Teatro Passagem de Nível: Para recordar a História da Amadora

‘Amadora e o Pedro dos Coelhos’, a 40.ª produção da companhia Teatro Passagem de Nível, que tem sido apresentada desde o início de Abril no Auditório de Alfornelos (Praça José Afonso, 15 E), na Amadora, está a registar um êxito assinalável com salas quase sempre esgotadas. O texto da peça é da autoria de José Ruy e a encenação é da responsabilidade de Porfírio Lopes. Os actores são amadores e nem sempre é fácil reunir todo o elenco. Isso tem impedido a apresentação regular da peça. Contudo, sempre que o espectáculo sobe ao palco o público não tem poupado nos aplausos. Tudo gira em torno de duas personagens centrais, o Zé Pacóvio e o Manuel Grilinho, que resolvem ir comer um guisado de coelho à Casa de Pasto de Pedro Franco, dando origem a uma troca de experiências gratificante sobre a História da Amadora.

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – A peça é interpretada por actores amadores. Fale-nos um pouco deste espectáculo.

Porfírio Lopes (PL) – O espectáculo é feito por um grupo que tem 38 anos (foi fundado em Maio de 1981, na cidade da Amadora) e que já esteve instalado em diferentes locais. Desde 1997, está sediado aqui no Auditório de Alfornelos. Tem como princípio da sua actividade apresentar apenas autores portugueses. Este espectáculo, que é escrito por José Ruy, tem a vantagem de nos trazer à memória determinados elementos da História da Amadora e determinados momentos da Literatura Portuguesa. Ao utilizar a personagem ‘Pedro dos Coelhos’ no seu célebre restaurante aqui na Porcalhota (um ex-libris do concelho referenciado por Eça de Queirós no romance ‘Os Maias’), a peça permite também falar da Amadora. E nesta altura, em que se comemoram 40 anos da Amadora Cidade e Município, foi um momento oportuno para apresentarmos este espectáculo.

CL – Quem são as personagens principais da peça?

PL – A peça tem cerca de duas horas e não tem uma história com princípio, meio e fim, um desenlace… É composta por pequenas histórias que se entrelaçam e que se complementam estando sempre ligadas ao ‘Zé Pacóvio’ e ao ‘Manuel Grilinho’, duas personagens da Banda Desenhada do tempo do ‘Mosquito’, uma revista célebre que era feita aqui na Amadora, na Porcalhota.

CL – Em que dias é apresentado o espectáculo?

PL – O espectáculo não tem tido uma apresentação regular. O elenco é grande, são 18 actores amadores, e é difícil conseguir a disponibilidade de todos. Vamos apresentando a peça sempre que é possível. Neste momento, temos uma deslocação prevista para dia 2 de Novembro, para participar num festival de teatro no Pinhal Novo, e vamos repor de novo o espectáculo no Auditório de Alfornelos dia 27 de Outubro (17h00). O espectáculo não tem uma programação regular, não se mantém durante um mês ou 15 dias diariamente na mesma sala, mas tem apresentações episódicas, que são marcadas de tempo a tempo e que fazem parte de uma programação aqui do auditório, que não tem apenas teatro, também tem música, tem poesia, há um serão dedicado aos poetas no final de cada mês, na última sexta-feira. E participamos ainda nos ‘Encontros Imaginários’, numa parceria com a Associação Amadora Passado Presente e Futuro.

CL – Se uma pessoa quiser assistir à vossa peça, como é que pode saber quando é que vocês actuam? Quais os dias e as horas dos espectáculos?

PL – Pode procurar na internet na página do Teatro Passagem de Nível (http://tpnivel.blogspot.com). Pode também confirmar as datas dos espectáculos no boletim de programação cultural da Câmara Municipal da Amadora. E pode contactar-nos ainda através do telefone 914 497 064 ou pelo email teatropassagemdenivel@gmail.com

“TEMOS SIDO ACARINHADOS PELO PÚBLICO”

CL – O cenário utilizado no espectáculo é muito interessante. Quem é o autor?

PL – O cenário foi imaginado. Nós trabalhamos em algumas áreas com profissionais. Neste caso, colaborou connosco o cenógrafo Paulo Oliveira, um profissional que faz carreira disso e que criou este cenário. A ideia do espectáculo, do espaço cénico onde as cenas vão decorrendo, é a cozinha de um restaurante, o Pedro dos Coelhos na Amadora, portanto o cenógrafo recriou a cozinha criando uma chaminé circular quase que a lembrar, eu pelo menos tenho essa ideia, as chaminés das cozinhas do Palácio de Sintra.

CL – O que pode dizer mais sobre este espectáculo?

PL – Quando ouvirem falar na peça ‘Amadora e o Pedro dos Coelhos’ fiquem curiosos e procurem conhecer o espectáculo. Por duas boas razões. A primeira, porque é um texto de uma pessoa fantástica, o José Ruy. Esta foi a sua primeira incursão na escrita para Teatro. Estava habituado a escrever para Banda Desenhada, aqueles balões com aquelas frases, e isto foi um desafio que lhe colocámos e, espantosamente, obtivemos uma resposta imediata e o texto em poucos dias, foi um prazo extremamente curto desde o pedido até à entrega do texto. Por outro lado, a peça dá também a possibilidade de conhecer pormenores da História da Amadora, com referências à História da Amadora, num espectáculo divertido, animado, que dá para esquecermos um pouco os problemas da vida.

CL – Com que apoios contam?

PL – Existe na Amadora, ao nível da Câmara Municipal, um Programa de Apoio ao Movimento Associativo (PAMA). Todos os anos, vamos apresentando as nossas propostas, os nossos projectos, quer de produção quer de funcionamento. A Junta de Freguesia da Encosta do Sol, onde estamos instalados, também tem um programa idêntico. Além disso, nós, desde o ano passado, entrámos numa parceria com a Câmara Municipal da Amadora no âmbito do festival, ou da Mostra de Teatro das Escolas, e isso também tem a envolvência de verbas, de recursos, para as produções dos espectáculos.

CL – A peça ‘Amadora e o Pedro dos Coelhos’ tem vindo a registar casas cheias com lotação esgotada.

PL – Sim, tem tido sempre um bom público, que nos tem acarinhado. O grupo Teatro Passagem de Nível está de boa saúde e tem vontade de fazer muita coisa. Tem muitos sonhos na bagagem para concretizar.

EX-LIBRIS DA AMADORA

O Restaurante Pedro dos Coelhos foi durante décadas, até ao início do século passado, um ex-libris da Amadora. A popular Casa de Pasto de Pedro Franco, localizada no lugar da Porcalhota, ficou famosa pela receita de ‘Coelho à Pedro dos Coelhos’, que atraía muitos clientes ao local, entre os quais o escritor Eça de Queirós, que referiu o apetitoso guisado no seu romance ‘Os Maias’: “Felizmente estavam chegando à Porcalhota. O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado.”

Popular entre os boémios de Lisboa nas décadas de 1860 e 1870, o Restaurante Pedro dos Coelhos entrou em declínio após ter mudado de donos. No início da década de 1960, o prédio onde estava instalado o estabelecimento ainda existia, acabando mais tarde por ser demolido. Pedro Franco, nascido no segundo reinado de D. Maria II (1834-1853) e falecido em 1906 ou 1907, com cerca de 60 anos, tem uma rua com o seu nome na freguesia da Falagueira, Amadora.

RECEITA FAMOSA

Pode confirmar aqui a famosa receita original de ‘Coelho à Pedro dos Coelhos’, se quiser experimentar em casa: Recolhe-se o sangue do animal juntando um pouco de vinagre, para não coalhar. Corta-se o coelho em pedaços. Num tacho, preferencialmente de barro, juntam-se um pouco de banha, dentes de alho e cebola picados, levando tudo a alourar. A seguir, adicionam-se os pedaços de coelho, bastante tomate, salsa picada, sal e pimenta a gosto e, por fim, um fio de azeite. Leva-se o coelho a cozer em lume brando. Quando estiver cozido, junta-se o sangue misturado com o vinagre, adicionando um pouco de água, e leva-se mais uma vez a lume brando por pouco tempo. Num tacho à parte, com a água da cozedura do coelho, faz-se o arroz, que acompanha este prato. (Fonte: Câmara Municipal da Amadora)

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