“É preciso não cair na tentação de tornar a serra num jardim demasiado trabalhado”

Quando se fala de Escoteiros a tendência imediata é associarmos isso a uma vida saudável em harmonia com a Natureza, com respeito por uma série de valores e princípios que todos devíamos saber cumprir. Hoje, num Mundo cada vez mais ameaçado por constantes atentados ao Meio Ambiente, o Movimento Escotista tem um papel importante a desempenhar no sentido de sensibilizar e preparar as gerações mais novas para a preservação de um planeta que tomamos de empréstimo para o legar mais tarde às gerações vindouras. O Jornal Correio da Linha contactou o Grupo 93 – Escoteiros de Sintra para analisar os valores que estão na base do Movimento Escotista numa era em que tudo muda rapidamente num Mundo cada vez mais dominado pelas novas tecnologias que tantas vezes afastam os jovens do convívio na Natureza. Pedro Alves, um jovem de 23 anos, Escoteiro-Chefe de Grupo, aceitou o desafio de responder às nossas questões. 

– Actualmente os jovens estão mais sensibilizados para o respeito e preservação da Natureza?

Pedro Alves – Os jovens de hoje têm acesso a informação sobre praticamente todos os assuntos, o problema deles é filtrar o importante. Eles sabem que o ser humano está a afectar o clima de forma irreversível, que não podemos gastar muita água e não podemos poluí-la por causa do impacto disso no ciclo da água, que temos de reciclar o nosso lixo, estão sensibilizados para o problema dos incêndios e para a importância da prevenção, e que não podemos continuar a cortar as nossas árvores porque isso tem um impacto na vida de todos. Eles sabem disto. O problema é que ao mesmo tempo que têm mais acesso a informação também estão mais distantes da Natureza e isso cria uma distância entre o conhecimento e a experiência, ou seja, eles sabem, mas não compreendem. O nosso papel é explicar-lhes a importância da protecção ambiental no meio de uma floresta e não numa sala de aula onde eles apenas conseguem ver árvores num PowerPoint.

– O Escotismo ainda está na moda? Continua a ser uma actividade procurada pelos jovens? Os valores que estiveram na base da constituição dos grupos de escoteiros mantêm-se ou têm sofrido alterações ao longo do tempo? 

PA – Respondendo de uma forma directa à sua primeira pergunta: sem dúvida que sim! A Associação de Escoteiros de Portugal, a mais antiga organização de escoteiros em Portugal, foi fundada em 1913 e o que temos visto desde aí foi um aumento do efectivo dos grupos até aos dias de hoje. Por isso até diria que não só está na moda, como que o movimento escotista está cada vez maior em Portugal. Neste momento existem cerca de 80 mil escoteiros em Portugal.

Em relação aos valores, a resposta é mais ou menos a mesma. As práticas mudam, os jogos, as actividades, as metodologias educativas, a forma de estar com os jovens, os utensílios que usamos, mas os valores que tentamos transmitir são os mesmos: o respeito ao próximo, uma cidadania activa, ser disciplinado, ser alegre e deixar os outros alegres. Procuramos o desenvolvimento dos jovens em todos os sentidos, dar a conhecer a diferença e a abraçá-la, uma consciencialização para com a Natureza e o papel que os jovens devem ter a nível local, nacional e mesmo internacional. Acima de tudo, somos uma instituição de educação não formal, ou seja, baseado no ‘aprender fazendo’, e isso mantém-se.

“OS JOVENS DE HOJE PROCURAM UM ESCAPE À SUA VIDA CITADINA”

– Os jovens de hoje procuram novos apelos por parte do Movimento Escotista? Que novos desafios têm para lançar a jovens muitas vezes pouco habituados a actividades na Natureza?

PA – Qualquer pessoa que trabalhe com jovens, desde os 6/7 anos até aos 20/21 anos, sabe que os desafios que lhes apresentamos têm de ser constantes e sempre em crescendo, procurando aumentar a dificuldade de forma a estes perceberem que conseguem chegar mais longe com trabalho árduo e empenho.

A Natureza é o palco constante das nossas actividades, tanto a aprendizagem da importância do respeito que devemos ter para com ela, como aquilo que podemos retirar da Natureza. Para os jovens que não estão habituados a actividades na Natureza, que cada vez são mais, o desafio é aproximá-los desta e dar a conhecer a sua beleza, por um lado, e a sua utilidade, por outro.

Os jovens de hoje procuram acima de tudo um escape à sua vida citadina, uma forma de estar com outros jovens a desenvolver actividades interessantes e, principalmente, para aprenderem a ser mais independentes. Acima de tudo, procuram uma actividade completa e extremamente desafiante, e é isso que oferecemos.

O nosso trabalho é no fundo, tendo como objectivo passar um conjunto de valores importantes, desafiar os nossos jovens a ir mais longe em todos os campos do seu desenvolvimento, físico, social, intelectual, carácter e espiritual através de um conjunto de actividades divertidas e planeadas com eles, dentro do contexto das várias faixas etárias. 

– Em que medida as novas tecnologias e as redes sociais têm afastado os jovens do Escotismo? Notam esse afastamento ou tem ocorrido uma adaptação dessas realidades ao Movimento Escotista?

PA – Por vezes podemos esquecer-nos que o Movimento Escotista deve funcionar sobre o conceito ´de jovens para jovens’ e por isso a adaptação à sociedade em que vivemos é naturalmente constante. Isso não significa passarmos as actividades agarrados ao telemóvel, mas sim aproveitar o melhor das redes sociais e das novas tecnologias para potenciar as actividades que fazemos.

Na realidade não sinto que as redes sociais tenham afastado os jovens do Escotismo exactamente porque, como se trata de um movimento ‘de jovens para jovens’, nós utilizamos as redes sociais para chegar a mais jovens, mais famílias e publicitar aquilo que fazemos.

“A CÂMARA TEVE UMA POSTURA MUITO AUTORITÁRIA”

Recentemente, em Dezembro, o Grupo 93 foi confrontado com o encerramento preventivo da sua sede, inaugurada em 1984, por motivos de segurança. A forte degradação do edifício que albergou a antiga cadeia comarcãjunto à estação de comboios de Sintra pedia uma intervenção urgente. A possibilidade de terem de abandonar o local para sempre preocupou a direcção do Grupo 93, mas após várias reuniões com representantes do município ficou acordada a permanência da sede no edifício com que tanto se identificam. Um merecido reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pelos Escoteiros de Sintra na formação dos jovens do concelho. Mas nem tudo está resolvido.

– Como está a situação da sede do Grupo 93? As obras já estão a decorrer? Ou estão ainda previstas? 

PA – Inicialmente a Câmara Municipal de Sintra (CMS) teve uma postura muito autoritária para com o grupo com o encerramento repentino da nossa sede e com a forma como estavam a comunicar com o grupo e sobre o grupo. Neste momento, o Exmo. Sr. Presidente voltou um pouco atrás, moderou o discurso, e a comunicação começou a ser mais fluida – muito por causa do impacto mediático e social que este assunto teve.

Estamos neste momento a criar um novo protocolo entre a CMS e o grupo que protege os interesses de ambas as instituições. Assim que houver acordo entre ambas as partes as obras começarão, e assim que as obras terminarem voltamos para a nossa sede, garante o Exmo. Sr Presidente.

– Quanto tempo deverão demorar as obras? Quem vai assumir os custos?

PA – A CMS já nos disse que, como proprietário do edifício, assume os custos e prevê que as obras sejam rápidas, cerca de seis meses. O problema são os procedimentos administrativos que uma obra feita por uma autarquia tem de ter. Sinceramente esperamos que o processo de contratação pública, por exemplo, não se atrase para os nossos jovens poderem voltar à sua casa o mais rápido possível.

– Até lá, onde vai ficar instalada a sede provisória do grupo?

PA – A CMS propôs-nos uma sede alternativa e temporária, mas que tem um problema, não tem capacidade para albergar um grupo da nossa dimensão. Nós temos 120 jovens e muito material e por isso não cabemos em qualquer lado. Estamos a tentar arranjar outro espaço que seja mais adequado para o grupo, mas a CMS não está a facilitar este processo.

– O que está a ser feito no edifício-sede, que melhorias são esperadas?

PA – Nós ficámos um pouco confusos nessa questão. Existe um relatório feito pela Protecção Civil, que esteve na origem do Despejo Administrativo que neste momento impede o grupo de entrar no espaço, mesmo que seja para ir buscar material para as actividades. Este relatório diz que o edifício está em colapso iminente, mas depois não apresenta razões específicas que permitam à nossa equipa técnica de engenheiros perceber o que se passa. Por isso não sabemos o que a CMS vai fazer no edifício, mas esperamos com a conclusão das negociações saber mais sobre esse assunto.

– O que significa este edifício-sede para o Grupo 93? Gostariam de ter a sede instalada em outro local?

PA – Este local tem sido uma segunda casa para os nossos jovens, o local onde eles se podem expressar, onde podem aprender, estar à vontade, que serve como ponto de partida para as suas actividades. E eles sentem-se responsáveis pelo próprio edifício porque é sua responsabilidade mantê-lo.

Os jovens estão divididos em pequenos grupos de oito elementos e cada um dos grupos é responsável por uma parte da sede, criação de mobília, organização, limpeza, manutenção… Isso aproxima-os muito ao espaço. A nossa sede possibilita esta divisão do espaço em pequenas partes que facilita muito este processo de autonomização e responsabilização.

Importa também lembrar que o grupo está no edifício desde os anos 80 do século passado e por isso há muitos anos que tem habitado e conservado este espaço. Sentimos que somos parte da sede e que ela faz parte de nós e abandoná-la seria como ser expulso de nossa casa.

– O contrato de cedência por 50 anos com a Câmara Municipal de Sintra assegura que a sede do Grupo 93 se mantenha neste edifício até 2034. Já foi acordada ou discutida a possibilidade de os Escoteiros se manterem no local para além desta data? 

PA – Neste momento a nossa luta tem sido para ficarmos por agora no edifício e quando falamos de estender o contrato os senhores da Câmara riem-se. Vamos ver como este processo evolui e como é que a relação entre o grupo e a CMS vai evoluindo.

“A SERRA DE SINTRA ESTÁ CADA VEZ MAIS FECHADA E ENTREGUE AOS PRIVADOS”

Com a Serra de Sintra mesmo ali ao lado, a noção de contacto com a Natureza assume uma dimensão particularmente importante para o Grupo 93, que sente essa responsabilidade acrescida. Contudo, não tem sido fácil implementar actividades de voluntariado que permitam aos Escoteiros de Sintra contribuírem mais na preservação do Meio Ambiente que os rodeia.  

– Quais as principais necessidades do grupo?

PA – O grupo é relativamente auto-sustentável e é nesse sentido que tentamos caminhar, como organização sem fins lucrativos. Por mais estranho que pareça, necessitamos principalmente que a Câmara agilize e facilite a organização de actividades de voluntariado e solidariedade, que por vezes são difíceis de organizar com a autarquia devido a impedimentos burocráticos e temporais. Nesse sentido estamos também a assinar um outro protocolo com o Gabinete Técnico Florestal (GTF) para facilitar a organização dessas iniciativas.

– É fácil ser escoteiro em Sintra, um local privilegiado pela Natureza? Têm responsabilidades acrescidas? 

PA – Por um conjunto de decisões políticas que têm sido tomadas nas últimas décadas sentimos que a Serra de Sintra está cada vez mais fechada e entregue aos privados, mas é óbvio que estar em Sintra nos permite estar mais próximo da nossa maravilhosa Serra, característica invejada por muitos outros grupos.

Para nós também é claro que esta proximidade acarreta mais responsabilidade para nós escoteiros, que somos quem mais conhece e caminha na Serra. Nesse sentido, o protocolo com o GTF vai também ser importante. Os escoteiros vão começar a estar integrados no plano de vigilância activa da CMS, como antigamente faziam, e isso aumenta a nossa responsabilidade, mas não nos assusta.

– Falta fazer alguma coisa em Sintra? O que o Grupo 93 gostaria que fosse feito/melhorado? 

PA – Há muitas questões que podiam ser melhoradas na gestão do Parque Natural Sintra-Cascais. No plano ambiental, deveria ser desencorajada ou proibida a plantação de eucaliptos, que como se sabe é uma espécie invasora que compete e ganha com as espécies autóctones da nossa Serra. Neste sentido é necessário ainda haver um trabalho mais persistente no controlo e extinção de plantas invasoras de maneira a ser possível o gradual restauro da flora endémica/autóctone. Para além disso, sentimos que tem de haver algum cuidado com as intervenções feitas devido ao aumento do turismo, para não cairmos na tentação de tornar a Serra de Sintra num jardim demasiado trabalhado. Achamos que a Serra deve ser mantida na sua forma original, com a menor intervenção humana possível.

No mesmo sentido, deveria ser dado mais apoio às iniciativas que existem de corte das várias espécies, onde se incluem os eucaliptos. Para além disso, existem muitos monumentos naturais e mesmo históricos que estão abandonados e em avançado estado de degradação, como o Santuário da Peninha e duas Antas Neolíticas, uma no Monge e outra num sítio que se chama Adrenunes.

No plano social, acho que a autarquia tem de perceber que Sintra não pode ser só para os turistas e que tem de melhorar todos os serviços sociais que presta aos seus munícipes: desde transportes, acessos e trânsito, até dar mais apoio aos canis, lares de idosos e aos nossos bombeiros e polícias.

No plano de juventude, a autarquia está muito atrasada. Sintra é dos concelhos mais jovens do País e mesmo assim não existe apoio nenhum para a Juventude. Nem para as instituições que apoiam e trabalham com os jovens nem para os próprios jovens que cá vivem. É triste falar sobre isto, mas as únicas instituições que a autarquia ajuda são os clubes de futebol, que têm todo o mérito e importância social, mas não podem ser os únicos a ser apoiados.

– Um desejo para 2019?

PA – Só me vem uma coisa à cabeça: voltarmos para a nossa maravilhosa sede ainda neste ano de 2019.

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