“Choca-me uma mãe com um filho receber apenas 140 euros de rendimento mínimo”

Maria do Céu nasceu em Angola a 1 de Agosto de 1968. Veio para Portugal com a sua mãe, o padrasto e os dois irmãos a 1 de Novembro de 1975. Ao fim de três meses acampada no aeroporto de Lisboa, a família foi alojada em Albufeira e de dois em dois anos via-se na obrigação de mudar de residência. Foi nas barracas do Vale do Jamor, em Oeiras, que Maria do Céu começou a ser conhecida como a Tia Céu pelo seu ímpeto de ajudar todos os que precisavam, um dom que herdou da sua mãe.

O início do plano de erradicação das barracas no concelho de Oeiras levou a que, em Dezembro de 1991, Maria do Céu recebesse um apartamento no bairro de Laveiras, em Caxias, onde viveu durante 22 anos prestando sempre apoio à comunidade. O desemprego levou-a a criar a Solfraterno, uma associação de solidariedade social que, depois de vários anos alojada por baixo das bancadas da Associação Desportiva de Oeiras, recebeu este ano um novo espaço em Carnaxide, cedido pela Câmara Municipal de Oeiras.

Foto: Paulo Rodrigues

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – De onde vem esta sua vontade de ajudar os outros?

Tia Céu (TC) – Quando vivíamos nas barracas do Vale do Jamor havia um clima de camaradagem entre os moradores e quando alguém vinha bater à nossa porta, a pedir alguma coisa, lembro-me de a minha mãe nunca recusar. Eu segui este exemplo. Na altura, tomávamos banho numas grandes latas de tinta cuja água aquecíamos com resistências, mas muitos dos idosos do bairro não tinham possibilidade para adquiri-las. Então, quando recebi o subsídio de Natal fui comprar resistências e distribui pelos velhotes todos. Quando nos mudámos para Caxias dei seguimento a esta minha vontade de apoiar as pessoas mais vulneráveis. Quando alguém precisava de sair e não tinha onde deixar os filhos eu ficava com os miúdos; quando alguém morria e a família não tinha dinheiro para o funeral eu organizava um peditório pelo bairro; até fiquei com crianças que eram maltratadas pelos pais. Na altura trabalhava na Câmara Municipal de Oeiras e apoiava nos beberetes. No final trazia as sobras para casa, dividia-as em saquinhos e distribuía pelos séniores do comunidade.

CL – Como surgiu a ideia de criar uma associação de solidariedade social?

TC – Como não era portuguesa não pude passar a efectiva na Câmara Municipal de Oeiras. Fiquei desempregada e fui discriminada devido à minha origem. Estive assim durante muito tempo. Nem sequer tinha dinheiro para as fotocópias e para os documentos que precisava de entregar na Segurança Social ou no Centro de Emprego… Como é que se pode pedir a um desempregado para gastar dinheiro nestas coisas?! Mas mesmo nestas condições, continuei sempre a ajudar quem precisava. Foi por esta altura que as pessoas começaram a perguntar-me porque é que eu não criava uma associação, mas eu achava que isso dava muito trabalho. Preferia ir prestando apoio sem as burocracias todas. Até que me convenceram e, em Outubro de 2012, juntei-me a alguns amigos e formámos a Solfraterno. Na altura, os pais que tinham os filhos a jogar na Associação Desportiva de Oeiras fizeram-se todos sócios de forma a que pudéssemos ter dinheiro para registar a Associação… ainda foram 350 euros. O, então, presiden- te da Junta de Freguesia de Oeiras, Carlos Morgado, cedeu-nos o espaço nas galerias do Estádio Municipal de Oeiras que servia de armazém para a loja social da Solfraterno.

Foto: Paulo Rodrigues

CL – Que apoios presta a Associação?

TC – Contando com as emergências apoiamos 90 famílias distribuindo cabazes com alimentos, roupas, calçado, brinquedos, equipamentos… tudo o que seja necessário. Apoiamos no pagamento dos tratamentos de 12 crianças com paralisia cerebral. Inclusive tratamentos com cães e cavalos que o Estado não paga. Isto só é possível graças à recolha de tampinhas que fazemos com o apoio de várias empresas, como a Luís Simões, a Interclima e a Tecnovia, que nos ajudam a transportar as tampinhas até ao Alentejo… A Câmara de Oeiras também faz uma carga uma vez por ano. Damos todo o tipo de apoio: levamos pessoas a consultas, a tratamentos, fazemos companhia, tanta coisa. Neste momento temos duas famílias em situação de carência extrema. Já foram sinalizadas às técnicas e estamos a ver o que pode ser feito. Choca-me como é que uma mãe com um filho recebe apenas 140 euros de rendimento mínimo. A Segurança Social tem de fazer mais pelos nossos. Se faz pelos outros, pelos nossos tem de fazer o dobro!

Foto: Paulo Rodrigues

Clique aqui para ler o artigo completo na nossa edição em papel de Janeiro

Autor: Raquel Luís

Deixar um comentário