António Nunes: “O que importa é manter um crescimento sustentával”

Uma paixão pela Hotelaria e Turismo, ainda viva, posta de lado para empreender uma ‘viagem’ prolongada, que já soma 45 anos a bordo de um projecto comodamente instalado no terceiro lugar do ranking entre os seus pares. Durante o trajecto, a luta não tem sido fácil, condimentada por muita resiliência, bastante resistência e capacidade de adaptação, o que permitiu à NUCASE, uma empresa de espírito familiar, circular em velocidade cruzeiro, estável, sem sobressaltos, num mar de águas tantas vezes agitado.

Ao comando das operações, como Director Executivo, está António de Jesus Nunes, um beirão de gema, natural de Pedrógão Pequeno (Sertã), que, aos 69 anos, continua a manter o ritmo de sempre, realçando que a vida é feita de opções. Um argumento inquestionável, sobretudo quando defendido por alguém que garante gostar do que faz. Sobre o futuro, os planos estão delineados e a sucessão passará, naturalmente, pelos dois filhos do empresário que fundou, em 1978, a empresa ligada às áreas da Contabilidade, Fiscalidade e Gestão de Recursos Humanos.

Sediada em Carcavelos, a NUCASE aproxima-se do meio século de existência, renovando diariamente uma aposta, que é também uma das suas imagens de marca: manter-se actual numa adaptação permanente às novas tecnologias. “A nossa estrutura foi pensada para apoiar empresários e empreendedores de acordo com a sua necessidade e com soluções feitas à medida”, acentua António Nunes, que gosta de salientar também que uma das mais importantes valências da equipa que lidera é a proximidade estabelecida com os clientes.

Foto: Paulo Rodrigues

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – A NUCASE festeja este ano o seu 45.º aniversário. Que etapas destaca ao longo deste percurso?

António Nunes (AN) – Os primeiros anos foram importantíssimos, foi a fase de arranque. Tivemos a reforma fiscal, nomeadamente com a introdução do IVA, IRS e IRC. Foi uma oportunidade que nós tivemos e que agarrámos bem para conseguir desenvolver o nosso negócio. Antes disso ainda, tivemos o Plano Oficial de Contabilidade. Até aí, não era obrigatório haver um plano. Cada um fazia as coisas como entendia. As pequenas e médias empresas nem sequer tinham que entregar a contabilidade organizada. Essa foi a fase determinante que nós agarrámos para, a partir daí, evoluir.    

CL – Com quantos colaboradores começou a funcionar a empresa em 1978? Com quantos conta actualmente?

AN – Em 1978, éramos dois sócios, executivos. Começámos a funcionar com zero colaboradores. Actualmente, temos à volta de 160 colaboradores.

CL – Quantos clientes tem a empresa?

AN – Temos cerca de 1.600 clientes, alguns dos quais multinacionais. Temos desde empresários em nome individual, microempresas, pequenas e médias empresas e multinacionais. Trabalhamos em regime interno e em regime externo. Dispomos de equipas externas que vão ter com os clientes e fazem as coisas lá. Contamos também com algumas equipas residentes a trabalhar nas instalações dos clientes.

CL – Os anos de pandemia COVID-19 afectaram a actividade da empresa? De que forma? Recorreram ao teletrabalho?

AN – Foi outra das fases importantes e marcantes na história da NUCASE. A pandemia apareceu em Portugal, em Março de 2020, e ficámos todos confinados. Grande parte do nosso pessoal foi para teletrabalho. No espaço de poucas horas, conseguimos colocar 80 por cento dos nossos funcionários a trabalhar em casa, em teletrabalho, recorrendo a equipamentos nossos e a outros que alugámos. Foi um período muito interessante, até pela preocupação com a segurança do sistema informático. Isso foi o que mais nos preocupou, a segurança do sistema informático e da documentação que circulava. Felizmente, correu tudo bem. Foi um esforço enorme, mas compensou.  

CL – Receou que a COVID-19 levasse ao encerramento de muitas empresas, tal como aconteceu com a crise económica de 2008?

AN – Encerraram menos empresas do que eu cheguei a pensar, numa percentagem baixa. O Governo aí esteve muito atento e disponibilizou um conjunto de apoios que foram sendo dados e que foram muito eficazes e ajudaram as empresas, de facto. Quando foi a crise financeira de 2008 e nos anos seguintes, aí sim, foi grave, foi uma ventania que levou uma quantidade de empresas à frente. Aquando da COVID-19, eu receei que isso pudesse voltar a acontecer, mas não aconteceu. Com os apoios que foram sendo dados e alguma ginástica conseguiu-se evitar isso. As coisas correram bastante melhor do que eu cheguei a imaginar. A sociedade reagiu de uma forma mais imediata.

Durante a crise financeira de 2008, a dívida de clientes à NUCASE chegou a ser da ordem de 1,3 milhões de euros. E nós a termos de pagar o IVA desse valor ao Estado sob pena de enfrentarmos um processo-crime. E com os bancos a cortarem financiamentos, linhas de crédito, contas caucionadas… Foi uma ginástica brutal, dos piores momentos que eu vivi na NUCASE ao longo da nossa história.

Foto: Paulo Rodrigues

“SOMOS PESSOAS QUE TRABALHAMOS PARA PESSOAS”

CL – Sendo, por génese, uma empresa de Contabilidade, a NUCASE tem alargado os serviços que disponibiliza?

AN – A base é a Contabilidade e Fiscalidade. Depois vem o processamento de salários, os Recursos Humanos. Essa é uma fatia importante do nosso negócio actual. Fazemos processamento de salários para cerca de 10 mil funcionários/colaboradores. Temos empresas nossas clientes só para esta área, nomeadamente multinacionais. Seguem-se os Sistemas de Informação, sem grande relevância, já que ocupam uma percentagem reduzida no nosso volume de negócios. E temos ainda a Consultoria de Gestão, que esperamos que, dentro de dois ou três anos, possa ter também um papel importante na nossa actividade. Achamos que esta área vai ser o futuro, até porque a Contabilidade vai ser cada vez mais automatizada.

CL – O que mais o preocupou ao longo destes 45 anos de actividade?

AN – Este tipo de empresa é uma empresa que lida com as pessoas para tratar de assuntos pessoais. Somos pessoas que trabalhamos para pessoas no sentido de arranjar soluções para elas. Foi sempre este o meu espírito. Existe uma relação muito próxima e faço questão nisso. Todos os dias, peço aos colaboradores para que tenham muita atenção à relação com as pessoas. Saber ouvir, saber arranjar soluções. Nem sempre é possível arranjar as soluções que as pessoas pretendem, mas é preciso saber ouvi-las.

A simpatia e a interacção, que deve ser muito humanizada, são importantes. Eu luto sempre muito para que a relação com os nossos colaboradores e os nossos clientes seja o mais humanizada possível. A principal preocupação sempre foi, e continuará a ser, com as pessoas e o seu bem-estar. As pessoas funcionarem como números não é uma coisa que eu queira para a NUCASE e espero manter isso até poder, porque o Mundo muda muito, a grande velocidade, e nunca se sabe o que aí vem. Por vezes, temos de fazer ajustes para acompanhar…

CL – A NUCASE está a cinco anos de comemorar meio século de existência. Já está a ser planeada a passagem de testemunho?

AN – Espero que esse evento seja bastante interessante e marcante, nomeadamente para mim, pois será também o momento eu que eu irei dar praticamente o fora.  Estou nesse processo de passagem do testemunho já há muitos anos. É um processo que não é fácil, porque isto é uma empresa de prestação de serviços e é muito complicada essa transição. Espero ter saúde para poder chegar aos 50 anos da NUCASE. E depois continuarei a andar por aí, mas de uma forma mais distante.

A passagem da empresa será para os meus dois filhos, um rapaz e uma rapariga, que já cá estão há 12/15 anos. Já são eles, acompanhados por outra pessoa que faz parte do Conselho de Administração (Jorge Cadeireiro), que fazem a gestão do dia-a-dia. É assim que eu pretendo. Quando morrer, gostava de ir sossegado no caixão com a certeza de que tudo ficou arrumado. Neste momento, eu já não sou administrador. O presidente do Conselho de Administração é a minha filha e o meu filho Tiago é o vice-presidente. Sempre lutei muito para que a minha transição seja feita sem grandes problemas, nomeadamente financeiros, para que haja tranquilidade.

CL – O que ainda falta fazer na NUCASE? Quas os projectos futuros?

AN – A NUCASE fez muitos e grandes investimentos há cerca de 20 anos, nomeadamente em instalações, no seu edifício-sede e nos restantes escritórios que ocupamos, que são nossos. Foi muito dinheiro investido, mas felizmente as contas estão estabilizadas. Essa foi uma grande luta que eu travei para que os meus filhos não herdem problemas quando eu decidir afastar-me. O grande projecto para o futuro será a aposta na Consultoria.

CL – A NUCASE já conquistou vários prémios? Quais os mais importante, que mais gosto deram ter recebido?

AN – Por exemplo, PME Excelência, PME Líder, Prémio PME Inovação COTEC-BPI. Recebemos também a Certificação de Qualidade ISO 9001, a referência internacional para a certificação de gestão em qualidade, que já temos há 20 anos. E agora, mais recentemente, no ano passado, fomos também certificados pela norma 27.001, que é o padrão e a referência internacional para a gestão da Segurança da Informação. Os clientes, sobretudo as multinacionais, são muito exigentes em questões de segurança.

CL – No seu entender, quais as principais dificuldades que as empresas portuguesas enfrentam actualmente?

AN – A inflação e as taxas de juro que as empresas endividadas estão a pagar, a exemplo do que acontece com as pessoas singulares, pesam bastante. De resto, em termos dos negócios em si, é evidente que hoje em dia a exigência é diferente. As empresas têm que ser muito mais sérias na geração de negócio. Aqui há uns anos, ia-se fazendo e tal, mas hoje em dia exige-se muito mais competição, o grau de exigência é muito maior. Contudo, em geral, estamos a viver um bom momento.

O pior que afecta as empresas, a sua actividade e o seu desenvolvimento, é a falta de recursos humanos. A falta de pessoas qualificadas, mas não só, é complicado. Os jovens estão a sair para o estrangeiro. As pessoas têm dificuldade em construir uma estabilidade. Os ordenados estão a evoluir, mas o certo é que o custo de vida é muito elevado, os transportes são complicados, os combustíveis são complicados, as casas são complicadas, as pessoas vivem de facto com dificuldades. Em geral, o grande desafio das organizações é, e vai continuar, a ser os Recursos Humanos, conseguir reter as pessoas. 

CL – Num Mundo cada vez mais tecnológico, como têm corrido as constantes adaptações aos novos desenvolvimentos neste domínio?

AN – A Tecnologia veio ajudar-nos muito no nosso trabalho quotidiano, nomeadamente na ligação com as entidades governamentais, a Autoridade Tributária, a Segurança Social e outras. Nós, há poucos anos atrás, tínhamos três pessoas no serviço externo. Agora, temos uma e metade já era suficiente. Toda a ligação física que havia com as repartições públicas deixou de existir, salvo raras excepções. De resto, é tudo feito por via da Tecnologia. Portanto, tornou-se mais fácil, tornou-se mais rápido, mais eficaz. Era impensável ter 1.600 clientes sem recorrer à Tecnologia que temos hoje.

Nem sempre os serviços informáticos da Autoridade Tributária e da Segurança Social estão devidamente operacionais, os contabilistas queixam-se muito, mas o certo é que vieram efectivamente facilitar muito a nossa vida. E isso significa também que o grau de erro é mínimo. As operações que fazemos, de alguma forma, são controladas e não há problemas de maior.

Foto: Paulo Rodrigues

“A AUTORIDADE TRIBUTÁRIA DEVIA ACTUAR MAIS NO TERRENO”

CL – A Fiscalidade actual, depois de todas as adaptações necessárias derivadas da nossa adesão à União Europeia, e as constantes alterações legislativas, tornaram esta actividade mais complexa. Na sua opinião, o que é que ainda faz falta na fiscalidade portuguesa? Ou deveria ser alterado?

AN – A fiscalidade portuguesa tem um problema: afastou-se da realidade quotidiana das empresas. Vive e controla à distância as operações e esse controlo é feito por aquilo que aparece nos sistemas. A Autoridade Tributária (AT) devia actuar mais no terreno, tentando perceber aquilo que são as actividades económicas e aquilo que, por vezes, em termos mesmo concorrenciais, é mau para as organizações, porque continua a haver muitas actividades que continuam a ter alguns comportamentos menos correctos. A AT devia descer mais abaixo, estar mais atenta em termos de fiscalização. Parece que não há meios humanos suficientes para isso. Depois, há aqueles que arriscam e safam-se…  Já fizemos rescisões de contratos com clientes, porque não fizemos aquilo que eles queriam. Fora de causa! Estamos totalmente disponíveis para encontrar soluções para ajudar os nossos clientes, mas sempre dentro daquilo que é a legalidade. Não praticamos uma contabilidade por encomenda.

No resto, a nível de impostos está tudo dentro daquilo que são as exigências europeias. Estamos perfeitamente enquadrados e não ficamos nada atrás de outros países. 

CL – A NUCASE está instalada na região da Grande Lisboa. Esta presença pode vir a ser alargada a outras regiões?

AN – Não. Ainda tentei fazer uma investida na zona da Covilhã. Na altura, fizemos um estudo de mercado e cheguei à conclusão que não fazia sentido, porque o mercado é diferente, tem outras especificidades e dificuldades. Por isso chegámos à conclusão de que não valia a pena.

Só trabalhamos na zona da Grande Lisboa. Eu sou apologista do crescimento orgânico e espero que assim continue. Estamos bem, não temos pressa. A NUCASE, a nível das 500 maiores empresas de Contabilidade do País, está no número três. Não vale a pena ter ilusões, o que importa é manter um crescimento sustentável.

CL – Alguma vez foi equacionada a internacionalização da empresa?

AN – Chegámos a estar em Angola, durante uns oito anos, na década de 2010. Perdemos lá muito dinheiro. Fomos empurrados por muitos dos nossos clientes, que na altura começaram a ir para Angola. Fomos com eles. O negócio local não correu muito mal, correu mais ou menos, mas o problema é que nós tínhamos uma quantidade de custos que eram suportados aqui por nós, pela sede em Portugal, nomeadamente o supervisor do escritório, que tinha que ser bem pago, as comunicações… tínhamos uma linha directa que custava uma pipa de massa, e não conseguimos recuperar o investimento. Enfim, foi uma boa experiência, mas com custos dolorosos. Chegámos também a fazer um estudo de mercado em Moçambique, mas não chegámos a avançar. 

CL – O que distingue a NUCASE das restantes empresas do ramo? Quais as suas mais-valias?

AN – Eu acho que, acima de tudo, é a humanização das relações. Porque, do ponto de vista técnico, nós fazemos bem as coisas, mas os outros também fazem, uns melhor, outros pior. E também não é pelos preços praticados. Nós distinguimo-nos pelo facto de termos sempre a preocupação da proximidade com os nossos clientes, ouvi-los e tentar encontrar soluções adequadas às suas necessidades. As soluções são diferentes de cliente para cliente, não oferecemos um produto estandarizado. Cada cliente é um cliente. Os nossos serviços são personalizados. Os nossos clientes sabem perfeitamente quando aqui entram quem é o contabilista, quem é o supervisor.

CL – Como antevê o futuro da empresa?

AN – Essa é uma preocupação que tenho. A NUCASE, como qualquer empresa nesta área, é uma empresa com muito complexidade ao nível daquilo que faz, dos serviços que presta. Nós temos, todos os dias, de fazer com que as coisas aconteçam, temos de cumprir com as obrigações fiscais, responder perante os clientes, não pode haver falhas.

A minha grande preocupação para o futuro é tentar perceber se nós vamos conseguir manter-nos na linha da frente, na inovação e em tudo o resto. Nos tempos que vivemos, não sei se conseguiremos manter esta linha, se conseguiremos manter com segurança o quotidiano para que a NUCASE possa ter continuidade. Eu já pensei várias vezes se estarei no caminho certo. Pode haver alternativas de negócio que me levem a optar por dar início a uma nova etapa. Vivemos um momento muito difícil, muito complicado, que obriga a uma luta diária.

Para já, e isso agrada-me muito, a principal preocupação está resolvida, que é a estabilidade financeira da empresa. A NUCASE, em termos de organização, está bastante bem estruturada, muito bem organizada, tudo devidamente controlado, mas as coisas evoluem muito e, amanhã, não sabemos o que é que vai acontecer. 

CL – Tem uma vasta experiência no ramo hoteleiro. Passou por vários hotéis. O que o levou a trocar a paixão pela Hotelaria e Turismo para iniciar uma nova actividade à frente da NUCASE?

AN – Comecei a trabalhar na Hotelaria quando sai da minha terra, com 17 anos, no Francfort Hotel, no Rossio, em Lisboa, uma unidade dos Hotéis Alexandre de Almeida. Dois anos mais tarde, fui para o Palace Hotel do Bussaco, onde estive três ou quatro meses. Voltei para Lisboa, para o Hotel Europa, sempre dentro da mesma organização, Hotéis Alexandre de Almeida, que inclui também o Hotel Praia-Mar e o Palace Hotel da Curia. Passei por esses hotéis todos e ganhei uma grande paixão pela Hotelaria e pelo Turismo. E gostava de poder, um dia, voltar a desenvolver um projecto nesta área. Ainda não perdi essa esperança. Ainda não desisti desse sonho. 

CL – Ou seja, essa paixão ainda não está totalmente adormecida?

AN – Às vezes, apetece-me fazer coisas. Isto é mesmo uma paixão. O Turismo é uma paixão. Sou um apaixonado por essa actividade. É também um negócio de pessoas para pessoas e de soluções diversas… vamos ver. Cada dia é um dia. Em última instância, eu vivo das rendas dos edifícios. 

Foto: Paulo Rodrigues

Autor: Luís Curado

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