. 

CL – Como ultrapassar esta situação de escassez de recursos?

FFM – Se nós, durante os últimos 30 anos (e isso é reconhecido por todos, toda a gente fala disso, o senhor Presidente, o senhor vice-presidente, todos…), fomos prejudicados no investimento, então, agora, o que seria normal é que todos recebessem 1,5 milhões de euros e nós recebíamos 2,5 milhões de euros, para equilibrar. Ou seja, nos próximos cinco anos, nós éramos discriminados positivamente e passámos a ter mais x. 

Não foi isso que aconteceu. Eu quero acreditar, e apesar de isso não ter acontecido, que a CMC pode fazer o investimento directamente. Portanto, não há nada que impeça a Câmara de resolver todas aquelas coisas que eu pus no PowerPoint e que são urgentes para a Freguesia. No que nos diz respeito, temos de andar mais depressa, porque estamos muito atrás.

Foto: Paulo Rodrigues

“SE O TURISMO FOR SÓ ACTIVIDADE DESPORTIVA…”

CL – Como avalia a situação do Turismo no concelho?

FFM – Para haver crescimento tem de haver uma política consolidada. Se o Turismo for só actividade desportiva… trazer para cá o Ironman e o não sei quê… A aposta não pode ser só no Desporto em detrimento do resto. Não se vê este tipo de eventos em muitos sítios, porque é impensável que as pessoas estejam sitiadas duas semanas por mês no centro de Cascais ou no centro do Estoril, porque alguém se lembrou de fazer um evento. 

Depois, as pessoas vêm de fora e chegam a Cascais e ficam impedidas de circular, os restaurantes estão fechados, o trânsito está vedado. Essas pessoas ficam chateadas e não voltam. Acho que tem de se fazer uma nova avaliação daquilo que são os eventos que atormentam a vida dos cascalenses. Acho que há um excesso de sitiação. 

CL – Quando se candidatou à presidência da JFSDR assumiu, logo à partida, que tem um projecto que não se coaduna com um círculo eleitoral de quatro anos. Na tomada de posse, em 2021, referiu que 45 anos de governação comunista e socialista da JF não permitiu atingir os patamares de desenvolvimento que tinham o resto das freguesias do concelho. Qual a comparação que podemos fazer actualmente?

FFM – Ainda não é aquela que desejaríamos. O nosso projecto tem um tempo para ser concretizado, que sempre esteve presente: 2021-2031. Não há nenhum governo, nenhum, seja socialista, comunista, de direita, de esquerda, fascista, o que quiserem, que consiga implementar o que quer que seja numa legislatura. É impossível. Aqui ou em qualquer parte do Mundo. Porquê? Porque primeiro vimos, depois percebemos, depois estudamos… acho que temos aqui um mínimo de 10 anos.

CL – Como tem sido partilhar duas corporações de Bombeiros Voluntários com a freguesia vizinha, Carcavelos/Parede?

FFM – Não faz sentido nenhum que, ao fim destes anos todos, São Domingos de Rana tenha as dificuldades e os riscos que tem do ponto de vista do socorro. Nós temos 20 km quadrados e não temos bombeiros. Se o meu vizinho estiver a ter um enfarte em Trajouce ou no Pomar das Velhas, sai uma ambulância da Parede. Como a Parede vive com permanentes dificuldades, porque não se entendem, porque o comandante guerreia, porque não sei quê, porque falta dinheiro… enfim, não sei. Não conheço a história, só o que leio de vez em quando, mas aquilo vive em permanente conflito. E, apesar de a Câmara conhecer bem os conflitos, continua a injectar dinheiro numa associação de bombeiros quando tem ao lado outra associação de bombeiros que faz o trabalho todo. 

À luz do que é a distribuição dos recursos do concelho, não faz sentido os bombeiros da Parede existirem. Faz muito mais sentido existirem os bombeiros de Carcavelos e passarem a existir os bombeiros de São Domingos de Rana. Actualmente, metade da nossa freguesia é servida pelos bombeiros de Carcavelos e a outra metade é servida pelos bombeiros da Parede. As pessoas nunca sabem se telefonam primeiro para uns ou para outros. Tudo isto prejudica o socorro.

CL – E não há solução para isto?

FFM – Há pessoas na Câmara que continuam a impedir que esta discussão se faça. As questões têm de se fazer sem paixão, com racionalidade, com factos. Não podemos continuar a mascarar esta situação, porque ninguém quer dizer que ‘o rei vai nu’. Ora os próprios bombeiros sabem que ‘o rei vai nu’. Do ponto de vista operacional, os bombeiros da Parede vivem hoje com muita dificuldade. Portanto, não faz sentido nenhum. 

Uma das minhas próximas batalhas, quando terminar este mandato, é avançar com esta discussão. A partir de Janeiro de 2026, vamos ter de discutir a questão dos bombeiros em São Domingos de Rana. Não podemos continuar a fazer de conta que a distribuição de recursos em relação aos bombeiros pode continuar com está.

CL – Está planeada alguma solução para facilitar o fluxo de trânsito nos acessos/saídas a quem circula na A5? 

FFM – Vão ser criados dois novos acessos. Vai ser possível entrar directamente para a autoestrada sem ter de se dar aquela volta, ir àquela rotunda por trás da Repsol e voltar para trás. E vamos ter também acessos à A5 em Caparide e no chamado nó da Ribeira da Lage. Acho que o acesso que está mais avançado é o de Caparide. 

Entre o primeiro projecto e a solução encontrada agora, houve alterações. Eu acho que a solução que se encontrou agora é a que prejudica menos os vizinhos do bairro da Quinta da Fonte Mimosa e toda aquela parte ali do centro de Caparide. Encontrou-se uma solução mais perto de Tires que não prejudica tanto as pessoas. Isso vai resolver muito a circulação rodoviária dentro da freguesia e desafogar imenso o trânsito. 

Qual é o senão disso tudo? É que isso vai trazer também mais construção. Este nó de Caparide vai servir o aeródromo de Tires. Isso vai acarretar também ali mais uma quantidade de edifícios que estão previstos serem construídos. E quando se fizer o nó da Ribeira da Lage exactamente a mesma coisa. Mas esses dois acessos vão ser feitos. 

CL – O que mais está planeado?

FFM – Há ainda pequenas coisas que vão trazer nova vida à freguesia. A Casa da Música ou das Artes, que vai ser instalada em Talaíde, numa casa que a Câmara comprou e que está ao lado da sede do Grupo de Solidariedade Musical e Desportiva de Talaíde. Já foi feito o primeiro projecto. Esta casa estava abandonada há muitos anos. Eu estou convencido que, até Junho do próximo ano, alguma coisa vai começar a ser feita. 

Também o plano de pormenor de Freiria vai ver, finalmente, a luz do dia. É um plano de que se fala há quase 30 anos e abrange vários bairros, como o bairro das Tramboleiras e o bairro do Monte de Trigo entre outros.

CASAS SEM ÁGUA CANALIZADA E SEM ESGOTOS

CL – Chegou a referir que existem habitações sem água e sem esgotos na Freguesia…

FFM – As pessoas ficam muito ofendidas porque eu tive o desplante de dizer que havia casas na freguesia que não tinham esgotos nem água. Na Tapada das Flores, quando passamos o depósito dos carros, em Trajouce, quando vamos direitos a Sintra, à esquerda, em frente à fábrica dos móveis que ardeu, as pessoas não têm água canalizada, têm água do poço e do furo. 

As análises atestam que essa água é imprópria para consumo humano. Aquilo está ali há 40 anos. Há pessoas a morrer de cancro. Não têm água e não têm luz. Isto é normal? Num concelho que a gente diz que é de Turismo e que é de não sei o quê? Não pode. Eu, se fosse Presidente da Câmara, não dormia de noite. Ia lá eu esticar os cabos. Isto é inaceitável em pleno século XXI. Não têm alcatrão na estrada, não têm esgotos. 

CL – Então, e os projectos do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), não foi canalizado nada no sentido da reconversão e recuperação de projectos ainda por realizar?

FFM – Como é que eu hei-de explicar isto sem ofender ninguém? Qual é o problema do PRR e dos fundos comunitários em Portugal? Isto tem a ver com as pessoas. Enquanto no resto da Europa os fundos de coesão, como se chamavam antigamente, eram para actividades reprodutivas. Ou seja, fazer um pavilhão, fazer uma estrada, fazer uma fábrica, etc., aqui é para projectos. Findos os projectos, pufffff. 

Eu vou dar um exemplo. Cascais (e isto não é uma crítica para ninguém, é para nós percebermos a mentalidade das pessoas) foi a Capital Europeia da Juventude, em 2018. Fizemos, eventos, eventos, eventos. Cantou este, cantou aquele, cantou o aqueloutro. Cantaram todos. Fizemos isto, fizemos aquilo, mas o que é que ficou quando isso acabou. Não ficou um Centro de Juventude, não ficou uma estátua, não ficou nada, zero. O que é que eu quero dizer com isto? Quando estas coisas acontecem noutros sítios, ficam coisas para o futuro, para a posteridade. Aqui, não. 

A maior parte dos fundos comunitários que entraram em Portugal no tempo do Cavaco Silva foram para alimentar as associações empresariais. Como dizem os jornalistas, disso ninguém fala. E essas associações empresariais, a maioria delas já fecharam, já faliram. Porquê? Porque os empresários alicerçaram as suas actividades… quando eu digo as suas atividades, é os funcionários eram pagos com fundos comunitários, as secretárias eram pagas com fundos comunitários. Portanto, aquilo viveu enquanto houve fundos comunitários. À medida que os projectos foram acabando, as portas foram fechando. 

Se formos ver o que é que acontece no resto dos países, os investimentos são para coisas reprodutivas. Em Cascais, eu acho que não soubemos fazer isso. Veja-se, agora, esta questão da Habitação. Você já tem pelo País inteiro muita gente a entregar casas. Vamos ver quantas casas vamos entregar aqui, em Cascais.

CL – Como é que está o parque habitacional da freguesia?

FFM – Esta freguesia cresceu ao sabor dos nossos vizinhos. Vieram beirões, foram para um sítio. Veio um magote de alentejanos, foram para outro sítio. E foram construindo a sua casinha. Portanto, nós somos a freguesia do concelho com mais (muitos já estão legalizados) bairros clandestinos, que agora se chamam AUGI (Áreas Urbanas de Génese Ilegal). Depois, em cima disto tudo, construímos umas urbanizações. E nada disto foi feito com pés e cabeça. Você vai a Caparide, ou vai a Matarraque, e tem aquelas urbanizações todas. E onde é que estão os estacionamentos? Hoje temos o caos. Existem ‘n’ situações dessas em São Domingos de Rana, com urbanizações sem parques de estacionamento. A única urbanização que foi feita ainda com um rácio razoável de estacionamento foi o Parque de São Domingos. Depois, tudo o resto não foi feito. E antigamente tínhamos um carro por piso e agora temos três ou quatro por piso. E temos ruas muito estreitas e temos ruas não sei quê… e nada disto faz sentido. Portanto, nós não temos aqui avenidas. Durante muitos anos não olhámos para este território como um todo. Um vizinho grita, faz-se assim. Outro vizinho grita, faz-se assado. 

Os últimos três anos têm sido uma loucura de sinalização que temos instalado. Porquê? Porque a maioria dos bairros em São Domingos de Rana nem um sinal de trânsito tinha. Não tinham sinais. Chegava-se aos bairros e não se sabia se era para virar para a esquerda, ou se era para virar para a direita, era uma anarquia pegada. E isto não foi há 40 anos, foi há quatro ou cinco anos.

CL – O que é que está a faltar? Planeamento? Estratégia? 

FFM – Se nós não conseguirmos alimentar esta coisa de fazermos coisas e ficarmos sentados atrás de uma secretária à espera de que nos batam à porta, alguém da Arábia Saudita, por exemplo, a dizer o que querem que nós façamos, isto não funciona. Os tipos lá dos outros lados também estão à espera de que as pessoas vão lá dizer o que devem fazer na terra deles? Não foi assim que fizeram na Alemanha, nem foi assim que fizeram na França. Ninguém lá vai explicar aos senhores o que é que vão fazer, porque eles sabem o que têm de fazer. 

Em Tires, você saía do avião e entrava na gare. Aquilo era uma coisa tétrica. A gare do aeródromo, era uma coisa tétrica, tudo a cair. Uma pessoa parecia que estava a aterrar em África. Isto era uma vergonha. A torre de controlo, acima de 2.000 metros, não mandava, era Lisboa que mandava. Era tudo um embuste. Agora estamos a construir uma coisa nova…

Nós vivemos é com muita animação, que mascara muita coisa, mas temos muitas dificuldades aqui. E o que mais me assusta é que as pessoas não querem falar das dificuldades, porque acham que falar das dificuldades as diminuiu.

É como falar do cemitério. Eu tenho de falar do cemitério, que não funciona. Eu não posso ir ver a campa dos meus familiares sem pisar as campas do lado. Passaram 40 anos. Eu tenho de ter um cemitério em que, em vez de ter 200 tampas, tenha 112, que é o que estamos a fazer. Custa dinheiro? Custa, mas é preciso. Diziam-me: “Vais tratar do cemitério. Estás maluco? Mas quantos votos é que vais ter?” Ora, se eu só for tratar do que dá votos, isto qualquer dia cai tudo. 

CL – É a política das ciclovias?

FFM – As ciclovias são outro embuste. Onde é que estão as bicicletas? Desapareceram. Porquê? Porque as bicicletas não eram do município. Eram negócios que foram vendidos a outras pessoas e que acabaram por ir embora. Agora veio o senhor das trotinetas. Qualquer dia, vem aí outro senhor dos triciclos e passamos a ter triciclos. Então, mas isto é maneira de planear o território?  

CL – Como é que correu o início do ano lectivo este ano?

FFM – O início do ano lectivo correu muito bem aqui em Cascais e, particularmente, em São Domingos de Rana. Há investimentos que têm de ser autorizados pela Câmara. Nas escolas, por exemplo, se quiser recuperar um parque infantil que tem escorregas, que tem isto e aquilo, a partir de determinado volume tenho de informar a Câmara, que autoriza ou não as obras. Temos alguma autonomia naquilo que são as despesas correntes e temos conseguido atualizar o parque escolar.

Agora, vamos fazer um investimento de 140 mil euros na escola de Caparide, que é a pior escola que nós temos aqui. Esta obra tem de ser pensada a 10 anos, não pode ser pensada para agora nem para um futuro a curto prazo. Aquilo não é um terreno para uma escola, trata-se de uma encosta. É como se fosse um edifício de três pisos. É uma miséria. Os miúdos estão lá em cima, depois vêm cá para baixo, não faz sentido nenhum. É preciso arranjar um terreno, permutar com aquele e fazer uma escola nova. Estamos a falar de 300/400 mil euros. É um fim-de-semana de corridas ou três concertos do Cool Jazz.

“A FREGUESIA MERECE ESTAR AO NÍVEL DAS OUTRAS”

CL – Como é que está o diálogo com as restantes forças políticas presentes nos órgãos da JF? Têm sido desenvolvidos projectos em colaboração?

FFM – Está bom. Como eu disse na última Assembleia, os partidos da oposição desapareceram. Com grande pena minha, desapareceram. E eu acho que desapareceram porque estão envergonhados. Eu, se calhar, no lugar deles, também desaparecia. 

CL – Desapareceram em que sentido? 

FFM – No sentido em que os líderes desses partidos, aqui na freguesia, não acompanham as actividades. Eu estive aqui vários anos, cheguei a ser líder do maior partido da coligação liderada pelo PSD, porque isto também tem uma organização local, que se chama Núcleo do PSD de São Domingos de Rana, do qual fui presidente durante 2/3 anos. E eu andava aqui todos os dias na rua, acompanhava o que se passava, ia ver a bola, ia ver isto, ia ver aquilo, ia às inaugurações. Quer dizer, eu se não souber o que se está a passar, depois venho aqui às assembleias dizer o quê? Venho aqui dizer nada, que é que eles fazem hoje.

CL – Como é que perspectiva um próximo mandato seu?

FFM – A acontecer, perspectivo um mandato com mais trabalho. Seguramente, o próximo mandato será, isso não tenho dúvidas nenhumas, o meu último mandato aqui. Há muita coisa que eu quero fazer, que não quero deixar por fazer. As pessoas aqui sabem um bocadinho das minhas loucuras, porque eu acho que a freguesia merece. A freguesia merece, no mínimo, estar ao nível das outras todas. 

Queremos também fazer o velódromo em Matos Cheirinhos. No passado dia 27 de Outubro, estivemos com o senhor Presidente da Federação no terreno onde vai ser construído a colocar a primeira pedra, foi um acto simbólico daquilo que vai ser o Velódromo de Tires, que vai funcionar como um complexo desportivo. O que nós queremos fazer, não sei se vamos conseguir, é construir o Velódromo por dentro e uma pista de Atletismo por fora. 

O que eu gostava era que nós criássemos aqui algo diferenciador. Os outros já têm a praia, os outros já têm o Turismo e nós apostarmos em ser uma freguesia de Desporto e de Cultura para o futuro. Nós temos de nos afirmar com estas duas vertentes: Desporto e Cultura. E se, em cima disto, conseguirmos pôr aqui uma universidade e conseguirmos ter um bocadinho de Educação, eu acho que está bem, a Educação é Desporto e é Cultura. 

CL – Em relação à universidade, tem em mente alguma área específica?

FFM – Tenho. Tenho muita pena que o engenheiro Miguel Pinto Luz tenha ido embora, porque o projecto estava praticamente pronto. Nós apresentámos o projecto, já tínhamos os parceiros e já tinham sido feitos contactos com a reitoria da Universidade Nova. Nós queríamos fazer aqui um Centro de Artes. Tínhamos feito contactos com a universidade de Londres de Artes. O edifício era aquele da Bosch, ao lado da Motivo, também comprado pela Câmara. Tudo isso estava pensado para ter acontecido.  

Não existe em Portugal uma Universidade de Artes. Há escolas particulares, mas uma universidade de artes no seio da academia não há. E nós tínhamos este privilégio de ter os senhores em Londres a dizer “sim, senhor, estamos interessados”, até porque eles já têm uma parceria com a Universidade Nova. Os contactos estão todos feitos, tenho aí os e-mails, mas o senhor vice-presidente foi-se embora para o governo e eu acabei por desistir.

CL – Como é que vê o futuro da Freguesia?

FFM – Eu vejo o futuro da Freguesia de duas maneiras. A primeira é que as pessoas estão muito empenhadas e muito participativas em que isto melhore. Quando cá cheguei, as pessoas não queriam participar, não acreditavam, não tinham gosto, não tinham orgulho. E hoje sinto que as pessoas começam a ter orgulho, começam a ter gosto, começam a ser mais exigentes, começam a ser mais ambiciosas. E isso, para mim, eu acho que é uma grande vitória. Ao contrário de alguns, que ficam muito chateados e preocupados, eu gosto muito que as pessoas se empenhem e sejam ambiciosas. 

Por outro lado, espero que o investimento que vamos fazer e que o desenvolvimento que temos previsto não nos estrague a freguesia. Ou seja, que não se faça o que se tem feito, que se construa mais do que aquilo que é a capacidade que nós temos para absorver. Falta-nos habitação? Falta. Falta-nos habitação a custos controlados, ou para aqueles que se designam por classe média, falta, mas que isso não sirva, agora, para começarmos a construir desalmadamente aqui em São Domingos de Rana e que isso depois traga os problemas que já traz no resto do concelho. 

Em resumo, eu espero que as pessoas continuem a empenhar-se, continuem a participar, continuem a ser ambiciosas no sentido do seu desenvolvimento, mas que o desenvolvimento que não depende de nós, que é gerido directamente pela Câmara, não descaracteriza a freguesia e não crie aqui um problema de desenvolvimento que nos traga depois uma dificuldade de circulação, uma dificuldade da gestão das expectativas das pessoas e, sobretudo, que aumente os guetos que nós já cá temos. 

Nós somos a freguesia com maior número de bairros municipais, temos 14. Ninguém tem tantos. Apesar disso, não há aqui tiros, não há aqui facadas, não há aquelas coisas que há nas freguesias todas. Há roubos? Há. Há droga? Há. Há prostituição? Há. Mas tudo na justa medida e tudo controlado. Portanto, eu espero que, pelo menos enquanto eu cá estiver, isto não se torne tudo um descontrolo e que possamos continuar a desenvolver a freguesia, mas harmoniosamente.

Foto: Paulo Rodrigues

Autor: Luís Curado

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