Paulo Ossião: “Eu nunca fiz nada para me promover”

Paulo Ossião, considerado por muitos o melhor aguarelista português contemporâneo, regressou à Galeria de Arte do Casino Estoril para mais uma exposição a solo, intitulada ‘Cidade’, que esteve patente ao público entre 16 de Novembro e 8 de Dezembro. Residente em Lisboa, onde nasceu e sempre tem vivido, o artista tem a cidade registada em muitas das suas pinturas, que têm conquistado a preferência do público e a aceitação da crítica, mercê de uma vasta obra distinguida em diversas exposições individuais e colectivas realizadas em Portugal e no estrangeiro.

Como destaca o folheto de apresentação da exposição, o pintor tem retratado Lisboa de forma ímpar, sendo que “as suas aguarelas transmitem, numa linguagem muito própria, a luminosidade de Lisboa, quer no azul do céu e do rio, até ao ocre dos telhados dos bairros alfacinhas ou à fachada dos velhos casarios”. ‘O Correio da Linha’ esteve à conversa com o aguarelista num dos cafés que ladeiam o jardim do Estoril, bem próximo do local onde estiveram patentes as suas obras e onde vai voltar em breve para participar no XXXIV Salão de Outono, a decorrer de 16 de Dezembro a 1 de Fevereiro de 2021.

Jornal ‘O Correio da Linha’ (CL) – A exposição ‘Cidade’ é dedicada a Lisboa, um dos seus temas preferidos. Qual a sua relação com a cidade? 

Paulo Ossião (PO)– A minha relação com Lisboa são as minhas referências. Hoje em dia, quando queremos comprar uma coisa vamos ao centro comercial, mas antes não, íamos à Baixa. Nesta época de Natal, a família toda ia para a Baixa escolher uma roupa qualquer para vestir ou uns sapatos, andávamos dias seguidos a escolher. Portanto, as minhas referências estão na cidade, na sua luz, nos recantos, na intimidade da cidade. Eu gosto muito de Lisboa, que conheço bem, porque vivi muito ali. Trabalhei no Tribunal, fui funcionário judicial durante uns anos. Depois é que me comecei a dedicar à Pintura. Eu até nem sou assim uma pessoa muito louca por pintar Lisboa, as pessoas é que me pediram sempre muito. As pessoas são loucas por Lisboa, adoram Lisboa. Agora, insiro de vez em quando uma figura na cidade, tento fazer isso. 

CL – Nos seus trabalhos existe uma preocupação grande com a luz, com a forma como as sombras jogam com as partes iluminadas. Qual é a hora do dia que prefere para pintar?

PO– Gosto de pintar ao fim do dia, é melhor para a aguarela. Isto falando em termos académicos, porque a gente sabe que ao fim da tarde as sombras são mais prolongadas e há aqueles contrastes maiores de luz e de sombra. E a aguarela vive muito disso, vive muito da luz do branco do papel que se reserva e da sombra. A aguarela é luz e sombra, quanto menos água e barafunda de cores e de desenho tiver, melhor é. Se for só aquele traço de luz e sombra, aí é que é a aguarela pura, que é muito difícil conseguir. Eu ando há uma data de anos a pintar aguarela e estou sempre a descobrir e a aprender. A dificuldade é igual desde quando comecei até agora, estou sempre com a mesma dificuldade. Mas eu também gosto da luz da manhã. Para pintar, a luz da manhã também é espectacular.

CL – A aguarela coloca-lhe muitos problemas?

PO– A aguarela é uma infinidade de soluções, é uma descoberta, é uma pintura muito espontânea. Eu tenho uma ideia, que é fazer isto ou aquilo, mas quando se começa a pintar começam a surgir outras coisas. Existe uma ideia, mas não é aquilo que vai ficar, a aguarela acaba sempre por falar um bocadinho por si. É uma pintura que vive muito dessa espontaneidade, dessa coisa que a gente até diz que é uma pintura quase gestual. É um bocadinho. Não tem nada a ver com abstraccionismo, mas é um bocadinho gestual. 

CL – O que o levou a optar pela aguarela, sendo que se trata de uma pintura tão singular e exigente? Há quem defenda mesmo que é a mais difícil de todas…

PO– Lá está, é a tal coisa das minhas referências de Lisboa. Havia umas livrarias na Rua Nova do Almada, ainda lá há algumas, que tinham sempre umas aguarelinhas dos pintores da época na montra. Eu ficava ali parado a olhar para aquilo e a pensar ‘também hei-de conseguir fazer isto’. E foi assim que eu comecei. Atraía-me muito aquela coisa da transparência da cor da aguarela na simplicidade do papel, aquela sensação de água. A gente pode pintar aguarela e não conseguir dar essa sensação de água, e isso é que é aguarela, conseguir fazer isso. 

Eu também tinha na família pessoas que se dedicavam por hobby à pintura. Não era para expor nem nada, mas a minha mãe pintava imenso. Andou num colégio de freiras. Elas lá tinham muito essa coisa de aprender a desenhar. A minha mãe tinha jeito e fazia muitos óleos. Tenho ainda alguns, mas ela oferecia-os quase todos, dava-os às pessoas que apareciam. 

E tinha ainda um tio que era um indivíduo muito perfeccionista. Aquela coisa do ser perfeccionista, por vezes, em termos de Arte, é um engano quase, mas o perfeccionismo também é necessário e aprendi muito com ele. Agora, Arte é uma coisa diferente. Aquela ideia de nos concentrarmos e fazermos uma coisa não resulta sempre. Mas há momentos, às vezes, em que as coisas resultam. Às vezes, saem-me umas coisas. 

Foto: Paulo Rodrigues

“A AGUARELA É UMA COISA QUE NOS DOMINA”

CL – Digamos que a aguarela assume um pouco o controlo sobre o artista nessas ocasiões…

PO– Exactamente. A aguarela é uma coisa que nos domina, que nós temos imensa dificuldade em dominar, mas permite fazer coisas… Por exemplo, num retrato, é impossível conseguir fazer em óleo aquilo que se faz com uma aguarela. A aguarela dá uma transparência, dá uma sensação de interioridade, de vivência. O óleo é mais pesado, tem uma nobreza diferente. Agora a aguarela tem umas possibilidades especiais. Já ando aqui há uma data de anos, já fiz muita coisa. Nem tudo é bom, mas é sempre uma experiência, são caminhos, temos avanços e retrocessos, é uma procura.

CL – Costuma ter os seus quadros expostos nas paredes da sua casa?

PO– Eu tenho dificuldade em pôr um quadro na parede, porque começo a olhar para aquilo e a achar que não está bem, que tenho de emendar. Os quadros que tenho na parede em casa, tenho pouca coisa, são quadros que eu nunca acabei, porque assim não tenho que ir emendar. Senão nunca estou satisfeito e quem vai a minha casa percebe isso? Os quadros que eu tenho lá são coisas inacabadas e as pessoas gostam imenso, não sei porquê, as pessoas gostam do inacabado. A aguarela tem um bocadinho essa ideia do inacabado. A aguarela tem até um problema, que é quando se trabalha demais, normalmente, dá-se cabo dela, tem que se saber parar no momento certo.

CL – Na sua pintura predominam os azuis. Qual o porquê desta opção? 

PO– Isso dos azuis… Eu até tento às vezes fugir do azul, mas não consigo. Eu comecei por pintar, ao princípio, nas primeiras aguarelinhas, aquelas casinhas do Alentejo com a risquinha azul. É muito difícil conseguir em pintura aquele azul, que é feito com um pigmento que há para aí, não se consegue aquele azul. Depois temos de fazer uma invenção no ambiente para aquilo parecer as casas do Alentejo. E eu comecei muito com essa mania dos azuis nas sombras. Se eu não puser azul, acho que já não fica com sombra. Quer dizer, tenho aquela mania do azul. Não sei o que hei-de fazer, mas às vezes experimento tons quentes, quadros só com tons quentes. E tem-me resultado bem, mas as pessoas depois dizem-me ‘Ah, mas eu gosto dos azuis’ e, olha, vou pintando.

CL – Mas, então, o azul é uma bênção ou uma maldição?

PO– Sei lá… acho que é uma bênção, porque as pessoas gostam de uma maneira geral. Mas às vezes as cores muito frias deixam-me assim um bocado… Eu gosto das cores quentes, mas tenho a mania do azul, o que é que se há-de fazer?! 

CL – Escapando ao azul, quais são as outras cores da sua preferência?

PO– Na minha paleta de aguarelas tenho uma parte em que tenho as cores frias, todas juntas, porque a gente não pode misturar, por exemplo, um azul com amarelo, que fica logo verde. Há cores que se tem de ter esse cuidado. Eu estou sempre mais na parte do azul, rosa, carmim. Depois há aqueles azuis que são absolutamente essenciais, que não se conseguem artificialmente, que temos de comprar mesmo: azul cobalto, azul ultramarino, azul da Prússia, que é o índigo, e que é uma cor um bocado venenosa. É uma tinta venenosa, já tive problemas por causa disso. E também o azul turquesa e o azul cerúleo. São azuis que têm de se comprar porque não se conseguem fazer como misturas. De resto, nunca uso verde, faço o verde sempre com castanho e azul ou com amarelo e azul, e uso o vermelho muito nos telhados das casas, mas nunca uso o vermelho sem misturar com o azul. 

CL – O azul índigo é um bocado venenoso…

PO – Essa cor é feita de umas coisas venenosas. Agora não uso, mas usei durante um tempo nos sprays para os céus. Depois pintava com a aguarela e com o spray. E tive uns problemas, tive umas hemorragias no nariz por causa de usar aquela porcaria do índigo. Ia morrendo, cai na casa-de-banho uma vez a meio da noite. Levantava-me cheio de hemorragias, não parava, e uma vez desmaiei e bati com a cabeça. Acordei a deitar sangue, todo cheio de sangue. Ia morrendo por causa dessa porcaria. 

Foto: Paulo Ossião

CL – Ainda se recorda da primeira aguarela que pintou?

PO– Por acaso, lembro-me. Não era propriamente uma aguarela. Lembro-me de fazer uns estudos e começar com aquela coisa que toda a gente pinta: uma bilha. Eu tinha um professor nos Salesianos do Estoril, que era o padre Manuel, o professor de desenho, que era um indivíduo muito mau. Tínhamos que desenhar uma bilha. Eu nessa altura não estava a pintar nem nada, nem sequer pensava que um dia me ia dedicar a isto. Mas eu lá tinha a minha maneira de pintar a bilha. Eu sei que não lhe agradou e ele disse ‘Olha, este nunca desenhou uma bilha!’ Ele não me gramava. E de manhã, ao fazermos uma formatura, antes de entrar ficávamos em fila, ele tinha uma sineta e batia-nos com o cabo da sineta na cabeça. Depois a sineta desapareceu. Alguém acabou por roubar a sineta…

CL – Quais foram os artistas, nacionais e internacionais, que mais o influenciaram?

PO– Eu sou um bocado influenciado por todos, interesso-me por todos. Nós tivemos uns pintores, uns aguarelistas portugueses, muito bons, um deles foi o Roque Gameiro, figurativo, mas pintava muito bem. E também o Henrique Pousão e o Alberto de Sousa, um dos pintores que eu mais aprecio em aguarela. Mas há aguarelistas espectaculares em todos os países. A gente, se pensar na Inglaterra, pensa no William Turner, mas há coisas que eu gosto muito mais. Somos influenciados por todos. O que é preciso é nós criarmos a nossa maneira de olhar. Agora, a gente pensar ‘não sei o que é que hei-de pintar’, isso é muito mau. Eu tenho é ideias a mais. Tenho coisas para fazer que nunca sou capaz de resolver. Tenho pena de não poder viver muito mais do que nos é permitido. Devia viver 300 anos, porque tenho muitas coisas para fazer. 

“O PÚBLICO FOI O MEU GRANDE PROMOTOR”

CL – O que pensa do facto de ser considerado por muitos o melhor aguarelista português contemporâneo?

PO – Eu não consigo ligar nada a isso. Posso sentir-me bem com isso, mas não penso, não posso pensar muito nisso. Sinceramente, isto é um desafio todos os dias. E até é uma coisa que, se eu começar a pensar muito nisso, vai exigir muito mais de mim. As pessoas dizem… cada um entende da sua maneira. Também há pessoas que não entendem assim. O público foi sempre o meu grande promotor, porque eu vendi os quadros. Quando um artista vende as galerias querem-no, foi assim. Eu nunca fiz nada para me promover, o público é que fez tudo. E depois tive sorte. Houve uma época em que se vendia tudo, estávamos numa época muito boa. Havia para aí imensas galerias. Eu comecei no Casino Estoril com os salões de Outono, também havia o Salão da Primavera, e correu-me sempre bem. 

CL – Entre a Pintura, a Cerâmica, o Desenho e a Escultura, que são as quatro áreas em que tem desenvolvido mais a sua carreira, o que prefere?

PO – Adoro o Desenho, para mim é aquela primeira coisa, é o fácil, é tão bom. Gosto muito de desenhar, pegar em lápis. E às vezes o desenho está tão bem que colocamos aguarela e mais valia estarmos quietos. O desenho às vezes é só o desenho, mas as pessoas gostam imenso de cor. Já expus desenhos, mas não lhes pegam. Sabe que eu também vivo da Pintura, não é?! As pessoas adoram cor, querem cor, portanto eu tenho que entrar na aguarela. A aguarela é mais difícil, quando entramos na cor entramos no sofrimento. Aquilo é um sofrimento. O desenho é o prazer. A cor já é o sofrimento.

CL – E a Escultura?

PO– A Escultura também é muito bom, é um trabalho físico, é o físico a trabalhar. A Escultura ainda me atrai mais do que qualquer das outras coisas. Eu tenho a mania da Escultura, gosto muito de fazer Escultura, mas tive uns problemas de saúde por causa do pó. Fiz esculturas em pedra, quis experimentar e as coisas resultaram bem. Cheguei a expôr.

CL – As suas esculturas giram muito à volta do corpo feminino…

PO– Sim, sempre. Sei lá, a minha procura do belo passa para aí, é isso. Não tenho outra intenção: o belo, o sentir-me bem com as coisas.

CL – Qual o material que mais gosta de trabalhar em Escultura?

PO– Eu adoro trabalhar a pedra, mas a pedra não posso fazer mais por causa do pó, tive uns problemas e tive de ser operado recentemente ao nariz, e ainda não estou bom. Na pedra não mexo mais. A pedra é muito fácil de trabalhar, nunca pensei. Mas ficava tudo branco, até as árvores do meu quintal ficavam todas brancas. Chovia e aquilo não saía. Eu comi imensa pedra e estava cheio de medo de ter a porcaria da silicose, que eu estava a sentir-me esquisito, não respirava bem. Afinal, tinha um pólipo com quatro centímetros e meio que me tapou a narina e que teve de ser extraído.  

CL – Mas continua a fazer Escultura com outros materiais?

PO– Também faço em bronze. Bronze é assim: a gente faz em barro ou em gesso e depois manda fazer em bronze. Eu mando fazer sempre ali ao pé de Madrid, numa oficina de fundição espectacular. Agora, faço menos Escultura, porque é ao ar livre e no Inverno está frio. Tenho lá um conjunto de umas 20 esculturas que fiz em barro. Também faço cerâmica, tenho um forno. Aprendi com o Artur José, que era um ceramista muito conhecido. Ele também expunha no Casino Estoril. Chegou a dar-me materiais, tintas… era uma pessoa bestial.

CL – Próximos trabalhos e desejos para o futuro?

PO– Estou a fazer uma coisa que me pediram para expôr no edifício Embaixada, no Príncipe Real, que é um tríptico com três quadros grandes que são um só. O tema é sobre Lisboa. Tenho também umas 20 esculturas para acabar, mas eu nunca conheci uma coisa como esta, esta porcaria da epidemia. Eu não tenho medo nenhum de morrer nem nada disso, mas isto deu cabo da nossa vida. Está tudo destruído, nós vivemos numa de sobrevivência… a Pintura, a Arte. O mercado da Arte foi dos mais atingidos. Não imaginam como isto está mau, não podia estar pior. Nós sabemos que há épocas melhores e épocas piores. Por exemplo, fazer exposições no Verão não interessava nada, mas havia períodos bons e agora… isto está muito mau. As galerias estão aflitas. Só espero que esta porcaria aconteça como foi com a gripe espanhola, que o vírus de repente teve uma mutação e foi-se embora. É o que vai acontecer, nem acredito que isto das vacinas resolva. Isto vai haver uma terceira vaga, morrem mais pessoas e depois vai-se embora.

Autor: Luís Curado

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