Eduardo Parreira: “Cada novo atirador tem de ser um praticante consciente e seguro”

Com quase três décadas de história, mais de 800 associados e uma forte aposta na diversidade de modalidades, o Clube Português de Tiro Prático e de Precisão (CPTPP) tem procurado afirmar-se como um dos principais protagonistas do tiro desportivo em Portugal. Da formação à competição, passando pela captação de novos praticantes e pela criação de uma verdadeira comunidade em torno da modalidade, o Clube mantém uma visão dinâmica e aberta, que procura romper com antigos estereótipos e aproximar o tiro desportivo de públicos cada vez mais diversificados. Em entrevista ao Correio da Linha, Eduardo Parreira, vogal da Direção do Clube, fala sobre a história e evolução do CPTPP, a importância da formação e da segurança, os desafios da modalidade e os objetivos para o futuro.

O Correio da Linha (CL) – Como apresentaria o clube e aquilo que o distingue dentro do panorama do tiro desportivo em Portugal?

Eduardo Parreira (EP) – O Clube Português de Tiro Prático e de Precisão é um Clube que cumprirá 30 anos de existência em 2027. É o segundo maior clube a nível nacional, com mais de 800 associados, o clube com mais associados praticantes de modalidades como o Tiro Dinâmico ou as diversas variantes do Bench Rest. É também o Clube que mais modalidades foi capaz de trazer e implantar no contexto do tiro desportivo português, sendo essa visão inovadora e dinâmica parte fundamental da identidade do Clube e aquilo que o vem distinguindo desde a sua génese. A isto junta-se uma visão aberta e descomplexada do Tiro Desportivo que era, na época da fundação do Clube, algo não tão comum.

CL – Que visão esteve na origem da criação do Clube?

EP – O Clube nasce em 1997 de uma conjugação de ideias e vontades de diferentes pessoas que acabaram por ser postas em prática muito por iniciativa e pelo esforço do fundador, Augusto Nunes Gomes Condesso, infelizmente já falecido. A ideia fundamental foi de rutura com uma certa cristalização do tiro desportivo, resultante sobretudo de uma noção conservadora do tiro enquanto modalidade circunscrita a grupos e modalidades muito delimitados. Quando o panorama internacional era já de forte implementação de novas modalidades – o tiro dinâmico, o tiro com armas históricas e outras – por cá insistia-se única e exclusivamente em modalidades no essencial inalteradas há largas décadas – o que por si só não é negativo – não permitindo, contudo, o surgimento e afirmação de novas modalidades. A tudo isto e de forma interrelacionada juntava-se um quadro legal por um lado restritivo e por outro com zonas cinzentas e indefinidas. 

UM CLUBE EM CRESCIMENTO

CL – Como evoluiu o projeto ao longo destes anos e qual foi o papel do CPTPP nessa transformação?

EP – Para a mudança de paradigma, o CPTPP deu um contributo inestimável, sendo sem dúvida nenhuma um ator essencial na implementação e expansão em Portugal de modalidades como o International Pratical Shooting Confederation (IPSC), o Muzzle Loaders Associations International Committee (MLAIC), o BenchRest e em anos mais recentes o Precision Rifle (PRF) ou ainda o F-Class. 

Ao longo destes anos o Clube passou, naturalmente, por diferentes fases. De um Clube pequeno em dimensão, mas sempre muito ativo, para um clube que se expandiu e que cresceu exponencialmente em número de associados, presença em provas e em estrutura. Pelo caminho o Clube não só não perdeu a sua identidade como a reforçou, procurando torná-la visível em toda e em cada atividade desenvolvida. A história do Clube é um elemento muito presente e que tem orientado o percurso que nos trouxe até aqui e que nos permite olhar para o futuro com vontade de fazer mais e melhor.

CL – Uma das áreas que o clube tem vindo a desenvolver é a Escola de Tiro. Em que consiste este projeto?

EP – O Tiro Desportivo é uma modalidade muito particular na medida em que se pratica com armas. Sejam elas de ar comprimido ou de fogo, as armas são plataformas concebidas para lançar projéteis capazes de atingir alvos a distâncias significativas. Historicamente as armas foram usadas na caça, na guerra, no lazer e como tantas outras modalidades, o tiro desportivo foi buscar essa utilização quotidiana, enquadrando-a, atribuindo-lhe um conjunto de regras e daí desenvolvendo e retirando uma dimensão lúdica e desportiva. Naturalmente que como qualquer prática desportiva a formação é fundamental, mas no caso do tiro desportivo colocam-se questões essenciais como o enquadramento legal da prática e a segurança. Estes são os dois pilares que todo e qualquer novo associado do Clube recebe à chegada através de formação especifica, teórica e prática. Ou seja, cada novo atirador desportivo tem de ser um praticante consciente e seguro, sendo isso algo de que não abdicamos e que promovemos até à exaustão, o que depois se traduz numa prática no essencial livre de percalços ou incidentes.

Depois há a formação mais orientada e focada em modalidades concretas, para as quais promovemos aulas individuais e de grupo e também cursos, aqui já com a orientação para o desenvolvimento e aprimoramento técnico dos praticantes. A ideia é dar as bases e o conhecimento técnico para que cada praticante possa depois desenvolver autonomamente o seu potencial e atingir os objetivos desportivos a que se propõe. 

CL – O que procuram transmitir a quem chega ao Clube pela primeira vez, para além da componente técnica? 

EP – A quem chega ao Clube procuramos sobretudo clarificar e desmistificar o que fazemos e em que consiste o Tiro Desportivo. Ou seja, para além da componente técnica gostamos de pensar que o tiro pode e deve desenvolver competências pessoais e humanas. Desde logo separando claramente a prática desportiva de outras utilizações das armas na vida quotidiana, da caça, da defesa, do colecionismo. São realidades e dimensões muito distintas e que do ponto de vista legal estão claramente delimitadas. Depois transmitir a ideia fundamental de que o tiro desportivo é uma modalidade das poucas em que é possível a prática dos 10 aos 100 anos de idade, em que é possível desenvolver o foco, a concentração e o autoconhecimento, a motricidade fina desenvolver conhecimentos de história, mecânica e sobretudo disfrutar de uma prática desportiva que privilegia a calma e o relaxamento. Nesse aspeto o Tiro Desportivo é, sem dúvida nenhuma, único.

FORMAÇÃO E SEGURANÇA

CL – Que importância têm a segurança e a formação na prática desta modalidade?

EP – Estes são os pilares fundamentais da prática da modalidade. São também as áreas em que os novos atiradores desportivos são testados para serem aceites pelas Federações que tutelam as modalidades do Tiro Desportivo, a Federação Portuguesa de Tiro e a Federação Portuguesa de Tiro com Armas de Caça. Portanto são dimensões absolutamente fundamentais para a prática da modalidade o que na verdade muito nos apraz. O tiro desportivo é uma modalidade muito segura, muito regulada e escrutinada e é assim que deve ser.

CL – Que modalidades de tiro podem ser praticadas no CPTPP? Como ajudam os praticantes a descobrir o que se adequa melhor a si?

EP – No CPTPP estamos abertos a todas as modalidades e, portanto, um associado ou associada do CPTPP pode praticar qualquer modalidade de tiro para a qual esteja desportivamente habilitado. É preciso perceber que o sistema português é um sistema progressivo, em que se começa com modalidades menos exigentes tecnicamente e com armas de potencia mais reduzida e se vai evoluindo ao longo do tempo e prestando provas e fazendo formação especifica até se poder praticar modalidades mais exigentes. É disso exemplo o tiro dinâmico, o IPSC, em que só após 4 anos de prática regular e a frequência de um curso específico com aprovação em exame, pode a modalidade ser praticada. Posto isto, o Clube incentiva e disponibiliza formação especifica para a prática destas modalidades – o MLAIC, o tiro com armas históricas é outro exemplo. Cada novo praticante é desde cedo – logo na formação inicial – incentivado e desafiado a pensar e experimentar as várias possibilidades de prática. Isso faz-se disponibilizando diferentes tipos de armas na fase de formação prática e passando em revista as diversas modalidades existentes, os prós e contras de cada uma delas, conjugando tudo com a vontade manifesta de cada individuo. Não poucas vezes as pessoas chegam com uma ideia e saem da formação inicial com outra.

CL – Qual o perfil de quem pratica a modalidade? 

EP – O perfil que gostaríamos de ter a praticar a modalidade seriam muitos jovens. Praticantes do sexo feminino em número significativo é algo que também gostaríamos de ver crescer. É com satisfação que vemos cada vez mais mulheres a praticar a modalidade, até porque o estereótipo de que o tiro e as armas são um exclusivo masculino é algo que importa afastar de uma vez por todas. Os jovens porque é muito mais fácil apropriar técnicas e desenvolver competências numa fase mais jovem da vida. Infelizmente o tiro desportivo é uma modalidade que obriga a algum investimento financeiro o que de certa forma afasta muitos jovens, sobretudo aqueles que não têm qualquer relação familiar com a modalidade. A isto soma-se não poucas vezes a oposição dos pais. 

No universo de mais de 800 praticantes associados do CPTPP, pese embora haja muita diversidade do ponto de vista profissional, da formação académica de base e até de distribuição geográfica pelo país, o universo é essencialmente masculino, com idades predominantemente acima dos 30 anos.

CL – Onde decorrem os treinos e que importância têm estes espaços para o desenvolvimento da atividade?

EP – Na zona da grande Lisboa os treinos decorrem essencialmente na única estrutura existente para o efeito, a Carreira de Tiro do Complexo Desportivo Nacional do Jamor. Trata-se de uma estrutura tutelada pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e da qual se socorrem os Clubes. Além disso, o Clube estabeleceu um protocolo ativo com o Centro de Tropas Comando, o que lhe tem permitido o uso das carreiras de tiro desta unidade militar para o desenvolvimento de treinos e provas. O Clube tem ainda utilizado as carreiras de tiro da Unidade Especial de Polícia da PSP para o mesmo fim. A este nível, é de referir a falta de infraestruturas que permitam alargar a prática da modalidade.

CL – Com que apoios contam para o funcionamento e crescimento do Clube?

EP – O Clube vive essencialmente das quotas pagas pelos seus associados e dos proveitos decorrentes dos eventos desportivos que promove. Pontualmente o Clube já recebeu apoios da Federação Portuguesa de Tiro e também da Câmara Municipal da Amadora, município onde estamos sedeados. 

CL – Em que provas se encontram a participar e quais os futuros eventos?

EP – O Clube tem atletas em praticamente todas as modalidades do circuito competitivo anual. No dia 10 de outubro realizar-se-á o Torneio CPTPP Cacicambra, o maior evento de tiro nacional com armas de produção, que reúne mais de 2 centenas de atletas em prova. Em novembro e se tudo correr como esperamos, desenvolveremos uma prova de uma nova modalidade. Contamos ter nessa altura algo para partilhar e celebrar. 

O FUTURO DA MODALIDADE

CL – Promovem também momentos de convívio entre os associados. Que importância têm estes momentos?

EP – O tiro é uma modalidade essencialmente individual. Um dos desafios é não deixar que se torne numa modalidade individualista. Para isso é preciso criar uma relação afetiva entre os associados e o Clube e isso só é possível com o desenvolvimento de espaços e momentos de partilha. A importância é essa e é fundamental e é também o que nos torna diferentes.

CL – Que resultados gostariam de alcançar nos próximos anos? Há novas modalidades, projetos ou formas de levar o tiro desportivo a um público mais alargado que estejam a ser pensadas?

EP – O tiro desportivo conta em Portugal com cerca de 12000 praticantes, distribuídos pelas duas federações que o tutelam. Não é uma modalidade de massas e dificilmente o será. Mas tem potencial para crescer e o CPTPP pretende ser um ator ativo nesse processo. E isto faz-se com a aposta na captação e formação de novos praticantes. Mas faz-se também com estrutura para os acolher e com uma oferta dinâmica dentro da modalidade. O Clube vive do trabalho voluntário da sua direção e dos seus associados que se disponibilizam para ajudar e participar nas atividades. E, portanto, o caminho que definimos e que gostaríamos de manter para o futuro é este: mais e melhores praticantes, mais e melhor Clube, mais e melhor estrutura. Os resultados, esses, surgem naturalmente quando conseguimos garantir estes três vetores. Portanto para os próximos anos o que desejamos é a consolidação do Clube, o crescimento na estrutura e no número de associados e o crescimento do nosso contributo para o enriquecimento do panorama do tiro desportivo.

CL – Se tivesse de explicar a alguém que nunca experimentou tiro desportivo porque vale a pena conhecer o CPTPP, o que lhe diria?

EP – Diria que experimentar o tiro desportivo no CPTPP é uma experiência de grande abertura e partilha de conhecimento e da paixão que temos pelo tiro. Penso que é isso que nos distingue, essa noção do tiro como algo que é e deve ser divertido, como uma prática que faz bem à mente e também ao corpo, que nos faz crescer e nos torna mais responsáveis, conscientes e focados. Sem a obrigação de ser forçosamente um campeão, mas com o potencial para ser o que se quiser na prática da modalidade. É um Clube que acolhe e acolhe todos por igual, do campeão ao praticante mais lúdico. Portanto o que diria é que experimentem o tiro desportivo. E se assim o quiserem, vale a pena experimentá-lo connosco.

NOTA: Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Autor: Raquel Luís

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